Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Algo de novo no front, por Vasily Grossman


Meus amigos,

Há alguns meses, me deparei com um livro que não pôde abandonar o subsolo de minhas memórias desde então. Ventosas insistentes me diziam que um dia eu iria resgatá-lo. Tomei nota de suas referências em mais um daqueles papéis-vestígios, escombros que inevitavelmente se avolumam sobre a mesa e dentro das gavetas do leitor contumaz – e sem muito tempo.

Eis que, há pouco mais de uma semana, fui pegar uns livros na biblioteca da faculdade. Biblioteca na iminência de uma grande reforma, caixas de livros empilhadas, o semblante da evacuação. Minha lista de livros estava pronta, os números de tombo devidamente perfilados, mas eis que, antes de me dirigir às prateleiras cheias de pó e espirros, eu insisto em encontrar algo de novo no front de prateleiras outras que perfilam as novas aquisições da biblioteca.

Pois foi lá que Vasily Grossman, o brilhante escritor soviético, voltou a me intimar.

– I want you for the US Army!


Um escritor na guerra:
Vasily Grossman com o Exército Vermelho, 1941-1945
(Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2008)

O leitor, muitas vezes, não têm a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento paulatino do estilo do escritor. A obra supostamente pronta entre a capa e a contracapa tende a ressoar o Canto de Circe de que o estilo e a sensibilidade aguçados e afiados – co-incidências literárias, vale dizer – pairam hirtos e invulneráveis como um encouraçado pronto a rechaçar tudo aquilo que lhe fizer frente.

A prosa frenética e alquebrada de Grossman sentencia que não. Prosa que tateia por entre os assovios das ogivas. Prosa poética que não sabe se o pé direito terá guarnição após o pé esquerdo sentir sob o coturno a rugosidade de uma mina. O dostoievskiano Vasily Grossman tenta captar o humano como se o fio da corda pênsil sobre a qual nos sustentamos fosse a lâmina de uma navalha que só nos faz recordar que ainda há um revólver contra a têmpora e que ainda precisamos disputar com os morteiros cegos a carne crua de um cavalo recém-abatido e estirado sobre um companheiro de armas que já não vai mais sentir fome.

Grossman acompanhou a evolução tensa, errante e errática do Exército Vermelho contra a metástase nazista no front oriental. Os escombros literários de Grossman descreveram a Ucrânia em chamas, as janelas vazias de Stalingrado, o corredor polonês de Treblinka. O judeu Vasily Grossman não pôde batizar o holocausto – Ióssif Vissariónovitch Djugachvíli, também conhecido como Stálin, não queria que fosse feito proselitismo com as vítimas do nacional-socialismo. O engenheiro georgiano do Gulag sabia que a morte é o fenômeno mais democrático de que já se teve notícia: não discrimina nacionalidade, cor, credo, sexo e filiação partidária. Apenas precisa ser estatisticamente indiferente.

Desde que peguei o livro em mãos, uma sensação contraditória passou a me tomar – uma sensação furiosa e autofágica que reencontrei entre o ímpeto de descrição cirúrgica do escritor que marchava rente às explosões e seu apego à sobrevida – apenas para poder escrever mais, apenas para continuar a publicar seus textos no jornal Estrela Vermelha para continuar a dissecar a guerra aos moscovitas em polvorosa. Uma sensação de que a leitura incessante me faria, ao fim e ao cabo, abandonar as trincheiras que já haviam moldado minha apercepção do cotidiano. Passei a sentir uma forte dubiedade diante de minha sala em ordem, as almofadas sobre o sofá, o gato que teimava em não cair da sacada, a planta em silêncio cúmplice, o leite não derramado que insistia em se contrapor à resistência das natas.

Onde estariam os escombros de Stalingrado? Será que somos culpados por termos sobrevivido ao corredor polonês de Treblinka? Senti euforia e raiva por ainda não ter nascido. Por que você não escreveu a estória sem fim, Grossman? Deve haver mais rostos a serem escavados pelas crateras das bombas incendiárias! Será que não há o vestígio de um sorriso sob a ausência côncava do cadáver que a palha da trincheira acaba de tornar indelével? Você viu aquela foto do soldado recém-casado, Grossman? Diga à bela esposa moscovita que Stalingrado acaba de sentenciar um divórcio litigioso.

