Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

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sábado, 10 de dezembro de 2011

Sócrates Brasileiro


Meus amigos,

No último domingo, o Sport Club Corinthians Paulista sagrou-se pentacampeão brasileiro poucas horas após o velório de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, também conhecido como Dr. Sócrates.

Em 1990, quando meu corintianismo tinha apenas 2 anos – me tornei corintiano aos 7 anos, no título paulista de 88, contra o Guarani –, o Timão ganhou o primeiro título brasileiro contra o São Paulo, time em que já jogava Raí, irmão do Dr. Sócrates. O Coringão de 90 era sofrível, tão ruim quanto o time atual – ou mesmo pior. Mas havia um gênio em campo envergando a camisa 10: José Ferreira Neto, o Xodó da Fiel. Neto era volúvel. Irascível. O Dr. Sócrates o compararia a Vincent Van Gogh – e sorriria ao se lembrar.

Os anos de 98 e 99 se curvaram diante do tricampeonato brasileiro do Coringão. Tínhamos um timaço, não à toa apelidado pela Fiel de Todo Poderoso Timão. O Dr. Sócrates ficaria feliz em escalar aquele Corinthians que jogava por música. Gamarra, nosso zagueiro gentleman, passou a Copa de 98 sem fazer sequer uma falta. Que dizer da dupla de volantes formada por Fred Eusébio Rincón e Vampeta? Como arremate harmônico, Ricardinho e Marcelinho como meias. “Marcelinho?”, intervém Sócrates. “Marcelo Pereira Surcin, também conhecido como Marcelinho Carioca, l’enfant terrible da Fiel”. Infelizmente, não vi o Dr. Sócrates capitanear o Corinthians. Mas assisti à genialidade de Marcelinho. Um talento cindido, contraditório. Com a bola, detentor de uma frieza cartesiana. “A placidez e a plasticidade de um Monet”, diria o Dr. Sócrates. Sem ela, um discípulo de Neto. Dissonante. Irascível. Campeão: o jogador que mais títulos ganhou com a camisa 7 do Coringão.

2005. A lavanderia monetária do russo Boris Berezovski, radicado em Londres com um bom quinhão do espólio soviético, lança mão dos serviços do iraniano Kia Joorabchian, testa-de-ferro da MSI, para formar o time supostamente galáctico do Coringão. O fato é que Roger Galisteu não jogou o que dele se esperava. (Também pudera, meus amigos: como jogar com brilhantismo se todo o ímpeto de Roger se esvaía pelas madrugadas infindas ao lado de Deborah Secco e Adriane Galisteu?) Mas a Fiel não ficou sem um legítimo representante naquele ano. “O quasímodo de Victor Hugo, o corcunda de Notre-Dame”, sentencia o Dr. Sócrates. O argentino Carlitos Tevez. A síntese do ethos corintiano: feio, dentes alquebrados, atarracado, raçudo. Guerreiro. Eu estava no estádio Paulo Machado de Carvalho, o alvinegro Pacaembu, quando Carlitos regeu o acachapante 7x1 contra os menininhos da Vila Belmiro. É bem verdade que o tetracampeonato brasileiro não deixou de contar com a inusitada colaboração de Márcio Resende de Freitas, o juiz da Fiel. Mas Tevez superou o lobby da MSI. Carlitos foi acolhido por Neto e Marcelinho no Panteão corintiano – sob a bênção laica do Dr. Sócrates.

E quanto a 2011, meus amigos? E quanto ao pentacampeonato brasileiro? Time mediano, nenhum craque. É bem verdade que assistimos ao surgimento de um novo Talismã da Fiel: se em 90 Tupãzinho marcou o gol derradeiro contra o São Paulo, este ano Liedson, o Liedshow, sempre conferiu nos momentos mais decisivos. Mas Sócrates jamais se mostrou um entusiasta do futebol e da vida comezinhos.

“Quero morrer num domingo de futebol, o Coringão na iminência de ser campeão”.

Seja feita a sua vontade, Dr. Sócrates, assim no céu como na terra.

