Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

sábado, 8 de outubro de 2011

Antítese: Se Deus não existe, tudo é permitido?

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Meus amigos,

Na semana passada, retomamos o debate dostoievskiano que a “Folha de São Paulo” promoveu há 5 anos em sua seção “Tendências e Debates”.


“Se Deus não existe, tudo é permitido?”
“Os Irmãos Karamázov”, Fiódor Dostoiévski


Como vocês sabem, contrapõem-se as posições SIM e NÃO.

Semana passada, o Subsolo das Memórias apresentou a tese do debate em questão por meio do SIM do filósofo Luiz Felipe Pondé, em “O mundo estilhaçado e a morte libertadora”. (Eis o link: Tese: Se Deus não existe, tudo é permitido? - http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2011/10/tese-se-deus-nao-existe-tudo-e.html)

Esta semana, apresentamos o NÃO como antítese pelo texto “Uma ética humana”, do filósofo Renato Janine Ribeiro.

Após o texto de Ribeiro, faremos o papel do homem do subsolo, a personagem dostoievskiana por excelência, para contrapormos algumas questões que não se devem calar. Luiz Felipe Pondé passou pela mesma sabatina, de modo que a cada antítese se contrapusesse uma nova tese e que contra cada tese despontasse uma outra antítese.

Retomemos ainda uma vez, então, o “Tendências e Debates” de há 5 anos.


Antítese: Se Deus não existe, tudo é permitido?

NÃO

Uma ética humana
Renato Janine Ribeiro


“A frase – “Se Deus não existe, tudo é permitido” –, acima convertida em pergunta, é do século 19, mas a resposta ‘não’ a ela somente se torna possível no século 18. Parece um paradoxo, mas me explico. Até o tempo das ‘Luzes’, a esmagadora maioria dos pensadores ocidentais concordaria com o enunciado devido a Dostoiévski, isto é, com a idéia de que o ateu é imoral. Quem não acredita no criador não seria capaz de respeitar nenhuma regra ética.

Assim, por volta de 1650, o bispo anglicano John Bramhall, um dos críticos mais ásperos do inglês Thomas Hobbes (que, por sinal, não era ateu), acusa o filósofo de não crer em Deus: ‘Hobbes acaba com o céu’, diz ele, ‘e, pior: com o inferno’.

Gosto muito desse ‘pior’, que dá a chave do enigma. A discussão do ateísmo na verdade oculta o que realmente importa. O problema, para o fiel Bramhall, não é tanto se o céu existe. É que precisa haver um inferno, para que a multidão parva obedeça. Anos depois, quando o libertino conde Rochester agoniza, o pastor o convence, no leito de morte, a dizer-se arrependido. O conde não crê em Deus, mas é persuadido pelo argumento de que, se um grande do reino morrer sem os sacramentos, o populacho não será mais contido pelo medo do inferno.

Com as ‘Luzes’, isso muda. A idéia de que, para ser moral, seria preciso acreditar em Deus (isto é, no Deus que amedronta, que pune: o Deus do inferno) é contestada em nome de uma ética humana, que possa valer mesmo sem o medo do castigo eterno. Talvez seja Kant quem deu o passo decisivo para tanto, quando formulou um princípio cujo legado pode ser assim simplificado: a cada ação que cometo, estou reconhecendo o direito (ou o dever) de todo ser humano a também cometê-la.

Isso – que em ‘kantês’ significa cada ser humano se tornar legislador ético – implica que, se desobedeço aos sinais de trânsito, se procuro levar vantagem em tudo, confiro a todos os meus semelhantes os mesmos direitos. Ora, é óbvio que, assim, o convívio social seria impossível. Provavelmente, teremos vidas sórdidas, sofridas, cruéis e curtas se agirmos dessa maneira. Por conseguinte, a cada ação que eu pratique, devo refletir muito bem se quero autorizar todos os outros a praticá-la. Se sim, ótimo. Se não, devo rever minha posição.

A partir dessa teoria, que resumi em linguagem que já não é kantiana, fica possível uma ética somente dos humanos entre si. Não é mais imprescindível a Revelação, menos ainda a punição por toda a eternidade. O conteúdo dos mandamentos não depende mais de Deus. Pode ser constituído em nosso próprio mundo. A moral e a ética deixam de apelar a uma transcendência, ao poder do Altíssimo, e se constroem neste mundo imanente, o nosso, o único que conhecemos.

