Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

domingo, 14 de agosto de 2011

Democracy: we deliver


Aquele dia estava estranhamente calmo.

Céu azul sem nuvens.

Eu estava rigorosamente no horário.

Se estava nervoso?

Não, bastante calmo.

Havia estudado a rota com cuidado e precisão, nada podia dar errado.

A Central estava sempre em contato.

Eu estava ciente sobre a responsabilidade que tinha em mãos, ah, se estava!

Sim, senhor.

Milhões de vidas dependiam do sucesso da minha missão.

Milhões!

Realizada a missão, eu deveria dar uma guinada de 180º.

Se tinha medo?

Eu cumpria o meu dever.

Um soldado deve lutar.

Pronto, foi.

(Testa empapada.)

Ela tinha que rasgar a terra antes de atingir o chão.

Mission accomplished.

“Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa de Hiroshima
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica”.

Vinícius de Morais desabrigados.

Rosazul.

Solo sem raízes, vidas movediças.

Bunker civil, família de rostos vergastados pelos acordes atonais, assovios das ogivas, sol pelas frestas, raios como baionetas, afagos fúnebres. Sombras pulverizadas. Tudo que é sólido desmancha no ar.

Paul Tibbets Jr.
Wikipedia – A enciclopédia livre
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Tibbets

“Paul Warfield Tibbets Jr. ( Quincy, 23 de fevereiro de 1915 – Columbus, 1 de novembro de 2009) foi um brigadeiro-general da Força Aérea dos Estados Unidos, comandante do avião que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945.
Paul Tibbets acenando da janela do cockpit do Enola Gay,
em 6 de agosto de 1945, antes de partir para Hiroshima.
Piloto americano de missões de bombardeio sobre a Alemanha durante a Segunda Guerra, o então tenente-coronel Tibbets, de 30 anos, foi o escolhido para lançar a bomba atômica sobre Hiroshima. Na ocasião comandava o 509º Agrupamento Aéreo dos Estados Unidos e desde fevereiro de 1945 preparava-se para a missão.
Desde o final de abril, o comandante aguardava, na pequena ilha de Tinian, no arquipélago das Marianas, no Oceano Pacífico, a ordem para bombardear o Japão.

Para realizá-la, Tibbets escolheu pessoalmente um quadrimotor B-29 que foi denominado Enola Gay, em homenagem à mãe dele.
Dos 1.500 membros do esquadrão, Tibbets era o único que sabia para o que estava sendo treinado. Os demais membros da tripulação que acompanhou o piloto apenas tinham recebido instruções pouco precisas sobre os reais objetivos da missão.

Até o fim de sua vida, Tibbets acreditou ter feito o necessário para acabar com a guerra e não demonstrou arrependimento pela bomba por ele lançada ser responsável pela morte de mais de 119 mil pessoas, no primeiro ataque nuclear contra seres humanos na história.
O Presidente Harry Truman, que ordenou o ataque, teria dito à tripulação, depois do retorno aos Estados Unidos: "Não percam o sono por terem cumprido essa missão; a decisão foi minha, vocês não podiam escolher".

Paul Tibbets viveu por mais de sessenta anos após Hiroshima, falecendo em casa, no estado de Ohio, no dia 1 de novembro de 2007, aos 92 anos de idade”.

14 comentários:

  1. Boa!
    By the way, o título é o mesmo de um dos álbuns da banda Dead Kennedy's. Na minha opinião, a mais interessante banda punk que já surgiu na américa.
    Abs corridos.

    ResponderExcluir
  2. Primeiramente, excelente Blog e ótima palestra na fantasticon.

    gostaria de convidá-lo para o lançamento do meu primeiro romance.

    Atenciosamente,

    P.P.F. Simões, escritor do livro "Ordem e Progresso" pela Editora Novo Século.
    Literatura Contemporânea Brasileira
    http://ppfsimoes.wordpress.com/

    ResponderExcluir
  3. Daniel, você acha que eu não me lembrava daquela tua foto no orkut com a capa do álbum do Dead Kennedy's, meu velho?

    Demais esse lance dos caras: "Democracy: we deliver", "Holiday in Camdodja", hahahahahaahaha! Sensacional!

    Grande abraço,

    Flavião

    ResponderExcluir
  4. kkkkk..
    Nos anos 80, o Jello Biafra, vocalista da banda, foi candidato a governador da california... era uma espécie de Enéas da esquerda...
    abração.

    ResponderExcluir
  5. Se você pensar que o Schwarzenegger se tornou governador da Califórnia, velho, o fascismo de direita e o fascismo de esquerda deram as mãos :-)

    ResponderExcluir
  6. Oi, Flávio, já assistiu ao filme Melancolia?

    não perca,
    é original,
    deixa em nós uma sensação estranha e conhecida ao mesmo tempo.
    muito forte.

    bjs,
    Sandra

    ResponderExcluir
  7. Oi, Sandra! Tudo bom?

