Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

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segunda-feira, 25 de março de 2013

Entrevista à Rádio Filhos da Terra sobre "O Evangelho segundo Talião"

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Anúncio oficial de lançamento de "O Evangelho segundo Talião"
feito pela editora nVersos a partir da capa do livro que foi desenhada pelo talentoso Bruno Romão,designer da editora, a quem eu também agradeço afetuosamente pelo empenho para além de Talião. 
 
Meus amigos,

Na semana passada, a convite do poeta e radialista Cláudio Correa Monteiro, concedi uma entrevista à Rádio Filhos da Terra, 87,9 FM, do município de Nova Era, Minas Gerais, a respeito do meu livro “O Evangelho segundo Talião”, que será publicado pela Editora nVersos, no dia 20 de abril, às 18h, na livraria Martins Fontes – Av. Paulista, 509.
 
A partir do link abaixo, vocês poderão ler a transcrição da entrevista em questão.
 
Agradeço ao pessoal da Rádio Filhos da Terra e, especialmente, ao poeta e radialista Cláudio Correa Monteiro pelo prolífico debate taliônico.

 
Entrevista à Rádio Filhos da Terra sobre “O Evangelho segundo Talião
São Paulo: Editora nVersos, 2013

 
Qual seria o mote para o título de seu livro?
 
A priori, "O Evangelho segundo Talião" poderia sugerir ao leitor de José Saramago uma suposta relação com "O Evangelho segundo Jesus Cristo". Mas, na verdade, minha obra não procura reconstruir e redefinir uma história evangélica tal e qual o faz Saramago. Como prefaciador do livro, o leitor encontrará um antigo apóstolo de Cristo que a Igreja Católica tornou apócrifo. Um apóstolo historicamente reconhecido não pelo oferecimento da outra face, mas por um beijo que entregou o filho do carpinteiro José aos soldados de Pôncio Pilatos. No prefácio escrito pelo apóstolo em questão, há uma discussão sobre qual seria o gênero literário dos evangelhos. Estaríamos diante da história da vida de Cristo? Mas, ora, não sabemos praticamente nada da vida do Messias até que ele passa a atuar publicamente. E quanto aos sermões? Que dizer do julgamento? Como classificar a crucificação? Os evangelhos, assim, mais parecem uma colcha de retalhos formada por vários gêneros poéticos que  se reúnem sob a perspectiva da Boa Nova. Assim, a primeira parte do título estaria associada ao caráter híbrido do livro. Estaríamos diante de um romance? Seria um livro de contos? E quanto às colagens e ao caráter ensaístico de alguns textos? Talvez devêssemos pensar que o livro se encontra no interstício de tais gêneros.

Por outro lado, a conexão subterrânea das várias estórias e histórias talvez resida justamente nas metamorfoses de Talião. A Lei de Talião, princípio estruturado pelo antiquíssimo Código de Hamurabi – "olho por olho, dente por dente" –, funda-se sobre uma noção de reciprocidade entre os crimes e os castigos, de modo que o carrasco não seja mais torpe do que o criminoso. O espectro taliônico rasga as mais diversas narrativas e procura sondar as (im)possibilidades de perdão diante do ímpeto de vingança que tende a constituir aquilo que poderíamos chamar de nossa "segunda natureza". Assim, a tortura em nossa recente história republicana; um filho que acompanha o naufrágio do pai por conta de uma doença terminal; uma moça achincalhada pelos colegas de faculdade por conta de um microvestido; um serial killer que mata dezenas de mulheres e ainda recebe milhares de cartas de amor de fãs incondicionais durante seu primeiro mês na prisão: ao caminhar entre os escombros de nossa sociedade, que torna contíguas a infração e a norma, a sanidade e a loucura, "O Evangelho segundo Talião" procura narrar tais tensões e contradições através das frestas que o cotidiano de Utópolis, São Paulo, Moscou, Varsóvia, Cracóvia e Auschwitz nos vai propiciando.

 
No livro, você menciona a personagem Mephisto. Seria uma homenagem ao escritor Klaus Mann?
 
