Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

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domingo, 15 de abril de 2012

Moscou I

Meus amigos,

Há precisamente 4 anos, este estoriador do Subsolo chegava à cidade natal de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski.

Moscou.

Nesta semana, o Subsolo das Memórias começa a retratar fotograficamente os interstícios do ano que passei na capital russa.

Ora, encontremos sem mais o coração moscovita - a Praça Vermelha, o Kremlin.


Moscou I


A caminho do metrô, me deparo com alguns escombros da URSS


Curioso - e triste: o socialismo não liberou o trabalhador do fardo de seu trabalho
O ensaísta alemão Robert Kurz propôs uma interessante análise sobre o socialismo russo - análise que chega a dar vertigens ao marxismo operário dogmático.
A Rússia teria saltado do feudalismo mais tacanho para um capitalismo de Estado sem a intermediação do período de acumulação primitiva de capitais, interregno histórico que Marx apreendeu do início das grandes navegações ao advento da revolução industrial.
Se formos coerentes com a análise de Kurz, meus amigos, devemos dizer que o Gulag foi a plantation russa; os trens siberianos, o navio negreiro; Stálin, o feitor-mor


Ainda percorreremos o subsolo do metrô moscovita. Por ora, lembremos que Lênin quis socializar a suntuosidade aristocrática sob Moscou.
Palácios populares, mármore à massa
Estação Arbatskaia


Graxa e champagne, meus amigos
No período imediatamente posterior à revolução, alguns intelectuais acompanhavam os trabalhadores nas fábricas. Nos intervalos da produção-para-mais-produção, os intelectuais instruíam os trabalhadores com poesias de Púchkin
Certa vez, os trabalhadores convidaram os intelectuais para apertarem alguns parafusos na linha de produção. Eis que a porca torceu o rabo: decretou-se, pela primeira vez, um ponto facultativo no seio da Madrasta Rússia


À Praça Vermelha!


Biblioteca Lênin
QG moscovita do Subsolo das Memórias


Fiódor sente a nostalgia da Ortodoxia que nada mais tem a dizer à contemporaneidade
(Felizmente, Fiódor era apenas um dos eus de Dostoiévski)


Reflexões sob o punho de Putin - a 300 metros, se tanto, o Kremlin


Fiódor Mikháilovitch Достоевский


Subsolo das Memórias


4 costados literários


Sentinela inusitada de Lênin
(Se considerarmos que o líder bolchevique considerou Dostoiévski um "lixo reacionário" após ler enviesadamente o romance "Os Demônios", não deixa de ser uma grande ironia histórica que Dostoiévski esteja diante da biblioteca em homenagem ao primeiro tzar comunista)


Sincretismo


Rumo ao Kremlin


Paulistanos, pensemos: faria alguma diferença ficar engarrafado em Moscou e espreitar o Kremlin com um soslaio?
"Não, não", diz o paulistano up-to-date. "O odor do Tietê me revigora para a minha tautologia da segunda-feira". (Bom, ao menos o burguês é coerente)


O photoshop publicitário trata de eliminar os vestígios de classe sobre os quais o belo sempre pisou historicamente


Justaposição


Que seria do estatuário urbano sem a guerra?
Um otimista talvez perguntasse: que seria da história humana sem a guerra?
Na peça "O Idiota", a ser encenada até esta sexta-feira na Oficina Cultural Oswald de Andrade, uma das personagens dostoievskianas faz a seguinte constatação: "Que produziu a Suíça em séculos de neutralidade pacífica? Nada mais que o relógio cuco. Que produziu a Itália sob o punho bélico de César e dos Bórgia? Nada menos que a renascença.
Dizia um antigo adágio romano: "Se queres paz, prepara-te para a guerra".
Logo, se queres o belo...


Em Moscou e nos países satélites do Leste Europeu, Bizâncio ainda se faz presente


Talião mantém acesa a chama da vitória russa na Segunda Guerra Mundial


Não é possível entender a impassibilidade da sentinela, a menos que conheçamos...


... a magnitude do poder que a coage à servidão voluntária


"Segunda Guerra Mundial?", pigarreia Stálin
"Grande Guerra Patriótica 1941-1945"


A águia bicéfala, atavismo tzarista


São Basílio, a catedral que sempre abençoou a servidão feudal e a multiplicação das ogivas soviéticas


Diz o otimista que o estatuário bélico já não faz sentido em um mundo cada vez mais pacificado
(15 de agosto de 2008: Medvedev, o fantoche de Putin, faz o aço militar chover sobre a Geórgia para que o Cáucaso se lembre de seus velhos amigos cossacos.)


