Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

sábado, 17 de dezembro de 2011

Quadros Parisienses II

Meus amigos,

Há pouco mais de 2 meses, o Subsolo das Memórias iniciou sua trajetória pelas alamedas francesas.

Como bem observou um assíduo amigo do Subsolo, Reinaldo Benjamin, estamos em busca das filigranas que compõem a história sub-reptícia dos locais que visitamos – e lemos.

Antes de continuarmos a escavar as alamedas da capital francesa, seria interessante retomarmos as duas jornadas já realizadas pelo Subsolo das Memórias em solo francês. Aqui vão elas a partir de seus respectivos links:

Palácio de Versalhes
http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2011/09/palacio-de-versalhes.html

Quadros Parisienses I
http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2011/10/quadros-parisienses-i.html

Esta semana, meus amigos, continuaremos a caminhar por Paris tentando entrever os interstícios da história contemporânea.

Um grande escritor-viajante, Jorge Luís Borges, bem pôde notar a diferença entre o belo em Genebra e em Paris. “Genebra tem o bom quinhão de poder ignorar a si mesma. Paris nunca se esquece de que é Paris”.

Pois a sentença de Borges nos dá o que pensar.

Se as promessas históricas da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão não foram cumpridas em seu caráter emancipatório – ou por outra, se o caráter emancipatório da Declaração dizia respeito às amarras que emperravam o livre desenvolvimento do ethos e da prática burguesas –, como fica a aura da Cidade-Luz quando seu apogeu se transforma em memória artística confinada em museus?

Não sei se conseguiremos chegar a uma resposta, mas certamente faremos novas perguntas em meio às fotonarrativas dos


Quadros Parisienses II


As veias abertas da arte contemporânea


"Tão bizarro quanto estranho... Eu diria mais: estranho..."
Eu diria ainda mais: bizarro...


O discreto charme da burguesia paulista
"Papai, papai, aquela não é a torre da Gazeta lá na Av. Paulista, papai?"


A arte contemporânea e os descendentes de Gulliver


O discreto charme da burguesia paulista
"Não, filhinho, aquela ali é a nova torre de transmissão da TV Bandeirantes, fica no Sumaré"


O discreto charme da burguesia - Parte I
Sade auscultou muito bem o silêncio austero que prenuncia as antecâmaras sodomitas


Entrada/Saída exclusiva para suicidas iminentes, favor não insistir
Obs: 15 euros para o espectador também pagante levar a carta de despedida à respectiva mãe e ao respectivo pai, se houver


14 de julho...


... de 1789


Mas será mesmo que a história humana erradicou o espírito da Bastilha de seu ethos?


Quem vê cara bem vê o (bom) coração ;-)
(O desejo sub-reptício desta foto só ficará claro quando chegarmos ao Moulin Rouge)


Regalo de Napoleão aos revolucionários parisienses sedentos pela liberdade do imperialismo


O discreto charme da burguesia paulista
"Papai, papai, eu prefiro o Arco do Triunfo que a prefeitura faz lá na Paulista em comemoração ao Natal, papai!"


Subsolo das Memórias


Mesmo o Colosso de Rodes sentiria vertigens (os franceses quase se envaidecem)


Para os amigos de Napoleão, tudo; para os inimigos prostrados, o Arco como o reverso do sorriso


Gargântula


21 anos depois, a pacífica região da Alsácia-Lorena seria objeto de disputa entre a França ajoelhada e o III Reich apenas eventual e visceralmente ressentido
Um tal de Adolf Schicklgruber chegou a mencionar o Tratado de Versalhes para tentar galvanizar o impecto revanchista de seu povo quiçá humilhado
"Papai, papai, quem é esse tal de Schicklgruber, papai?"
"Ninguém que tenha interferido no curso da história mundial, filhinho. Adolf Schicklgruber, também conhecido como Adolf Hitler, um velho amigo da França ocupada"


Trincheira


"Não temos nada a perder, soldados, a não ser a nossa própria inércia!"


O cristianismo, que jamais arregimentou soldados para guerras (mundanas), ressoa ainda uma vez as Trombetas de Jericó


"Papai, essa foto é repetida"


No teto da Capela de Michelangelo, os dedos de Deus e Adão não chegam a se encontrar
Napoleão e seu Arco do Triunfo só fazem dizer:
"E para que o encontro? Depois teríamos que pagar o dízimo. Fiquemos com o que é de César"


Inventário da Segunda Guerra Mundial
(O antigo granadeiro em questão prefere usar a luva alva para se lembrar dos três dedos que já não tem)


Colocação da policial que estava ao meu lado durante a homenagem:
"Não sei por que Sarkozy os homenageia. Afinal, eles assistiram ao desfile de Hitler sob o Arco do Triunfo, não assistiram?"