    Pois então, assisti ao novo filme do Lars Von Trier semana passada.

    Devo dizer que fiquei bastante decepcionado - achei o trabalho bem inferior a "Dançando no escuro" e "Dogville", por exemplo. O "Melancholia" me parece um filme mais plástico, as grandes questões filosóficas que sempre marcaram o trabalho do diretor me parecem anuladas. Conforme o tempo ia passando, eu sinceramente senti a melancolia de quem espera uma tensão - algo como o que ocorreu em "Dançando no escuro", quando o começo anódino tem uma grande virada pela morte do policial.

    Infelizmente, tal u-turn não apareceu. Eu pensei que algo tenso fosse acontecer a partir do momento em que a "noiva" trai o marido em plena festa de casamento. Mas só é possível, a meu ver, fazer um quadro dos desdobramentos cruciais de sua deformação no presente - nisso Lars Von Trier é coerente, ele não traça genealogias, mas arremessa as personagens em uma tensão em meio à qual espaço e tempo se fundem.

    Mas agora eu fiquei curioso, Sandra: que você achou do filme? O que ele te trouxe?

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

    ResponderExcluir
  8. Oi Flávio, tudo bem?

    Achei o filme “Melancolia” evidentemente mais plástico, mas veja, o espaço de um castelo serve perfeitamente para esse estado de espírito. Se a locação fosse um lugar claustrofóbico, o “tema” seria outro. Ele iria se repetir. Ou seria talvez, óbvio. O desafio pode ser maior. Já viajei muito, e nesses dias tentava viver o dia como se fosse uma vida, e para os lugares mais lindos (vale de loire, por exemplo). Eram os dias que me causavam a tal da melancolia (lampejos de melancolia) no horário do por do sol. Eu queria que eles não acabassem. Acho que é a idéia da finitude, a idéia de não dar conta do espaço aberto que ao contrário, nos parece infinito. A idéia de não dar conta desse sentimento.

    E, por que não a beleza plástica? Me parece um preconceito. A beleza está muito próxima da melancolia. Ela pode machucar, e será que ela faz algum sentido? Acho que não. Se ele se encerrasse nela mesma seria um problema, mas Lars Von Trier vai além. Se o mundo fosse só escombros e acabasse seria um alívio. E dentro da Justine há escombros. A natureza é linda, mas o mundo é mau, como ela mesma diz. Ela nem liga se tudo acabar. A atitude da Justine de tomar um banho no meio da festa, de querer dormir, de transar com aquele garoto tolinho, é a atitude de quem já abandonou “esse mundo dos que não sabem”. Que rompe as regras, não para chocar, é porque o tal sentimento é do tamanho de um planeta que pode ser destrutivo. É uma ameaça constante e verdadeira. Quem tenta romper é o cunhado, com a esperança, ou melhor, otimismo. E fracassa. Não existe virada possível.

    Bom, é isso.
    Bjs,
    Sandra

    ResponderExcluir
  9. PARTE I
    Oi, Sandra!

    Então, creio que somos privilegiados nesta sociedade tão injusta: ambos pudemos viajar bastante, pois percorri muitos dos caminhos que certamente interessaram ou interessariam ao Lars Von Trier de "Dogville" e "Dançando no escuro" - o Leste Europeu e a Rússia, sobretudo.

    Talvez seja possível dizer que a Europa Central e a Ocidental são mais plásticas, de fato. Se bem me lembro, o filme se passa na Escandinávia, né? Parece que eles praticamente não têm conflitos sociais a serem resolvidos - até que um Anders Breivik aparece e, "do nada", fuzila centenas de pessoas e coloca duas bombas em prédios públicos.

    Mas vamos à "Melancholia": não se trata de prejulgar a beleza plástica, mas de perceber uma guinada outra na obra do cineasta. O Lars Von Trier de "Dançando no escuro" e "Dogville" é tenso, filosófico, escatológico. Há uma miríade trágica de discussões, há um encadeamento narrativo que explode em uma crise sincrônica, como se tudo o mais que houvesse antes agora se fundisse para que a crise desvelasse um conflito, uma tragédia - a própria sociedade.

    O que se passa em "Melancholia"?

    Um devir efetivamente melancólico :-(

    Nada acontece, mas, por um lado, Lars Von Trier continua a organizar a trama pelo espaço narrativo: as situações não têm propriamente uma genealogia, elas são sempre contíguas. Porém, neste último filme, já não há diálogos, as tensões são praticamente distensões, elas se desdobram por si mesmas, sem quaisquer questionamentos ulteriores.

