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domingo, 16 de outubro de 2011

Um paradoxalista, Fiódor Dostoiévski

Dostoiévski: "Não só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra paga pelo Senhor".

Meus amigos,

Há 3 semanas, o Subsolo das Memórias vem retomando uma discussão dostoievskiana que, a meu ver, possui ramificações na atualidade e nos pode ajudar a compreender nossa problemática ética e social.


Se Deus não existe, tudo é permitido?


A discussão começou com a tese do filósofo Luiz Felipe Pondé, a partir do texto O mundo estilhaçado e a morte libertadora (eis o link: http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2011/10/tese-se-deus-nao-existe-tudo-e.html.)

O segundo capítulo da apostasia teológica de Dostoiévski foi narrado pelo também filósofo Renato Janine Ribeiro, em seu texto Uma ética humana (eis o link: http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2011/10/antitese-se-deus-nao-existe-tudo-e.html.)

Como os heterônimos de Dostoiévski já suscitaram a tese e a antítese da discussão em questão, o Subsolo das Memórias propõe a síntese de nossa apostasia teológica por parte do próprio escritor russo.

Entre 1873 e 1881, Dostoiévski desenvolveu o Diário de um escritor. Dada a mordaça do regime tsarista, a intelligentsia russa se congregava ao redor das chamadas revistas grossas para que os temas mais prementes da geração dos pais de Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lênin, pudessem ser discutidos em linguagem esópica – ou elíptica, como pediam os censores quiçá corruptos do Tsar.

O Diário de um escritor transformou Dostoiévski em um controvertido porta-voz de sua geração. As páginas do diário desvelaram aos numerosos leitores as críticas dostoievskianas em relação à literatura de Liev Tolstói. Dostoiévski também apresentou o teor de seu chauvinismo russo em relação às questões de política externa do Império tsarista. A Polônia, os estados satélites do Báltico, a colcha de retalhos no Cáucaso: o velho e rematado quintal para os filhos inequívocos da Mãe Rússia. (Se arremessarmos o Dostoiévski jornalista contra o escritor Dostoiévski, provavelmente chegaremos a uma alcunha propícia para a Mãe Rússia a partir das tragédias gregas: Jocasta Medéia.)

Pois bem: segue abaixo um diálogo ficcional publicado por Dostoiévski no Diário de um escritor em abril de 1876. [Tenho comigo a versão A Writer’s Diary, Volume 1, 1873-1876, traduzida do russo para o inglês por Kenneth Lantz (Evanston, Illinois: Northwestern University Press, 1994, pp. 452-457.) Fiz a tradução livre do inglês para o português.]

Um paradoxalista sintetizará a tese de Pondé e a antítese de Ribeiro de modo a arremessar os polos opostos e mutuamente contíguos em inequívoca contradição. Além de entrever a pungente atualidade do diálogo oitocentista, remeto a todos vocês a seguinte questão que venho me fazendo.

E se apreendermos o diálogo dostoievskiano não como uma síntese que apresenta a superação histórica, mas como uma regressão que bate às portas do nosso subsolo contemporâneo?

(Chego a ouvir as gargalhadas sinistras do homem do subsolo.)

Com vocês, então,


Um paradoxalista
Fiódor Dostoiévski


“Narremos algumas palavras a respeito da guerra e seus rumores. Conheço um homem que é um paradoxalista. Eu o conheço há muito tempo. Trata-se de uma pessoa obscura possuída por um estranho caráter: nosso paradoxalista é um sonhador. Em algum lugar de minha obra voltarei a falar sobre ele mais detidamente. Mas agora quero rememorar como, há alguns anos, nós discutimos a respeito da guerra. Ele defendeu a guerra em termos gerais e talvez o tenha feito apenas pelo amor ao paradoxo. Afirmo-lhes que nosso paradoxalista é um verdadeiro cidadão; a pessoa mais pacífica e afável que se poderia conhecer na Terra e também em São Petersburgo.