Praça Vermelha logo ali, após a gargântula de Cristo


Se você aprumar os ouvidos, auscultará as reminiscências das antigas paradas militares soviéticas


O coração a partir do qual Moscou se espraiou


Alegre e sempre jovial sob a luz do outono, o belo ortodoxo se faz mais heterodoxo se o compararmos à austeridade protestante


Museu de História Russa
(Por lá, legendas SEMPRE em russo; afinal, o estrangeiro apenas precisa sofrer a nossa história, não é mesmo? Que digam nossos irmãos poloneses, húngaros, ucranianos e demais servos satélites)


Imaginemos de que liberdade gozam os historiadores do museu que pesquisam o devir russo sob o punho do Kremlin


Where the rainbow ends


Útero da Madrasta Rússia


Lênin, Stálin, Kruschev, Brejnev e Gorbatchev já se acomodaram nestas bancadas


Concílio Anti-Vaticano I
Pedro e Paulo, em suas versões eslavas, ditam a Paixão da Ortodoxia


Mesmo a luz de inverno não tornará opaco o sorriso


Nas antecâmaras do Kremlin, a austeridade proletária se rende à aristocracia
(Que a propaganda sob o punho do realismo soviético não se anime, não; os trabalhadores ainda precisam carregar muito feno.)


Minha nuca se ajoelha


Agora sabemos de onde os poderosos laicos extraíram as idéias para seus painéis sucessórios


O belo eclesiástico contradiz o Messias - leguemos a César o que é de Deus
(Ou não chegamos a sentir um mundano prazer sensorial ao sorrirmos diante da suntuosidade a ser fruída aqui e agora?)


De dentro da Catedral de São Basílio, o pope ortodoxo abençoa o poder temporal
(Intimamente, o clérigo se permite o seguinte esboço herege: ora, existiria mesmo um poder que não se consubstanciasse pelo devir da ampulheta? Por que deve então o poder espiritual se alojar em meio às muralhas do Kremlin? Para oferecer a outra face, é preciso estar algemado.)


Da Catedral de São Basílio, vemos a Praça Vermelha com a mediação do outono


Outono russo, general inverno no Brasil: -5ºC


Pedro para Paulo: "Será que você precisa mesmo ser tão intransigente com relação ao matrimônio dos futuros clérigos? Será que, em sua onipotência apostólica, você não percebe que virá um Lutero para nos contestar?"
Paulo para Pedro: "Sei que tu és Pedro e tens a pedra de Cristo, mas tens que entender: a História não foi construída senão sobre a pedra da hipocrisia. A liberdade que prescinde da ironia só pode gerar perversão à luz do dia. Sendo assim, que a autonomia se esgueire madrugada adentro".
(Algo pudica - e hipócrita -, a lógica paulina abriu mão de sua onisciência quando anteviu que suas premissas, séculos depois, levariam os empresários de Moema a fundarem, entre quatro paredes, as lucrativas casas de swing.)


Arco-íris altivo


Encouraçado Potemkin


Lá pelos idos de 1962, o American Way of Life, com a mediação de uma bela ilha caribenha sob as barbas de Fidel, esteve às iminências da ruína com apenas um telefonema de Kruschev


A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus?


O Kremlin ordena que o verão resista às investidas outonais


Se pensarmos na localização estratégica do Kremlin, teremos que reverberar - e prolongar - ainda uma vez o aforismo de Yves Lacoste:
"A geografia - e a arquitetura a reboque - serve, antes de mais nada, para fazer a guerra"


Tom sobre tom


Se a hipocrisia sexual das religiões não fosse fundante, o título desta foto sincrética poderia ser "Simbiose". Como a Igreja dificilmente se retrata - mas sempre coage à retratação -, talvez devêssemos nomear tal foto com a castidade mediada do "Contraceptivo"


Dedos em riste para o céu


O bom dia da minha janela


Porque São Paulo não liberta seus habitantes nem que eles estejam a um oceano e a um continente de distância


A gargântula do metrô


Mausoléu de Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lênin
(Até meados de 1956, Ióssif Vissariónovitch Djugachvíli, também conhecido como Stálin, fazia companhia à múmia do camarada Vladimir)


Já que não é possível fotografar o sarcófago...


Ladeando


Uma síntese do socialismo soviético sob o NKVD, a KGB e o ethos do Exército Vermelho
Socialismo de caserna a passo de ganso


Que a beleza permaneça ao menos como um atavismo
(Tanto pior para as cidades cujas burguesias nunca tiveram que competir com os aristocratas)


Apenas o poder não se submete ao crepúsculo


Santíssima Trindade


Daí a calmaria do tzar ao dizer que os acordos de paz serão respeitados


Estória sub-reptícia da Santíssima Trindade: Judas, escolhido pelo próprio Cristo, não pode sair na foto
(Ao fim e ao cabo, Stálin não foi tão original em sua represália a Tróski, não é mesmo?)


Minha nunca se ajoelha


"Papai, quem é aquele mulato barbudinho ali em cima?"


Babel


O vento apátrida, ao tremular a flâmula, revela por quem os sinos dobram


E pensar que Kutúzov e o tzar formularam a terra arrasada contra Napoleão sob o abrigo deste jardim...


Quiçá uma síntese para a História:
Talião aquiesce com a aspiração sempiterna e contingente pelo belo
Afinal, a guerra também precisa de um prelúdio


O Leviatã


"Para os russos, meu filho, esse mulato barbudinho é Jesus Cristo".
(Já adulta, a criança volta a Moscou e, ao se deparar com o Cristo Ortodoxo, entrevê ainda uma vez a ironia histórica de um Messias mestiço em meio a um dos países mais racistas e eugênicos com que já teve contato)


Ao menos a cruz ortodoxa possui um apoio algo anatômico para os pés do crucificado


Meus amigos, aguardem: o Subsolo das Memórias mal pode esperar pelas noites russas


Coming...