    Quando você diz que a natureza é bela, mas que o mundo é mau, pressupõe-se que o ser humano se apartou do belo pela irracionalidade que tanto o oprime. Sem a mediação da sociedade, a natureza é que é má, Sandra. Experimentemos os civilizados ficarmos 5 minutos em uma floresta verdejante ou em uma estepe enregelada sem que os auxílios (bem pagos) da divisão social do trabalho não venham em nossa ajuda. O que nos aconteceria além da inanição e da morte por um predador? A natureza é bela pelas categorias estéticas que puderam construir e elevar esse conceito de beleza - a maldade decorre da impossibilidade de vivermos racionalmente segundo nossas próprias vocações, dada a completa indiferença da organização social para aquilo que os indivíduos querem para si mesmos.

    A (anti-)narrativa apocalíptica do Von Trier neste filme rompe com uma tendência brilhante de analisar o mundo a contrapelo, de colocar o ser humano diante de si mesmo por um forte processo (dostoievskiano) de escatologia: levar o comezinho e o cotidiano às últimas conseqüências e vislumbrar aí os desdobramentos lógico-práticos que adviriam. Pensemos na personagem de Nicole Kidman em "Dogville" e no diálogo final entre o Deus Pai Gângster e a Maria Cristo Filha Benévola. O Velho Testamento é arremessado de encontro à Boa Nova, a plasticidade quase ausente do cenário desvela todo um sentido para trama - a arte não confere sentido ao mundo; ela, paradoxalmente, racionaliza a falta de sentido e leva o absurdo ao paradoxo de ser inteligível.

    ResponderExcluir
  10. PARTE II
    Ocorre algo assim em "Melancholia", Sandra?

    A meu ver, não.

    Trata-se de um filme pictórico, uma sucessão de quadros que, próximos ao Apocalipse, já não pretendem transcender a si mesmos. Uma suspensão da análise para que se dê uma síntese do irremediável. Saí do cinema bastante decepcionado, Sandra. Não me senti desafiado, não me senti nu - apesar de agradecer muito ao Von Trier pela nudez da atriz principal :-)

    Os sentidos me deixaram aguçado, mas não a Razão, o intelecto. Nesse sentido, uma parte de mim ficou imóvel e não pôde se fundir à plasticidade. Me senti, de fato, um espectador - mas não um expectador. Assisti ao filme, mas ele não me tomou. A sucessão pictórica da narrativa é belíssima, mas eu gostaria de acompanhar não apenas de maneira plástica, mas de modo mais humano, Sandra, os dilemas das protagonistas. O sexo frívolo com o rapazote se mostrou ainda mais gratuito quando do choque do planeta com a Terra. É bem verdade que as convenções se esfacelam no limite, mas não se tratava, digamos, de um conflito balzaquiano, de uma máscara machadiana. A inadequação da moça não dizia respeito apenas ao casamento, mas à vida em seu sentido mais trágico. É possível entrever os conflitos entre o pai anódino e a mãe avassaladora, daí o marido seria uma réplica fortuita do pai. E? Qual a decorrência disso para a crise da protagonista?

    Comparemos a irmã abnegada que tanto se preocupa com a noiva com a personagem da Björk em "Dançando no escuro", por exemplo. Me parece que o fim do mundo, Sandra, é menos trágico do que o fim pessoal, em certa medida - aliás, nossa sociedade capitalista projeta precisamente isso: que o eu prescinde do todo, que o meu fim é a maior tragédia. Mas pensemos: se tudo e todos irão acabar, meu corpo se funde ao caos. Mas se eu, de fato, não vou sobreviver ao mundo que continuará a existir sem mim, a situação ganha novas tensões, não? Que dirá a condenação à pena capital! Mas qual é a tensão da irmã morena? Por que ela teme tão convulsamente o fim do planeta? (Não digo isso em termos gerais e auto-explicáveis, mas como dilema pessoal.) O marido, por exemplo, é bem mais fleumático quanto ao fim.

    E de onde vem a vinculação entre a loira e o menino? Qual o papel do lúdico? Se eu fizer um exercício de imaginação e pensar em "Melancholia" como o primeiro filme de Von Trier que eu tivesse visto, creio que não conseguiria associá-lo aos demais que tanto me marcaram. Me sentiria acariciado e excitado com a linda imagem da nudez loira sob a lua que logo não nos vai banhar. Mas... E? Provavelmente, se enfrentasse de fato o Apocalipse, estaria como o homem ridículo da narrativa de Dostoiévski: uma pistola junto à mão direita. Se bem que não seria tão contido, creio que liberaria a besta-fera - afinal, já não vai haver demora, né? (Pensemos, nesse sentido, n'O ensaio sobre a cegueira - o romance e o filme.)