Ouvi muitos censores recriminando a vida boêmia e corrosiva que o Dr. Sócrates fez questão de jogar.

– Sócrates era um exemplo, deveria ter superado o alcoolismo, não poderia ter feito isso consigo mesmo!

Ora, meus amigos, Sócrates era tão dialético quanto o mestre grego que lhe forneceu o nome.

O Sócrates militante das Diretas Já e entusiasta da belíssima Revolução Cubana era uma das face do Dr. da Bola. A face cujo calcanhar costumava deixar o irmão Casagrande na cara do gol. A face que não deixava de demonstrar uma aversão entranhada em relação à perversa sociedade brasileira. Eros.

O Sócrates ébrio era a contrapartida para o espírito de uma época que não cumpriu a sua promessa histórica. A Revolução de Che ficou ilhada pelo socialismo de Estado. Indiretas já: Sócrates não pôde votar para presidente. Que fazer com a vida embotada, burocrática, cotidiana? Sócrates escrevia. Que fazer com a vida comezinha? Sócrates bebia. Tânatos.

O vinho requer uma taça bojuda. Ao movimentá-la para liberar o aroma, o vinho desenha sua persistência pelas paredes translúcidas. “Deixe-me ébrio”. Tinge os dentes como que a adorná-los. A tontura de um levantar-se súbito sussurra a persistência feminina do vinho. Ela diz “fica mais um pouco comigo”.

Vinícius de Moraes. “O uísque é o melhor amigo do homem. O uísque é o cachorro engarrafado”. O uísque mimetiza o prazer fugaz em face da dor que há de vir: o trago dúbio despe e adormece a língua, mas golpeia a garganta. Os dentes latejam antes do desmaio ilhado pelo resquício de malte.

Em Moscou, o camarada Neruda provou o fogo líquido russo a convite de ninguém mais, todos menos que Ióssif Vissariónovitch Djugachvíli, também conhecido como Stálin. A vodka e sua invasão incendiária tomam o peito de assalto. A introjeção do coice. Stálin sentencia: “A vodka, camarada Neruda, o fogo líquido é o subsolo do homem. A vodka é o tigre engarrafado”.

A cirrose de Sócrates se esqueceria de si mesma em 1917.

Se o Dr. Corinthians não tivesse 5 anos em 1959, Fidel e Che arregimentariam mais um guerrilheiro para o Movimento 26 de Julho Sierra Maestra adentro.

Sócrates estaria ébrio – de vida.

A cerveja seria um mero sucedâneo. Um brinde.

Mas a História foi se calando. Entusiastas bem pagos da resignação disseram que ela terminou. O estado terminal de Sócrates só fez relutar.

Foi assim que Sócrates entreviu no futebol a persistência da luta de classes. A criatividade contra o mero esquema tático, o resquício imponderável da subjetividade em face da marcação.

Não deixa de ser uma grande ironia histórica o fato de a seleção brasileira de 1982 não ter se sagrado campeã.

Mas eis que ouço Sócrates dizer que “não. Se aquele timaço de 82 tivesse sido campeão, a vitória teria sido arregimentada para calar o ímpeto por transformações. Stendhal já dissera: ‘a arte é uma promessa de felicidade’. Se a sociedade ainda não se reconciliou consigo mesma, o sorriso perene não passa de um vinco em nosso rosto”.

Semanalmente, eu ia às bancas para buscar com avidez os ensaios de Sócrates na revista Carta Capital.

Toda terça-feira, às 22h, eu esperava pelo Cartão Verde, na TV Cultura. A cada semana, o rosto do Dr. se fazia mais cirrótico. Vincos como cicatrizes ao redor dos olhos. Sulcos ao invés de olheiras. O Magrão cada vez mais mais magro, esguio. O prenúncio do espectro.

Eros e Tânatos estavam prestes a se encontrar.

Eros insistia em entrever no futebol um veio artístico que poderia se irradiar para a sociedade brasileira como um todo. Sócrates ainda teve o bom quinhão de acompanhar o timaço do Santos em 2010. Neymar. Sócrates ainda teve o bom quinhão de acompanhar o timaço do Barcelona em 2011. Messi.