Moulin Rouge!
Enfim, Quixote e seus moinhos de vento reencontrarão Dulcinéia entre as tchecas, espanholas, brasileiras, colombianas, armênias, húngaras, finlandesas, holandesas, quiçá alemãs, romenas, albanesas, turcas, argelinas, argentinas, russas sobretudo, suecas, belgas, estonianas, letonianas, ucranianas, búlgaras, bielo-russas, portuguesas, dinamarquesas etc. etc. do etc.
(Filial parisiense - e, portanto, mais hipócrita - do Red Light District de Amsterdam)


Seria uma injustiça anti-internacionalista e algo xenófoba não mencionarmos as canadenses, as mexicanas, as mongóis, as chinesas, as iranianas excomungadas, as paraguaias, as venezuelanas antichavistas, as cubanas caridosas de Fidel, as afegãs renegadas de Bin Laden, as norte-americanas, as egípcias viúvas de Mubarak, as tchetchenas rivais das russas de Putin, as italianas viúvas do vovô Berlusconi etc. etc. do etc.
(Filial parisiense - e, portanto, mais cara - da ANTIGA Rua Augusta: in memoriam)


Sentinela


Antes pisar em ovos


Sentinela


Eis que encontraremos alguns pintores e, quiçá, um escultor algo histórico


O discreto charme da burguesia paulista
"Papai, papai, não parece a Estação da Luz, papai"
(O pai austero fica escandalizado:
"Será que a doida da minha ex-mulher levou o meu filho asséptico para perto da Cracolândia alguma vez?"


Bozo Pictures, através de Papai Papudo, informa a hora certa:
"Em Paris, 5 e 60"


Minha nunca se ajoelha


Frieiras após o calor intenso


Banho mensal parisiense


Chaves Pictures informa:
"Atualmente, Dona Clotilde vive em Paris"


O discreto charme da burguesia - Parte II
Bodas de Prata


Após a Revolução Francesa, Cristo foi enviado ao Brasil para ser um dos co-fundadores do SUS
Como a falta de verbas não permitiu a filmagem da Ressurreição de Lázaro Reloaded - Sônia Braga e Rita Cadillac disputaram a tapas, unhas e dentes o papel da concubina Maria Madalena -, Jesus traz boas novas para os pacientes do SUS:
"Calma, Seu José, não vai demorar, o senhor já vai morrer"


O discreto charme da burguesia - Parte III
Rocco, Baco e seu irmãos


Eis o que diz o credor de Vincent:
"Sr. Van Gogh, veja bem, não há a menor condição para um novo empréstimo. Ora, se até mesmo as suas personagens são inadimplentes, que dirá o senhor!"


O irmão de Theo:


Um...


... tal...


... de...


... Vincent...


... Van...


... Gogh


O mais dostoievskiano dos pintores


A tela traga, pinceladas como o punho rente que oprime o colarinho, o dedo em riste


Em mensagem que acabo de psicografar do espírito bêbado e andarilho de Van Gogh, chega-me um título reloaded para a tela em questão:
"A ética protestante sem o espírito do capitalismo
ou
Contribuição da América Latina ao capitalismo internacional"


Casalcova da mãe de Sade
(Presente do assíduo Vincent)


O discreto charme da burguesia - Parte de que já não me lembro, exceto por pertencer ao período de acumulação primitiva de capitais
Os colonizadores pediram a um exímio pintor que eternizasse as choupanas dos nativos de não sei que continente-mais-um-a-ser-pilhado antes que elas fossem incendiadas e antes que mesmo o espírito das indiazinhas fosse estuprado pelos descobridores quiçá sifilíticos


Faber Castell
"Incentive a reciclagem, nós sempre precisaremos de mais árvores de piranha"


Quando eu era pequeno, sempre achei que as coisas exteriores existiam independentemente do nosso olhar


Foi então que um pintor francês muito da minha predileção começou a dizer que não


Segundo ele, haveria uma catedral para cada matiz de incidência do sol


E assim eu virei um adepto do perspectivismo
(Até que recebi uma carta da Receita Federal dizendo que há apenas uma realidade para aqueles que caem na malha fina)


O discreto charme da burguesia - Parte sedenta
"Por que é que o Marquês demora tanto?"


"Ah, Sade, você nos deixa loucas!"


O discreto charme da burguesia
Parte Familiar (e/ou família pré-partida)
(Garçons, por favor, - sussurros em tempos democráticos: como ousam! -, dê-nos um momento em sua aparição pedinte)


Where the rainbow ends


Madame Mignon lê Boccaccio e seu pedagógico "Decameron", uma vez que o marido erudito a proibiu de ler - e exercer - os 120 dias de Gomorra, de um tal Marquês


Se o desejo sob o véu pudesse ser audível...
(Nietzsche já dissera que aquele que pudesse prever um rosto vinte anos mais tarde passaria pela vida incólume, isto é, jamais hipotecaria uma paixão)


A garagem de um tal de Sarkozy


NESTA BARBEARIA NÃO SE ACEITA FIADO
FAVOR NÃO INSISTIR


O charme nada discreto da burguesia


Juro a vocês: um passo a mais em direção à tela e é possível ser afogado pelas cores


Se a história humana fosse um pouco menos irônica, seria possível se entusiasmar com a primeira fase da Revolução Francesa antes de 1793 e, quiçá, antes do republicaníssimo Bonaparte, um tal de Napoleão


O discreto charme da burguesia
Da Riviera de São Lourenço para o balneário francês em 60 prestações
"Mimi, meu amor, leia para mim aquela parte em que a garotinha de 6 anos encontra o octogenário na casa festiva do Marquês, por favor!"