... closer


Se o mendigo Adolf Hitler começou sua carreira fazendo aquarelas em Viena, por que Vladimir Putin não pode discursar às franjas do Kremlin secundado por Sancho Pança em sua versão eslava?


Onipresença


Praça Vermelha


Rapunzel


Porque todos os caminhos levam a Roma


O Messias ventríloquo


Justaposição
Da ortodoxia tzarista ao stalinismo ortodoxo


Where the rainbow ends


Até mesmo o sol deve se ajoelhar

8 comentários:

  1. Nossa Flávio, que saudades!!!!!
    Juro que chorei ao relembrar meus passos nos teus.... Saudades! Beijo
    Andréia.

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  2. Тудор Луканоsegunda-feira, 16 abril, 2012

    Привет Флавио:

    Как у тебя дела, мой приятный и умный друг из Бразилии?

    Да, уже прошли 4 года, время летает так быстро, что мы не заметим ничего.

    Aunque parece que muchas cosas no cambian.......En Rusia Mr. Putin de "regreso" al poder, si se puede decir que ha regresado, cuando realmente siempre ha estado en el poder.

    Me ha dado mucho gusto ver las fotos de Moscú.

    Obrigado inteligente amigo brasilero!

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  3. Flávio, bom dia, idéia magnifíca, compartilhar tão rica experiência,que a poucos é prodigaliza
    da. Que bela bagagem! Sente saudades?Parabéns!!
    Abs. Ralph

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  4. Me chamo Carlos, sou do 2o A de Direito, Noturno, Unicid…

    Caraca, que fotos espetaculares...

    Estive em Cusco em dezembro/2004...

    Mas fiz a trip tipo mochilão, toda térrea...

    Parti de SP/Corumba/Fronteira/Trem da morte/Sta Cruz/La Paz/Puno/Cusco... Depois tudo de volta...

    Foram 4 dias de São Paulo a Cusco, pois passei uma noite em Sta Cruz...

    Além do que o Trem ter descarrilado duas vezes, foi um inferno até chegar em Sta Cruz...

    De Cusco a melhor parte, claro, pois passei 14 dias, considerando os 5 trilhando pra Machu Picchu...

    Ainda tenho algumas fotos da trilha...

    Mas as melhores fotos são aquelas da cidade...

    Alias, algumas das suas fotos eu poderia fazer vários comentários...

    Plaza de Armas, uauuu... qta memória.

    Passei lá a virada do ano de 2004/2005.

    Poxa...

    Duca!

    Muitas lembraças.

    Depois falo das fotos de La Paz...

    Volto a La Paz em Julho...

    Estive em La Paz no ano passado, na alta temporada de montanha...

    Sempre passo de 15 a 20 dias...

    Este ano pretendo fazer dois cumes, já tá bom...

    Ano passado foi no Cerro Condoriri, no limite de La Paz, nos Andes.

    To enviando uma pra vc ter noção dos perrames vergonhosos que já passei: sentado ao lado da Chola... Dei a ela um “caramelo” e ela quase em agarrou tamanha era a alegria.

    Outra coisa, voltando a Cusco:

    Fui conhecer a Universidad Nacional San Antonio Abad del Cusco...

    La descobri que as noviças de Cusco, ao serem capturadas na conquista da cidade pelos espanhois, eram levadas a casa (que não lembro o nome), ao lado da La Catedral...

    Além de passar por todo tipo de humilhação, sem comida tbm, ao que passaram dias sem alimentação e higiene adequada. Foram em torno de 2.000 “senhoras” mortas nessas condições...

    Comentei isso pois a sua foto “a minha favorita”, estou quase certo que foi feita na casa.

    Hoje a casa serve de convento.

    Bacana seu blog.

    Abs

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  5. Luciano Costa Azevedoquarta-feira, 18 abril, 2012

    Be-lís-si-mas imagens! Saudemos a arquitetura e saudemos também a invenção da fotografia.

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  6. Obrigado por me enviar, gosto muito de visitar seu blog.

    Professor, pra falar a verdade, cada visita é uma alucinante viagem...

    José Adriano, aluno de Direito do 2º A

    Abraços

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  7. Reinaldo Benjamindomingo, 06 maio, 2012

    Caro Flávio,

    Ao regressar de pequeno giro pela Itália, visitei o Subsolo e estou extasiado com o post Moscou I. Oito meses se passaram desde que estive nessa surpreendente cidade! Agora, a beleza de suas fotos e a sensibilidade dos correspondentes comentários fazem-me revê-la como um presente, se lá presente estivesse.

    Obrigado e parabéns pelo seu talento!

    Grande abraço,

    Reinaldo Benjamim

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  8. Olá...
    Essas fotos ficaram ótimas,
    demonstra que Moscou é uma cidade muito bonita,
    um dia terei a satisfação de ver tudo isso pessoalmente.

    Sente saudades de sua cidade natal?

    Abraços

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