Tânatos engarrafava a cicuta para que Sócrates tragasse a intensidade da vida que se esvaía em seus últimos grãos pelo delgado pescoço da ampulheta. Só então eu pude entender o braço hirto e estendido encimado pelo punho cerrado quando da comemoração de seus gols, Sócrates.

“Meu punho cerrado mimetiza a Caixa de Pandora”.

Em homenagem ao maior jogador que já vestiu a camisa do Sport Club Corinthians Paulista – Roberto Rivelino que me perdoe, mas Sócrates transcendia as quatro linhas –, o Subsolo das Memórias pensou em uma seleção futebolística que honre a poesia pelos gramados que tanto emocionou o Dr. Sócrates.

A partir de agora, vocês encontrarão 10 vídeos que podem ilustrar o porquê de o nada ingênuo camisa 8 entrever no futebol(-arte) um resquício de esperança. Com vocês,


Sócrates Brasileiro


I. José Ferreira NETO, 1991
(Narração épica de Osmar Santos)




II. José Ferreira NETO, 1992
(Narração do saudoso Marco Antônio; o golaço de bicicleta do Netão ocorre ao redor dos 10 minutos do vídeo – informação para os menos pacientes, menos poéticos e/ou anticorintianos)




III. Marcelo Pereira Surcin, o MARCELINHO CARIOCA, 1996
(Narração do saudoso Alexandre Santos)




IV. RONALDO Luís Nazário de Lima, o FENÔMENO, 2009
(Narração de José Silvério)




V. RONALDO de Assis Moreira, o GAÚCHO, 2011
Santos 4 x 5 Flamengo, o melhor jogo a que já assisti
(Narração de Luís Roberto)




VI. NEYMAR da Silva Santos Júnior, 2011
Santos 4 x 5 Flamengo, o melhor jogo a que já assisti
(Narração de Luís Roberto)




VII. ROMÁRIO de Souza Faria,
(Os 11 maiores gols do melhor jogador que vi em campo, o rei da grande área)




VIII. Diego Armando MARADONA, 1986
(Narração ÉPICA de Victor Hugo Morales)




IX. Manuel Francisco dos Santos, o MANÉ GARRINCHA
(“A arte é uma promessa de felicidade”)




X. Edson Arantes do Nascimento, o rei PELÉ
(“A arte é uma promessa de felicidade”; narração de Luís Noriega)



Na última entrevista pública de Sócrates – eis o link para o programa: http://tvkajuru.com/?p=5631 –, o ótimo cronista esportivo Jorge Kajuru perguntou ao Dr. Corinthians se ele compararia Diego Armando Maradona a Johann Sebastian Bach. Eis o que disse o líder da Democracia Corintiana:

– A meu ver, Kajuru, Bach prenuncia Edson Arantes do Nascimento. Ambos eram harmônicos e orgânicos. Bach e Pelé eram estruturais, totais. Maradona, na verdade, se aproxima mais do dissonante Ludwig Van Beethoven. A trilha sonora do título mundial de 86 não poderia ser regida senão pela mano de Diós própria à 9ª Sinfonia.

Sócrates, meu caro, o Subsolo das Memórias tem uma última mensagem antes de você se despedir. Uma mensagem do grego – e também corintiano – Aquiles:

– Dr. Sócrates, muitíssimo obrigado. A sua genialidade enfim pôde redimir o meu calcanhar.

13 comentários:

  1. Zé Carlos Felicianodomingo, 11 dezembro, 2011

    BRILHANTE, MEU IRMÃO - ou como entre corinthianos, mano.
    Quanta erudição !!!