Poucas leituras efetivamente emparedam o leitor como se ele estivesse em uma cidadela cuja única escapatória fossem os dutos subterrâneos do esgoto. Poucas leituras esgarçam os nervos como se fôssemos cordas estioladas de um violino que já não pode ressoar senão a dissonância da artilharia antiaérea ou o estrondo da bateria antitanque. Meu travesseiro se tornava uma barricada sempre que o 6º Exército de Hitler parecia encontrar forças atávicas para conter a expansão dos Vermelhos.

Se o melhor lugar é justamente onde não estamos, eu gostaria de rasgar o tempo e hastear uma bandeira soviética sobre o Reichstag em Berlim – não sem antes grafitar as paredes com letras cirílicas que, até hoje, permanecem contras as paredes do parlamento berlinense como uma lembrança dolosa e ressentida da derrota.

Não, não, pensando bem, eu não poderia estar em Berlim em 1945. (Ainda faltava um ano para a minha mãe nascer.) Mas não importa, Grossman me conduziu até a capital do Reich. O Portal de Brandemburgo se tornou um suporte para barricada de sacos de areia e tábuas de madeira tetânica; o Portal de Brandemburgo se tornou uma moldura mórbida para enquadrar os escombros da Avenida Unter den Linden que um dia marchara em um só corpo sob a suástica que hoje mimetiza à perfeição os corpos esquartejados.

Que estas palavras resgatadas a esmo de uma leitura que (não) me fez sobreviver possam transmitir a tensão que a escrita de Grossman e a ofensiva do Exército Vermelho me trouxeram. A partir de agora, convido vocês a descobrirem se realmente há


Algo de novo no front, por Vasily Grossman


“O cheiro habitual da linha de frente – uma mistura de necrotério e serralheria”.

“Crianças estão brincando em montes de areia colocados ali para apagar bombas incendiárias”.

“Bombardeio em Gomel. O forte cheiro de perfume – de uma farmácia atingida pelo bombardeio – bloqueou o mau cheiro dos incêndios, só por um instante”.

“A imagem de Gomel em chamas nos olhos de uma vaca ferida”.

“Contaram-me como, depois que Minsk começou a arder, homens cegos do lar de inválidos caminharam pela estrada em uma longa fila, amarrados uns aos outros com toalhas”.

“Um soldado do Exército Vermelho está deitado na grama depois de uma batalha, dizendo para si mesmo: ‘Animais e plantas lutam por sua existência. Seres humanos lutam por supremacia’”.

“Uma longa estrada. Carruagens, pedestres, filas de carroças. Uma nuvem de poeira amarela sobre a estrada. Rostos de homens e mulheres idosos. O condutor Ivan Kuptsov estava sentado sobre seu cavalo a 100 metros de sua posição. Quando teve início um recuo e só restava um canhão, as baterias alemãs lançaram uma chuva de balas mas, em vez de galopar para a retaguarda, ele correu até o canhão de campo e o retirou de um pântano. Quando o oficial do Departamento Político perguntou como ele tivera coragem para aquele ato de bravura diante da morte, Kuptsov respondeu: ‘Eu tenho uma alma simples, tão simples quanto uma balalaica. Ela não tem medo da morte. Aqueles que têm almas preciosas é que têm medo da morte”.

“Depois de um ataque bem-sucedido a uma coluna alemã, os caças voltaram e aterrissaram. O avião de comando tinha carne humana presa no radiador. Isso porque um avião de apoio havia atingido um caminhão com munição que explodiu exatamente no momento em que o avião de comando estava passando sobre ele. Poppe, o líder, está retirando a carne com uma pasta de arquivo. Eles consultam um médico que examina a massa de sangue atentamente e declara que é ‘carne ariana’. Todos riem. Sim, um tempo sem piedade – um tempo de ferro – chegou!”

“O fundo de uma trincheira alemã está forrada de palha. A palha conserva a forma de corpos humanos”.