A classe operária (não) vai ao paraíso
"Só poderei encontrar Mimi quando o corno voltar do balneário. De qualquer modo, o dia 20 ainda demora pra chegar. Até lá, acho que vale a pena me calejar com o esse telecurso via Sade"


A crise dos EUA excepcionalmente informa:
"Por conta da greve dos atores de Hollywood que atinge toda a indústria cultural, excepcionalmente não exibiremos o Cisne Negro hoje à noite"


"Muito obrigado por cuidar das minhas frieiras, padre, não sei o que seria dos meus pezinhos sem o senhor! Deus te abençoe!"
"Por nada, minha filha, Cristo já nos ensinara o lava-pés"
"A propósito, padre, como vai o cancro mole, já sarou?"
"Não, minha filha, ainda não. E sua mãe, já se banhou com permanganato de potássio?"


O discreto charme da burguesia
Parte Terminal
Bodas de Ouro


"Se alguém pudesse prever o devir de um rosto 20 anos mais tarde, passaria pela vida incólume"


"Caramba, pessoal, isso não vale! A gente aqui envernizando esse chão, poxa, e depois jamais vão nos convidar pras festas que vão rolar aqui - e imagina o que vão fazer justamente sobre esse chão"
(Marx e Lukács estavam certos: é da opressão material que nasce a consciência de classe)


Sociedade dos Poetas Imortais


"De que me adianta ser bela se só esses querubins me fazem companhia?"


O indiscreto charme do proletariado
(Primeira propaganda de laqueadura de que se tem notícia)


Ainda visitaremos...


Em "Morangos Silvestres", Bergman erige uma belíssima metáfora da Morte - e da ausência paradoxal do tempo:
o velho e decrépito protagonista, em sonhos, vê através de seus olhos vazios um relógio sem ponteiros!


"Senhor, diga-me o que vê, por favor"
(A testa franzida sentencia: 5 de miopia)


Os óculos ou, se eles se foram (perdidos), a lente da câmera


"Isso, querida, aí mesmo, ai!, bom, muito bom, foi por isso que escolhi você, continue!"


"Não pare, querida, não pare!"
"Senhor Bovary, devo adverti-lo de que vou cobrar 100 euros a mais se o senhor de fato quiser que eu use unhas postiças"


Mensagem atrasada de um tal de Auguste a um tal de Honoré:
"Caro Honoré, não pude ir ao seu aniversário hoje. Sinto muito. Para compensar a minha ausência, pensei em enviar a você o singelo presente que segue com essa carta". (O entregador extenuado tenta levantar a estátua a todo custo.) "Por favor, aceite meu pedido de desculpas. Espero que minha lembrança, ainda que tardia, se materialize em minha franca homenagem. Parabéns pelos 40 anos, Auguste"
Só não consigo lembrar quem são Auguste e Honoré, meus amigos!


Ah, sim, lembrei:
uns tais de Honoré de Balzac e Auguste Rodin


Auguste manda outro bilhete, dessa vez a um aristocrata chamado Hugo
"Victor, meu caro, não seja miserável: terminarei seus braços assim que você amortizar a segunda parcela"


"Não queira perguntar quem eu sou"


Janta


Acabo de psicografar o título de Sade para a tela em questão
Parece que o Marquês diz que se refere a uma passagem dos evangelhos
EM PELE DE CORDEIRO
(O Marquês faz questão de que não haja reticências em seu título; ele diz que elas contradiriam a expressão do quadro que há muito não é reticente)


Os franceses e, sobretudo, os parisienses são profundamente coerentes em seu pragmatismo e em sua filosofia da história
LA PETITE MORT
(Como evitar o sorriso de soslaio, a ironia, que logo vai nos corroer?)


Um amigo da humanidade dá o seguinte grito-título em face desta tela:
AVALANCHEEEE!


Eis que os inimigos da ironia se exaltam!
"Enfim conseguimos capturar o pai fundador da deformação e da pilhéria!"


(Mensagem sub-reptícia aos anti-irônicos: voltem à foto anterior, meus amigos, e vejam que o escultor em questão estudou Da Vinci e sua Monalisa antes de terminar sua obra.)
VOLTAIRE
A persistência do sorriso de soslaio


"Papai, papai, eu acabei de aprender na escola a teoria do baricentro, papai!"


Teia


A arte moderna, em face do antigo palácio de Sua Majestade, pergunta:
Seria a tirania um mero atavismo?


A tirania empresarial responde:
"Não, não, somos apenas seus investidores, nada mais"
(Conferir no Dicionário de Capitalização o termo "mecenas" como anacronismo para "investidor")


"Mamãe, acabo de contar quantos triângulos estão aqui!"