    Estive presente nos 7 a 1 contra o peixe, então treinado pelo Nelsinho, nosso comandante de 1990.
    Não sei se ainda, mas era casado com uma tupaense.
    Hoje assistindo ao Barça maravilha golear, de virada o grande real Madri, eu e meu irmão, estávamos comentando sobre a homenagem belissima ao Doutor. Que imagem aquela das duas equipes, no grande circulo, imitando o gesto do Magrão.
    Que bela imagem. Meu irmão estava no Pacaembu. Na conversa surgiu nosso comentário a respeito da frase abaixo e achamos uma forçada de barra, uma frase oportunista lançada na internet.
    “Quero morrer num domingo de futebol, o Coringão na iminência de ser campeão”.
    Agora lendo esta frase no seu texto, gostaria de saber de vc se foi mesmo uma frase do Sócrates. Vc leu, em algum lugar, ou ouviu em entrevistas ?
    Boa noite. Abraços

    Zé Carlos Feliciano

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  2. Olá, Zé Carlos! Tudo bom?

    Muito obrigado pelos cumprimentos, mas a inspiração veio de outro plano - se é que ele existe. O Magrão rondou a grande área da minha mesa ontem, Zé, e daí fica tudo mais fácil. Que grande perda!

    Olha, Zé, eu ouvi comentários de pessoas próximas ao Sócrates a respeito daquela frase sobre ele querer morrer em um domingo de futebol com o Coringão na iminência de ser campeão. Quando ouvi o Juca Kfouri dizer isso, Zé, me certifiquei de que Sócrates teria dito a frase. O Juca, além de grande credibilidade, era amigo bem próximo do Magrão. (O Juca disse isso no programa "Tabelinha", que faz ao lado do Vítor Birner - outro amigão do Magrão -, na última segunda-feira.)

    Efetivamente, Zé, eu ainda não me conformo. O Sócrates era uma daquelas raras combinações de múltiplos talentos. Na semana passada, o Cartão Verde fez uma homenagem ao Dr. Corinthians. Nessa semana o programa deve voltar ao ar normalmente, então eu quero ver o que vão dizer os companheiros de Sócrates por lá.

    Grande abraço, Zé, torcemos pelo Barça no Mundial :-)

    Flávio Ricardo

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  3. Parabéns!!

    Não sou “Curintianu”, sou “Parmererense ”, todavia torci para vcs. Não consigo imaginar qual seja a patologia que me acometeu. RSRSRSRSRSS!!!!

    Abs.

    Ralph Peter

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  4. Olá, Ralph!

    Não foi patologia, não; você recebeu a aura do corintianismo, Ralph, a única religião que consegue sair propriamente da esfera metafísica e alcançar este mundo terreno sem considerá-lo maculado :-) Por poucos momentos, você sentiu o que é ser corintiano!

    Grande abraço,

    Flávio Ricardo

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  5. Caro Flávio:

    Obrigado pelo envio deste belo texto. Confira, por favor, minha pequena homenagem ao nosso Sócrates em meu blog:

    arquivoscriticos.blogspot.com

    Abraço,

    Ravel.

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  6. Olá, Ravel! Tudo bom com você?

    Muito obrigado pelos cumprimentos.

    A sua homenagem me parece bem a contento, Ravel: Sócrates não tinha, de fato, um espírito desagregador, então o sentido do fair play envolvendo corintianos e vascaínos poderia transmitir ótimos valores para a sociedade brasileira. Por sinal - e em tempo: em uma entrevista com Fernando Fernandes para o programa "Papo de Boleiro", da TV Bandeirantes, Sócrates definiu o corintianismo precisamente dessa maneira: "saber perder, já que ser campeão, para o corintiano, é um mero detalhe. Ser corintiano é um estado de espírito".

    Façamos um brinde, então, a essa grande persona que o Brasil teve a honra de ver atuar.

    Apareça sempre no Subsolo das Memórias, Ravel. Um abraço,

    Flávio Ricardo

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  7. Salve, Flávio.

    Obrigado. Sou vascaíno, mas herdei essa paixão de meu pai, que também era corinthiano e geminiano (gremista?), então sempre fui muito simpático ao Corínthians. Mas a homenagem, de fato, não deriva disso, e sim da admiração por Sócrates e, claro, por um tipo de espírito esportivo que eu acho importante resgatar nesses tempos esquisitos.