Não quer dizer que essa idéia de uma ética sem o medo a Deus se tenha tornado unanimidade. Muitos ainda acham que Deus é necessário para explicar o que é certo e errado (nós não seríamos capazes disso) ou para punir quem se desvie do bom caminho (idem, ibidem). Mas, se hoje a conduta ética dos ateus ou indiferentes não tem nada a dever à dos religiosos e sobretudo à dos intolerantes, é porque essa tese moderna de uma ética humana tem valor e validade.

É importante concluir com duas notas. A primeira é que uma ética assim inspirada em Kant (mas que altera algumas de suas teses) é capaz de evoluir. No século 18, possivelmente ela admitiria a pena de morte; hoje, provavelmente, não. Muitas questões ficam em aberto, como aborto e eutanásia. O crucial é a forma da escolha ética (que cada um seja desafiado a enunciar seus valores, sob a condição de reconhecê-los como universais ou, pelo menos, recíprocos), mais que um conteúdo fixado de uma vez por todas.

A segunda e curiosa conclusão é que uma ética assim humana não é necessariamente atéia. Posso ou não acreditar em Deus, mas eu ser ou não ético deixa de estar subordinado ao medo de um Deus assustador. Uns serão éticos, mesmo não acreditando n’Ele. Por sua vez, outros cultuarão um Deus da justiça e do amor, mais que da repressão e do castigo. A crença em Deus ganha, em vez de perder, quando Ele corta o vínculo preferencial com o inferno e o medo”.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. É autor, entre outros livros, de “Ética na Política” (Sesc) e de “A Sociedade contra o Social” (Companhia das Letras).

Perguntas que o homem do subsolo faria a Renato Janine Ribeiro:

1) Retomemos algumas colocações feitas pelo senhor: “A idéia de que, para ser moral, seria preciso acreditar em Deus (isto é, no Deus que amedronta, que pune: o Deus do inferno) é contestada em nome de uma ética humana, que possa valer mesmo sem o medo do castigo eterno. Talvez seja Kant quem deu o passo decisivo para tanto, quando formulou um princípio cujo legado pode ser assim simplificado: a cada ação que cometo, estou reconhecendo o direito (ou o dever) de todo ser humano a também cometê-la”.

Como bem sabemos, senhor Ribeiro, Immanuel Kant se mostrou bastante entusiasmado com os primórdios da Revolução Francesa. Vale a pena retomar uma curiosa anedota de Königsberg, a cidadezinha provinciana da qual, dizem os admiradores e detratores em uníssono, o filósofo talvez nunca tenha saído.

Kant fazia caminhadas matinais para ativar a circulação sangüínea e filosófica de suas idéias. O germânico era tão rotineiro e pontual em sua marcha por Königsberg, que a vizinhança começou a acertar os ponteiros de seus cucos ao ritmo do passo de ganso de Kant. “Guten Morgen, Herr Kant!” – diziam muitos. “Immanuel, bom dia!” – sussurravam algumas.

E assim seria por séculos e séculos, amém.

Mas eis que desponta o 14 de julho de 1789.

A Bastilha, rematada masmorra absolutista, é tomada de assalto pelos revolucionários.

Aux armes, citoyens, (Às armas cidadãos)
Formez vos bataillons, (Formais vossos batalhões)
Marchons, marchons! (Marchemos, marchemos)

Em 14 de julho de 1789, pela primeira vez em todas as décadas de existência do filósofo germânico, Kant se atrasou em sua caminhada matinal.

Em 14 de julho de 1789, pela primeira vez em todos os séculos de existência da provinciana Königsberg, os moradores constataram que havia algo de novo – e importante – no front.

Deixemos o entusiasmo de Immanuel Kant contemplar e completar os versos da Marselhesa há pouco entoados:

Aux armes, citoyens,
Formez vos bataillons,
Marchons, marchons!
Qu’un sang impur
(Que um sangue impuro)
Abreuve nos sillons! (Banhe o nosso solo)

Pois é, senhor Janine Ribeiro Kant: não podemos nos esquecer de que as Luzes atravessaram o corredor polonês que as conduziu até o Terror de 1793.

O sangue outrora azul e agora impuro de Luís XVI banhou o solo francês quando a lâmina da guilhotina o degolou.

Diante do regicídio – que o sacrossanto filósofo talvez tenha associado a um deicídio –, podemos ouvir Immanuel Kant reverberando algumas colocações de Luiz Felipe Pondé:

“O homem pode ser a forma do homem?”

É bem verdade que o Deus da Guerra e da Vingança e da Punição já não pode ser a forma de si mesmo.

