Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

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sábado, 10 de março de 2012

Arbeit macht frei

Meus amigos,

A ironia deforma o discurso, caminha rente à penumbra, pressupõe a malícia, o soslaio, a crítica.

Há quem diga que a ironia inverte e subverte simbolicamente as relações de poder.

O bobo da corte riria da nobreza ao fazê-la gargalhar.

Ora, olhemos mais de perto a máscara do arlequim: o bobo não sorri quando quer; não, a maquiagem o condena ao sorriso.

Vocês já foram ao circo?

O palhaço só desponta entre um ato e outro, no intervalo, no interstício. Riso trôpego; riso confinado.

É bem verdade que a ironia deforma o discurso. Porém, em sua volubilidade, ela pode servir tanto ao servo quanto ao senhor. Senão, vejamos: Arbeit macht frei, o trabalho liberta. Eis a máxima tatuada nos portões gargântulas dos campos de concentração nazistas.

O trabalho liberta, diz o feitor.

O trabalho liberta, Dona Ironia: em Auschwitz, a morte deixa de ser temerária. O trabalho de fato liberta. O sobrevivente torna-se cúmplice. O sobrevivente sente-se culpado.

Há alguns anos, o Subsolo das Memórias esteve em Auschwitz e caminhou pelos escombros do Holoclaustro (eis o link: http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2009/09/holoclaustro.html).

Agora, voltemos a Auschwitz para tentar recolher a paz entre os escombros. (Talvez descubramos a ironia a contrapelo de si mesma.) Auschwitz voltará a dizer

Arbeit macht frei

O trabalho...


... faz, torna...


... livre


O trabalho liberta


A marcha compacta prenuncia o coágulo nas câmaras de gás


Porque Auschwitz legou a Wall Street a indiferença da moralidade estatística


Em Auschwitz, a morte redime


"Havia cães entre as cercas farpadas que mediavam nosso abraço.
Ainda posso ouvir os latidos junto à têmpora"


Ser e não ser, eis a resposta do corredor polonês


Silenciador


Pegadas e rastros indeléveis, carrasco à espreita, neve cúmplice


Vigília engatilhada


Psicologia de massas do fascismo


O filhinho de Dona Ludmila olha para a câmera. A mão solene, qual Napoleão, se recusa a relegar a dignidade. Franz tem os olhos alagadiços, a mãezinha trêmula tenta consolá-lo. As mãos se entrelaçam e se confundem. Despedida cálida.


Metástase


Todos...


... os caminhos...


... levam...


... a Roma


Sentinelas


Escalpeladas


Já não será preciso marchar, Auschwitz, já não será possível claudicar


As próteses, narrativas relegadas, empilhadas


"Porque não poderei me despedir"
Jrene Hahn
11/11/1929 - 17/03/1942


Ele nos vê


Fome


"Assim eu me lembro um pouco de casa, paizinho"


"Porque eu quero me despedir"
Jnes Meyer, natural de Colônia
17/03/1929 - 11/11/1942


"Vovô, vovó, se ao menos vocês soubessem que os remédios não poderiam curar..."


Eles nos cercam


Nietzsche certa vez sentenciou que a maturidade do adulto consiste em recuperar a seriedade da criança ao brincar. Talvez o genealogista da moral quisesse ir a Auschwitz para descobrir como a História realizou sua vontade de potência. (Assim falou Zaratustra.)


A cruz gamada já prenunciava os corpos retorcidos
"Assim como sua mãe lá esteve no início, ao fim e ao cabo minha cruz indiferente o velará"


Psicologia de massas do fascismo


Foucault e a pedagogia


Réquiem


Corredor polonês


Segundo os minuciosos prontuários nazistas, o senhor Gustav Stein, de 1,85m, pesava 35 kg quando o Exército Vermelho encontrou seu espectro


O olhar tenta fugir


O menino Ladislau Wosniak conseguiu sobreviver
Tem 74 anos e vive em Cracóvia


Ladislau vai a Auschwitz todos os anos, no dia 11 de novembro,
para beijar o pai que não pôde conhecer os bisnetos

6 comentários:

  1. Muito bom, Flávio - e assustador. Recomendei em meus arquivos.

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  2. Boa, old big alambique, Flavião!!!
    Abraços malfazejos...

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  3. perfeito o que vc diz sobre a ironia e a máscara do arlequim, flávio.
    coincidência das coincidências: andava pensando no bobo da corte.

    um beijo

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  4. Oi, Maiara!

    Muito obrigado pelos cumprimentos. Esse lance da ironia reflete um aspecto que venho estudando no Dostoiévski. Uma volubilidade estrutural, uma semântica da forma que desbanca o possuidor de determinado conteúdo. Senhor ou escravo, a depender do contexto.

    Nunca me esqueci do "Arbeit macht frei". Passei um dia todo nos dois campos de concentração - Auschwitz e Birkenau (Auschwitz II, a três quilômetros do primeiro.) O Rudolf Hoess, comandante de Auschwitz, em sua autobiografia escrita pouco antes de ser enforcado no próprio campo, tentou justificar "o trabalho liberta" como mote. O riso do arlequim reverberaria ainda mais a condenação ao sorriso perpétuo para o palhaço.

    No fim de março a gente se vê. Um abraço, apareça sempre no Subsolo,

    Flávio Ricardo

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  5. Flávio, meu caro: acabei pontuando algo sobre essa questão da ironia em um comentário a um post meu, que acabei de publicar nos Arquivos. Dê uma olhada, e não se vexe se um espírito polemista baixar em você.
    Eu, relendo agora essas suas palavras aí em cima, me atrevo a um último porém: a lembrança de que há poucas imagens mais "Unheimliche" que a daqueles quadros com palhaços chorando.
    E você com certeza se lembra do belo poema em prosa de Baudelaire que fecha o Spleen de Paris.
    Acho que preciso dizer isso como uma forma de autojustificação, até pela forma como me apresento, re re (com licença da gravidade disso tudo).
    Mas, é claro, a questão está em aberto: toda ironia se tornou fatalmente perversa depois de Auschwitz? Se a ironia se reduz a uma intencionalidade crítica, eu penso que sim, porque - nisso eu concordo com você - ela programa o seu fracasso, senão sua sujeição.
    Vamos nos lendo.
    Grande abraço!

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  6. Imagens que arrepiam, não apenas pelo contexto histórico mas por trazerem a cada imagem, dores que não são nossas mas que em um vestígio de humanidade que nos resta conseguimos refletir se grande parte da humanidade não são algozes até hoje sem ao menos sentir.

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