    O que você acha desses pontos, Sandra? Continuemos a discussão, tô achando muito interessante esses pontos que estamos debatendo. E reitero: considero o Lars Von Trier um grande artista. Não é o primeiro filme dele de que não gosto. "Manderlay" e "Europa", por exemplo, não me tocaram. E nem menciono aqueles questões exteriores de "Dogma não sei que número" e lances "nazistas" e projetos promocionais. O que me importa é o grande talento dele, de fato.

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

    ResponderExcluir
  11. P.S.: Reitero uma colocação que fiz mais acima: a arte não confere sentido ao mundo; ela, paradoxalmente, racionaliza a falta de sentido e leva o absurdo ao paradoxo de ser inteligível. E, contrariamente à maior aposta já feita pela História, o caráter inteligível do absurdo não nos fez superar o Reino da Necessidade e não nos conduziu à felicidade - artigo contingente e, atualmente, prescrito sob disputadas receitas médicas.

    ResponderExcluir
  12. P.P.S.S.: Em "Dogville", "Dançando no escuro" e "Anticristo", Von Trier disseca tais tensões. A minha melancolia deriva da fraqueza delas em "Melancholia" :-0

    ResponderExcluir
  13. Flávio

    Em "Melancholia", existe uma tensão, tensão que independe dos interesses dos homens, das causas, é o acaso de um planeta em nossa rota, metáfora de um sentimento. E agora? É como se esse estado de espírito pegasse esse rumo, enganasse os otimistas, ganhasse força e acabasse por destruir a todos, inclusive os que nunca chegaram a imaginá-lo. Mas concordo que a primeira parte do filme poderia ter uma trama melhor articulada.

    Gosto do homem diante da natureza. Não acho que ela seja má. Por não ter interesses, objetivos, ela pode ser destrutiva sem ser má.

    O tema de “Melancholia” é muito original. Talvez não seja perfeito, é verdade.
    Existem filmes de sexo, amor, solidão, injustiça, guerra, terror, doença, eutanásia, morte, comédia, traição, loucura, fome, esporte, surrealista, ação, ficção, pobreza, escolares, idiotas, infantis, animação, realeza, gagueira, rs,rs, até melancólicos. Mas não “Melancholia”.
    Bergman, Polansky, Herzog, fizeram filmes que tratavam angústia, tristeza.

    Beijos,
    Sandra

    ResponderExcluir
  14. Oi, Sandra!

    Então, concordo que a idéia de "Melancholia" tem bastante originalidade. Mas devo dizer que a idéia foi solapada pelo filme. Não consigo, de fato, ver humanidade efetiva nas personagens. Além de considerar bastante inverossímil a postura delas em relação ao colapso da Terra, fico pensando que o apocalipse oriundo do planeta "Melancholia" nos é totalmente desconhecido até agora: que planeta é esse, ao fim e ao cabo?

    Eu sempre considerei Von Trier um discípulo de Dostoiévski e de Van Gogh. Não se trata de corroborar Bergman, por exemplo. A tragédia humana não é atemporal ou exterior à História - creio que é justamente por isso que grandes artistas podem retraduzir seus mestres para a contemporaneidade. Von Trier, a meu ver, vinha fazendo isso com "Dançando no escuro", "Dogville" e "Anticristo". "Melancholia" o aproxima do impressionismo, de Monet. A plasticidade pode tentar a cristalização do momento, mas o fato é que ele também não nos redime, como bem sabemos - ou pior, sofremos. Havia plasticidade nas demais obras, mas elas superavam a si mesmas ao percorrerem uma narrativa trágica que trazia os questionamentos mais profundos aos espectadores tratados como verdadeiros sujeitos. E é curioso esse paradoxo: a arte que caminha pelo negativo devolve a humanidade ao seu público ao desvelar a tragédia de uma vida que não pode ser vivida em sua plenitude, dada a completa injustiça que comanda nossa sociedade. "Melancholia" não propõe uma síntese - pelo contrário, ele apresenta o término. No entanto, tocar harpa em face do apocalipse não me parece um réquiem muito verossímil para a História sangüinolenta de nossa humanidade, não é mesmo?

    Monet Von Trier me parece mais palatável nesse filme. Talvez ele tenha pensado que o equacionamento do paradoxo em mais tragédia já foi feito. Se for o caso, eu lamento. Há muitas veredas para serem exploradas. Só não posso entrever um projeto de fruição minimalista em Von Trier, do contrário ele de fato se torna Monet.

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

    ResponderExcluir