“O sempre mutável senso de perigo. Um lugar parece assustador de início, mas depois você se lembra dele como sendo tão seguro quanto seu apartamento em Moscou”.

“Henkels e Junkers estão voando à noite. Espalham-se entre as estrelas como parasitas. A escuridão do espaço é coberta por seus zunidos. Bombas estão caindo. Vilas estão se incendiando em toda parte. O céu negro de agosto se torna mais leve. Quando uma estrela cai ou quando há um trovão durante o dia, todos ficam assustados, mas em seguida riem. ‘Isso vem do céu, do verdadeiro céu’”.

“Pensar nas cidades agora ocupadas que se visitavam antes é como se lembrar de amigos que morreram”.

“Uma mulher idosa diz: ‘Quem sabe se Deus existe ou não? Eu rezo para Ele. Não é uma tarefa difícil. Você o cumprimenta com a cabeça duas ou três vezes e quem sabe talvez Ele o aceite”. [Adendo simultâneo de Nietzsche e Ivan Karamázov: “Ou talvez não...”]

“Um menino fica chorando a noite inteira. Ele tem um abscesso em sua perna. Sua mãe fica sussurrando para ele tranqüilamente, acalmando-o: ‘Querido, querido’. E uma batalha noturna está trovejando do lado de fora da janela deles”.

“O major Guron recebeu uma carta de sua mulher. Como estava com trabalho naquele momento, rapidamente pôs a carta fechada de lado. Ele a leu mais tarde e então disse com um sorriso: ‘Eu não sabia se minha mulher e meu filho estavam vivos ou mortos; eu os deixei em Dvinsk. E agora meu filho me escreveu: ‘Subi no telhado durante um ataque aéreo e atirei nos aviões com um revólver’. Ele tem um revólver de madeira”.

“No bunker do inimigo – no Eixo Ocidental. Trincheiras alemãs, fortalezas, bunkeres de oficiais e de soldados. O inimigo esteve aqui. Há vinhos franceses e conhaque; azeitonas gregas, limões cuidadosamente espremidos, de seu ‘aliado’, a submissa e obediente Itália; um jarro de geléia com um rótulo polonês, uma lata de peixes em conserva – imposto da Noruega; um balde de mel da Tchecoslováquia. E fragmentos de munição soviética estão no meio do banquete fascista. Os bunkeres dos soldados são uma visão diferente: aqui não se verão caixas de chocolates vazias e restos de sardinhas. Há apenas latas de ervilha e pedaços de um pão tão duro quanto ferro fundido. Pesando na palma das mãos, esses pães são semelhantes a asfalto tanto na cor como na densidade. Soldados do Exército Vermelho riem e dizem: ‘Bem, irmão, este é pão de verdade!’”

“Soldados estão se movendo no escuro. Uma menina corre para vê-los: ‘Para procurar meu irmão’. Ela parece uma boneca, com um rosto redondo, olhos azuis e lábios de boneca. Esses lábios dizem o seguinte sobre uma menina de um ano que está chorando: ‘Vai ficar tudo bem se ela morrer. Uma boca a menos’”.