"Exatamente 1789"


Gargântula


Se os japoneses armados até os dentes com suas câmeras-metralhadoras nos deixarem, flertaremos com a Monalisa


O artista em questão era bisneto do general de Napoleão que saqueou o Egito e a tumba de Cleópatra, daí o atavismo


Imaginem vocês a ousadia do mensageiro de Her Majesty ao pisar no sagrado solo parisiense para levar uma carta ao Messias Reencarnado, o rei DE França
"I am afraid I should like to tell You, Sir, that my humble country is on war against France"


Luís XIV sentencia:
"Além de eu ser o Estado, a partir de hoje, 14 de julho, é proibido chover enquanto eu estiver sob a minha peruca e enquanto o pó-de-arroz ainda não estiver devidamente impregnado em minha pele real. CUMPRA-SE!"
(Judas Iscariotes será o emissário, Kardec é chamado às pressas para fazer a ligação com o umbral)


Decreto de Luís XIV:
"Ordeno que seja possível caminhar sobre as águas diante do meu palácio. Se Cristo não concordar, diga que cortaremos a intermediação das cruzes e falaremos diretamente com o rei do Velho Testamento, isto é, favoreceremos os novos contratos não com as igrejas, mas com as sinagogas. CUMPRA-SE"
(Pedro e sua tripla negação serão os emissários)


Seria a arte moderna um anacronismo em face da tirania?


"Não sei, mas a pirâmide translúcida quiçá expresse menos um antagonismo e mais uma contigüidade" (mensagem que acabo de psicografar do antigo autor de "Cândido ou o Otimismo", um tal de Voltaire; ah, o criador do Doutor Pangloss nos manda ainda uma mensagem: lá no umbral, ao lado de um tal de Marquês de Sade e de seu exército de cortesãs, o título de seu livro teve que ser mudado para "Candidíase ou o Priapismo". (Sorte a deles haver um inusitado encontro com Pasteur e sua penicilina)


Antagonismo contíguo
(Subtítulo: para uma metafísica materialista da ironia histórica)


Sucessão ao trono


Ao lado da última janela à direita, o amigo dileto da rainha
"Louis está sempre tão ocupado, mon Dieu!"


O espírito de Salvador Dalí realizou uma inusitada psicografia de uma mensagem do espírito de Leonardo da Vinci:
"O segredo do sorriso da Monalisa talvez se encontra na quadratura do círculo ou então na dobra (?) e nas réplicas (?) da foto em questão - ou então esqueça o que eu disse e pinte rinocerontes voadores"


Sentinelas


Todos os caminhos levam a Roma (mensagem natalina do Vaticano parisiense)


"Não, não, Sr. XIV, todos os caminhos levam a mim"
Mensagem do Imperador Bonaparte ao mero rei Louis


Introdução aos Estudos do Ethos Arquitetônico Nacional
Aula 1: O gigantismo como expressão da nacionalidade
(e seus efeitos deletérios quando a nação já não dita mais nada)


O tutor ao pupilo:
"Nunca se esqueça dos investidores que, via de regra, envergam coturnos"


Arquinho do Triunfo


A falta de charme da burguesia (aqui as gengivas e os dentes afiados bem se mostram)
Os tataranetos dos pedreiros-construtores do Arco do Triunfinho foram convidados para a cerimônia de enésimo aniversário
(Mero detalhe o fato de haver rachaduras na base da construção: "senhores, contamos com o seu auxílio - enquanto eles estão sob uma lona imperceptível, a cerimônia pode ocorrer sem qualquer mélange)


O discreto charme da burguesia
Parte Paulistana
"Ei, Astolfo, eu vou apostar precisamente naqueles cavalos quando estivermos em nosso Jockey!"


Da próxima vez encontraremos Da Vinci e Delacroix


E, claro, a torre de transmissão da TV Bandeirantes, aguardem ;-)


Agora é sério: Burle Marx não fica atrás, não!


Os egípcios já impetraram 569.857.231 ações para que os franceses devolvam o obelisco subtraído pelas campanhas napoleônicas, mas a República da Bastilha diz que se trata de uma dívida de guerra
(O brasileiro Celso Furtado há muito nos ensinou: a vitória privatiza as conquistas; somente na derrota há a socialização das perdas)


"Papai, papai, me diga: vale a pena trabalhar para subir na vida, não é, papai?"


"Claro, meu filho, você não viu o belo obelisco que a França conquistou com tanto suor dos soldad..." (Não se sabe por que o pai não continuou a lecionar ao filho a "Pedagogia do Oprimido")


NÓS QUE AQUI ESTAMOS POR VÓS ESPERAMOS


Inequívoca morada


A religião e a síntese do religare


Esboço para um estudo histórico-literário:


Eram os franceses realmente menos antissemitas do que os alemães?
Como foi a vida da capital parisiense durante a ocupação nazista?
Houve efetivo cotidiano na capital francesa sob o punho de Hitler e seus pseudópodes burocráticos?
Que diria a ironia de Voltaire se pudesse ser psicografada naquela época?
Quem seria o pupilo do Doutor Pangloss então?