Gosto bastante dessas perguntas que, em seu cerne, já contêm indícios dos modos pelos quais o leitor vai se apropriando do texto. E digo isso porque, apesar de eu ser o autor de “O Evangelho segundo Talião”, o texto não mais me pertence como um todo. É bem verdade que há camadas e mais camadas de significação, galerias labirínticas para cujas portas o autor tende a deter chaves privilegiadas. Mas isso não significa que elas sejam as únicas. Karl Marx costumava dizer que a formulação de uma pergunta já contém a sua resposta. Assim, como escritor, eu fico tentando resgatar os fios narrativos etéreis que o levaram de Talião à obra do filho de Thomas Mann. Por sinal, gosto tanto do livro de Klaus Mann, Mefisto, quanto do filme Mephisto, dirigido por István Szabó: ambos dialogam de modo rente com a história de um ator que passa a interpretar a personagem de Goethe em meio à Alemanha nazista.
No caso do meu livro, no entanto, Mephisto é mencionado no prefácio da obra escrito pelo apóstolo apócrifo que mencionei há pouco. Trata-se de um obscuro editor que, munido de seus contatos cardeais, procura viabilizar a publicação do evangelho do outrora amigo de Cristo.
De qualquer forma, sempre que mostro os originais a meus amigos, as interpretações múltiplas e, muitas vezes, conflitantes se sucedem. O livro, devo dizer, estimula tais apropriações contraditórias, pois dialoga com uma série de referências para constituir suas narrativas. Talvez um aforismo de Oscar Wilde possa resolver de modo irresoluto os diálogos e filiações de Talião: “Quando os críticos discordam entre si, o artista concorda consigo mesmo”.
 
“Pulp Fiction”, filme dirigido por Quentin Tarantino, dá o nome para um de seus capítulos. Qual seria a relação de “O Evangelho segundo Talião” com o filme em questão?
 
O livro está dividido em seis partes – “A paz entre os escombros”, “Pulp Fiction”, “La petite mort”, “Nada de novo no front”, “Confesso que sobrevivi” e “Se queres paz, prepara-te para a guerra” –, uma das quais tem o nome do belo filme de Quentin Tarantino. Gosto de Tarantino, sim, e “Pulp Fiction”, ao lado de “Bastardos Inglórios”, era minha obra favorita, até que o diretor lançou seu ultimo filme, “Django Livre”, sobre o qual escrevi recentemente um ensaio para o portal Carta Maior: “Django Livre, Django Siegfried e Django Obama: metamorfoses liberais de Tarantino”.
Eis o link para o texto:
“Pulp Fiction” recorre a uma série de colagens de gêneros cinematográficos para constituir sua narrativa. Tal procedimento artístico dialoga com o processo híbrido de constituição dos evangelhos canônicos e, também, do evangelho segundo Talião. Ademais, a expressão pulp fiction vincula-se a um tipo de estória que poderia ser classificado como gênero B, como narrativas de qualidade supostamente inferior. Sem tentar encaminhar totalmente o processo de leitura dos ouvintes, eu diria que “Pulp Fiction”, a segunda parte do livro que aparece logo após as narrativas que formam “A paz entre os escombros”, tem um tom bastante diverso. As primeiras narrativas taliônicas poderiam ser tidas como estórias mais propriamente literárias no sentido que geralmente associamos a tal termo. “Pulp Fiction”, no entanto, nos apresenta uma série de colagens que, em contraste com as estórias anteriores, convocam o leitor para uma efetiva interpretação tanto sobre a quebra de linearidade do livro quanto sobre o sentido da montagem de tais estórias. Por que elas aparecem ali? Após ler uma estória em que um moribundo com câncer terminal reflete sobre sua (não-)vida em diálogo com questões últimas insufladas pelo cineasta sueco Ingmar Bergman, o que quer dizer a aparição de uma reportagem jornalística que “narra” as desventuras de uma estudante de jornalismo que foi achincalhada pelos colegas de classe após ter aparecido na faculdade com um microvestido vermelho? Eis o que o leitor talvez venha a perguntar e a se perguntar; eis o que este autor ainda pergunta e se pergunta.
 
