Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

domingo, 9 de dezembro de 2012

As metamorfoses de Talião


Stalingrado


Entre as frestas do cotidiano, os escombros

Fragmentos de Uma história da guerra, de John Keegan
(São Paulo: Companhia das Letras, 2006)

“Os soldados não são como os outros homens – eis a lição que aprendi de uma vida entre guerreiros. Essa lição fez-me considerar altamente suspeitas todas as teorias e representações da guerra que a colocam no mesmo pé de outras atividades humanas. A guerra está indiscutivelmente ligada à economia, à diplomacia e à política, como demonstram os teóricos. Mas a ligação não significa identidade ou mesmo semelhança. A guerra é completamente diferente da diplomacia ou da política, porque precisa ser travada por homens cujos valores e habilidades não são os dos políticos e diplomatas. São valores de um mundo à parte, um mundo muito antigo, que existe paralelamente ao mundo do cotidiano, mas não pertence a ele. Ambos os mundos se alteram ao longo do tempo, e do guerreiro acerta o pé com o do civil. Mas o segue à distância. Essa distância nunca pode ser eliminada, pois a cultura do guerreira jamais pode ser a da própria civilização. Todas as civilizações devem suas origens ao guerreiro; suas culturas nutrem os guerreiros que as defendem, e as diferenças entre elas farão os guerreiros de uma muito diferentes externamente dos da outra”. (pp. 16-17)

“(...) o pensamento de [Carl Von] Clausewitz está incompleto. Ele implica a existência de Estados, de interesses de Estado e de cálculos racionais sobre como eles podem ser atingidos. Contudo, a guerra precede o Estado, a diplomacia e a estratégia por vários milênios. A guerra é quase tão antiga quanto o próprio homem e atinge os lugares mais secretos do coração humano, lugares em que o ego dissolve os propósitos racionais, onde reina o orgulho, onde a emoção é suprema, onde o instinto é rei. ‘O homem é um animal político’, disse Aristóteles. Clausewitz, herdeiro de Aristóteles, disse apenas que um animal político é um animal que guerreia. Nenhum dos dois ousou enfrentar o pensamento de que o homem é um animal que pensa, em quem o intelecto dirige o impulso de caçar e a capacidade de matar”. (p. 18)

“As lições da história nos advertem de que os Estados em que vivemos, suas instituições, até mesmo suas leis, chegaram-nos por meio de conflitos, amiúde do tipo mais sangrento. Nossa dieta diária de notícias traz relatos de derramamento de sangue, muitas vezes em regiões bem próximas a nossas terras natais, em circunstâncias que negam completamente uma concepção de normalidade cultural. Mesmo assim, conseguimos confinar as lições da história e das reportagens em uma categoria especial e separada de ‘alteridade’ que invalida nossas expectativas de como nosso próprio mundo será amanhã e o dia seguinte de forma alguma. Nossas instituições e leis, dizemos para nós mesmos, estabelecem tantas restrições à potencialidade humana para a violência que, na vida cotidiana, nossas leis irão puni-la como criminosa, enquanto sua utilização pelas instituições de Estado tomará a forma particular de ‘guerra civilizada’”. (p. 19)

“Nossa cultura busca compromissos, e o compromisso ao qual chegou sobre a questão da violência pública é o de fazer desaparecer sua manifestação, mas legitimar seu uso”. (p. 20)

domingo, 2 de dezembro de 2012

Lançamento do livro "Dostoiévski e Bergman - O niilismo da modernidade"

 Fiódor Dostoiévski (1821-1881)

 
Ingmar Bergman (1918-2007)


Meus amigos,

Gostaria convidar a todos para o lançamento do livro


Dostoiévski e Bergman
O niilismo da modernidade


Local:
Editora Intermeios – Casa de Artes e Livros
Rua Luís Murat, 40 – Pinheiros
(Nas imediações do metrô Sumaré, linha verde)
Telefones: 2338-8851; 2338-7473

Data: 08 de dezembro, sábado.