Mas e quanto ao homem, senhor Ribeiro: o homem pode ser a forma do homem?

Retomemos apenas mais um singelo detalhe da Grande Revolução Francesa: o furor iconoclasta dos revolucionários acabou por coroar ninguém mais, todos menos que o imperialista Napoleão Bonaparte.

Salvo engano, o imperialista Napoleão teria se sagrado imperador no Palácio de Versalhes.

“No Palácio de Versalhes?!” – berra Kant.

O absolutismo monárquico apresenta-se, então, como mais uma entre as muitas espécies de poder pertencentes ao gênero da Ironia Histórica que nos governa.

2) Senhor Ribeiro, uma outra colocação sua me instigou: “A cada ação que eu pratique, devo refletir muito bem se quero autorizar todos os outros a praticá-la. Se sim, ótimo. Se não, devo rever minha posição”.

Salvo engano, o imperativo categórico ético de Kant reedita pelo prisma das Luzes a Regra de Ouro imemorialmente retomada – e desprezada – pela História: “não faças ao outro aquilo que não queres que te façam”.

A civilidade revolucionária de Kant talvez se mostrasse algo embaraçada, mas devemos dizer que, se levarmos o imperativo categórico ético aos limites de suas possibilidades, chegaremos ao socialismo – e ao anarquismo. Senão, vejamos.

Subjaz à racionalidade kantiana o sujeito autônomo que consegue equilibrar os seus desejos – em respeito ao decoro de Kant, falemos em vontades – com os ímpetos do outro. Kant e as Luzes acreditam ser possível equacionar tal equilíbrio explosivo. Afinal, não havia muito tempo Sir Isaac Newton formulara o equilíbrio universal a partir de sua Lei da Gravidade.

Senhor Ribeiro, não nos esqueçamos de que, à época de Kant, o capitalismo era nascente. Os germes de pequenos empresários e suas lojinhas idílicas e recíprocas podem ter influenciado a percepção de que os conflitos conseguiriam ser geridos pela livre concorrência. [Sir Adam Smith não quis aproximar a Mão Invisível (de Deus?) para a regulação dos mercados?]

Ora, Kant não conheceu o império das multinacionais, senhor Ribeiro.

Kant também atribuía uma racionalidade homogênea e universal aos sujeitos sociais.

Vale frisar, nesse sentido, as Luzes etimológicas que o Terror lança sobre o termo sujet: em francês, tanto sujeito quanto súdito. A História nos apresenta o sujeito sujeitado: ainda que seja possível realizar um diagnóstico em relação às infrações de uma empresa como a Telefonica, que pode o cidadão fazer se o colosso empresarial não respeita a Regra de Ouro? Pode o cidadão processá-la, é bem verdade. (Quiçá os bisnetos do cidadão recebam um telefonema do advogado da multinacional em questão, de modo que seja proposta a esmola de um acordo que jamais restituirá o que é devido a quem é de direito.)

Senhor Ribeiro, como conciliar uma racionalidade assim crítica e respeitosa se as rotinas dilaceram a razão atrás das mesas dos escritórios hermeticamente arejados pelo ar condicionado?

O outro, nesse caso, torna-se não o concidadão, mas aquele a quem se deve culpar, na impossibilidade de o sujeito-súdito reconhecer a origem da injustiça e da desigualdade.

Os socialistas perceberam que o sujeito autônomo não pode ser o tipo ideal burguês, mas o corpo social como um todo.

Não adianta postular atributos éticos para um sujeito premido pela desigualdade. Todo e qualquer respeito à norma não apenas não o liberta como referenda a estrutura que o coage.

O imperativo categórico ético transforma-se no imperativo categórico social.

A Revolução de Outubro daria aos homens, às mulheres, aos idosos e às crianças a possibilidade de a Razão se espraiar pela sociedade como um todo. Daí a Regra de Ouro poderia ser vivenciada não apenas na longínqua Königsberg, mas ao longo de todo o império soviético.

“Império?!” – berra Kant ainda uma vez.

“Sim, Immanuel, império, meu império” – responde o imperativo categórico de Stálin.

Ainda uma vez, Senhor Ribeiro, a História destronou a aposta socialista em mais uma apostasia.

Quando se fala em anarquismo, lembra-se costumeiramente de coquetéis Molotov.

Ledo engano que a História só faz corroborar através de seu irônico sorriso de soslaio.

Trata-se não da ausência de governo, mas do autogoverno.