Ainda no capítulo “Pulp Fiction”, notei que você usou algumas fábulas. De que maneira esse outro gênero faz parte do hibridismo que você mencionou?
 
Você se refere à “Pequena Fábula”, de Franz Kafka, que é o mote para o texto “O processo da metamorfose”.
Gosto bastante de fábulas, do grego Esopo a esta belíssima contribuição de Kafka, que de “pequena” só tem o nome e a extensão, porque rios de tinta já fluíram para tentar buscar o sentido da estória que vai encalacrando um ratinho em meio a um labirinto até que um gato muito solícito lhe propõe uma saída mais imediata e menos contraditória: o corredor polonês de sua garganta que levará o roedor até o spa do estômago felino.
As fábulas sempre me pareceram instigantes justamente por serem polissêmicas, isto é, por comportarem uma série de significados contraditórios que desafiam o leitor a pensar sobre os possíveis sentidos até que as múltiplas interpretações, em determinado momento, o façam refletir sobre se não haveria algo subliminar, um princípio de estruturação que faria com que as polaridades contraditórias continuassem a se chocar sem solução. Algo como o  raio-x da fábula, sua nervura.
Por coincidência (ou não), escrevi um ensaio há algumas semanas para o portal Carta Maior justamente sobre a “Pequena Fábula”: “Franz Kafka e a segunda-feira”.
Eis o link para o texto:
Os ouvintes poderão perceber que determinados temas obsedam este escritor.
 
Você também utilizou algumas reportagens jornalísticas e lançou mão de informações da Wikipedia. Por quê?
 
Há pouco, mencionei as colagens de notícias de jornais e sites. E agora você faz menção às colagens de trechos da Wikipedia. Vou tentar responder a essa pergunta com uma referência ao escritor russo Fiódor Dostoiévski. Em sua primeira viagem à Europa Ocidental, mais particularmente a Londres, Dostoiévski tenta encontrar um certo fio condutor que conectaria a balbúrdia da capital inglesa daqueles mil oitocentos e sessenta e daria um sentido de coesão àquela sociedade em que o choque entre capitalistas e proletários se fazia cada vez mais forte. Assim, em meio às ruas em que o proletariado se esfalfava com as prostitutas tuberculosas, Dostoiévski pensou em uma maxima que, a meu ver, ainda hoje possui grande atualidade: “essa grande desordem que, na verdade, constitui a ordem burguesa no mais alto grau”.
Se utilizarmos as premissas do pulp fiction de Tarantino, veremos que a miríade de notícias novas e requentadas que a grande mídia expõe por todos os lados e todos os poros contém um sentido subliminar que, em grande medida, fica oculto pelo fato de as reportagens muitas vezes não desenvolverem análises. Se, neste momento, tentarmos observar o real mediados pelo olhar de Dostoiévski, talvez cheguemos a um princípio subterrâneo de ordem – e progresso ou regresso? – para as informações supostamente esparsas que nos alcançam a cada momento.
 
Fiódor Dostoiévski o inspirou a escrever este livro?
 