Horário: 18h.

Eis o prefácio do livro em questão para que vocês conheçam a trajetória que envolveu Dostoiévski e Bergman e o projeto da Intermeios.


Meus amigos,

Gostaria convidar a todos para o lançamento do livro


Dostoiévski e Bergman
O niilismo da modernidade


Local:
Editora Intermeios – Casa de Artes e Livros
Rua Luís Murat, 40 – Pinheiros
(Nas imediações do metrô Sumaré, linha verde)
Telefones: 2338-8851; 2338-7473

Data: 08 de dezembro, sábado.

Horário: 18h.

Eis o prefácio do livro em questão para que vocês conheçam a trajetória que envolveu Dostoiévski e Bergman e o projeto da Intermeios.


Do curso ao livro
Um prólogo aos diálogos entre
Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman

A Editora Intermeios – Casa de Artes e Livros, entre março e abril de 2012, deu início a um ousado projeto para estimular a reflexão e a produção (para-)acadêmicas.
         Do curso ao livro: a partir da iniciativa empreendedora dos proprietários Joaquim Antonio Pereira, poeta e editor, e Cecília Almeida Salles, professora de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, criou-se a ideia de entrelaçar as reflexões e debates gerados pelos cursos temáticos à produção de artigos por parte dos professores e alunos. Ao fim e ao cabo, os artigos compilados pretendem consolidar a trajetória de cada curso por meio de livros a serem publicados pela Editora Intermeios, que assim sintetiza a sua proposta cultural: casa de artes e livros.
         O primeiro curso a se transformar em livro procurou trazer à tona um diálogo sobre

O niilismo da modernidade pelos prismas de
Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman

            O curso foi dividido em quatro módulos, cada um composto por duas aulas. Abaixo exponho a sinopse do curso e o desenvolvimento das aulas de acordo com os núcleos temáticos.

Sinopse do curso
Ao sepultar Deus, a instância suprema a partir da qual emanariam e sobre a qual recairiam os princípios e fins éticos, a modernidade arremessa o ser humano em um turbilhão relativista em meio ao qual tudo o que é sólido desmancha no ar. Pelos prismas do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), analisaremos a ascensão paradoxal do nada como princípio (anti-)ético normativo – eis o Reino de Nihil, o niilismo. Os filmes O sétimo selo (1956) e a trilogia do silêncio – Através de um espelho (1961), Luz de inverno (1962) e O silêncio (1963) – dialogarão com o parricida Ivan Karamázov (Os Irmãos Karamázov), o homicida Raskólnikov (Crime e Castigo), a reencarnação de Cristo, o Príncipe Míchkin (O Idiota), e a encarnação do niilismo, o homem do subsolo (Memórias do Subsolo), de modo a estabelecermos a genealogia do relativismo ético desde o século XIX até os seus desdobramentos pelas diversas esferas existenciais ao longo do trágico século XX.

Módulo 1: Se Deus não existe, tudo é permitido
Aulas 1 e 2: Discussão entre o filme O sétimo selo e o dilema parricida de Ivan, o Karamázov (Os Irmãos Karamázov). Que significa dizer “se Deus não existe, tudo é permitido”? Em última instância, portanto, seria Deus o bastião da ética? Diante da ausência do Pai, nada mais conteria o hedonismo dos filhos órfãos? Enquanto a simbologia dostoievskiana faz do ateu Ivan o mentor intelectual do assassinato de Fiódor Pávlovitch, seu pai, o nobre cruzado de Bergman procura ludibriar a Morte – Deus se confunde com o silêncio – até que o xeque-mate sentencie a colagem do sétimo selo.