“Eu achava que já havia visto uma retirada, mas nunca tinha visto qualquer coisa parecida com o que estou vendo agora e nunca poderia imaginar alguma coisa desse tipo. Êxodo! Êxodo bíblico! Veículos estão se movendo em oito pistas, há o rugido violento de dezenas de caminhões tentando arrancar suas rodas da lama ao mesmo tempo. Enormes rebanhos de carneiros e vacas são conduzidos pelos campos. Eles são acompanhados por trens e carroças puxadas por cavalos, há milhares de carroças cobertas com pano de saco colorido, verniz, latas. Nelas há refugiados da Ucrânia. Também há multidões de pedestres com sacos, trouxas, malas. Isso não é uma enchente, não é um rio, isso é o lento movimento de um oceano fluindo, fluxo de centenas de metros de extensão. Cabeças de crianças, claras e escuras, despontam de tendas improvisadas que cobrem as carroças, bem como as bíblicas barbas de judeus idosos, os xales das camponesas, os chapéus de tios ucranianos e as cabeças de cabelos negros das meninas e das mulheres judias. Que silêncio em seus olhos, que ampla tristeza, que sensação de destruição, de uma catástrofe universal! Ao entardecer, o sol surge entre nuvens de múltiplas camadas azuis, negras e cinzas. Seus raios são longos, esticando-se do céu até o chão, como em pinturas de Doré que retratam essas cenas bíblicas assustadoras quando as forças celestiais atingem a Terra. Esse movimento de idosos, de mulheres carregando bebês em seus braços, de rebanhos de carneiros e carroças, parece, em meio a esses amplos raios amarelos de sol, tão majestoso e tão trágico. Há momentos em que sinto com total vivacidade como se tivéssemos sido transportados de volta no tempo até a era das catástrofes bíblicas. Todos ficam olhando para o céu, mas não porque estejam esperando o Messias. Estão atentos aos bombardeiros alemães. De repente há gritos: ‘Aí estão eles!’ Estão chegando, estão vindo diretamente para nós!’ Dezenas de barcos aéreos estão deslizando no céu, lenta e suavemente, em colunas triangulares. Estão se movendo em nossa direção. Dezenas, centenas de pessoas sobem nas laterais dos caminhões, pulam para das cabines, correm em direção à floresta. Todos estão tomados pelo pânico, a multidão em correria está aumentando a cada minuto. E então todos ouvem a voz estridente de uma mulher: ‘Covardes, covardes, são apenas aves voando!’ Confusão”.

“Geada severa. A neve está rangendo. O ar gelado faz com que se prenda a respiração. As narinas colam uma na outra, os dentes doem de frio. Os alemães, completamente congelados, estão estendidos nas estradas por onde avançamos. Seus corpos estão absolutamente intactos. Nós não os matamos, foi o frio. Brincalhões põem os alemães congelados de pé, ou de quatro, formando grupos de esculturas intrincados e estranhos. Alemães congelados permanecem com os punhos erguidos, com os dedos separados. Alguns parecem estar correndo, suas cabeças encolhidas nos ombros. Eles estão com botas rasgadas, sobretudos finos, camisetas que não conservam o calor. À noite, os campos de neve parecem azuis sob a lua clara, e os corpos escuros dos soldados alemães congelados estão de pé na neve azul, colocados ali pelos brincalhões”.

“Em uma clara manhã fria, izbás [chalezinhos rústicos] produzem fumaça como navios de batalha no porto. Não há vento nenhum, nem brisa, e várias dezenas de colunas de fumaça permanecem como suportes entre a neve branca do chão e o céu de um azul cruel”.

“Imediatamente depois do fim de uma batalha, uma multidão de mulheres correu para o campo, para as trincheiras alemãs, para apanhar suas cobertas e seus travesseiros”.

“Um homem ferido:
– Camarada major, estamos tendo uma briga furiosa aqui. Posso falar com o senhor?
– O quê? O quê? – O major está alarmado.
– Bem, estávamos discutindo se a Alemanha ainda vai existir depois da guerra”.

“Um homem idoso estava esperando os alemães chegarem. Pôs uma toalha na mesa e arrumou ali diferentes alimentos. Os alemães vieram e roubaram e saquearam a casa. O homem idoso se enforcou”.

“O comandante do regimento Kramer. Ele bate em alemães diabolicamente. Quando ficou doente durante uma batalha e teve uma febre de 40 graus, puseram água fervente em um barril, esse homem gordo entrou no barril e se recuperou”.

“Lua sobre o campo de batalha coberto de neve”.

“Marusya, a operadora de telefone. Todos a elogiam, todos a conhecem. Ela chama todo mundo pelo primeiro nome e sobrenome. Todos a chamam: ‘Marusya, Marusya!’ Ninguém jamais viu seu rosto”.

“Um alemão capturado em um trem-hospital. Ele precisava de uma transfusão de sangue para salvar sua vida. Gritou: ‘Nein, nein!’ (Não queria receber sangue eslavo.) Morreu três horas depois”.