    Tenho que admitir que deixei de acompanhar o Vasco por um bom tempo, no período mais sombrio do Eurico Miranda. Mas desde a eleição do Roberto meu interesse reacendeu, mesmo com os altos e baixos. O Vasco - só soube disso recentemente - foi o primeiro clube de futebol a defender a presença de jogadores "de cor". Ou seja, também tivemos nossas bandeiras democráticas...

    Grande abraço, e vamos nos lendo,

    Ravel.

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  8. E aí Flávio!?

    Eu vi jogar Neto, Ronaldo Giovanelli, Viola... Vi Marcelinho, Ricardinho, Vampeta, Dida, Gamarra e todo pessoal do timaço de 1998 a 2000. Vi Tevez, Ronaldo Nazário... Gosto de todos eles.
    Mas, não vi jogar meu maior ídolo corintiano (eu era muito pequeno nos anos 1980): Sócrates.
    Lembro que depois do jogo do penta, o Liedson falou e eu assinei embaixo: a morte de Sócrates foi uma grande perda não somente pros corintianos, mas também para todos os brasileiros.
    Sócrates não foi apenas um grande craque. Foi um grande homem.
    No Cartão Verde da TV Cultura, Vladir Lemos, Xico Xá e Vitor Birner destacaram como característica do Magrão o culto à vida. O convidado do programa Dan Stulbach estava emocionado: "não aprendi democracia nos bancos escolares; aprendi vendo jogos de futebol".
    Gostava muito de ver o Doutor contando causos. Numa viagem, antes da Copa de 1982, o preside nte João Batista Figueiredo recepcionou a seleção brasileira. Sócrates cobrou do presidente: "a gente vai batalhar pra ganhar a Copa, mas, se não ganhar, você vai ter que recepcionar a gente do mesmo jeito".
    Numa outra ocasião, em 1985, Sócrates estava na Itália e foi convidado pra festa de 15 anos da filha de um dirigente da Fiorentina. "Não fui. Nesse dia, fui a uma reunião do Partido Comunista Italiano. Não gosto de festa de grã-fino. Meu negócio é tomar cerveja com chinelão de dedo no pé, falar de filosofia e política".
    Em tempos de culto ao mercado e à iniciativa privada, Sócrates, na contramão do dogma liberal, em entrevista à revista Caros Amigos, repetiu com convicção: "Sou socialista".
    E, antes de se tornar um imortal, declarou ao diário Lance!: "Não tenho medo de morrer. Briguei sempre pela vida".

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  9. Fala, Luciano! Tudo bom, meu velho?

    Pra você ver como são as coisas: temos aproximadamente a mesma idade e, dado o nosso corintianismo, vivenciamos experiências muito próximas ao longo de todos esses anos.

    O Juca Kfouri tinha publicado a charge que você enviou no blog dele, Luciano. Dê uma passada por lá que você vai ver - o link do blog do Juca está na seção "Alamedas Subterrâneas" do Subsolo das Memórias.

    E um aspecto sobre a persistência da adesão socialista do Sócrates: como o Magrão fazia fileira entre os pares da mídia, entendo que a discussão sobre Cuba tendia a seguir um unilateralismo para se contrapor às posições patronais dos baba-ovos que não fazem mais do que defender os anunciantes oportunistas de seus veículos de trabalho. (Certa vez, o Antonio Candido chegou a dizer que criticar Cuba via imprensa brasileira era completamente contraproducente, na medida em que não estaria em jogo uma discussão propriamente dialógica, mas um julgamento a priori.)

    Entendo todos esses aspectos, Luciano, e concordo com a questão de que a discussão via imprensa brasileira não propicia dialogia de modo algum. No entanto, a Caros Amigos seria, justamente, um espaço para dialogia, uma vez que os leitores da revista estão mais do que escaldados em relação ao clima de linchamento público de Cuba. Que a Revolução Cubana foi belíssima e exemplar, ora, quanto a isso não há o que dizer. Mas e quanto aos paredões cubanos após a consolidação do regime? Seria possível defender a pena de morte em um regime supostamente socialista?