Fiódor Dostoiévski é, sem dúvida, uma grande influência.
Quando ainda estava cursando Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, me deparei em uma livraria do prédio do curso de História e Geografia com os cinco volumes da biografia de Dostoiévski escritos pelo crítico norte-americano recém-falecido Joseph Frank. Uma biografia bastante peculiar: trata-se não de uma narrativa que apenas procura acompanhar os eventos e imbróglios da vida de Dostoiévski. Frank reconstruiu o campo literário russo em seu estreito diálogo com o Ocidente. Assim, ficamos conhecendo as influências literárias, filosóficas e políticas que forjaram o olhar artístico tanto de Dostoiévski quanto de seus pares. Os tomos de Frank, na verdade, ensejam uma verdadeira formação literária. Fui lendo as obras de Dostoiévski e os livros que o influenciaram a partir da arqueologia escrita pelo crítico. Em determinado momento, resolvi estudar o escritor russo institucionalmente, e tudo começou com uma iniciação científica.
Em 2008, quando dei início à minha pesquisa de mestrado, me dei conta de que precisava continuar a estudar a língua russa in loco para melhor entender Dostoiévski e sua atmosfera. Morei um ano em Moscou, entre 2008 e 2009, e lá permaneci junto à Universidade Russa da Amizade dos Povos. Na capital russa, cidade natal de Dostoiévski, fui à casa em que o escritor viveu até o fim da adolescência – a casa contígua ao hospital para tuberculosos em que o pai médico trabalhava. Transitei por cada um dos quartos da pequena casa – bastante acanhada para os padrões nobres da época – e percorri o jardim em que o escritor brincava com o irmão Andrei. Também visitei a cidade que consagrou Dostoiévski, São Petersburgo, a capital literária da Rússia. Lá, o escritor viveu em vários apartamentos, sempre tentando driblar os credores que o acossavam continuamente. Até que, ao final da vida, se instalou em uma casa confortável que hoje se tornou o Museu Dostoiévski. (Em minha página, o “Subsolo das Memórias”, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, há uma “Fotobiografia de Dostoiévski” que compus durante a estada russa. Eis o link: http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2009/11/fotobiografia-de-dostoievski.html.) Atualmente, continuo a estudar Dostoiévski em minha pesquisa de doutorado junto ao Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Letras da USP.
Além de o escritor russo ser um tema de estudos que caminha comigo como uma sombra, sua literatura modificou profundamente minha forma de apreender as relações que nos cercam e acossam. Dostoiévski tinha uma maneira muito peculiar de narrar os conflitos de suas personagens. Muitas vezes, como a crítica tende a reiterar, suas personagens incorporavam ideias de modo a que não houvesse distinção entre as reflexões que se estabeleciam e os fatos por elas vivenciados. Mas as personagens-ideias não ficavam simplesmente ruminando as possibilidades de desdobramentos práticos de determinada ideologia. Dostoiévski concebia situações limítrofes que faziam com que as personagens vivenciassem as ideias escatologicamente, isto é, o autor, munido de grande criatividade, conseguia imaginar quais seriam os desdobramentos lógico-práticos de determinada ideia para então narrar as ações tétricas de suas personagens. Assim, o protagonista de “Crime e Castigo”, o ex-estudante de Direito Ródion Raskólnikov, quer saber se está à altura da indiferença moral própria a um Napoleão. Raskólnikov quer se transformar em um grande legislador social, um agente de profundas transformações. Para tanto, primeiro precisa deixar de vender o almoço para poder jantar. Há uma usurária para quem Raskólnikov empenha alguns objetos – o “piolho” que o explora. O ex-estudante quer saber se consegue se sair como Napoleão, que abandonou centenas de milhares de soldados nos campos de batalha russos sem sequer sentir remorso. Bastava uma piada, um trocadilho, para que Napoleão se recompusesse. Dostoiévski, então, faz Raskólnikov empunhar uma machadinha para abrir a têmpora da usurária – e de sua irmã que, infelizmente, aparece na hora e no lugar errados. Como será que a personagem viverá com o duplo homicídio a lhe rondar? Conseguirá Raskólnikov suplantar de vez o “não matarás”? Eis o sentido da trama de “Crime e Castigo”, uma experiência moral e amoral que dialoga com as desconstruções éticas de uma época que eleva o capitalismo e sua lógica de competição irrestrita às últimas consequências.
Se partirmos dos parâmetros legados por Dostoiévski, teremos uma lógica de percepção interessantíssima para narrarmos os conflitos da atualidade. Será que o olhar do escritor russo ainda consegue dar conta da problemática de nossa sociedade? Quais seriam as transformações que Raskólnikov sofreria? Quem ou o que poderia reencarná-lo? Dostoiévski dá o tom para uma série de reflexões artísticas que, a meu ver, podem ser potencializadas com sua escatologia criativa. Como o escritor levava às últimas consequências os desdobramentos lógico-práticos de uma ideia, era preciso pensar em movimento, era preciso projetar os sentidos vindouros da história. Quiçá nossa época seja ainda mais dostoievskiana que o século XIX.
 
Você pretende dar continuidade a “O Evangelho segundo Talião”?
 