Trata-se não da anomia, mas da autonomia.

O anarquismo é o desdobramento último do imperativo categórico ético de Kant. O anarquista é aquele para quem a Regra de Ouro seria não uma norma, mas a própria vivência subjetiva e, conseqüentemente, social.

Não faço ao outro aquilo que não gostaria que você feito comigo mesmo, porque (1) a sociedade minimizou ao máximo as possibilidades de entrechoque competitivo, de modo que (2) o poder esteja sob o comando do corpo social como um todo, o que (3) nos leva ao efetivo equilíbrio do que sejam a expressão e o limite dos meus desejos em relação aos demais cidadãos.

O socialismo e seu sucedâneo anarquismo desvelariam à Razão Pura o caráter negativo do animal social de Aristóteles.

Convenhamos, senhor Ribeiro: é mais fácil afirmar o caráter social do homem quando o nobre pode filosofar enquanto o escravo lhe corta as unhas, não é mesmo?

Quando Aristóteles diz que o homem é um animal social, seus nobres pulmões voltam-se para as idéias etéreas que não precisam suar.

O socialismo e seu sucedâneo anarquismo revelariam à Razão Prática o caráter positivo do animal social de Aristóteles.

Mais uma vez, a História transformou a utopia em distopia.

A progressão geométrica do Gulag de Stálin transforma em mera progressão aritmética a eugenia industrial de Auschwitz.

A autonomia anarquista deve se prostrar de joelhos diante da heteronomia do Partido que fará o réu/condenado assinar uma confissão pré-moldada que lhe dará uma passagem só de ida para 20 anos na Sibéria.

Tendo sido assim, senhor Ribeiro, não podemos deixar de perguntar: ainda que Deus jamais tenha sido a forma de Deus, o homem pode ser a forma do homem?

3) Retomemos algumas colocações que o senhor fez nas últimas linhas de seu texto: “Uns serão éticos, mesmo não acreditando n’Ele. Por sua vez, outros cultuarão um Deus da justiça e do amor, mais que da repressão e do castigo. A crença em Deus ganha, em vez de perder, quando Ele corta o vínculo preferencial com o inferno e o medo”.

Senhor Ribeiro, aqui o senhor reverbera a tensão entre os Testamentos Velho e Novo.

Javé, o Deus da Guerra.

Jesus, o Deus do Amor.

Tais identidades inequívocas me parecem estanques e não dão conta das vívidas contradições encarnadas por ambas as divindades.

É bem verdade que Javé pediu ao pai Abraão que imolasse seu filho Isaac como prova de amor a Deus.

Também é verdade que Moisés precisou barganhar com o Deus irascível pelas vidas de seus irmãos judeus quando Javé descobriu os idólatras de Judá diante do Bezerro de Ouro no sopé do monte Sinai.

Mas o Gênesis também nos apresenta um Deus benemérito e cioso da beleza em face da bondade de sua criação. “E viu Deus que era bom”.

É bem verdade que Jesus prega o amor não apenas ao amigo, mas também ao inimigo.

Também é verdade que o Sermão da Montanha prega o amor ao próximo e o oferecimento da outra face.

Mas não foi Cristo quem não exerceu a caridade ao xingar os fariseus de víboras e hipócritas? Não foi Cristo quem disse que sua missão era legar não a paz, mas a espada, de modo que os inimigos do homem estivessem entre os membros de sua própria família?

Vemos que Javé e Jesus como tipos ideais coerentes com suas qualidades maiores jamais existiram sem a sombra da contradição.

Mas há uma característica que subjaz às suas colocações, senhor Ribeiro: a justiça e o amor tornam anacrônicos o crime e o castigo para sermos tementes a Deus.

O temor a Deus lhe parece bárbaro.

O amor a Deus e à sociedade lhe parece providencial – e humano.

Sendo assim, senhor Ribeiro, o senhor talvez concordaria comigo se eu dissesse que Deus, ainda uma vez, é transportado para o terreno da História. Já não se trata de vislumbrá-lo em um plano transcendente sem que haja comunicação com o plano material. Não haveria um plano divino ontológico que pairasse sobre a sociedade humana. Deus se aproxima do devir histórico, se não for coincidente com a própria História.

Muito bem.

Tal recurso racional não é propriamente novo na história de Deus.

Falemos sucintamente do Ocidente.