Módulo 2: Memórias do subsolo através de um espelho
Aulas 3 e 4: Discussão entre o filme Através de um espelho e o dilema homicida de Ródion Românovitch, também conhecido como Raskólnikov (Crime e Castigo). Se Deus não existe e tudo é permitido, os homens extraordinários precisam assumir o seu quinhão e espraiar a dominação irrestrita – quiçá para o bem da humanidade. Sendo assim, o super-homem Raskólnikov cinde a têmpora da usurária Amália Ivânovna, o arquétipo do piolho ordinário, como prova cabal para verificar se pode ascender à indiferença ética própria a um Napoleão. Enquanto isso, em algum lugar da Suécia de Bergman que sempre nos parece contígua, um escritor-discípulo de Raskólnikov assiste impassível a uma derradeira fonte de inspiração: o colapso mental da própria filha.

Módulo 3: A opaca luz de inverno acalenta o niilismo
Aulas 5 e 6: Discussão entre o filme Luz de Inverno e o dilema autofágico daquele que se concebe como o paradoxalista do subsolo (Memórias do Subsolo). O pastor Tomas Ericsson – filho distante do sensualista Tomé, para quem crer significa ver – celebra o culto já sem o prazer de sorver o vinho. Antes de sua experiência devastadora em meio à guerra civil espanhola, Deus lhe aparecia como o princípio único, ideal e orgânico de todas as coisas. Mas seria possível adorar o Senhor quando corpos mutilados só querem o encontro com o sétimo selo? Crescei e multiplicai-vos: antes o pão, agora as ogivas. Tomas Ericsson aproxima-se de São Judas Iscariotes: Deus transforma-se em um deus-eco, um porto seguro – e sempre silencioso – onde a angústia seria calada; um deus-aranha em cuja teia o relativismo tenderia a ser imobilizado. “Será?” – o homem do subsolo prontamente irrompe e o interrompe. Por que aceitar Deus como um muro derradeiro diante do qual devemos nos aquietar? “Em meu subsolo”, prosseguiria o paradoxalista dostoievskiano, “apenas o nada me faz companhia”. Poderia a consciência conviver de forma tão incestuosa com a potencial diluição de si mesma?

Módulo 4: O silêncio do diálogo
A beleza salvará o mundo! (Príncipe Míchkin)
O mundo salvará a beleza? (Ivan Karamázov)
Aulas 7 e 8: Discussão entre o filme O Silêncio e a quimera trágico-cristã do Príncipe Míchkin (O Idiota). Poderia alguém viver concretamente a máxima “ame ao próximo como a ti mesmo” nos dias de hoje? (Ivan Karamázov prontamente se insinua: (1) A história humana, em algum momento, já teria sido palco do amor mútuo? (2) Cristo e seu sadismo refinado: somos coagidos ao amor, daí a coerência do “ide e pregai-vos” – na cruz.) Pois o Príncipe Míchkin pretende dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus: Rogójin, o Judas assassino de Nastácia Filíppovna, recebe o consolo cristão de Míchkin. Mero detalhe o fato de a bela Nastácia ser a bem amada do Príncipe. Não à toa a consciência de Míchkin encontra na idiotia, na loucura, a síntese para o entrechoque dialético de tais polos irreconciliáveis – a piedade cristã e a vingança mundana. Ora, O Silêncio de Bergman corrói os laços fraternos. Em meio à Guerra Hitlerista, uma criança tem o privilégio alquebrado de contrastar seu tanque em miniatura com o blindado nada silencioso a rasgar as ruas. Enquanto isso, a mãe se prostitui gratuitamente embriagada pelo mesmo prazer do suicida prédio abaixo: “16º andar, 15º andar: até aqui vai tudo bem, até aqui vai tudo bem; 6º andar, 5º andar: até aqui vai tudo bem, até aqui vai tudo bem”. Mas não, “a beleza salvará o mundo!” – brada o Príncipe Míchkin das profundezas de sua masmorra insana. Rasgado por um sorriso de soslaio, Ivan, o Karamázov, sintetiza a nossa tragédia: “mas, por um mero acaso, o mundo salvará a beleza, meu caro?”