– É algo ultrajante – o paradoxalista começa – dizer que a guerra é o tumor da humanidade. Pelo contrário, trata-se do artifício mais útil. Há apenas um tipo de guerra odioso e verdadeiramente pernicioso: a guerra civil e fratricida. Ela paralisa e obscurece o Estado; ela se prolonga em demasia; ela brutaliza o povo a não mais poder. Mas uma guerra política e internacional apresenta benefícios em todos os aspectos, e por isso ela é absolutamente essencial.

– Espere um momento: uma nação aniquila a outra, e os povos se dispõem à matança mútua – o que há de essencial nisso?

– Tudo é essencial, e no sentido mais elevado. Mas em primeiro lugar, é uma mentira dizer que os povos se dispõem à matança mútua; a chacina nunca domina o imaginário do povo. Pelo contrário, os povos se dispõem a sacrificar as próprias vidas; eis o que domina seu imaginário. E esta é uma questão completamente outra. Não há ideal mais elevado do que o sacrifício da própria vida pela defesa dos irmãos e da pátria. A humanidade não pode viver sem ideais nobres, e chego mesmo a suspeitar que a humanidade ama a guerra precisamente por ela fazer parte de algum nobre ideal. Trata-se de uma necessidade humana.

– Mas será que a humanidade realmente ama a guerra?!

– Claro que ama. Quem se sente deprimido em tempos de guerra? Muito pelo contrário: todos e cada um ficam instigados, os espíritos se elevam, não se notam a apatia e o tédio ordinariamente presentes em tempos de paz. E então, quando a guerra termina, os povos amam relembrá-la, ainda que tenham sido derrotados! Não acredite naqueles que, durante a guerra, meneiam a cabeça e dizem uns aos outros: ‘Que calamidade, a que ponto chegamos’. Estão sendo educados, eis tudo. Na verdade, todos e cada um são tomados por um ânimo festivo. Sabe, há idéias que não se aceitam facilmente. Você será apupado como uma besta-fera e será excomungado e condenado como um reacionário; todos temem tais idéias. Ninguém ousa aclamar a guerra.

– Mas você está falando de nobres ideais e de humanização. Não pode haver nobres ideais sem a guerra? Pelo contrário: em tempos de paz, há muito mais terreno para que nobres ideais floresçam.

– Não, não, não, aí é que você se engana. A nobreza perece durante um longo período de paz, e em seu lugar aparecem o cinismo, a indiferença, o tédio e, sobretudo, um malicioso hábito de escárnio – e tudo isso quase como um ocioso passatempo, sem nenhum objetivo sério. Afirmo categoricamente que um longo período de paz endurece o coração do povo. Durante o interminável período de paz, a balança social sempre pende para o lado do que é estúpido e grosseiro na humanidade, principalmente em direção à riqueza e ao capital. Imediatamente após uma guerra, a honra, a filantropia e o auto-sacrifício são respeitados, valorizados e altamente resguardados; quanto mais a paz se estende, mais tais valores nobres e belos se tornam pálidos e insípidos, até que desapareçam, enquanto todos e cada um estão obsedados pela riqueza e pelo espírito da aquisição. Ao fim e ao cabo, só resta a hipocrisia – a hipocrisia da honra, do auto-sacrifício e do dever; tais coisas continuarão a ser respeitadas, a despeito de todo o cinismo, mas apenas retoricamente, através de belas palavras. Não haverá honra genuína, apenas as máximas vazias permanecerão. Quando a honra se torna uma máxima, ela morre. Uma paz prolongada produz apatia, ideais medíocres, depravação e um arrefecimento das paixões. Os prazeres não se mostram refinados e se tornam mais e mais envilecidos. A riqueza crua não se regozija com a nobreza, já que demanda prazeres imediatos e rasteiros, i.e., a satisfação mais direta dos clamores da carne. Os prazeres se tornam carnívoros. A sensualidade evoca a luxúria, e a luxúria é sempre cruel. Você não pode negar tudo isso, porque não há como negar o fato principal: durante uma paz prolongada, a balança social pende para a riqueza crua ao fim e ao cabo.