9 comentários:

  1. fala, flavião, td bom?
    e o neymar, hein? kkk
    passei uma semana em paris, em outubro. finalmente... tinha medo de me decepcionar com a cidade. ainda mais depois de experimentar momentos encantadores em florença, roma e veneza. e a realidade é que, embora paris não tenha sido uma total decepção, todos os dias me questionava se existe algo além dessa " memória artística confinada em museus?"
    ou então, em outras palavras, se existe algo além dessa memória artística confinada em cafés e restaurantes? A certeza é que a esquerda fetichiza esse lugar. Talvez exista algo interessante confinado em algum espaço privado da vida (burguesa) parisiense... deve existir, mas não conheci.
    Abs.

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  2. Fala, velho! Tudo bom com você?

    Bom, antes de eu fazer o papel de advogado do diabo e do advogado do advogado do diabo de Paris, me conta como é que tão as coisas, velho!

    Tenho muita vontade de conhecer Florença e Veneza, velho - o que você achou? Quantos dias ficou por lá? Conta algumas histórias de lá pra gente já ir se inspirando, velho :-) Ah, se der, manda algumas fotos. Você foi de avião de uma cidade para a outra ou pegou trem? Qual a distância? Quantas horas? (Interrogatório da Gestapo turística :-)

    Sobre Paris, bicho, concordo contigo em grande medida. Aliás, usando um exemplo atualíssimo, é como jogar com o Barcelona: ali há a aura da indústria cultural que te enfrenta bem antes de você entrar em campo. Você já chega na piana. Paris não consegue se esquecer de que é Paris, o Borges bem sentenciou. O esnobismo de fato é bem forte, se bem que eu tive experiências positivas com as pessoas com que tive contato. Rolaram uma situações engraçadas, no entanto. Quando eu falava inglês com o pessoal na rua pra pedir informações, eles me respondiam em francês. Agora, quando eu falava francês, eles me respondiam em inglês. "Como ousa querer romper a barreira da distinção?" Porra, os caras tiveram uma verdadeira indústria aristocrática, estamento social que não sobrevive sequer uma geração se não explorar o fator da distinção. (Nesse sentido a gente percebe a dialética de progresso e regresso da burguesia, o dinamismo do capitalismo em face do feudalismo, mas também o atavismo que cria novas formas de crueldade ao elevar a alturas jamais sonhadas pelos cortesãos a distinção como brutal desigualdade.)

    Agora, DaniBoy, não dá pra dizer que a cidade não é violentamente majestosa. Você já assistiu ao "Meia-noite em Paris", do Woody Allen? Não dá pra não mergulhar naquele lirismo, ainda que saibamos o quanto ele é residual. Claro, nascemos ou vivemos nessa cidade horrorosa que é São Paulo. Em Paris não há o Coringão. Necessariamente sentimos a ambigüidade dos brasileiros/paulistas lá na antiga capital do mundo. Mas eu me lembro de uma molecada indo visitar o Louvre como AULA DA ESCOLA! Você consegue imaginar isso, velho? Não dá pra gente cair naquele miserabilismo ou naquele perspectivismo de entrever a qualidade da alteridade. Ali a história aconteceu, se decidiu e, então, se espraiou.

    Digo a você que senti uma forte contradição quando estive lá. Como alguém que ama a arte, pude caminhar pelo belo sem me esquecer dos motivos belicosos que o fazem arquitetônico. O capitalismo é bem contraditório por lá nesse sentido, porque, bom, ainda que necessariamente transforme o valor de uso em valor de troca, ali há uma divisão do trabalho que cria consumo para a arte. Então você pode conviver com ela, você consegue conversar com pessoas não necessariamente pertencentes a esse nicho sobre os escritores, sobre pintura, sobre poesia. Pensemos agora em nossa terra da garoa ausente... É de matar, velho!

    Bom, bicho, apareça sempre, espero que esteja tudo legal com você!

    Grande abraço,

    Flavião

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  3. fala, flavião!

    eu tava falando de paris sem comparar com são paulo.
    me identifiquei muito com a paris de woody allen. o problema é quee não encontrei o carro que me levasse de volta para o passado, porque essa paris de 2011 é uma decadência da porra. fiquei no ibis da bastille, saca? aquele bairro é uma grande augusta/pça roosevelt... enfim, falando em woody allen, preciso conhecer nova iorque.
    acho que eu teria uma visão completamente diferente se eu tivesse passado mais tempo. é o tipo da cidade que requer tempo pra ser desvendada. e com certeza teria uma visão bem mais positiva se estivesse vinculado a uma universidade, ou seja, se tivesse lá na condição de estudante, desbravando a cidade, de metrô, a partir da universidade, da biblioteca, da relação com outros estudantes... enfim, cheguei encantado com a relação dos romanos com o espaço público, com o futebol, com a comida, com o vinho e, sobretudo, com o passado.

    abração!