            A partir das aulas expositivas e dos debates por elas gerados, os alunos e este professor desenvolvemos ensaios que desdobrassem as temáticas do curso em estreito diálogo com as pesquisas que cada um desenvolve seja no âmbito da pós-gradução, seja no âmbito da graduação.
         O primeiro grupo de ensaios desenvolveu um diálogo entre Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman.
         Ieda Lebensztayn[1], em Derrotas e roteiros à janela da arte: fresta de Bergman, cartas de Dostoiévski e Graciliano, desenvolve um texto com belo fluxo autoral, ao longo do qual discorre sobre a angústia da expressão artística para os três autores em questão. A fresta bergmaniana através de um espelho e as cartas legadas por Dostoiévski e Graciliano, para Ieda, assumiriam um papel de contínua (res)significação de suas trajetórias artísticas, de seus dilemas e dos problemas cujas contínuas indagações suas obras só faziam prolongar e reverberar.
Diogo Basei Garcia[2], em A morte ou o silêncio de Deus: Ausência de referências e a crise da autoridade no mundo contemporâneo, lança mão das aporias epocais legadas por Dostoiévski e Bergman para refletir sobre a crise de autoridade e seus desdobramentos no âmbito escolar.

É muito comum ouvir no meio escolar que as crianças de hoje não respeitam mais o professor ou seus próprios pais. Normalmente esse lamento acompanha um certo ar saudosista, pois “antigamente era diferente”. De fato observamos crianças enfrentando adultos em diversas ocasiões; a escola culpa os pais, os pais culpam a escola, de modo que nenhuma instituição consegue mais exercer sua autoridade de modo satisfatório. Se não há disciplina, não há educação.
Quais as razões dessa crise? Em que medida o questionamento da autoridade é positivo? É possível reagir a uma situação como essa? O que pode ser feito? Essas questões nortearão o texto que se segue, numa tentativa de compreender melhor esse fenômeno e de pensar saídas para esse conflito que tanto preocupa pais e educadores.
           
O segundo grupo de ensaios discorre sobre temas variados da obra de Fiódor Dostoiévski .
         Em O Sermão da Estepe: Ivan Karamázov e a filosofia dostoievskiana da história, Flávio Ricardo Vassoler[3] não pretende

(...) simplesmente afirmar ou negar a profunda religiosidade de Dostoiévski ou mesmo fichá-lo como um subversivo junto aos inquéritos do DOPS da crítica literária. A meu ver, a obra de Dostoiévski enforma-se segundo o movimento da contradição. Teses e antíteses são postas e pressupostas, entrechocam-se sem solução, de modo que uma síntese parcial tende a subsumir o caráter irresoluto dos embates dialógicos em função do hasteamento da bandeira de uma determinada ideologia. Ao invés de separar de modo imiscível e polar cristianismo e socialismo, procurarei demonstrar de que modo tais polaridades a priori antípodas tornam-se mutuamente recíprocas na filosofia da história subjacente a O Grande Inquisidor, quinto capítulo do Livro V d’Os Irmãos Karamázov, último romance de Dostoiévski. Ao analisar o movimento contraditório da filosofia dostoievskiana da história, espero lançar luz sobre as aporias que aproximam as teses do grande inquisidor dos conflitos de nossa época.
       
Alexandre Buccini[4] e Mariana Wartusch[5], em Memórias da Arte, desenvolveram um ensaio que

(...) pretende discutir algumas das noções de arte, influenciadas pelo pensamento marxiano, e como a obra do escritor russo Fiódor Dostoiévski poderia ser considerada arte por esta concepção.
Não pretendemos aprofundar, no trabalho em questão, a análise de nenhuma obra de Dostoiévski em particular, quando citamos este ou aquele livro do autor; pretendemos ilustrar um panorama geral sobre as ideias estéticas de Marx e de um marxismo não vulgar, portanto considerado marxiano. A arte, para os marxistas e marxianos, foi muito debatida, contudo, extraímos da concepção dialética de vida e arte o ponto comum e fulcral que todos eles teriam sobre essa atividade dos humanos.