Os católicos macularam sobremaneira a matéria – os padres orgíacos e pedófilos conhecem bem o que estou sussurrando. O mundo é mundano, necessariamente conspurcado. O pecado original verga nossos ombros. (Aqui, estamos diante do mito.) A morte de Cristo procurou oferecer a contrapartida para nossos pecados. (Aqui, estamos diante da suposta história.)

Sempre me pergunto sobre o porquê de Cristo não ter descido da cruz.

Dostoiévski sugere, n’Os Irmãos Karamázov, que uma tal descida divina teria trazido uma fé primitiva e miraculosa, fé que afastaria os homens de seu livre arbítrio e de sua responsabilidade ética. Ainda uma vez, os homens diriam que “crêem, porque é absurdo”, e não pelo fato de serem livres para exercerem o amor ao próximo – e, no limite, para transgredirem a norma.

Não lhe parece brutal que um Pai assista impassível à morte de seu Filho? Não lhe parece ainda mais brutal que a Mãe assista chorosa à morte de seu Filho, senhor Ribeiro?

A suntuosidade mundana da Basílica de São Pedro prega que não. A Igreja coage os clérigos aos votos de pobreza, mas a Suíça atesta para os devidos fins que o Vaticano é um de seus mais sagrados acionistas. A Igreja deve mediar a fé. O Tribunal da Santa Inquisição nos pôde legar um sagrado exemplo do perdão.

E quanto aos protestantes?

As linhagens mais radicais – calvinismo reloaded – afirmam que não é preciso ensinar a palavra de Deus. Se já há os eleitos, se não podemos alcançar os desígnios de Deus, não há o que fazer, senão esperar a morte, isto é, a volta à essência do Criador. (Se pudermos acumular os sacrossantos capitais para nossas igrejas natimortas mas bem vívidas e com grande liquidez, Deus nos abençoará.)

Mas há protestos entre os protestantes.

Há quem fale que a salvação virá pelas obras.

Deus não poderia ser parcial a ponto de escolher previamente os eleitos. Não seria justo. (Vemos que, aqui, Deus é mais antropomórfico, a teologia procura dialogar com a Razão histórica.)

É preciso fazer o bem.

Aqui estamos mais de acordo, não estamos, senhor Ribeiro?

Tal vertente coroa o ponto de chegada, e não a eleição divina desde a partida.

Será?

Deus pode não ser parcial pelo fato de considerar, ao fim e ao cabo, as obras benéficas de toda uma vida. O livre arbítrio está aí.

Mas e quanto às desigualdades sociais de saída?

Será que o benemérito bem nutrido não nutre menos ressentimentos do que o proletário?

Será que o benemérito proletário não tão bem nutrido, mas cuja família lhe deu uma boa guarida, não nutre menos ressentimentos do que o bem nascido órfão?

Mas e quanto às desigualdades congênitas de saída?

Por que há o aleijado congênito, meu Deus?

Por que há o aleijado posterior, meu Deus?

Deus voltaria a ser parcial, uma vez que a chegada não explica a partida desigual.

Eis que o espiritismo cristão pretende submeter a fé ao exame da razão.

O espiritismo up-to-date sabe que a modernidade não aceitará dogmas nem axiomas, mas apenas a religião que possa se desdobrar em uma filosofia científica.

O espiritismo ecumênico procura sintetizar a contribuição dos mais diversos credos para forjar sua doutrina.

Deus nos criou simples. Deus, o princípio único de todas as coisas, não o senhor de barba mimetizado belamente junto ao teto da Capela de Michelangelo.

Os espíritos vivemos não apenas uma vida, mas muitas.

Não se trata de vedar a descoberta dos planos espirituais pelo inequívoco dito do Espírito Santo. Já não se trata de postular o mistério. Os espíritas sabem que a fé só poderá voltar a ser global se puder acompanhar a razão.

O espírito, antes de reencarnar, escolhe a sua missão de acordo com o karma que traz consigo.

Estabelece-se uma intrincada relação entre o destino (karma) e o livre arbítrio.

Se houvesse apenas o jugo do destino, o princípio universal divino seria tirânico. Seríamos meras marionetes, não teríamos individuação alguma. Deus não seria amoroso.

Por outro lado, se houvesse apenas o livre arbítrio, nossas faltas não poderiam ser expiadas de acordo com o princípio da justiça. Faríamos o que quiséssemos sem consideração pelos erros cometidos nas vidas passadas. Se assim fosse, Deus não seria justo.

O espiritismo dá sentido para mistérios nunca antes revelados.

