Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Palácio de Versalhes

Meus amigos,

Há um provérbio árabe que bem sintetiza a marcha irônica da História.

“Não diga ao amigo aquilo que o inimigo não puder saber”.

Luís XIV encontrou uma saída à francesa para conciliar a prudência – e a política.

O Palácio de Versalhes.

A uma hora e meia de Paris, se tanto.

A aristocracia palaciana conspira – enquanto se curva.

As cortesãs se mostram solícitas – até a delação.

Luís XIV reeditou o perdão.

Vestiu-o a caráter.

Deu-lhe um título nobiliárquico.

As orgias palacianas tornam cúmplices os outrora inimigos.

Aproxima os dissidentes.

Que os credores se tornem devedores.

No jardim labiríntico de Versalhes, a saída mimetiza uma nova entrada.

Há algumas semanas, estivemos na Londres austera e, sobretudo, burguesa.

Vocês se lembram?

London Calling:

Esta semana descobriremos por que os ingleses nutrem uma inescapável amargura ao se lembrarem dos patrícios franceses, a despeito das muitas vitórias em nome da rainha.

Os aristocratas só fazem mirar os filhos da rainha por sobre os ombros.

Os nobres não se cansam de remeter os gentlemen ao provincianismo de sua terra insulada.

Convido a todos, então, para percorrermos as antecâmaras fotográficas do


Palácio de Versalhes


On y va?
Vamos?


Luís XIV ficaria extremamente escandalizado com as atuais casas de swing. Afinal, sexo grupal entre apenas 4 paredes burguesas no bairro de Moema não chega nem mesmo aos pés nus das dezenas e centenas de milhares de cortesãs aristocráticas que se esfalfaram em Versalhes


Onde é que você tá?


Aqui


O quietismo geométrico do jardim perfilado pressupõe a marcha da baioneta a passo de ganso (Em algum momento da História, pôde o belo erguer suas pilastras jônicas sem se apoiar sobre os costados do horror?)


E pensar que o oposto do aristocratismo se volta para a austeridade burguesa da Av. Paulista...


Um burguês consumado, aquele para quem a ética do trabalho é uma segunda natureza, diria o que diante de tal paisagem a lhe dar bom dia?


Talvez ele dissesse que é preciso lixar o suposto parapeito que se insinua na parte inferior esquerda da foto. "Afinal, o belo precisa da liquidez turística".


No século XIX, Dostoiévski entrou em uma encarniçada discussão com a intelligentsia de sua época - os avós de Lênin. "Rafael e Leonardo Da Vinci são mais ou menos importantes do que um par de botas e um pedaço de pão para a população?" A despeito de entrever as necessidades materiais inadienáveis, o escritor percorreu a História para afirmar que, em nenhum momento, o homem passou sequer um dia sem suas ilusões. Como é que nossa época cínica poderia reeditar tal contenda? Hoje, a distância histórica não nos pode mais ocultar o filisteísmo do socialismo realmente existente. O ícone da finada URSS era não o cidadão liberto do trabalho coercitivo, mas o trabalhador que envergava a foice e vergava sob o martelo de Stálin. A humanidade não pôde equacionar o problema de sua produção demasiada que ainda priva a maioria de seus órfãos. E a ironia beira o cinismo se pensarmos que (1) haveria tal possibilidade se os parâmetros de consumo pudessem ser pensados coletivamente e (2) se o filisteísmo burguês não tornasse utilitário até mesmo o momento de elevação que o belo oferece


Chiquinho Scarpa se desespera: "Ora, Astolfo, como é que eu vou emoldurar esta foto obtusa e doá-la para o museu mais próximo de você em troca de uma placa que me transforme em um patrono das artes e que seja a ponte para a minha futura fundação-espólio-para-os-meus-herdeiros?"


Imaginemos, ainda que por um breve momento, a possível sensação de um emissário estrangeiro ao se deparar com esse colosso palaciano. Teria o gentleman em questão a vontade de intermediar os desejos de Her Majesty para declarar ao Estado personificado, le roi de France, que a Inglaterra tem a audácia de declarar guerra ao Reino dos Céus na terra?


To where the rainbow ends


O Rei Sol em face de seus súditos


Porque, infelizmente, a camisinha já era pressuposta...


Sentinelas


Quatro costados


Atesto para os devidos fins em cartório de vitalícia propriedade privada como usufruto de bem público que o portão não foi aberto para que a foto fosse tirada


Toda a nudez será castigada


A menos que Louis se aproxime


A nudez do inverno


Não, eu não estava com sono.
E não, não estava frio, ao contrário do que os 13 laços do cachecol insistem em insinuar


Maternidade


Where the rainbow ends
(A lenda estava certa: lá está o pote de ouro)


Todos os caminhos levam a Roma


Imagine-se por esta vereda. (Fazia muito silêncio.) Se você olhar as árvores individualmente, o vermelho se dilui. Quando olhamos o todo, o belo volta a ser vermelho. Será que foi isso que Aristóteles quis dizer quando afirmou que o homem é um animal social?


