Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Fiódor Dostoiévski, a loucura e O Evangelho segundo Talião

Da esquerda para a direita, o escritor e poeta Flávio Viegas Amoreira, 
este escritor e professor universitário do Subsolo das Memórias e
O Evangelho segundo Talião

Fiódor Dostoiévski, a loucura e
O Evangelho segundo Talião4


Meus amigos,

A convite do poeta e escritor Flávio Viegas Amoreira, http://www.facebook.com/flavio.viegasamoreira.5, curador da série de debates Mente e Arte - Subjetivo infinito desenvolvida no Sesc de Santos, participarei de uma discussão sobre as dimensões da loucura na obra do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). 

Fiódor Dostoiévski, a loucura e O Evangelho segundo Talião
Local: Sesc de Santos – Rua Conselheiro Ribas, 136
Dia e horário: 19 de junho, quarta-feira, das 20h às 22h
Página do evento no facebook:

Dostoiévski tinha uma maneira bastante peculiar de conceber suas personagens. Protagonistas como Raskólnikov (Crime e Castigo, 1866), Príncipe Míchkin (O Idiota, 1869), Aliócha e Ivan Karamázov (Os Irmãos Karamázov, 1879) não eram postas em movimento segundo o princípio de verossimilhança afeito às convenções do realismo oitocentista. As personagens encarnavam suas ideias levando-as às últimas consequências em seus transcursos narrativos. 

Assim, em termos escatológicos, se o intelectual niilista Raskólnikov apreende a morte de Deus e a decrepitude de seu decálogo normativo, é preciso testar os limites do “não matarás” como um destino narrativo: Raskólnikov não apenas concebe o homicídio como uma das possibilidades da modernidade, como propõe a si mesmo o teste para saber se consegue viver segundo a indiferença ética de um Napoleão, o generalíssimo que assiste à morte de milhões de combatentes nos campos de batalha e ainda assim entorpece a culpa e a compaixão com a máxima de que um soldado deve obedecer, lutar – e morrer. Raskólnikov torna-se um duplo homicida e terá que conviver com o fardo de ter ultrapassado a fronteira dos parâmetros civilizatórios – parâmetros que a história foi considerando normais, vale dizer, normativos. 

Em tal ambiência escatológica da obra dostoievskiana, a nítida distinção entre sanidade e loucura torna-se turva e angustiante. Os contínuos entrechoques de personagens acossadas pelas (im)possibilidades de redenção em meio à modernidade que torna contingentes e questionáveis os parâmetros éticos esboroam as convenções mais tradicionais; somos apresentados a homens e mulheres que tentam caminhar entre os escombros de sua psicopatologia cotidiana (re)produzida por uma sociedade doente que funde a normalidade à patologia. 

Ao término do debate entre mim e Flávio Viegas Amoreira, o Sesc de Santos e a Editora nVersos promoverão um novo lançamento do meu primogênito literário, O Evangelho segundo Talião, obra que procura dialogar de forma rente com as premissas dostoievskianas que desenham a loucura como o subsolo do cotidiano. Já a epígrafe de minha primeira obra procura tensionar o assassínio como espetáculo, o patíbulo e a pena de morte voltados para a massa – a pedagogia do poder. 


Que sente o carrasco diante de sua vítima? 

Leiamos:

O condenado sobe ao cadafalso. 
Apupos da multidão sedenta. 
Sob a máscara, o carrasco o espera. 
O condenado deve ajoelhar-se. 
O condenado deve acoplar o pescoço ao talhe de madeira. 
Tão logo o condenado estique os braços trêmulos, 
o machado despencará. 
Logo, já não haverá choro e ranger de dentes. 
Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado:
– Você me perdoa?

Feito o convite, pessoal, Flávio Viegas Amoreira e eu esperamos vocês para o debate dostoievskiano. 

Saudações literárias!

Flávio Ricardo Vassoler
Meu facebook: http://www.facebook.com/flavioricardo.vassoler

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