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  4. PARTE I

    Fala, velho!

    Saquei o teu apego por Roma diferentemente de Paris. Bom, velho, Roma é um Brasilzão em certo sentido, né? Os caras são bastante carismáticos, tem todo aquele gestual da fala que não pede muito pra criar uma intimidade que pode ser desfeita a qualquer momento. E, bom, ali a história antiga pulsa efetivamente. Eu diria que Paris e Roma tão em outro patamar, no quesito histórico, em relação às outras cidades. Claro que, como morei lá em Moscou, essa relação de conhecer as ruas das cidades, ali, me é bem cara. Tenho muito mais envolvimento com a capital do Stálin do que chego a ter com São Paulo, pra dizer a verdade. Moscou me dava ímpeto de explorar, aqui em Sampa o que você acaba fazendo é guardar dinheiro pra explorar as poucas coisas interessantes possíveis para, quando sair de férias, vazar a contento :-( Mas a tensão tá justamente aqui: como você se sabe bem brasileiro, aí é foda abraçar o que tá lá na fora de fato. Você chegou a sentir algo assim, velho?

    Porra, bicho, vi uma série sobre o Leonardo da Vinci, da RAI, o canal de TV do castíssimo e esquerdíssimo Berlusconi, e fiquei pirando em Florença e Veneza. Daí veio a idéia: preciso conhecer essas cidades. Me conta mais sobre a tua estada lá. Claro que não vou ficar em hotéis, deve ser caro pra caralho. O bom e velho albergão da juventude will do for sure ;-) Você gosta da arte do renascimento, bicho? Como foi o lance de viver o passado dessa aura por ali? E, bom, claro que você tava com a esposa, hehehe, mas me conta mais sobre as italianas do norte, velho. Tô ligado que o pessoal ali do norte chega a ser mais fresco que os franceses quando o quesito é vestimenta. Tô certo?

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  5. PARTE II

    Quer dizer então que você também é um woody-allienista? :-) Bicho, taí um mestre sensacional! Agora eu diria o seguinte: acho, e apenas acho, porque também não fui pra lá ainda, que deve ser mais fácil encontrar a Paris histórica do que a Nova Iorque do Woody Allen. E me explico: a Paris histórica é justamente aquela que não quer se esconder de si mesma, que quer se mostrar, que mostra a pilhagem arquitetônico-artística a céu aberto, que fica ostentando aqueles Ns do Bonaparte quase em cada ponte, que mescla a Idade Média e suas vielas com as avenidas antibarricadas do Hausmann. Mas o Allen sempre faz um belíssimo contraponto entre o ethos americano da indústria cultural e aquela ambigüidade do baita artista e intelectual que tenta florescer o talento em meio às "idéias fora de lugar". (Nesse sentido, nós brasileiros temos muito a entender vivencialmente aquele deslocamento que o Allen sente; aliás, entendemos isso com matizes outros, porque aquele lance do "bem-sucedido" que o Allen sempre traz nos filmes assume contornos totalmente outros na nossa perversa Terra Brasilis.) Então, velho, seria uma coisa de escavar essa Nova Iorque do Allen por lá, tentar achar a Mia Farrow e a Diane Keaton entre os escombros daquele monte de painel de néon - e olha que não se trata da antiga Augusta, não, infelizmente :-0 (O que ouço dizer é que o nordeste americano é bem "progressista", democratas em peso, hehehehe, mas ali tá a intelligentsia dos caras, fora o Vale do Silício.) Será que tô projetando algo minimamente coerente? Que que você acha? Sei lá, eu acho o Allen uma pústula tão brilhante naquela indústria cultural de Hollywood, velho, que simplesmente não poderia imaginá-lo efervescendo em solo europeu. Ali ele estaria em lugar autóctone, à exceção de ser judeu e, com isso, reverberar novas contradições. (Coisa que ele nunca deixa de trazer pros filmes.) Você já deve ter visto essa tétrade que vou mencionar aqui, mas vale a pena conferir ainda uma vez (quiçá nessa ordem): "O sonho de Cassandra"; "Crimes e Pecados"; "Match Point"; "Interiores". Cada vez que eu pego algo novo do Allen, não acredito que ele vai conseguir explorar um novo matiz desses conflitos. E ele o faz. De qualquer forma, tem uma síntese da obra dele que é o "Melinda e Melinda". Ali a tragédia se entrelaça esteticamente com a comédia - como ele costuma fazer, há uma narrativa antes da narrativa em que os não-personagens-personagens discutem a estória dos personagens-personagens. Sensacional! (Fora isso, não poderia terminar sem dizer que, caramba, o cara usou muito bem a prerrogativa de diretor pra sempre escalar as mais lindas atrizes nos filmes, hein?)

    Manda notícias e, se possível, fotos da estada italiana, velho!

    Grande abraço,

    Flavião

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  6. Amigo Flávio,

    Agradeço-lhe a destacada referência a este frequente visitante do seu Subsolo das Memórias.