– Mas e quanto à ciência e às artes – será que elas podem florescer durante os tempos de guerra? E aqui estamos diante de nobres e grandiosos ideais.

– Ah, mas eis a jogada que me faz dizer a você: xeque-mate! A ciência e as artes florescem sobretudo no imediato pós-guerra. A guerra as renova; a guerra estimula e fortalece o pensamento e lhe dá ímpeto. Mas uma paz interminável arrefecerá até mesmo a ciência. Não há dúvida de que a busca da ciência demanda uma certa nobreza, até mesmo a abnegação. Mas poderiam muitos desses cientistas sobreviver à pestilência da paz? A falsa honra, o amor-próprio e a sensualidade os apanharão também. Tente lidar com um sentimento como a inveja, por exemplo; a inveja é crua e vulgar, mas ela também se inoculará no nobre coração de um cientista. Ele também quererá tomar assento em meio ao glamour e à prosperidade generalizada. Comparado ao triunfo da riqueza, que pode significar o triunfo de alguns cientistas, a menos que se trate de algo sensacional como a descoberta do planeta Netuno, por exemplo? Agora me diga: haverá muitos remanescentes para a devoção verdadeira à humilde causa? Pelo contrário, haverá o desejo pela fama, e então o charlatanismo invadirá a ciência; haverá a busca pelo sensacionalismo, e o utilitarismo pairará soberano, porque haverá um desejo incontrolável pela riqueza. O mesmo sucederá à arte: a mesma busca por sensacionalismo. Idéias simples, claras, nobres e valorosas não estarão em moda: algo muito mais terra-a-terra será demandado; simulacros de paixões estarão na ordem do dia. Pouco a pouco, o senso de medida e harmonia se perderá; paixões e sentimentos sórdidos virão à tona – eis o sentido da elevação dos sentimentos que, na verdade, só levam à vulgarização. A arte inevitavelmente sucumbirá ao fim de uma paz prolongada. Se a guerra nunca houvesse existido em nosso planeta, a arte teria sido totalmente extinta. Todas as grandes idéias artísticas são providas pela guerra e pela luta. Pense na tragédia, olhe para as estátuas: aqui está o Horácio de Cornélio; lá está o Apolo de Belvedere sobrepujando um monstro...

– E quanto às madonas, e quanto à cristandade?

– A própria cristandade admite o fato das guerras e das profecias que dizem que a espada não virá até o Juízo Final: eis algo verdadeiramente notável. Ah, não há dúvida de que a cristandade, em termos elevados e morais, rejeita a guerra e prega o amor mútuo. Eu mesmo serei o primeiro a me unir ao júbilo quando as espadas forem relegadas aos charcos. Mas a questão é: quando isso irá acontecer? E seria útil relegar as espadas aos charcos na atualidade? A paz atual será sempre e em todo os lugares pior do que a guerra, a ponto de ser imoral apoiar a paz. Não há nada que a torne digna de ser valorizada e preservada; é vulgar e vergonhoso preservar a paz. A riqueza e a vulgaridade dão à luz a indolência, e a indolência faz nascer escravos. A fim de manter os escravos em estado servil, é preciso eliminar o livre arbítrio e a oportunidade de evolução, já que não se pode abrir mão da necessidade de escravos, ainda que se trate do cidadão mais humano entre todos. Eu também noto que, durante um período de paz, a covardia e a desonestidade criam raízes. Por natureza, o homem está terrivelmente inclinado à covardia e aos atos vergonhosos – todos e cada um de nós sabemos muito bem disso. Talvez seja por isso que o homem ama tanto a guerra: entrevemos uma cura através da guerra. A guerra expande o amor mútuo e une as nações.

– Ei, espere um pouco: como é que a guerra une as nações, meu Deus?!