“A noite fria é de uma beleza inexplicável. É quieta e clara. A lenha está estalando nas cozinhas de campanha. Os soldados de cavalaria estão conduzindo os cavalos. No meio da rua, uma menina está beijando um cossaco e chorando. Ele se tornou sua família nos últimos três dias. Para essa garota da vila de Pogorelovo, perto de Kursk, ele se tornou seu”.

“Um maravilhoso canhoneiro em sua bateria, que tem lutado desde o primeiro dia da guerra, foi morto por um fragmento de bala enquanto ria. E ali está ele, estendido, rindo, morto. Ele fica ali durante um dia e mais outro dia. Ninguém queria enterrá-lo. Estão todos com preguiça. A terra está dura como granito por causa do frio. Ele tinha camaradas ruins. Eles não enterram os corpos! Deixam os homens mortos para trás e vão embora. Não há destacamentos para enterros. Ninguém se importa. Eu informei ao posto de comando da linha de frente sobre isso em uma mensagem em código. Que asiáticos loucos e sem coração! Como é freqüente ver soldados de reserva que chegam à linha de frente e reforços enviados a locais de batalha recentes caminhando entre soldados mortos. Quem consegue ler o que se passa na alma desses homens que avançam para substituir aqueles que estão estendidos na neve?”

“É bom lutar ao amanhecer. É como se estivéssemos indo para o trabalho. É um pouco escuro e se podem ver suas posições por causa dos projéteis traçantes, e quando invadimos uma vila, já está claro”.

“A volta a Moscou teve sobre mim um efeito profundo – a cidade, as ruas, os bulevares são como rostos de pessoas queridas”.

“Macieiras secas estão cinzas, mortas como cruzes de sepulturas”.

“Stalingrado está incendiada. Eu teria que escrever demais se quisesse descrevê-la. Stalingrado está incendiada. Stalingrado está envolta em cinzas. Está morta. Pessoas estão em porões. Tudo está queimado. As paredes quentes dos prédios são como corpos de pessoas que morreram no terrível calor e ainda não esfriaram”.

“O prédio de um hospital infantil com um pássaro de gesso no telhado. Uma asa está quebrada, a outra, estendida para voar. O Palácio da Cultura: o prédio está preto, aveludado pelo fogo, e duas estátuas de nus brancas como a neve se destacam diante do fundo negro”.

“É preciso ser honesto. Naqueles dias cheios de ansiedade, quando o estrondo dos combates podia ser ouvido nos subúrbios de Stalingrado, quando à noite se viam foguetes disparados ao longe e pálidos raios azuis de refletores vagavam pelo céu, quando os primeiros caminhões, desfigurados por estilhaços, transportando os feridos e os pertences dos postos de comando que recuavam apareceram nas ruas da cidade, o medo abriu caminho em muitos corações, e muitos olharam através do Volga. Para essas pessoas, parecia que elas não tinham de defender o Volga, parecia que o Volga é que tinha de defendê-las”.

“Um soldado com um fuzil antitanque está conduzindo um enorme rebanho de carneiros pela estepe”.

“Chegamos a Stalingrado logo depois de um ataque aéreo. Incêndios ainda estavam soltando fumaça aqui e ali. Nosso camarada de Stalingrado que nos acompanhou nos mostrou sua casa incendiada. ‘Aqui era o quarto das crianças’, diz ele. ‘E aqui ficava minha estante de livros, e eu trabalhava naquele canto, onde estão agora aqueles canos retorcidos. Minha mesa ficava aqui’. Era possível ver os esqueletos curvados das camas das crianças sob uma pilha de tijolos. As paredes casa ainda estavam quentes como o corpo de um homem morto que não tivera tempo de esfriar”.

“Neste silencioso entardecer, o belo pôr do sol róseo parece muito melancólico através das centenas de olhos vazios das janelas”.

“Entramos em uma casa destruída. Os habitantes do prédio estavam jantando, sentados a mesas feitas de tábuas de madeira e caixas, crianças estavam soprando uma sopa quente em suas tigelas”.

“Sentença. Execução. Eles tiraram suas roupas e o enterraram. À noite, ele voltou para sua unidade, com suas cuecas encharcadas de sangue. Atiraram nele novamente”.