Como o leitor poderá perceber, “O Evangelho segundo Talião” é uma obra aberta, que mais problematiza os conflitos e lança perguntas do que as resolve. (Saber se a arte pode conciliar conflitos que ainda estão irresolutos é uma velha e polêmica questão.) Assim, a lógica taliônica de questionamentos provavelmente me acompanhará em meus próximos livros.
Meu segundo livro, uma obra de aforismos, procurará articular diversos temas taliônicos. Isso me traz à memória uma colocação de Albert Camus, para quem o escritor fica escandindo, ruminando, aprofundando e reiterando uma mesma miríade de temas ao longo de sua obra.
 
Seu livro é composto por várias histórias. Você as compôs e organizou linearmente ou foi reunindo seus contos através dos anos?
 
         Uma das partes do livro, “Confesso que sobrevivi”, é formada por narrativas escritas durante o ano em que vivi na Rússia. Assim, é possível dizer que “O Evangelho segundo Talião” começou a ser escrito por lá. Desde então, fui criando as estórias e sempre pensava em um sentido global que as reunisse e aglutinasse. Você menciona o termo “contos” para classificar as narrativas. Talvez ele seja propício para algumas delas, mas outras teriam que sofrer um grande malabarismo para serem assim consideradas. Dessa forma, a constituição híbrida do livro, a meu ver, convoca o leitor a mais uma atividade interpretativa. Qual seria o sentido arquitetônico da obra? Haveria de fato um sentido? O fato de a obra se constituir de forma aberta não implicaria, por si só, uma pluralidade de sentidos?
 
“O Evangelho segundo Talião” poderá virar um romance algum dia?
 
         Se pensarmos na forma “romance” como uma estrutura narrativa com começo, meio e fim que se desdobra pela superposição de eventos a partir de uma linha mestra, creio que não. Agora, se levarmos em consideração que o século XX – e mesmo o século XIX dostoievskiano – em grande medida implodiu a forma “romance” e a tornou bastante plástica e híbrida, talvez possamos pensar no evangelho taliônico como um antirromance ou um não-romance. De qualquer modo, fica a questão sobre se haveria um sentido subliminar que estruturasse as narrativas em meio a uma totalidade coesa e/ou estilhaçada.
 
Talião sofreu muita influência de Igmar Bergman?
 
Gosto muito da obra do cineasta sueco Ingmar Bergman. Sua pergunta se refere a algumas referências a Bergman que existem ao longo do meu livro. Bergman é um desses autores que, assim como Dostoiévski, nos fazem (re)configurar reflexões e pontos de vista sobre questões fundamentais que sempre nos obsedam e atormentam. Por sinal, no ano passado, ministrei um curso sobre Bergman (e Dostoiévski) aqui em São Paulo, na Editora Intermeios – Casa de Artes e Livros. “O niilismo da modernidade pelos prismas de Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman” – aqui está o link: http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2012/02/curso-sobre-dostoievski-e-bergman-na.html. Os alunos e este professor procuramos refletir sobre as contribuições dos autores em questão para diagnosticarmos as aporias éticas que a modernidade capitalista traz à tona. Dostoiévski, em um sentido que já foi mencionado nesta entrevista, despontou como um parteiro do mundo sem Deus – “se Deus não existe, tudo é permitido”, a velha máxima atribuída a Ivan Karamázov, personagem maior do romance “Os Irmãos Karamázov”. Bergman, por sua vez, foi analisado como um autor que continua a refletir pelo prisma dostoievskiano em meio ao século XX. Vale frisar que o sueco vivenciou as agruras da Segunda Guerra Mundial, entrou em contato com os horrores de Auschwitz, Hiroshima e dos campos de concentração de Stálin. Aquilo que a genialidade de Dostoiévski entreviu como uma possibilidade, Bergman tocou com as próprias mãos. Nesse sentido, os editores da Intermeios, o poeta Joaquim Antonio Pereira e a professora Cecília Almeida Sales, docente da pós-graduação em Comunicação e semiótica da PUC-SP, sugeriram que compuséssemos um livro com os temas tratados ao longo do curso. O resultado foi a seguinte obra lançada em dezembro do ano passado: “Dostoiévski e Bergman – O niilismo da modernidade”, da qual fui o organizador e para a qual contribuíram com ensaios e artigos este professor e os alunos do curso – Ieda Lebenzstayn, Diogo Basei Garcia, Alexandre Buccini, Mariana Wartusch, Talita Mochiute Cruz, Denis Henrique Cabrerizo, Andreia Rocha Vasconcellos e Pedro Max Schwarz. Todos os detalhes sobre o livro e os autores em questão podem ser encontrados a partir do seguinte link: http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2012/12/lancamento-do-livro-dostoievski-e.html.
 