– A guerra as obriga ao respeito mútuo. A guerra renova os povos. O amor ao próximo chega ao ápice no campo de batalha. Realmente, é estranho que a guerra faça menos para despertar o ódio do povo do que a paz. De fato, algo que poderia ser considerado uma revolta política em tempos de paz, algum tratado que demandava muito, quiçá uma pressão política, uma requisição arrogantemente expressa – do tipo a que a Rússia foi submetida pela Europa em 1863 –, todas essas coisas despertam o ódio do povo de modo muito mais encarniçado e aberto do que em tempos de guerra. Pensemos ainda uma vez: nós, russos, odiamos os franceses e os ingleses durante a campanha da Criméia? Não, nem um pouco; na verdade, parecíamos nos aproximar cada vez mais deles, quase como se eles tivessem se tornado nossa própria família. Estávamos interessados em ouvir as visões deles sobre a nossa coragem no campo de batalha; nós tratamos os prisioneiros de guerra com enorme generosidade; em tempos de trégua, nossos soldados e oficiais deixaram as posições avançadas e quase abraçaram o inimigo; chegamos a beber vodka juntos. A Rússia se encantou ao ler sobre isso nos jornais, e ainda assim isso não nos impediu de travar uma luta magnífica. Um espírito de cavalheirismo se estabeleceu. E eu nem mesmo trarei à tona as perdas materiais da guerra: todos e cada um conhecem a lei segundo a qual as coisas parecem renascer com um vigor renovado no período pós-guerra. As forças econômicas da nação são estimuladas dez vezes mais do que antes, como se uma nuvem tempestuosa encharcasse a terra com uma chuva torrencial. Todos e cada um, de uma só vez, dão uma mão àqueles que sofreram durante a guerra, enquanto em tempos de paz províncias inteiras morrem de fome antes de nos levantarmos para fazer algo, antes de doarmos alguns míseros rublos.

– Mas o povo não sofre mais do que qualquer outro estrato da população durante a guerra? Quem é que sofre a ruína e suporta as feridas e cicatrizes inevitáveis: o povo ou os nascidos em berço de ouro?

– Talvez você tenha razão a este respeito, mas apenas temporariamente. Ainda assim, o povo ganha muito mais do que perde. É especificamente para o povo que a guerra traz as mais belas e sublimes conseqüências. Diga o que quiser: você pode ser a pessoa mais humana, mas ainda assim você se considerará acima do populacho. Nos dias de hoje, quem é que equipara as almas de acordo com o padrão de Cristo? O padrão é o dinheiro, o poder e a força, e o povo massificado sabe muito bem disso. Não se trata propriamente de inveja; há um certo sentimento opressivo de desigualdade moral que é extremamente doloroso para as pessoas comuns suportarem. Você pode libertá-las ao máximo e escrever e estatuir as leis que escolher, mas a desigualdade não pode ser sustada na sociedade atual. O único remédio é a guerra. A guerra é apenas um paliativo instantâneo, mas ela dá conforto ao povo. A guerra aumenta o moral do povo e o seu senso de amor-próprio e dignidade. A guerra torna todos e cada um iguais durante as batalhas e reconcilia o senhor e o escravo na manifestação mais sublime de dignidade humana – o sacrifício da vida pela causa comum, por todos e cada um, pela pátria. Você acha que as massas, mesmo a massa mais embrutecida de camponeses e mendigos, não sentem a premência de uma demonstração ativa de sentimentos nobres? E como é que a massa pode demonstrar sua nobreza e dignidade humana nos tempos de paz? Nós observamos nobres atos isolados em meio ao povo, mal condescendendo em notá-los, algumas vezes com um sorriso cético, noutras simplesmente não acreditando no que acabamos de ver. E quando nós efetivamente reconhecemos o heroísmo de algum indivíduo isolado, nós fazemos um tal estardalhaço como se se tratasse de algo completamente inusitado; o resultado é que nosso assombro e nosso elogio reverberam o desdém. Tudo isso desaparece em tempos de guerra, quando há a completa igualdade no heroísmo. O sangue aspergido se torna sagrado. Uma nobre proeza compartilhada cria os mais sólidos vínculos entre as classes díspares. O proprietário e o camponês estiveram mais próximos no campo de batalha em 1812 do que na província pacífica de onde vieram. A guerra dá às massas um sentido de auto-respeito, e é por isso que o povo ama a guerra: ele compõe canções sobre ela, e por muitos anos o povo se mostra sedento por estórias e lendas sobre a guerra. O sangue aspergido se torna sagrado! Diga o que quiser, mas a guerra em nossa época é necessária; sem ela o mundo teria entrado em colapso ou, no mínimo, o mundo teria sido transformado em uma espécie de charco lodoso fervilhante pela putrefação...