Paternidade


Sugestão aos gestores da coisa pública paulistana: que tal verter a represa de Guarapiranga no lago de Versalhes? Ao menos o lumpesinato poderia sentir a brisa do belo, já que, de qualquer maneira, sua vivência efetiva estaria vedada. Imaginemos, então, por um breve momento, uma possível sanção legal por parte de Gilberto Kassab - sanção transmitida ao vivo pelo SPTV. Ao nos lembrarmos de que a requintada Rede Globo utiliza a imagem da Ponte Estaiada como pano de fundo para seu telejornal, descobrimos por que a população brasileira é tão embrutecida. Ora, seus mandatários são mais realistas que o rei, a feiúra desagua morro abaixo como os barracos que jamais conhecerão sequer uma escritura


Ópera palaciana


Se Louis pudesse sancionar os nascimentos vindouros,
Richard Wagner faria suas Valquírias marcharem Versalhes adentro


No inverno, toda e qualquer vereda tem o feitio brutal de um corredor polonês


A austeridade burguesa de Londres também enfileiraria os barquinhos, é bem verdade. Mas uma coisa é certa: os beirais jamais estariam pintados de vermelho - Her Majesty would think it is too explicit for the education of the children to come


Há algo de propriamente humano na recalcitrância das aves


Ainda que a razão lhe seja indiferente, o branco vai se tornando mais obscuro pescoço acima, até que os olhos sejam indiscerníveis na terra das Luzes. (A História e sua ironia não deixam de esboçar seu amargo sorriso de soslaio)


Espero que você não se sinta assim


Se nem mesmo por um único dia o perdão pôde narrar sequer uma página da História como um todo, por que fresta exígua se insinua a esperança? (Olha pra mim!)


Vamos, por favor, ainda há um palácio pela frente!


E pensar que a humanidade até hoje não pôde resolver o paradoxo que faz com que a mesma mão de mármore que nesta foto nos suplica sustente o coturno que pisa na mão ossuda e suja sob o Minhocão e a manta sarnenta


Foi por isso que eu quis te encontrar, Versalhes


O consolo - seguido da ironia:
o mármore indiferente não pode se banhar - mas também não vai morrer


Equidistância


Assim como Hollywood recria o mundo à imagem e à semelhança de seus investidores que fazem os egípcios, os judeus, os espartanos e os romanos falarem inglês, Louis faz o apocalipse repensar seus valores para que o Gênesis fale francês


Farejando o poder, o Punhal da Santa Cruz prontamente propõe uma celebração
"Que dissera Henrique IV, Cardeal Richelieu?"
"Paris bem vale uma missa, meu rei"


"Eu sou aquele que sou"


No princípio era o Verbo?
Não, a coroa


E pensar que os atuais executivos celebram seus contratos em churrascarias...


Ouço um turista goiano dizer:
"Olha, amor, parece a piscininha de carpa que a gente tem lá na fazenda"
(Será que dá pra entender o filisteísmo da Rede Globo, agora?)


Ouço um turista paulista dizer:
"Mas pra que tanta vela? Põe logo uma luz branca que ilumina bem mais"


Entendeu, filhinha?
Sim, mamãe. Quando eu fizer 9 anos, devo vestir vermelho.
Se for do agrado do tio-avô com quem você logo se casará, não se esqueça.


Amaury Jr.: "Peça à produção que, por favor, envernize a estátua".
Em off: "Será que, depois disso, ela nos cederá uma exclusiva?"


Por isso eu quis te encontrar, Versalhes


Arte de vanguarda em Versalhes?


Eu sou...


... um apologista


"Amor, que que você acha? Lá nos Jardins eles vendem uns lustres assim!" "Mas, meu amor, veja a corda enorme que suspende o lustre, o nosso loft não tem um pé direito tão alto assim!" "Ai, amor, a gente dá um jeito". Depois de muito pensar por alguns segundos: "É só cortar a corda amor, daí cabe lá no loft. Dá até pra fazer de luminária pra gente colocar do lado do braço do sofá. Daí temos aqueles moldes de livros". "E se aparecer alguém que queira ler algo de fato, meu amor?" "Ué, a gente sempre tem uma Caras à mão, que que tem?"


Aula de desenho geométrico
"Cuidado com a ponta cega desse compasso, menino!"


Louis sentencia:
"Queimem o sepulcro daquele tal de Buonarroti
que ousou morrer antes de pintar o teto do meu palácio!"


As nuvens confabulam


Roberto Justus notifica a designer de interiores por teleconferência:
"Não, não, totalmente desnecessário. Meu office precisa de algo mais clean".


Paleta


A vã denuncia que o capitalismo já se infiltrou há muito, meu vão palácio


Athayde Patreze visita - e se exaspera:
"Ao que me consta, Astolfo, jamais houve molduras circulares!"


Uma pergunta que a guilhotina já fez calar:
Que sentiram os revolucionários franceses ao se depararem com Luís XVI sobre a cama real?


Hobbes já dissera:
"Não há vácuo no poder"


A Revolução cortou as cabeças, mas o poder parece ter o poder de regeneração das planárias


Parte I: A arena


Presente do Rei Midas


Parte II: Apenas imaginemos a formosura das cortesãs que sorriram sobre este leito...
Não à toa o outrora pagão Santo Agostinho orou ao Pai:
"Senhor, faça-me casto! (Mas não agora.)"


(Bato à porta: Agostinho, qual foi o nosso combinado?
Já passou da hora, meu Santo! Minha vez! Fora! Cadê a caridade cristã?)


Por isso eu quis te encontrar, Versalhes


Teia


O triste e solitário eunuco em meio às orgias palacianas


Se o Marquês de Sade reencarnasse, provavelmente assim sentenciaria, após freqüentar as casas de swing em Moema: "Faz todo o sentido que o Viagra seja uma invenção do capitalismo tardio"


Como a Ironia forja a história, e não o contrário,
a Revolução Francesa culmina na Reação napoleônica


"Diante da minha vontade de potência, as veleidades de um Luís XIV
não passam de arroubos a serem exilados em Santa Helena"
(Assim falou Napoleão)