Qual a origem das “Memórias do Bunker”?
 
“Memórias do Bunker” é o título da primeira narrativa do livro, estória que aparece logo após o prefácio do apóstolo tornado apócrifo pela Igreja. O bunker me parece uma metáfora efetiva para boa das narrativas taliônicas. O bunker, um abrigo subterrâneo e encouraçado que via de regra resguarda tanto os comandos militares quanto a população civil. Onde estaria nosso bunker atualmente? Ou pior: estaríamos vivendo fora de um bunker ou nossa sociedade fez com que o princípio de viligância e punição fosse introjetado como o mecanismo que estrutura a própria imaginação? “Onde está o algoz?” – pergunta a personagem da narrativa “Memórias do Bunker”, personagem que foi torturada no bunker que ficava sob a Estação da Luz durante a ditatura militar, o bunker do DOPS, o Departamento de Ordem e Progresso Social. A personagem não apenas foi torturada, como assistiu ao estupro sistemático e contumaz de sua esposa. Que memória ela nos poderá legar? As cicatrizes das memórias do bunker.
 
No final do livro, o leitor encontra personagens da mitologia grega. Os deuses pagãos também trazem boas novas a Talião?
 
Você se refere sobretudo à deusa da justiça, Palas Atena, a deusa que a história humana, de forma coerente e cínica, coage a usar uma venda sobre os olhos – olhos amordaçados. Palas Atena é uma importante eminência parda na narrativa mais longa do livro, cujo título ressoa o nome da obra como um todo: “O Evangelho segundo Talião”. No parlatório de uma prisão – local que, segundo nossa progressista e ignorada Constituição Federal, é inviolável, isto é, não pode (em teoria) sofrer a ingerência das forças policiais –, duas personagens participam de um tenso diálogo: o Dr. Hugo Lumina, consagrado advogado criminalista do escritório “Lumina & Oscurero Advogados Associados”, e o réu Walter Dortlicht, assassino confesso de 19 pessoas – 20, ele diria, pois sua última vítima foi ele mesmo ao se entregar para a polícia. O Dr. Hugo Lumina, advogado progressista que considera a Lei de Talião um primeiro avanço nos princípios da punibilidade pública, precisa entrar em contato com os meandros das estórias de Dortlicht para que a narrativa da defesa do réu possa convencer os jurados. Dortlicht, por sua vez, não pretende apenas descrever como matou suas vítimas; o assassino, um intelectual niilista, quer esboçar para o Dr. Lumina toda uma teoria que o configura como um agente da história: ao matar pessoas cujas vidas, via de regra, já se encontravam esvaziadas de sentido, Walter considera que volta a projetar sentido para os parentes das vítimas, que então passarão a caçá-lo e terão diante de si o ímpeto da vingança taliônica como um novo deus. Para o assassino intelectual Walter Dortlicht, a história não faz sentido algum, a não ser por meio dos frágeis elos de vingança que conectam um período ao outro. “O homem não apenas busca alguém diante de quem se ajoelhar; o homem busca alguém a quem culpar”. Walter toma para si tal tarefa, “que todos me culpem – eis o assassino, ecce homo, eis o homem! –, e então suas vidas vazias passarão a ter um sentido”. Mas o que teria feito Walter se entregar à polícia? Estaria o serial killer arrependido? Teria ele medo dos requintes de crueldade de Talião? Walter diz que duas outras personagens teriam reconfigurado sua percepção de mundo: Dona Arsênia Serraglia Smiertova e Diógenes de Sínope, a segunda personagem grega de relevância na estória.
Dona Arsênia é uma poética dona de uma antiga escola de datilografia à iminência de fechar as portas diante das invasões bárbaras dos computadores. A solitária Dona Arsênia recita Pablo Neruda aos alunos e não tem ninguém para vingá-la. Walter recebe dela um carinho que lhe parece incompreensível em meio à guerra de todos contra todos que sua teoria sobre a história só faz hastear como a bandeira de seus assassinatos. Quando Dona Arsênia sucumbe como a última vítima, Dortlicht começa a sentir vertigens – “quem virá me caçar agora que Dona Arsênia não mais respira? Acabo de me tornar um reles assassino, não haverá mais vendeta taliônica se ninguém se dispuser a vingá-la”. Ao descer sem mais do apartamento de Dona Arsênia situado na Avenida São João, 2044, Walter se depara com o mendigo Diógenes de Sínope sob o Minhocão, sua morada sem paredes e repleta de fuligens. Diógenes, nome que Walter lhe dá, como que pede a Dortlicht que o mate – Walter havia explodido o cãozinho de Diógenes com um tiro à queima-roupa e, agora, era Diógenes que já não tinha motivos para viver sem o amigo animal. Não é a arma de Walter que fica apontada contra a cabeça de Diógenes; o mendigo é quem engatilha a testa contra o trabuco de Walter. “Me mata agora, me mata; me mata agora, me mata”.
Se a morte de Dona Arsênia já parecera vã para nosso assassino intelectual, que dizer de um mendigo altivo que se torna um potencial assassino ao exigir o próprio assassinato? Quais serão os desdobramentos de tais desatinos para Walter Dortlicht? Como fica o edifício de sua tétrica teoria sobre a história após o encontro com a poética Dona Arsênia e o abnegado Diógenes de Sínope? Será que a venda sobre os olhos de Palas Atena toma novas conformações menos cínicas e mais trágicas? Eis algumas perguntas que as estórias deste escritor, que agora também se transforma em leitor, passam a reverberar.
Por fim, Talião convoca o Dr. Hugo Lumina, Walter Dortlicht, a família desmembrada e torturada pelos algozes do DOPS, Fiódor Dostoiévski, Ingmar Bergman, Franz Kafka, Quentin Tarantino e os ouvintes para uma reflexão sobre um aforismo que diversas personagens ressoam ao longo do livro.
 