“De repente, uma coluna de água azulada, alta e fina, formou-se a cerca de 50 metros da barca. Imediatamente depois, outra coluna surgiu e caiu ainda mais perto, e, em seguida, uma terceira. Bombas explodiam na superfície da água, e o Volga estava coberto de feridas espumantes dilaceradas; fragmentos começaram a atingir os lados da barca. A essa altura, balas de fuzis já haviam começado a assoviar sobre a água”.

“Houve um momento terrível em que um obus de grande calibre atingiu o lado da pequena barca. Surgiu uma chama, fumaça preta encheu a barca, uma explosão foi ouvida e, imediatamente depois, um grito se anunciou, como se brotasse desse trovão. Milhares de pessoas viram imediatamente os capacetes verdes dos homens nadando no meio dos escombros de madeira que balançavam na superfície da água”.

“Aqui, onde o significado de medida mudou, onde o avanço de apenas alguns metros é tão importante quanto o de muitos quilômetros sob condições normais de batalha, onde a distância para o inimigo sentado em uma casa vizinha é às vezes contada em dezenas de passos”.

“Latas vazias, granadas, granadas de mão, um cobertor manchado de sangue, páginas de revistas alemãs. Nossos soldados estão sentados entre corpos, cozinhando em um caldeirão pedaços cortados de um cavalo morto e esticando suas mãos congeladas em direção ao fogo”.

“Está descendo gelo pelo Volga. Pedaços de gelo flutuante estão murmurando, desintegrando-se, comprimindo-se uns contra os outros. O rio está quase todo coberto de gelo. Só de vez em quando se vêem partes de água nessa ampla faixa branca que flui entre as escuras margens sem neve. O gelo branco do Volga está carregando troncos de árvores, madeira. Um grande corvo permanece de cara feia sobre um pedaço de gelo. Um soldado do Exército Vermelho, morto, com uma camisa rasgada, passa flutuando. Homens de um barco de carga a vapor o retiram do gelo. É difícil arrancar o homem morto do gelo. Ele está enraizado ali. É como se não quisesse deixar o Volga, onde lutou e morreu”.

“O sol nasce sobre centenas de trilhos de trem sobre os quais vagões-trem estão estendidos como cavalos mortos, com suas barrigas rasgadas abertas; sobre os quais centenas de vagões de carga estão comprimidos uns sobre os outros, destruídos pela força de uma explosão e amontoados em torno de locomotivas frias como um rebanho em pânico se aconchegando em torno de seus líderes”.

“Passamos por uma pilha de lixo de metal cor de fuligem, passamos por colossais conchas de fundição ao longo das quais o aço escorre, passamos por chapas de aço e paredes quebradas. Soldados do Exército Vermelho estão acostumados com a destruição aqui, então eles não conseguem notar nada disso. Pelo contrário, um item de interesse aqui é o vidro intacto em uma janela de um escritório destruído da fábrica, uma chaminé alta ou uma casa de madeira que milagrosamente sobreviveu. ‘Por favor, olhe. Aquela casa ainda está viva’, dizem os passantes, sorrindo”.

“Um cachorro está correndo ao longo da estrada, um osso humano entre seus dentes”.

“Um canhão antitanque depois de uma batalha é como um ser humano que está vivo mas que sofreu”.

“Às vezes você fica tão abalado com o que viu, o sangue corre apressado em seu coração e você sabe que a terrível visão que seus olhos acabaram de ter vai assombrá-lo e repousar pesadamente em sua alma por toda a sua vida. É estranho que, quando você se senta para escrever sobre isso, não encontra espaço suficiente no papel. Você escreve sobre um corpo de tanques, sobre artilharia pesada, mas de repente se lembra de como as abelhas estavam formando enxames em uma vila em chamas, e um velho bielo-russo descalço saiu de uma pequena trincheira onde se escondia de bombas e espantou o enxame com um galho, de como soldados olhavam para ele e, meu Deus, pode-se ler tanta coisa em seus olhos pensativos e melancólicos. Nessas pequenas coisas está a alma do povo e nossa guerra com seu sofrimento e suas vitórias”.