            Talita Mochiute Cruz[6], em Notas sobre o anti-herói em Dostoiévski e Beckett, entrevê “ecos do homem do subsolo, protagonista de Memórias do Subsolo (1864), de Dostoiévski, [que] podem ser percebidos em Molloy (1951), de Beckett, no qual o protagonista solitário também está em um quarto narrando/escrevendo suas histórias”.

Molloy faz parte da galeria de anti-heróis típicos do romance moderno, marcados pela impossibilidade de ação e pela consciência tortuosa. Como outras personagens beckettianas, ele pertence à linhagem de anti-heróis da tradição do romance russo do século XIX, repleta de exemplos daqueles que se recusam à ação e isolam-se como forma de contestação. (...)
Cabe então rever essa herança entre o homem do subsolo e Molloy, pontuando quais são as conexões e as dissonâncias entre eles, sem deixar de ter no horizonte o pano de fundo do processo da modernidade. Ao olhar para esses personagens-narradores, talvez possamos compreender um pouco mais as relações entre homem/sociedade e forma/processo social, que encontram expressão no romance.

            Dênis Henrique Cabrerizo da Silva[7], em O Mal, o Niilismo e a Condição Humana em “O Grande Inquisidor”, volta-se a

(...) uma análise dos principais aspectos do pensamento dostoievskiano (...) [para que possamos abordar], num primeiro momento e de forma geral, a configuração do mal e do niilismo na obra de Dostoiévski, ao que se sucederá a aplicação destes mesmos conceitos, somados à reflexão de Dostoiévski, sobre a condição humana, por intermédio de uma breve análise do capítulo O Grande Inquisidor, trecho fulcral da obra Os Irmãos Karamázov.

            O terceiro grupo de ensaios, por sua vez, analisa a cinematografia de Ingmar Bergman, com ênfase nos filmes estudados durante o curso.
         Andreia Rocha Vasconcellos[8] discorre sobre O sétimo selo (1956) e analisa A última ceia como a irrupção da Graça.

No Princípio eram os morangos. Morangos ao leite, morangos silvestres. Um oásis em meio à tragédia d’O sétimo selo. Antonius Block, o cruzado que só faz questionar o silêncio de Deus, viverá uma epifania ao lado da família de artistas mambembes: Jof, Mia e o pequeno Mikael. Eis a irrupção da Graça. Mas a Morte pálida e iminente é a expectadora de tal comunhão telúrica que, a despeito de sua beleza e positividade, já não consegue reconciliar o silêncio de Deus com o mundo repleto de gritos e sussurros.

            Pedro Max Schwarz[9], em O silêncio de Deus nos filmes O sétimo selo, Através de um espelho e Luz de Inverno, parte de uma pergunta bergmaniana fundamental: “Se Deus existe, por que ele permanece em silêncio?”

Este ensaio mostra como o silêncio de Deus foi desenvolvido ao longo dos três filmes mencionados, através da narrativa e da imagem. Pontos importantes das tramas são revelados, mas as histórias dos filmes não são contadas na íntegra: só são narrados os trechos em que a temática do silêncio de Deus se faz presente. A exceção é o filme Luz de Inverno, que é narrado do início ao fim, apenas porque essa temática está presente desde a primeira cena até a última.

            Feitas as apresentações do curso e dos ensaios dele oriundos, voltamos a convidá-los para o lançamento do livro no próximo sábado, dia 08, às 18h, na Editora Intermeios (Rua Luís Murat, 40, Pinheiros), com a expectativa de que os leitores sintam e vivenciem a mesma atmosfera de debates estimulantes e prolíficos que os alunos e este professor puderam construir a partir das obras de Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman.