Eu desisti da discussão, obviamente. Não há sentido em discutir com sonhadores. No entanto, há um fato muito estranho: as pessoas começam a discutir questões que pareciam resolvidas há muito e estavam supostamente destinadas aos arquivos. Tais questões estão sendo exumadas ainda uma vez. E o mais importante é que isso está acontecendo em toda parte”.

5 comentários:

  1. Interessante. E sempre me vem à cabeça a obra de Søren Kierkegaard, intitulada "A Época Presente", de 1846. Num diagnóstico impressionante e visionário compreendemos que a nossa saudade da guerra é o produto de uma época afundada na reflexão, uma época mergulhada na publicidade (sim, ela mesma), em que tudo se anuncia aos gritos para que nada aconteça. Qualquer semelhança entre o dezenovismo e nós, não, não é mera coincidência. Saudosa guerra, vontade de paixão, que só as grandes épocas podem brindar.

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  2. Boa noite, Sr. Anônimo, tudo bom?

    Me parece bastante temerário o seu comentário. Aliás, sempre tive muito respeito pelo filósofo e literato Kierkegaard, mas certamente discordo desse irracionalismo que propugna pela guerra. Auschwitz, Dachau, Hiroshima, Nagasaki e o Gulag siberiano que o digam.

    E, diferentemente daquilo que você menciona, não me parece que estamos em uma "época mergulhada na reflexão", não. Aliás, este é justamente o problema: a capacidade de ação e prática racionais está profundada embotada pelo sistema social em que vivemos. Com Adorno, eu diria que o problema não é reflexão excessiva - que inexiste em termos socialmente relevantes -, mas justamente a falta de reflexão e de disseminação de instrumentais teóricos para compreendermos a realidade e tentarmos transformá-la.

    Um ditador austríaco fez afirmações muito parecidas. Ele lançou mão do ressentimento legítimo que sentia por ter sido pobre não para acabar com a pobreza, o que teria sido fundamental, mas para cuspir todo o ódio contra o inimigo comum, o judeu. O austríaco de que falo também apostou muitas vezes em um vitalismo irracional, apenas para lançar mão de toda a racionalidade instrumental - essa sim excessiva e anti-humana. Adolf Schicklgruber, também conhecido como Adolf Hitler.

    Acho válida a sua participação, mas tenho bastante receio do desdobramento de seus argumentos. Infelizmente, é difícil se contrapor à narrativa de Dostoiévski acima traduzida sem fazer abstrações sobre a história humana. Mas meu comentário sobre o seu comentário parte não da minha posição como escritor, mas de minhas convicções políticas. Se eu fosse criar um texto, creio que transformaria a nós dois em personagens antípodas que estariam se digladiando pela manutenção de suas contradições.

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

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  3. Segue meu texto sem revisões...

    Você tem razões para temer pelo comentário. Até porque ele foi apenas um flerte com a guerra. Um flerte dostoevskiano, por assim dizer.

    Vamos substituí-la pela... "paixão".

    O motivo pelo qual citei esta obra se deve a dois motivos. O primeiro: em Kierkegaard, vale o paradoxo. Nele, vale a crítica ao mundo burguês e de sua razão pela fé. Mas a fé pelo nada. Honestamente, vejo em Dostoievski um irmão quase gêmeo de Kierkegaard: ambos descobriram Deus e Lucifer se desposarem sobre o nada.