    Em que pese a racional consideração do observador Daniel Bianchi, reafirmo todo o meu encantamento por Paris, mais uma vez objeto deste belo "Quadros Parisienses II".

    Essa paixão é resultante não só da "memória artística confinada em museus", mas também por toda a monumentalidade paisagística e arquitetônica que retrata a época de fausto ali vivida, por uma privilegiada elite, em séculos recentes.

    Encanta-me, até, a região de "La Défense", onde se pretendeu erigir um complexo empresarial e comercial em moldes modernos (algumas vezes modernosos) da grandiosidade de metrópoles norte-americanas,
    quebrando a harmonia simétrica dos grandes "quartiers" tradicionais.

    Sou, eu mesmo, inconteste apaixonado pelas italianas Roma, Florença, Veneza, Milão..., erigidas na informalidade pré-Hausmann, mas não menos encantadoras e ricas - inclusive no quesito de "arte confinada em museus".

    No meu entendimento, a mais flagrante diferenciação entre Paris e as mencionadas cidades italianas é creditada à espontaneidade e alegria dos habitantes da "bota", enquanto os franceses são uma gente menos receptiva. Isso ocorre, algumas vezes, num mesmo país como - ainda falando de Europa - Espanha, onde os elegantes madrilenhos são bem mais fechados que os bascos da encantadora Barcelona.

    Sem qualquer contestação, apenas registro pontos de vista pessoais. Bom mesmo é viajar!!!

    Pra não perder o embalo, já que se falou em Woody Allen, acrescente à sua coleção "Manhatan", um grande hino de louvor a New York.

    Grande abraço,

    Reinaldo Benjamim

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  7. Grande Reinaldo! Tudo bom?

    Belíssimo comentário - devo dizer, o mais profícuo que você já trouxe ao Subsolo.

    Aqui há uma fusão entre a sua erudição e as vivências de viajante tarimbado. Fiquei muito instigado com as suas colocações sobre Florença e Veneza. Caramba, devem ser cidades magníficas! Juro que fiquei extasiado quando vi aquele documentário do Leonardo da Vinci que mencionei. Uma época que me fascina pelo fato de os grandes artistas não terem diante de si o esfacelamento das esferas intelectuais em estrita divisão do trabalho. Basta ver a extensão dos interesses e desenvolvimentos de um Leonardo da Vinci. Há alguns dias assisti a um filme sobre Cristóvão Colombo, Reinaldo, e, mais uma vez, o renascentista me estarreceu: a cidade de San Salvador foi fundada por Colombo segundo o planejamento arquitetônico de Da Vinci.

    São reações que já não encontramos mais: Rafael, ao vislumbrar o teto da Capela de Michelangelo, simplesmente desmaiou. Um envolvimento e uma entrega que conferiam uma aura à arte e à feitura urbana. Como Oscar Wilde tentou entrever em seu "A alma do homem sob o socialismo", seria preciso superar a sociedade aristocrática da Renascença para que aquela pujança fosse socializada para além da corte. Essa seria a missão histórica do socialismo - espraiar o belo, sempre segundo Wilde, para além de uma elite que pisa sobre as costas daqueles a quem só cabe a reprodução. Infelizmente, já conhecemos a derrocada histórica de tal projeto. E acompanhamos, cotidianamente, a mediocrização mais aterradora dos padrões de fruição artísticos. A massificação os transforma em sucedâneos do entretenimento.

    Veja que uma colocação como a sua, Reinaldo, que contextualiza Florença e Veneza em comparação com o cartesianismo parisiense de Hausmann, ora, requer a vivência - infelizmente para poucos - e a erudição - para ainda mais poucos dentre os poucos que a ela têm acesso.

    Uma vez, em curso ministrado no primeiro semestre desse ano que se vai, um aluno fez uma colocação que considerei bastante emblemática. Além de mim, havia dois outros professores no curso. Um deles mostrava posições bastante conservadoras em relação à sociedade. E justificava o desenvolvimento artístico justamente pela diferença de classes. (Algo condenável, a meu ver, por si mesmo.) Mas o aluno então replicou: "Mas, Fulano" (chamemo-lo pelo nome genérico), "a elite paulistana não se incomoda, por exemplo, de precisar ir ao Jardins, mas não sem antes se esquivar dos invasores do Itaim Paulista? Qual o glamour de se tomar vinho e de se comer queijo suíço sobre palafitas periféricas que nem esgoto têm? Não é uma forma algo mórbida de distinção social?"

    A meu ver, esse aluno sintetizou de forma brilhante a exclusão étnica e social própria ao Brasil. E o que me dá uma esperança, Reinaldo, é conhecer pessoas que, como você, têm uma condição tranqüila, mas não fazem a vida orbitar em função daquilo que procurei chamar de "o discreto charme da burguesia paulista", em alusão tensa ao Buñuel e sua iconoclastia.

