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sábado, 23 de abril de 2011

Na Revista Zunái, um ensaio sobre a cegueira

Meus amigos,

Que tal percorrermos as alamedas literárias da Zunái – Revista de Poesia & Debate?

Pois vocês encontrarão a XXII edição da revista virtual a partir do seguinte endereço: http://www.revistazunai.com/

Entrevistas, depoimentos & debates, contos, traduções, poemas – e ensaios.

Entre os ensaios da edição em questão, José Saramago e Fernando Meirelles dão ensejo ao meu ensaio sobre a cegueira.


O ver não toca, o toque não vê

Um ensaio sobre a cegueira

http://www.revistazunai.com/ensaios/flavio_ricardo_vassoler_umensaiosobreacegueira.htm

O Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, e Blindness (2008), o filme de Meirelles baseado no romance, serão nossos cães-guia, pois “eu já conheço aquela parte em você que não tem nome algum”.

Abraço a todos,

Flávio Ricardo Vassoler

3 comentários:

  1. Flávio Ricardo,

    Muito bom conhecer a Revista Zunái.

    Li o seu ensaio sobre a cegueira. A cegueira física e espiritual é drama pungente.

    Abraço fraterno,

    Raquel Naveira

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  2. PARTE I

    Olá, pessoal! Tudo bom com vocês?

    Nesta sexta-feira, dia 29, retomaremos nosso curso.

    Gostaria, então, de retomar algumas questões com vocês para reestruturarmos o fio condutor de nossas discussões.

    Na aula passada, propus uma questão: dado o disseminado desenvolvimento tecnológico - supostamente acompanhado por mais possibilidades empíricas e sociais para todos e cada um de nós -, por que é que acabamos por constatar uma invaginação das trajetórias narrativas na literatura?

    Se pensarmos, por exemplo, na Ilíada ou na Odisséia, entraremos em um verdadeiro labirinto com muitas antecâmaras de ramificações para as estórias que se cruzam. Como se houvesse uma artéria fulcral de onde se espraiassem muito capilares com as estórias paralelas - nessa altura do curso, vocês já podem notar que a metáfora "orgânica" não é gratuita, né? (Quem quiser ler uma belíssima concepção da sociedade grega como um todo orgânico orientado a partir das estrelas pode procurar as primeiras páginas da Teoria do Romance, de Georg Lukács.)

    No entanto, quando aterrissamos em solo eminentemente moderno, acabamos por nos deparar com uma pergunta insólita que Drummond faz a Kafka:

    - E agora, Josef K.?

    Josef K., o protagonista kafquiano, tem profunda dificuldade em entender o porquê de o poder - que nunca se apresenta in loco - lhe vergar as costas. A narrativa se inicia com uma incongruência precípua. Poderíamos dizer que a trajetória de Josef K. é não o ESCLARECIMENTO acerca dos próprios problemas, isto é, a trajetória romanesca que paulatinamente traz incorporação de conhecimento à personagem - o romance de formação. K., na verdade, padece em e por sua trajetória, a desrazão é que parece sobrevir, chegaríamos à própria noção de deformação. (Quem quiser ler um "tratado" sobre a incorporação da deformação como princípio criativo pode procurar as Memórias do Subsolo, do Dostoiévski).

    A minha pergunta, então, foi a seguinte: por que é que a narrativa se invaginou? Não estaríamos diante de um contrassenso? Hoje, Júlio Verne e seus 80 dias em volta do mundo parecem aquele pergunta do netinho curioso ao vovô mofado. Mas aí é que desponta a questão: por que a literatura dificilmente retoma a tendência épica de narrativas longevas e organicamente estruturadas? Não me refiro, aqui, às adaptações sobre outras épocas. Não. Estou falando de uma épica contemporânea - uma história orgânica em que as partes se estruturassem como decorrências umas das outras.

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  3. PARTE II
    Pois quando observamos as estórias de Kafka, por exemplo, chegamos ao polo oposto: a unidade narrativa se esfacelou. Tempo e espaço não são claramente discerníveis, a consciência da personagem é tão trôpega quanto o corpo-inseto de Gregor Samsa, o protagonista de A Metamorfose. (Se pensarmos em Joyce, então, a trajetória narrativo-lingüística de Ulysses leva tal redemoinho às últimas conseqüências.)

    Pois este será o eixo pelo qual tentarei conduzir a minha contribuição nessa reta final do curso. Quando chegarmos a Samuel Beckett, na última aula, veremos a quase ausência dos elementos narrativos - e isso se torna ainda mais radical se pensarmos que Esperando Godot é uma peça, ou seja, precisa enraizar-se em um palco.

    Ainda mais curioso: José Saramago lançará mão de um elemento fantástico - a cegueira branca - para estrutura uma narrativa a partir daí verossímil, quiçá realista. Como se a nossa sociedade, profundamente racionalizada, levasse em seu bojo um feto irracional.

    Mas é aí que podemos perguntar: talvez haja escassez de narrativa para aqueles que buscam a autodeterminação, a autonomia. Porque, bom, no âmbito da heteronomia, nos planos do poder, a necessidade de se criar uma identidade social por meio da narrativa é inadiável.

    Tentaremos, então, fazer a transição de Kafka e Kubrick para Lars Von Trier e Albert Camus: se Gregor Samsa, Alex e Josef K. precisam contingenciar-se, pois mal conseguem dizer "eu sou", o Direito Penal e seus asseclas, com o dedo em riste, nos lembram de que é preciso VIGIAR, PUNIR - e narrar: Selma, a protagonista de Dançando no escuro, e Meurseault, O Estrangeiro, nos mostrarão que a invisibilidade social e o anonimato em meio à massa só podem prosseguir até a página 121 DO PROCESSO. Para o Direito Penal, não há o era uma vez do "era uma vez", pois permanece o sobrevôo do "tu és".

    Nos vemos na sexta, então, pessoal!

    Abraço a todos,

    Flávio Ricardo

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