Nossos amores, pais, filhos e amigos não estão ao nosso lado a esmo. Não é o acaso cego quem nos aproxima das pessoas que nos completam. E mais: não voltaremos à essência de Deus e, assim, nossos laços não terão fim. O espiritismo postula que a vida eterna também torna eternos os laços de afinidade.

O princípio de evolução norteia o universo.

O pai de hoje pode ser o filho na próxima encarnação.

Não se pode regredir, mas apenas estacionar. Do contrário, Deus permitira a injustiça.

Senhor Ribeiro, creio que até mesmo o senhor gostaria de exercer o imperativo categórico ético para fazer algumas perguntas aos iluminados e iluministas espíritas, não é mesmo?

Ainda que a vida seja eterna, por que o aprendizado deve lançar mão do sofrimento?

Não se torna algo sombrio o karma que precisa lançar mão de um tumor do tamanho de uma laranja para mostrar ao assassino que não se deve matar?

O espiritismo revisita a lógica de Talião.

E mais: Talião se transforma em princípio de evolução, do contrário encarnarei novamente e não rumarei para os planos superiores.

Perguntemos aos espíritas, senhor Ribeiro: quer dizer que todo um continente sofredor, a Mãe África, de onde a espécie humana surgiu, precisa passar por expiações históricas? Senhor Ribeiro, que tal chamarmos tal princípio único de todas as coisas de racista?

Você ouve os protestos, Senhor Ribeiro?

“Quem disse que a opulência material redime?”

Não restam dúvidas, há muitas e muitas pessoas remediadas que sofrem sem solução.

Mas a história – a mesma que o espiritismo não quer e não pode ignorar – erigiu categorias de dignidade humana.

Dizer que o espírito escolhe viver em meio à pobreza para expiar o karma confere um outro atributo ao Deus espírita: o elitismo por meio da corroboração das estruturas de desigualdade.

Ainda que os bem-afortunados também sofram, não podemos ignorar que a possibilidade de estudos, formações e viagens conferem um valor à vida que o esgoto a céu aberto não pode apresentar.

Pondé havia perguntado ao senhor Ribeiro: o homem pode ser a forma do homem?

Senhor Ribeiro, creio que o senhor e Pondé perguntariam aos espíritas: o amor pode ser a forma de Deus para além da justiça taliônica?

Ora, Cristo postulou o amor, é bem verdade, mas não precisou exercê-lo após a crucificação.

“Deixem que os mortos enterrem os mortos”.

Nossa sociedade torna objetiva a impossibilidade de vivenciarmos o amor como um princípio global de nossas vidas.

Amamos, de forma contingente, aqueles que nos são próximos – e conhecidos. Os próximos estranhos, aqueles que infelizmente encontramos nos longos engarrafamentos, estão a um passo de nossos insultos.

Na sociedade dos recursos escassos, oferecer a outra face pode nos deixar desempregados.

Como exercer o imperativo da razão, senhor Ribeiro, quando não se pode ser autônomo sem dinheiro?

Como amar os demais, senhor Ribeiro, se sobre o eu paira o anátema de não ser bem-sucedido?

Buda nos recomendaria a abnegação em relação às ilusões deste mundo.

Mas será que Buda alguma vez teve uma ereção?

Será que Buda já sentiu quão contingentes são o abraço e o beijo quando se está apaixonado?

Ilusões, Buda?

Nem mesmo por um único dia os homens puderam viver sem suas ilusões.

A persistência histórica de Deus não é apenas uma ilusão.

Trata-se de uma condição.

Historicamente, a teologia buscou o sistema coeso para sustentar a fé.

Não nos esqueçamos de que, também historicamente, correntes místicas postularam o caráter inequivocamente subjetivo da experiência transcendente.

Deus não seria objetivo, mas múltiplo.

Creio que o senhor Pondé e seu Deus vingativo, assim como o senhor Ribeiro e seu Deus justo fariam a seguinte pergunta aos místicos:

Como fica a ética de Deus em meio a esse subjetivismo exacerbado?

Se o Deus objetivo não existe, tudo é permitido?

Os amigos que me acompanharam até aqui puderam perceber o qüiproquó que representa a sobrevivência de Deus. E mais: a sobrevivência de Deus não em meio ao mito fundador, mas ao longo da história humana tangível.

Deus pode ser a forma de Deus?

O ateísmo responde por Deus.

O homem pode ser a forma do homem?

As massas que elegeram Hitler insuflam o ceticismo.

Deus pode ser a forma do homem, ou por outra, o homem pode ser a forma de Deus?