Todo homem deve ter um lugar para onde possa voltar. Todo homem deve sair do calabouço – os despojos precisam ser enterrados. Por séculos e séculos, amém. Nem todo calabouço consegue sair do homem. Todo homem deve ter um lugar contra o qual se possa voltar.
 
         Conseguirá a história desconstruir a lógica taliônica? Walter Dortlicht sentencia que não, mas ainda assim acaba se entregando para a polícia. Por quê? Onde está o lugar para o qual todo homem deve voltar? Eis o mote de “O Evangelho segundo Talião”.
 
 
Breve biografia do autor:
 
Flávio Ricardo Vassoler tem 31 anos.
Após se decepcionar com o Direito sob as pomposas arcadas do Largo de São Francisco, Flávio Ricardo se transferiu para a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP para estudar Ciências Sociais, curso que concluiu em 2007. No ano seguinte, tendo iniciado sua pesquisa de mestrado sobre Fiódor Dostoiévski junto ao Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH-USP, Flávio foi viver em Moscou para concretizar o aprendizado da língua que Dostoiévski legou a Stálin. 
Em meados de 2010, obteve o título de mestre em Teoria Literária e continuou a escavar o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.
Desde sua volta da estada russa em meados de 2009, passou a ministrar cursos e palestras sobre literatura e cinema em instituições como a Casa das Rosas, o Museu Brasileiro da Escultura e a Casa do Saber. 
Atualmente, é colunista de Arte e Cultura do portal Carta Maior e continua a estudar Fiódor Dostoiévski sob o prisma da Teoria Crítica em sua pesquisa de doutorado junto à FFLCH-USP.


Um comentário:

  1. Parabéns,Professor, Flávio Ricardo Vassoler. Essa entrevista deixa o leitor morrendo de fome e alarga todo o apetite.

    Abraço

    Lourenço

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