Flávio Ricardo Vassoler


[1] Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada, doutora em Literatura Brasileira (fflch-usp), pós-doutoranda no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (ieb-usp), bolsista da Fapesp. Autora de Graciliano Ramos e a Novidade: o astrônomo do inferno e os meninos impossíveis. São Paulo: Hedra, 2010.
[2] Mestre em Pedagogia e Educação pela FE-USP e professor de História dos Ensinos Fundamental II e Médio das redes municipal, estadual e particular.
[3] Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP. Professor do curso em questão.
[4] Graduação em Ciências Sociais, Geografia e Direito. Doutorando em Sociologia da Imagem (Cinema), pela UNCuyo – Universidad Nacional de Cuyo – Mendoza, Argentina. Pesquisa em Cinema Documentário.
[5] Graduanda em Letras pela FFLCH-USP. Campo de pesquisa: literatura brasileira e música. Pesquisadora da obra de Vinicius de Moraes.
[6] Jornalista e aluna da pós-graduação (mestrado) do programa de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH-USP.
[7] Graduando em Filosofia pela FFLCH-USP e em Relações Internacionais pela PUC-SP.
[8] Mestranda em Ciências da Religião pela PUC-SP.
[9] Graduando em Imagem e Som pela UFSCar.

domingo, 25 de novembro de 2012

Montevidéu I

Meus amigos,

Continuemos a escavar as margens do Rio da Prata.

Desta vez, cruzemos juntos a fronteira uruguaia para percorrermos os interstícios de



Montevidéu I



Porque Dalí aprontou das suas em Montevidéu...



Quem dera o espectro fosse mais tangível do que sua cooptação



Porque a vida nem sempre é agora...



Sorriso pálido na Av. 18 de julho, a artéria da capital uruguaia



Narrativas ocultas pelas pálpebras cerradas



Em comparação com Buenos Aires, Montevidéu demonstra um certo desdém por sua beleza
(A quietude do caráter nacional se irradia para o belo plácido das calles)



 Se o capitalismo fosse sempre idêntico a si mesmo, vale dizer, se não houvesse nenhuma contrapartida para o ímpeto tautológico do (mais-)lucro, a imagem em questão seria mais um dos escombros entre os muitos estacionamentos e fast foods estúpidos de São Paulo. (De fato, God bless ignorance: há alguma esperança no fato de os empreendedores de São Paulo não falarem espanhol; ao menos por ora, o belo não precisa ser relegado à lembrança histórica do cartão postal.)



Blush



A paleta rosa sussurra para o inverno nu da árvore que as cores não demorarão a despontar



Só sinto não ter visto o outono do Rio da Prata - gostaria muito de ter ouvido o estalido das folhas secas contra o click da minha objetiva



Che tinha "La Poderosa", uma belíssima motocicleta
Eis o meu possante América Latina adentro



Quando os ramos da esquerda ficam ilhados pela palma da mão, ou por outra, quando o momento histórico torna nebulosa qualquer perspectiva de transformação da totalidade social, qualquer tipo de constestação se neutraliza como um "work in progress"
(Mero detalhe o fato de a indústria cultural saber escoar os ready-mades esquerdistas para os nichos de mercado de suas editoras.)



Dança do acasalamento



Forma à revelia do conteúdo



Meus amigos, ainda bem que a mediação protege vocês dos açoites do vento às margens do Prata



Anfíbio



O velho e o rio
(Porque Hemingway também aportou em Montevidéu)



Nunca vou esquecer que, aos 8 anos, contrastei concretamente o contorno livresco do litoral arregimentado por um atlas com as curvas sinuosas e salientes da costa



- Saúde, Flávio.
Obrigado



4 costados



Não vou me esquecer da longa conversa que tivemos com o Prata como testemunha, Sr. Juan Pablo
Visitei todas as cercanias que o senhor me indicou; só não posso garantir que resgatei o lirismo imagético que o seu baixo jazzista sempre trazia à tona nas noites de Montevidéu
Saludos, amigo!