“É difícil dizer se é menos terrível seguir para a própria morte em um estado de sofrimento terrível, sabendo que se está chegando cada vez mais perto da morte, ou estar completamente inconsciente, olhando pela janela de um confortável vagão de passageiros no momento em que pessoas na estação de [o campo de extermínio de] Treblinka estão telefonando para o campo para informar detalhes sobre o trem que acabou de chegar e o número de pessoas nele”.

“Sabemos pela realidade cruel dos últimos anos que uma pessoa nua perde imediatamente a força de resistir, de lutar contra seu destino. Quando despida, uma pessoa perde imediatamente a força do instinto de sobreviver e aceita o destino como uma sorte”.

“A luta nas ruas continua. As ruas mais calmas estão cheias de gente. Há senhoras com chapéus na moda carregando reluzentes bolsas de mão e cortando pedaços de carne de cavalos mortos sobre o calçamento”.

“Uma história sobre uma mãe lactante que estava sendo estuprada em um celeiro. Seus parentes chegaram lá e pediram aos atacantes que lhe dessem um intervalo, porque o bebê faminto estava chorando o tempo todo”.

“Na cidade de Landsberg, perto de Berlim. Crianças estão brincando de guerra no telhado plano de uma casa. Nossas tropas estão liquidando com o imperialismo alemão neste minuto, mas aqui os meninos com espadas e lanças de madeira, de pernas compridas, cabelo cortado curto na parte detrás da cabeça, franjas louras, estão gritando com vozes estridentes, apunhalando uns aos outros, pulando, saltando loucamente. Aqui está nascendo uma nova guerra. Isso é eterno, não morre”.

“Contradizendo a idéia de que Berlim era um quartel do exército, há muitos jardins em flor. O céu é coberto por um grandioso trovão de artilharia. Nos intervalos, podem-se ouvir pássaros”.

“O Portal de Brandemburgo está bloqueado com um muro de troncos de árvores e areia, com dois a três metros de altura. No espaço, como em uma moldura, pode-se ver o impressionante panorama de Berlim em chamas”.

6 comentários:

  1. Muito bom. Empolgante, tem um “crescendo” interessante!!! Texto para poucos! Abs.
    Ralph Peter
    livrosemrevista@clictv.com.br

    ResponderExcluir
  2. Olá, Ralph!

    Feliz natal retroativo e uma boa entrada de ano para você!

    Muito obrigado pelo cumprimento, fico contente de que você tenha gostado. Tentei transmitir um pouco do que senti ao me deparar com a intensidade dos estilhaços bélico-literários do Grossman.

    Se for viajar, aproveite, hein? Ano novo é pra encher a lata!

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

    ResponderExcluir
  3. Prezado Flávio,

    Agradeço.

    Não sei se leio o autor, por você indicado, ou se me mantenho em seu texto, ávido por sensibilizar.

    Esses "papéis-vestígios" de nossa ânsia em manter vivos e presentes os saberes e fazeres do mundo nos empurram para uns não sei quantos inevitáveis redemoinhos de anotações, de que nem a mais aguçada memoria daria conta.

    De qualquer forma, ter um "mestre" para nos indicar os caminhos literários é uma vantagem aos simples e desorganizados leitores - como eu, uma boa geminiana - que, alerta a tudo, se perde um pouco em desvarios para elencar as leituras.

    No momento, estou na sua dica sobre Harold Bloom e seus estudos sobre Shakespeare.

    Feliz e venturoso 2012

    Abraços,
    Esmeralda

    ResponderExcluir
  4. PARTE I

    Olá, Esmeralda!