    O segundo motivo: o movimento da paixão na obra de Kierkegaard é um movimento da emancipação, ainda que seja apenas do indivíduo. Movimento em direção ao nada. Ela, a paixão, a única capaz de nos dar a decisão, porque toda contradição é uma inanição da reflexão. Presa nela a consciência não age, duvida, paira imóvel. Acaso não seria este um sintoma de nosso tempo: "- nunca sabemos ao certo se devemos ou não fazer!"? Quase não fazemos. Se o fizermos, temos culpa. Confessamos. O nada e a religião, unidos, ainda que casados com a morte.

    E aqui está o motivo pelo qual Kierkegaard contrapôs a sua época como uma época afundada na razionalidade, na sedutora ambiguidade da reflexão. Uma época que duvida, mas não consegue agir. Uma época - veja só - da publicidade. Kierkegaard cunhou o termo, anteviu nosso mal-estar no mundo como uma ridícula calculadora de inteligência, onde cada desapaixonado se felicita na força de sua inércia, no mero anúncio que nunca se faz cumprir.

    Adorno fez a sua tese sobre Kierkegaard. E certamente foi dali que ele tirou as leituras e críticas sociais kierkegaardianas. A diferença é que Adorno vê o paradoxo dialeticamente. A Kierkegaard interessa pensar a dialética paradoxalmente. É por isso que Adorno chega a uma dialética negativa e não em um paradoxo da fé.

    Então vejo Dostoievski mais próximo de Kierkeggard. Gosto mais assim. Pensemos: não seria a nossa época indolente porque foge a todo paradoxo? A cada paradoxo, não se evoca a paixão para o saltus mortalis? Mas se nossa época é desapaixonada, aprisionada a uma razão - a uma dialética negativa (em que Adorno se inspirou em Kierkegaard para formulá-la), então nossa época se afunda... num tipo de reflexão! Não há imperativo categórico que mobilize o sujeito, não há máximas morais ou doutrinas teológicas que mobilize o indivíduo, muito menos as massas. E me parece que talvez nem mesmo uma dialética do trabalho. Esta pode libertar a sociedades, mas ainda não o indivíduo.

    A paixão ainda está enclausurada, como o cavalo Abraão, de Melancolia, em Lars Von Trier. É preciso soltá-la do estábulo, nos convidar em temor e temor ao paradoxo de Abraão.

    Se a paixão está domesticada, então a reflexão torna-se dilacerada. E a guerra seria apenas uma expressão desajustada, um sintoma de uma paixão que fugiu de todo paradoxo, e por isso precisa jorrar sangue sobre toda contradição.

    Dostoievski, Kierkegaard: ao invés de pensarmos o paradoxo dialeticamente, por que não pensar a dialética paradoxalmente? Este é o convite que decidi escolher pelo seu texto.

    Abraço,
    Vinícius

    P.S.: estou no seu facebook. Fiz um curso contigo de Dostoievski em novembro de 2009. Sou amigo do Flamarion e estudo Schopenhauer. Não sei como colocar aqui o perfil.

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  4. PARTE I

    Olá, Vinícius, tudo bom?

    Bom, consegui achar um tempinho - não muito, porque são 18h32 e eu começarei a dar aula às 19h20. Mas vamos lá.

    Você levanta muitos pontos, vou tentar contemplá-los.

    Em primeiro lugar, é preciso tomar muito cuidado para fazer uma comparação entre Kierkegaard e Adorno dessa forma. O paradoxo e a dialética são muito mais contraditórios entre si do que a sua colocação sugere. E aqui, a meu ver, aparece um claro limite do pensamento de Kierkegaard: não voltaremos, felizmente, à Idade Média, velho. Este salto desesperado para a fé, calcado em um individualismo epistemológico radical - leia-se: o contraponto ao totalizante Hegel e seu sistema filosófico-social -, acaba por redundar na mesma apologia da mônada burguesa contra a qual os temores e tremores se querem colocar. Senão, vejamos.

    Você conhece alguém que não viva em sociedade, Vinícius? E a minha pergunta supostamente ingênua tem um fundo completamente heurístico: em termos materialistas, o animal social que Marx vai buscar em Aristóteles não se constitui, de forma alguma, sem as mediações sociais de sua identidade. Assim, que é essa fé monadológica senão um completo irracionalismo que, contraditoriamente, lança mão de todos os instrumentos da razão para, no momento em que a razão poderia superar a si mesma, cair na nulidade?