Espectro intumescido



Breve armistício



Para onde iremos



1



2



3









Não sabia que Deus havia posto as barbas de molho



O marasmo democrático requer a leitura silenciosa



Quase me hospedei na varanda à esquerda



"Papai, papai, que desenhos são aqueles no céu, papai?"
"Talvez sejam os mapas dos profetas, Ricardinho"
"E pra onde eles levam, papai?"
"Bom, meu filho... Até agora, todos os caminhos levaram a Roma"



Lapso imperdoável: a agência de publicidade extra-oficial se esqueceu de dizer que, ao fim dos céleres quatro meses, já será possível ler o mais novo romance de Paul Rabbit
Afinal de contas, segundo o compositor de Raul Seixas, James Joyce escreveu romances cujos enredos cabem sem mais em um post do Twitter
Mas, se não me engano, Paul Rabbit chegou a afirmar certa vez que o universo, em sua simplicidade, bem cabe em um grão de areia. Pois muito bem, Paul: dada a micrologia do universo e dada a facilidade com que os conflitos encarniçados se reconciliam, me parece que o universo da sua língua portuguesa também cabe neste grão de areia, não é mesmo?



Afago para os leitores de "O Idiota":
conheçam Aglaia Iepántchina



Sentinelas



Corredor polonês



A memória se confunde com os vincos das cores em fuga



Quase me hospedei na varanda sobrelevada



Paleta
(O Passat 85 sintetiza a morosidade do tempo em Montevidéu)



Pálida



À esquerda, por sobre meu ombro, a hospedaria da Dona Concepción



Prenúncio de um jantar romântico...



... não tivesse sido eu o cozinheiro...



Em Montevidéu, a cadência dos passos modula o ritmo da captura fotográfica
Muitas vezes, em plena quarta-feira, me vi e ouvi só pelas alamedas de árvores nuas e retorcidas



Um amigo uruguaio, poeta ausente desta foto, pergunta pelo fim de Walter
Eis onde ele está, hermano, clique aqui e você o encontrará:
http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2012/09/taliao-em-sao-paulo.html



Sleep with one eye open



"É sempre noite, senão não precisaríamos de luz"



O artista nos insinua a solução para que Caim não mais pise sobre a face da Terra
(O único problema é que Abel também será calado...)



eis a gargântula que conduz à casa uruguaia de Ródion Românovitch Raskólnikov



Cresci ouvindo pilhérias sobre o bom e velho Fiat 147



 Mas nenhum outro carro é tão solidário ao deserto de nossos bolsos
Basta encher o tanque para dobrar o preço do possante



Você já sonhou que morava em um bairro cujas histórias oprimiam a mais tenra possibilidade da imaginação? Como se, a cada prenúncio de uma estória, o novo tivesse que se curvar diante das camadas da memória. Talvez seja por isso que a altivez envelhecida quer tanto falar: é preciso libertar as estórias para que as costas abauladas deixem de sentenciar o aposentado côncavo 



Serenata



Where the rainbow ends



– Ana, tenho que te falar algo muito difícil...
– Que que foi, meu bem?
– Tenho que te falar algo muito delicado, Ana...
– Renato, que que foi?!
– Algo muito delicado...
– Renato!
– ... algo muito difícil...
– Fala,
– ... tenho que te falar.
– logo!
– Ana:
– Re-na-to!?
Eu te amo.




Ia perguntar se você imagina um sorriso assim em São Paulo, mas descartei a questão por sua completa ociosidade. No entanto, creio que vale a pena perguntar o seguinte: suponhamos que ainda haja tais escombros na capital que acaba de eleger Fernando Haddad. Muito bem: você acredita que ele resiste aos próximos dez anos da nossa construção civil? 



"Bem, vejamos..."



Enquanto isso, na Terra Brasilis...



