Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

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domingo, 13 de março de 2011

Theodor Adorno sobre a liberdade

Memorial Theodor Adorno em Frankfurt

Meus amigos,

Continuemos a percorrer as alamedas labirínticas da promessa de Pandora.

Theodor Adorno (1903-1969) procurou percorrer o labirinto negativo da realidade não emancipada, de modo a prenunciar a utopia do pensamento sob liberdade condicional – eis a imagem mutilada da liberdade em face da sociedade que só permite a vida efetiva como Idéia, e não como práxis.

Thomas Mann foi considerado o ourives da palavra. Não apenas o beletrismo da frase esculpida, mas a organicidade do texto, a articulação causal de suas partes. Adorno poderia ser tido como o ourives do conceito. Mas o frankfurtiano bem pôde acompanhar a metástase do organismo harmônico pela sinfonia dissonante da Blitzkrieg hitleriana. Daí o caráter algo hermético de seus escritos – quiçá um mimetismo das grossas paredes do abrigo antiaéreo, talvez a retomada da liberdade aprisionada pelas portas de aço do bunker.

Em parceria com Max Horkheimer, Adorno desvelou a indústria cultural. Ou antes, Horkheimer e Adorno tornaram inteligível a democracia asséptica de nossa época, i.e., a tendência a aparar as arestas das criações do espírito, até que José não tenha mais trabalho aos domingos para ser manipulado por seu controle remoto.

Daí as clivagens entre o acadêmico e o popular, a alta cultura e a cultura de massas. Clivagens que já não mais se sustentam, dado o caráter incestuoso entre os polos hoje contíguos. A inteligência sofre o combate policialesco dos quadros partidários da intelligentsia, o público privado alcunha de arrogantes e elitistas as criações que não puderem ser consumidas nos vagões do metrô e nos corredores dos ônibus abarrotados.

Mas Theodor Adorno resiste. Sua Dialética Negativa apreende o pensamento como uma faca só lâmina: o pensador liberta o conceito já em sua trajetória patibular; o conceito assume o risco de ser arregimentado para a marcha industrial até as livrarias. A indústria cultural diria que Adorno é cínico. “Como pode o pensamento se tornar um vetor material se o conceito não pode se espraiar pela sociedade, se os leitores não podem entendê-lo?” Sob o risco de se tornar um adorno, Theodor Adorno desvelaria o cinismo da indústria cultural: se o conceito não pode se espraiar pela sociedade, se os leitores não podem entendê-lo, como pode o pensamento se tornar um vetor material?

Vejamos, então, o que tem a dizer

Theodor Adorno sobre a liberdade


Dialética Negativa / Theodor W. Adorno; tradução Marco Antonio Casanova; revisão técnica Eduardo Soares Neves Silva. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.


“No momento em que a pergunta sobre a liberdade da vontade se reduz à pergunta sobre a decisão de cada particular, em que esses particulares são destacados de seu contexto e o indivíduo separado da sociedade, a sociedade cede à ilusão de um puro ser-em-si absoluto: uma experiência subjetiva restrita usurpa a dignidade do que é maximamente certo”.

“As reflexões sobre liberdade e determinismo soam arcaicas, como se viessem dos primórdios da burguesia revolucionária. Mas não se deve aceitar como uma fatalidade o fato de a liberdade envelhecer sem ser realizada; a resistência explica tal fatalidade. A idéia da liberdade também perdeu efetivamente a sua força sobre os homens, porque ela foi concebida desde o início de maneira tão abstrata e subjetiva que a tendência social objetiva pôde soterrá-la sem esforço sobre si mesma”.

“A indiferença em relação à liberdade, ao seu conceito assim como à coisa mesma, é produzida pela integração da sociedade que se apresenta aos sujeitos como se fosse algo irresistível. O seu interesse em que cuidem deles paralisou o interesse por uma liberdade que eles temem não ser outra coisa senão ausência de proteção. Tal como o apelo por liberdade, sua mera nomeação já soa como retórica”.