    Pois é, há como que duas veredas de leitura, aquela que realizamos e aquela que gostaríamos de ter percorrido. Isso me lembra um belo ensaio do Leandro Konder chamado "Curriculum Mortis". O mote é o seguinte: a sociedade nos coage a elencarmos nossos currículos com os mais diversos itens, independentemente do fato de termos apego ou não por todas as cicatrizes que esse trajeto de sobrevivência vai deixando em nós. Para o Konder, o que poderia demonstrar o ímpeto efetivo de uma pessoa seriam não apenas suas realizações, sempre importantes, mas todos aqueles planos e desejos e fantasias com os quais ela procurou se envolver, mas que, por inúmeros fatores, não puderam ser realizados. Seria uma lógica a contrapelo do nosso muitas vezes aterrador darwinismo social. Imaginemos uma pessoa que, algum dia, tenha querido reescrever o Dom Quixote. (Aqui a referência é o belo conto "Pierre Menard", do Jorge Luís Borges.) Chegar a um projeto desse, que beira a megalomania, pressuporia inúmeras, difíceis e trabalhosas mediações para que tudo não fique apenas na especulação mais longínqua. Então, ainda que o Menard não o fizesse, seria digno de nota esse esforço de tentar vislumbrar o cume da montanha. (Te mando o link para o ensaio do Konder, o "Curriculum Mortis", que já esteve no Subsolo das Memórias. Lá vai: http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2010/05/curriculum-mortis.html)

    Acho que, por essa mesma lógica, Esmeralda, nossas leituras - ou planos de leituras - tendem a deixar um rastro de interesses e ímpetos que parecem crisálidas de determinados momentos.

    Me lembro, por exemplo, de uma época em que eu lia os escritores russos quase como uma compulsão. (Eu ainda não sabia que, um ano depois, embarcaria para uma estada de um ano lá em Moscou.) De uns tempos para cá, venho recolhendo estórias entre os escombros da História. As personagens que venho compondo bebem muito dessa fonte. Mas, aqui, esse rastro das leituras feitas e não feitas já tende a prenunciar que novos interesses surgirão, ou então que interesses correlatos virão com um novo matiz. (Aquela biblioteca que eu citei no texto, a biblioteca lá da faculdade, fornece um verdadeiro inventário dessas duas veredas sobre as quais estamos falando. Você acaba de me dar uma idéia, Esmeralda: vou pedir a eles que imprimam a minha ficha corrida de bibliófilo. Daí, ao menos por lá, será possível descobrir o que foi e o que não foi lido.)

    ResponderExcluir
  5. PARTE II

    Eu fico contente que minha introdução ao Grossman tenha instigado a sua leitura, mas, Esmeralda, os fragmentos do Grossman são, a meu ver, obras primas de poética sintética. Eles nos fornecem, verdadeiramente in loco, a gênese da criação artística no escritor. Como o tempo de maturação da imagem poética no front é praticamente nenhum; como não há tempo de desenvolver um estilo longilíneo, uma vez que as imagens parecem se suceder como colagens justapostas, o escritor é forçado a fundir a sensibilidade ao tempo real do devir. Claro que Grossman, posteriormente, poderia refletir, ainda que não por muito tempo, sobre suas construções. Mas o fato é que todos esses fragmentos fizeram parte de artigos publicados em jornais lidos maciçamente tanto pela população de Moscou quanto pelos frontoviki, os soldados na linha de frente. Eu imagino que, de forma recíproca, a própria sensibilidade de Grossman, impulsionada pela guerra, também forneceu aos soldados o olhar poético para apreender a experiência do front de uma maneira toda outra.

    Percorra os escombros junto com o Grossman, Esmeralda. Estou certo de que você, que tem uma ótima sensibilidade, sentirá o movimento tenso da contradição pelas imagens. Fico contente que esteja percorrendo o Shakespeare de Harold Bloom. Espero que ele possa ajudá-la na peça, Esmeralda. Não deixe de me avisar quando ela for entrar em cartaz, hein?

    Aguarde notícias para os cursos do ano que vem, tá? Será um prazer reencontrá-la por lá. Conversei com a Vera na semana passada, ela me disse estar bastante interessada em fazer os cursos. Desejo a você uma ótima entrada de ano também, muito obrigado pela lembrança.

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

    ResponderExcluir
  6. flavião,

    cara, muito bom o texto do vasily, de arrepiar. conhecia um pouco do babel e sua cavalaria vermelha, mas a escrita de agora é muito mais contundente em sua poesia --- imagens, síntese: tudo que vc defende em literatura. muito bom mesmo.

    abraço,

    joaquim

    ResponderExcluir