... a Comissão da Verdade, sem qualquer poder punitivo, quer atestar para os devidos fins e enfins que os testículos esquerdos foram mais lastimados que os direitos
(Não à toa Hobbes afirmou que não há exército sem espada; também por isso a Justiça venda os olhos)



Entrevista prévia com os sogros - a bela à espreita



Lívido



Paulo Freire



Nicho de mercado



Em algum lugar da Av. 18 de julho



Enquanto as narcísicas arcadas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco emulam os anódinos presidentes da República Velha, a Universidad de La República mostra a que veio
(O DOPS uruguaio agradece pela localização prévia dos futuros torturados)



Não se engane: quem introjeta o sadomasoquismo a ponto de estudar Processo Civil transforma esse belo enclave em puro ressentimento. Afinal, por que enaltecer a vida quando o autoflagelamento deve caminhar sob a couraça do terno?



Presente de Hollywood aos grevistas



Presente do Sport Club Corinthians Paulista à freguesia do Santos Futebol Clube após o eterno 7 x1 que presenciei em 2005, no estádio Paulo Machado de Carvalho, também conhecido como Pacaembu



Os idólatras da natureza supõem que, em meio à selva, alcançam o coração das trevas
O único problema é que o coração das trevas foi mediado por Joseph Conrad, ou por outra, a única questão é que a nostalgia que se quer perto do coração selvagem precisa lidar com o fato capitalizado de que a natureza é efetivamente humana em nosso contato mediado pela cisão urbana



Para os leitores d'"O Processo", eis a fábula "Diante da Lei"



Acompanhemos Josef K. enquanto o punho do tribunal se lhe insinua



O leitor e este estoriador do subsolo fazem as vezes da quarta aresta



Os uruguaios discordam de Nelson Rodrigues:
Toda nudez irá castigar



 Minha nuca se ajoelha



Porque os leitores de "O Grande Inquisidor", capítulo fulcral d'"Os Irmãos Karamázov", já reconhecem que não é mais possível a fé a reboque do mistério. Se Deus não existe e tudo é permitido, é possível descobrir onde Deus se escondeu



Portal de Neverland



O problema é a sobriedade cotidiana da ressaca...
(Os leitores de Thomas de Quincey discordariam de minha afirmação se suas sinapses não trocassem a fala pelo olfato)




Austera



Síntese para os movimentos de independência da América Latina:
"Façamos a revolução antes que o povo a faça"



Antes o perigo que o escritório...



Sem a Dulcinéia, nem precisamos iniciar esta conversa, hombre...



Em meio à evacuação literária de nossos tempos, a estátua de Quixote de fato se transforma em um moinho de vento



Cárcere da imaginação



Porque o Direito transforma a maiêutica em brecha da lei



Euskera Ta Askatazuna



O Subsolo das Memórias ainda resgatará os escombros literários de uma guerra efetiva
(Se bem que a guerra civil paulistana me mandou um postal ontem...)



Concessão do vício à virtude: o capitalismo não pode prescindir do ourives, o último poeta rentável



Concessão da virtude ao vício: diante da demanda dos emergentes cada vez mais rentáveis, a ourivesaria de detalhes do poeta o acaba cegando



"E então?"



Fronteira



Você ouve o estalido da grama?



Depois de ler um texto de Ferreira Gullar em que o poeta chamava os espaços públicos brasileiros de "valhacoutos de mendigos", entendi por que nossas praças são como estações de trem: locais de trânsito, jamais de permanência. Como diria o poeta Francisco Alvim, munido do ethos de nossa sociedade eugênica, "o parque é bom, mas é muito misturado"



Em um botequim uruguaio, mais uma charla corriqueira
(Um físico chamado Albertinho discute as irradiações da relatividade)



Você consegue imaginar o estatuário urbano sem a guerra eqüestre?



Para os aficcionados por Ingmar Bergman:
"Luz de Inverno"



Jogo da velha