“Seria muito difícil fundamentar teoricamente uma sociedade organizada sem pensar de maneira alguma na liberdade. Por outro lado, a sociedade organizada restringe uma vez mais a liberdade. Esses dois pontos poderiam ser mostrados a partir da construção hobbesiana do contrato social. Em contraposição ao determinista Hobbes, um determinismo faticamente universal sancionaria o bellum omnium contra omnes (a luta de todos contra todos); todos os critérios de ação desapareceriam, se todas as ações fossem igualmente predeterminadas e cegas. A perspectiva de algo extremo é dilacerada, quanto mais não seja por haver um paralogismo no fato de se exigir a liberdade em virtude da possibilidade da convivência: para que não haja o horror, a liberdade precisa existir. Mas é muito mais o horror que existe, porque ainda não há nenhuma liberdade. A reflexão sobre a questão da vontade e da liberdade não suprime a questão, mas a restabelece em termos da filosofia da história: por que as teses ‘a vontade é livre’ e ‘a vontade não é livre’ tornaram-se uma antinomia?”

“A liberdade, cuja realização irrestrita só é possível sob as condições sociais da abundância ilimitada de bens, poderia desaparecer totalmente, talvez mesmo sem deixar qualquer vestígio. O mal não está no fato de homens livres poderem agir de maneira radicalmente má, mas no fato de ainda não haver nenhum mundo no qual os homens livres não precisariam mais ser maus. Por conseguinte, o mal seria a própria não-liberdade dos homens: é dela que provém tudo aquilo que acontece de mal”.

“Quanto mais liberdade o sujeito e a comunidade dos sujeitos se atribuem, tanto maior é a responsabilidade do sujeito; e diante dessa responsabilidade ele decai em uma vida burguesa cuja prática nunca concede ao sujeito a autonomia integral que ela lhe imputa teoricamente. É por isso que ele precisa se sentir culpado. Os sujeitos se conscientizam dos limites de sua liberdade por pertencerem eles mesmos à natureza, mas sobretudo por sua impotência em face da sociedade autonomizada em relação a eles”.

“Não se pode profetizar de ninguém, nem mesmo do mais íntegro dos homens, como ele se comportaria diante da tortura; ‘só alguém dentro de uma situação pode julgá-la, e ele é a última pessoa que pode julgar’ (Bertold Brecht)”.

“Não há propriamente nenhuma outra instância para a prática correta e para o próprio bem senão o estado maximamente desenvolvido da teoria. Uma idéia do bem que deve guiar a vontade, sem que penetrem nela completamente as determinações concretas da razão, obedece sem perceber à consciência reificada, ao que é aprovado socialmente. A vontade arrancada à razão e declarada como finalidade de si mesma, a vontade cujo triunfo foi reivindicado pelos nacional-socialistas em uma de suas convenções partidárias, está pronta para o crime tanto quanto todos os ideais que se insurgem contra a razão”.

“Não existe segurança moral; pressupô-la seria já imoral, desoneração falsa do indivíduo em relação àquilo que poderia de algum modo receber o nome de eticidade. Quanto mais impiedosamente a sociedade se traveste de forma objetiva e antagonística até o cerne dessa situação, tanto menos se pode garantir qualquer decisão moral individual como uma decisão correta. O que quer que o singular ou o grupo empreendam contra a totalidade da qual eles são parte é contaminado pelo mal relativo a essa totalidade; e não menos quem não faz nada. No que diz respeito a isso, o pecado original se secularizou. O sujeito individual, que se arroga como moralmente seguro, fracassa e torna-se cúmplice porque, prisioneiro da ordem, quase não consegue fazer nada quanto às condições que apelam à natureza moral e gritam pela sua transformação”.

“A personalidade é a caricatura da liberdade. Na sociedade socializada, todos os indivíduos são incapazes do elemento moral que é exigido socialmente e que só existiria realmente em uma sociedade liberta. A moral social não seria outra coisa senão pôr um fim na má infinitude, na troca odiosa que consiste em pagar sempre com a mesma moeda. Entrementes, não parece restar mais nada da moral para o indivíduo além daquilo que concede aos animais inclinação, mas não respeito. Procura-se viver de tal modo que se possa acreditar ter sido um bom animal”.

"Apedrejaram-no através de um monumento".