    Me preocupa sobremaneira a noção de que o socialismo seja não um meio para uma sociedade efetivamente racional, mas um fim em si mesmo como que para contrapor diques ao capitalismo que já tomou as fileiras do próprio sistema supostamente contraposto. (Socialismo ou capitalismo de Estado?) Se formos utilizar os países da América Latina como parâmetro, os índices sociais de Cuba são flagorosos. A social-democracia européia, no entanto, supera Cuba - a democracia européia que, ao lado de Cuba, também está em ruínas.

    Um bom texto para incitar a discussão seria "A alma do homem sob o socialismo", Luciano. Oscar Wilde elenca metas que o socialismo deveria impulsionar. A estetização da vida, a tomada coletiva dos meios de produção para que o homem fosse liberado do trabalho coercitivo. A efetiva sociedade racional. O fato é que os países do socialismo realmente existente elencaram o proletário como o ícone por excelência - o proletário não deveria ser negado em sua condição de trabalhar pela superação de seus grilhões?

    Enfim, entendo a postura do Dr. Sócrates. Admiro muito as posições cerradas em face do contexto com o qual ele tinha de lidar. Mas creio que precisamos entrever a problemática que cerca a experiência socialista. Seriam vários os pontos de discussão, mas nos centremos em algumas questões.

    Muito obrigado por mais esse belo comentário, Luciano. Apareça sempre no Subsolo das Memórias.

    Grande abraço,

    Flavião

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  10. Flávio,

    Admiro Sócrates não só por ser socialista, mas também por ser era amante da liberdade.
    Você tem toda razão. Um socialismo (ou "socialismo") com estado ditatorial e cuja igualdade é feita por baixo (todos iguais na pobreza) é questionável.
    Meu texto pecou por enfatizar demais o político. O que mais fascinava em Sócrates é a arte de fazer da vida uma arte. A vida é uma totalidade (embora fazemos distinções entre vida amorosa, vida profissional, vida estudantil, vida política, etc.) e o Doutor vivia a vida como totalidade.

    Grande abraço,
    Luciano.

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  11. Fala, Luciano!

    Então, tentei justamente enfatizar essa tensão "socrática": o princípio de realidade (e transformação) via Eros, o ímpeto pela vida, mas também o princípio de morte, o contraditório Tânatos.

    O Dr. Sócrates, a meu ver, incorporou ao longo da vida o bailado tenso e contraditório que chama a parca da morte rente ao próprio prazer. Ou Sócrates não estava consciente das conseqüências a posteriori em relação à embriaguez que não pode simplesmente perdurar?

    É curioso esse lance do carpe diem: o prazer enraizado no espaço tenta cristalizar a passagem do tempo. O tempo implacável que mostra no espaço do nosso corpo o julgamento que há de vir.

    Ah, Luciano, se Sócrates vivesse em outra época histórica, meu velho, não seria a cirrose que o mataria, não. Não a cirrose, mas a contra-revolução.

    Grande abraço,

    Flavião

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  12. Primavera, 2011.

    Boa tarde, Flávio!

    Retornei agora de um trabalho no Paraguai e encontrei seu texto, que sempre me faz sentir excêntrica com seus deslocamentos.
    Obrigada, por enviá-lo. Respondo este e-mail com cópia para vários amigos que, tenho certeza, apreciarão o texto, em que pesem serem corinthianos e orientados ideologicamente... KKKK
    Belo texto, justa homenagem!
    Abraço,

    Lu Tanno.

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  13. Olá, Luciene!

    Fico contente que você tenha gostado da homenagem ao já saudoso Dr. Sócrates.

    As viradas e vertigens do texto foram inspiradas no multifacetamento do Magrão, este grande ídolo com múltiplos posicionamentos, sejam de caráter político, esportivo e/ou artístico.

    Muito obrigado por encaminhar o texto a mais amigos, Luciene, espero que o Subsolo das Memórias os instigue também.

    Saudações corintianas,

    Flávio Ricardo

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