    Quando o indivíduo se depara com o aforismo de Marx, segundo o qual "o homem é o mundo dos homens", a razão monadológica mostra sua profunda vinculação burguesa - afinal, algum dia o filósofo monadológico precisa descer as escadas para comprar pão segundo o princípio de solvência econômica que não pertence ao Reino de Nihil, não é mesmo? Assim, o indivíduo, a célula indivisível, o Einzeln alemão - a célula (Zeln) única, uma (ein) -, se depara com suas impossibilidades.

    Assim, aproximar Adorno de Kierkegaard para depois distanciá-los por conta de um instrumento heurístico pressupõe apreender a profunda cisão de cosmovisão entre ambos os autores.

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  5. PARTE II

    O paradoxo, o salto da ruptura, se cinde em relação à dialética quando já não há possibilidade racional de apreensão - e transformação - do mundo. Aliás, o autolimite imposto pela razão cobra seu preço quando o termo "publicidade", em Kierkegaard, perde a substância histórico-material por conta da irracionalidade que ele sustenta.

    Vinícius, você quer me dizer que Kierkegaard, sem a percepção histórico-material das contradições do capitalismo do século XX, anteviu a indústria cultural? Se isso é factível, certamente não o é com os instrumentos que você apresentou. Pois é interessante pensar a contrapelo de nós mesmos - e pensar a contrapelo de si mesmo é bem aquilo que Hegel e Kierkegaard compartilham, até que a encruzilhada os separe. Como é que a desrazão de Kierkegaard apreende a transformação do padrão identitário da da decadência aristocracia intelectual/ burguesia esclarecida em nicho de mercado para intelectuais-funcionários-públicos da USP, por exemplo? Sim, pois há demanda de mercado - pequena, infelizmente - para os produtos da esquerda e dos niilistas já supostamente estabelecidos para além dos conflitos sociais. A indústria cultural se tornou plástica assim como sua base econômica para escalonar nichos de apreensão. Editora Maio de 68.

    A não ser que alcancemos um apocalíptico "Blade Runner", velho, não vejo a possibilidade de revivescência da desrazão, não. Aliás, ainda bem. A razão, ao contrário do que Kierkegaard pensava - e aqui dialogo fundamentalmente com o Kierkegaard que você me trouxe -, não embota os homens, não. É justamente a impossibilidade da ação racional, isto é, da vida racional, Vinícius, que nos embota. Pense, por exemplo, na sua vida, na minha, enfim. Podemos determinar, cabalmente, aquilo que queremos fazer? Por que nos sentimos tão ilhados mesmo em uma cidade como São Paulo? Esse nada filosófico não toma outras conotações quando as ideias estão fora de lugar, isto é, quando passam pela deformação da e na periferia do capitalismo?

    Que sucederia aos homens se fosse possível "pescar à tarde e fazer crítica literária à noite". Schopenhauer, este belíssimo cínico e literato, já há muito vaticinou: a existência humana é governada por dois grandes deuses, a necessidade e o tédio. Sabemos que a maior parte da humanidade respira sobre o punho da necessidade. Alguns poucos podem se contrastar com o vazio do tédio. Mas esse vazio, assim como o paradoxo kierkegaardiano, por acaso teria um corpo, isto é, teria matéria? E, se tiver matéria, esta matéria vive na história? E, se viver na história, ela é paradoxal? De que forma o paradoxo pode lidar com o devir humano?

    E aqui estamos chegando perto do paradoxalista de Dostoiévski.

    Não vou ter tempo agora, já que passam das 19h, para eu continuar a te responder. Vou tentar fazer isso amanhã. Se não conseguir, fico te devendo isso até o fim da semana - tô com muito trampo, velho.

    Um abraço, até o contraponto entre Dostoiévski e Kierkegaard,

    Flávio Ricardo

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