    Mudando um pouco de assunto: caramba, Madri e Barcelona são os focos! (Ainda mais depois da surra que o Santos levou no domingo.) A preparação será não sem muita ansiedade, Reinaldo - aguarde pedidos de dicas ;-)

    Um abraço, meu amigo,

    Flávio Ricardo

    P.S.: "Manhattan" é sensacional - e devo dizer uma coisa: queria eu ser diretor de cinema e escolher as mulheres mais belas e talentosas assim como faz o mestre Allen. E o lance é que, como ele parece ser um baita cara bonachão e gente fina, não duvido que tenha havido algo com as musas, não.

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  8. roma e florença têm muita coisa em comum, inclusive hotéis baratos, com cara de pensão. veneza parece artificial em alguns momentos, mas é fantástica. no final de semana te envio umas fotos (se bem que é natal, né?)
    woody allen é bem melhor que nova iorque e paris!
    abração :)

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  9. DaniBoy, meu velho, aí é que são elas...

    Seria muito melhor se você tivesse dito o contrário: Paris e Nova Iorque são melhores do que Woody Allen.

    Não pelo fato de se depreciar a ficção desse brilhante cineasta, mas por conta da realidade que pulsaria por si mesma.

    Daí eu sinto uma tensão que beira o desespero quando penso na epígrafe do "Minima Moralia", de um tal de Teddy Adorno :-)

    "Life does not live".

    É e não é um chamamento à vida, dialeticamente.

    Se a vida não vive, a vivência efetiva cabe ao sujeito e à tentativa de transformação da sociedade assim socializada. Aqui o pólo do "sujet" como sujeito.

    Mas o fato de a vida não viver por si mesma também implica que o movimento totalizante da reificação postula inércias objetivas e subjetivas que não dependem imediatamente da vontade. Nesse caso, acentua-se o pólo do "sujet" como súdito.

    Me vem à cabeça, sem dúvida, a tensão do Nietzsche - e do próprio Adorno. Afinal, qual o sentido do Criador criado, o Zaratustra, senão a alienação da potencialidade de vida para um super-homem que o pensador via exaurir-se a cada dia? (E aqui eu falo da doença terminal do pensador tanto quanto menciono a história objetiva - em alguém que viveu o espírito da época como Nietzsche, me parece que esses polos não são claramente discerníveis.)

    O Adorno teve praticamente a vida que quis. (Claro que não podemos nos esquecer do exílio, Deus meu!) E muito da fruição dolorosa dele vem do rompimento com o cinismo de um Schopenhauer. (Se você já leu o "Aforismos para a sabedoria da vida", vai se lembrar de que é bem curioso o estoicismo reloaded do Schopenhauer em meio a uma época que almeja a ruptura das classes e propugna pela igualdade. Daí o cinismo, porque ser estóico ao lado do Sêneca romano, quando os demais são meros dorsos prostrados, é uma coisa; ser estóico diante do proletariado, velho, é bem outra.) Essa tensão rasga a obra do Adorno. E é curioso ver como ele se reporta pendularmente às classes com quem dialoga - na verdade, nunca poderia dialogar com os subtraídos. Ao se postar diante do ethos burguês, ele retoma historicamente o aristocratismo que o socialismo deveria universalizar. Ali é plenamente defensável, para Adorno, o antitrabalho, o não-trabalho. Mas não poderia deixar de transparecer a base material que permite o ócio da vida sobrelevada.

    Esse transcurso todo para voltarmos à dicotomia - que, caramba, não deveria ser dicotômica! - entre realidade e imaginação, entre coação e vocação.

    Nem preciso mencionar quantas vezes já falamos sobre tudo isso, né, velho? Mas agora já dobramos o Cabo da Boa Esperança de Balzac - trintão na veia! -, a coisa já tá bem mais clara do que nos primórdios da Sociais, né? Mais clara e mais cínica - e aí vem a velha questão: não é uma boa postura moral tomar o cinismo pra si e considerá-lo em parte subjetivo, ainda que se saiba que o componente de totalização é objetivo?

    Aqui o cristianismo e o socialismo deveriam dar as mãos.

    Deveriam...

    E aqui vem nossa dissidência sobre a necessidade do sofrimento na vida.

    Acho isso bem perigoso - resignado, pró-status quo e, bem rente, reacionário, beirando o quietismo total em relação à realidade.

    Que um cara da classe média diga isso, bom, nada de novo no front (brasileiro).

    Mas que um pobre não apenas sofra isso nas costas, mas também legitime essa parada, caralho, isso é muito foda!

    Mas eu ainda gostaria de pensar - ainda que, artisticamente, jogue os polos um contra o outro - que a realidade pode ser superior à ficção em dados momentos. Totalizar esses momentos seria a vivência mais retilínea da neurose - ou da psicose. Do contrário, não estaríamos nessa sociedade, mas em uma outra que maximizasse possibilidades de o feio não ser uma segunda natureza.

    Putz, fui indo e indo, você sabe o quanto o tema me é caro - aliás, CARO, mesmo, porque essa merda faz custar a VALER!

    Grande abraço, velho, manda as fotos!

    Flavião

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