A História irônica só pode responder pelo passado.

Os fiéis dizem que o futuro a Deus pertence.

Os otimistas pretendem fazer Deus equivaler ao contingente processo de construção histórica da ética – e de construção ética da História.

Termino este excurso apóstata e teológico com duas anedotas que a autora Karen Armstrong narra em seu livro Uma história de Deus (São Paulo, Companhia das Letras, 2008, pp. 464-465.)

Se Deus e os homens não puderem responder a essas anedotas, receio que duas condições continuarão a alijar a fé da vida global e efetiva dos homens, isto é, os fiéis continuarão a orar apenas quando tiverem tempo, pois a sociedade dirá que é muito mais essencial dar a César o que é de César.

(1) Deus continuará banido da História efetiva;

(2) Deus se tornará mais um hábito entre os muitos que nutrimos. Um hábito essencial e revigorante, mas, ainda assim, um hábito – e não a redenção e o princípio único de todas as coisas.

Apresentemos, agora, as anedotas narradas por Karen Armstrong.

Anedotas vivenciadas pelos sobreviventes de Auschwitz.

A primeira foi vivenciada por Elie Wiesel, congratulado com o Prêmio Nobel da Paz em 1986.

“Em sua primeira noite no campo da morte, vendo a fumaça negra que saía do crematório onde os corpos de sua mãe e sua irmã seriam lançados, Elie entendeu que as chamas haviam consumido sua fé para sempre. (...) Um dia, a Gestapo enforcou uma criança. Até os SS se perturbaram com a perspectiva de enforcar um garoto diante de milhares de espectadores. O menino tinha o rosto de ‘um anjo de olhos tristes’, lembra Wiesel, e subiu ao patíbulo em silêncio, pálido e quase calmo. ‘Onde está Deus? Onde está ele?’, um preso perguntou. A criança levou uma hora para morrer, e os prisioneiros foram obrigados a olhar para seu rosto. O mesmo homem tornou a perguntar: ‘Onde está Deus agora?’ E Wiesel ouviu a resposta dentro de si: ‘Onde está Ele? Está ali, pendurado naquele patíbulo’”.

Que os católicos, protestantes e espíritas tentem trazer Deus ainda uma vez para dentro da História.

Que os católicos, protestantes e espíritas tentem formular seus sistemas teológicos levando em consideração a fissura absoluta – e do Absoluto – que Elie Wiesel vivenciou.

Lembremos que Ivan, o Karamázov, já dissera que a morte de uma única criança inocente já exige a apostasia em relação ao Deus impassível. “Devolvo o meu bilhete de entrada para o bem da divindade alheia”.

Acompanhemos a segunda, e última, anedota.

O hábito não faz o monge.

Não, o hábito o catequiza.

“Conta-se que um dia, em Auschwitz, alguns judeus levaram Deus a julgamento. Acusaram-no de crueldade e traição. Como Jó, não encontraram consolação nas respostas habituais para o problema do mal e do sofrimento. Não conseguiram encontrar desculpas para Deus, nem circunstâncias atenuantes, por isso o declararam culpado e, supõe-se, digno de morrer. O rabino pronunciou a sentença. Depois ergueu o olhar e declarou encerrado o julgamento: estava na hora da prece vespertina”.

Quem equipara Deus a uma mera ilusão desconhece a persistência da ilusão como uma característica desde sempre humana.

No entanto, qual o futuro dessa ilusão?

Podem os homens fundar uma sociedade ética?

Pode o homem sair de seu subsolo?

Aqueles e aquelas que acompanham este estoriador sabem que estas perguntas jamais deixarão de percorrer e obsedar o Subsolo das Memórias.

4 comentários:

  1. Luciano Costa Azevedosexta-feira, 14 outubro, 2011

    E aí, Flávio?
    Lembra quando assistimos Cama de Gato no cinema? Lembra também que, depois do filme, comentei com você que a religião poderia conter os excessos e práticas sádicas cometidas pela juventude? Eu pensei o quanto a religião poderia ser um cimento moral num mundo onde o outro nada mais é que mero brinquedo para satisfazer interesses ou prazeres de um.
    Porém, a realidade é mais complexa que qualquer cocepção pessoal ou análise filosófica.
    Conheci pessoas cristãs - como meu amigo André do curso de Ciências Sociais - que dizem que a desigualdade social é inaceitável, que é preciso mais altruísmo, etc. e tal.
    Mas muitos são os cristãos hipócritas e coniventes com a intolerância.
    Segmentos do Cristianismo pregam que não há hierarquia entre os pecados. Com isso relativizam a barbarie - queimar um morador de rua torna-se um pecado igual a transar antes do casamento.
    Mas, ao mesmo tempo que não há hierarquia entre o s pecados, condenam com mais vigor os pecados que violam a moral sexual, legitimando a intolerância. "Ah, aqueles moços que apanharam na Paulista eram gays. Bem feito! Quem mandou pecar?". Um soldado arrebentar a cabeça de um menino de 10 anos (muito provavelmente pobre e preto) com tiro de fuzil pode ser um pecado menos grave que um adultério cometido pelo mesmo indivíduo no papel de marido.
    Eu tô morando de aluguel e percebo o quanto o dono da casa (evangélico fanático) é egoísta e amante do dinheiro. "Não tenho amigos, meu único amigo é Deus", me disse ele outro dia.
    Ser puta é pecado, mas ser homem de negócios (termo bonito para designar um mercenário), não. Aliás, Deus até abençoa o fiel que paga o tributo divino, não importando se o dízimo é parte do dinheiro que o fiel ganhou levando vantagem sobre os demais.
    Será que é o caso de pensar a distinção - feita pelos adeptos da Teologia da Libertação - entre fé ontológica e fé ideológica? Talvez, mas deixo essa discussão pra você e os leitores do Subsolo.
    Vou me casar no final do ano (com uma evangélica que é uma pessoa muito bacana). Apareça algum dia aqui em casa.
    Abraço,
    Luciano Costa Azevedo.

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  2. Fala, Luciano! Como é que você tá, cara, tudo bom?

    Então, a máxima dostoievskiana - "se Deus não existe, tudo é permitido" - centra-se na (suposta) impossibilidade ética diante da ausência de Deus.

    Creio que poderíamos fazer algumas suposições:

    (1) Sabemos a utilização política de Deus - vale a pena (re)ler o texto de Renato Janine Ribeiro;

    (2) Entrevemos que o freio (anti-)ético de Deus, ou pior, de seu inferno, não faz sentido algum, em termos globais, para uma sociedade que tem uma outra simbiose com a primeira e a segunda naturezas, vale dizer, as forças naturais e a vivência em sociedade;

    (3) Em uma sociedade profundamente desigual como a brasileira, a proliferação de igrejas evangélicas deveria ser muito bem-vinda pelas elites excludentes. As igrejinhas fazem o papel civilizador e contêm o ímpeto (legítimo) por situações outras que não a miséria. "Os últimos serão os primeiros, os primeiros serão os últimos". A questão é que se faz isso à custa de uma educação mais laica, inclusiva e contemporânea;

    (4) Procurei suscitar essa discussão não apenas para pensarmos sobre os aspectos contemporâneos da morte de Deus, mas pensarmos na possibilidade de um Deus outro, uma entidade imanente, não mais transcendente. Há uma fortíssima problemática ética quando procurarmos trazer Deus ainda uma vez para a História, sobretudo em face das barbaridades industriais do século XX. Teologias que procurem se refugiar no misticismo ou na obliteração para não lidarem com tais questões, ora, só o farão ao preço de relegar a velha noção de Deus aos perímetros provincianos de suas igrejas.

    Quer dizer que você vai casar, Luciano?! E tá programando um filhão?

    Me convide para a festa, hein? O presente para o filhão eu já sei: uma bela camisa do Coringão :-)

    Grande abraço,

    Flávio Ricardo

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  3. Luciano Costa Azevedosegunda-feira, 17 outubro, 2011

    Eu reparei que na favela em frente de casa o que mais existem são butecos e igrejinhas.

    Quanto à camisa, belo presentão! A gente vai se casar no civil e, por enquanto, não temos filhos programados. Também não tá programada festa, mas, se tiver, te aviso.

    Grande abraço.
    Luciano.

    PS.: como não fiz direito a revisão, ao escrever "cocepção", cometi um desvio involuntário da ortografia oficial.

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  4. Apreciei bastante seu texto.
    Só que o jornalão paulista começou uma discussão baseada numa frase que não saiu da pena de Dostoiévski. Nenhum dos irmãos Karamazov diz a linha "Se Deus não existe, tudo é permitido". Agora o wikipedia também sabe que essa frase não existe tal como nós conhecemos: http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Irm%C3%A3os_Karamazov#Se_Deus_n.C3.A3o_existe.2C_tudo_.C3.A9_permitido.3F

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