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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Luz de Inverno ou O Inverno das Luzes


Congresso político-científico em Leningrado.

Bustos de Lênin – espectros à espreita.

Pesquisadores discutem acaloradamente por seus sussurros.

– Lênin foi um político ou um cientista?

Questão controversa.

– Político! Vladimir Ilitch Ulianov soube se aproveitar da Fortuna para implementar mudanças objetivas.

Questão intrincada.

– Cientista, como não? A Nova Política Econômica lançou as bases para a modernização da Rússia.

Os ânimos se acirram, a roda hermética como que faz menção de abrir mão das mímicas.

Súbito, o ilustre e algo adunco pensador K. Y. Rabinovitch categoricamente sentencia:

– Político.

Entreolhares inquietos.

– Político?

– Político?!

– Por quê?!

K. Y. Rabinovitch e seu farisaico olhar de desdém:

– Po-lí-ti-co. Fora Lênin um cientista, nobres camaradas, teria Ele feito seus experimentos primeiro com ratinhos de laboratório.

5 comentários:

  1. Eduárduo,

    Muito profundo o seu aporte bem democrático em relação aos temas de que a arte pode tratar - aliás, o sucessor de Lênin, camarada Stálin, bem poderia estar de acordo.

    E, obviamente, sua análise perfurocortante bem dialogou com o título 'pós-moderno' do excerto: Luz de Inverno ou O Inverno das Luzes.

    Marx já dissera: onde não há profundidade do conceito, lá emerge o adjetivo - ou então, velho Marx, o substantivo adjetivado: pós-moderno.

    Sem mais,

    Flávio Ricardo

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  2. Senhor Eduárduo,

    Afora a utilização de substantivos adjetivados - pós-moderno, pós-estruturalista -, que outra cambalhota hermenêutica poderá aparecer no picadeiro?

    Talvez seja importante introduzi-lo - K.Y. Rabinovitch lhe será útil, Senhor Eduárduo - a respeito da noção de 'Aufhebung'. O senhor bem conhece a dialética. Muito provavelmente, claro - seria a mesma chave conceitual que o faz pensar em temas tão fundamentais para a literatura como os mais acima aventados.

    De qualquer modo, Sr. Eduárduo, se a profundidade lubrificada de nomes frívolos - lembremos, nomes... - como Derrida e Deleuze ainda permitir o trajeto, que tal nos aprofundarmos ainda mais a reboque de K.Y. Rabinovitch? Remeto o senhor, assim, a uma entrevista a respeito de Fiódor Dostoiévski - mestre que, claro, o Sr. Eduárduo já leu e releu: Fiódor Dostoiévski no Canal Universitário: http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2010/12/dostoievski-no-canal-universitario-de.html. Nela há mais rudimentos sobre a tripudiada dialética.

    Daí, Sr. Eduárduo, talvez seja possível pensar que, na verdade, o assim considerado pós-modernismo não configura uma ruptura em relação ao apogeu moderno. Se pensarmos em Lênin como um capitão da indústria para o desenvolvimento da Rússia, estaremos vendo o estabelecimento do capitalismo por meio da finada União Soviética a mimetizar séculos de ruptura com o feudalismo na Europa Ocidental.

    Sobre essa concepção, conferir O Colapso da Modernização, de Robert Kurz. E mais: se pensarmos na Dialética do Esclarecimento - é claro que você pôde ver a dialética no meu título pós-moderno, não é verdade, Sr. Eduárduo? Luz de Inverno ou O Inverno das Luzes -, veremos a impossibilidade de os revolucionários que tomaram de assalto o poder em conter a irradiação do monopólio da violência. O socialismo a propor a administração racional da sociedade não apenas incentivou o Gulag, mas também gerou a forma dentro da qual a contradição entre autoritarismo e liberdade assistida poderiam se entrechocar. Daí a ciência sob tutela, a Razão a guiar a tautologia da produção, e não o rompimento com a divisão social do trabalho. Não se poderia estar mais longe do aforismo de Marx em A Ideologia Alemã: fazer crítica literária durante o dia e pescar durante a noite.

    Cuidado ao lançar chaves díspares para textos que dialogam visceralmente com temas outros. Sugiro, então, que o senhor volte ao breve fragmento acima e o releia para se aproximar das mediações: congresso político-científico; bustos de Lênin à espreita; discussões racionais por meio de mímicas e sussurros; político OU cientista, e não mais ambos. E quem é o intelectual que irá dirimir o conflito? K.Y. Rabinovitch: será que uma certa obsessão fálica chega a impedir o leitor de ver a tensão racional em face do anti-semitismo? (Sim, eu me rebelo modernamente contra a nova ortografia industrial - alguém talvez diria pós-pós-estruturalista.)

    Será que devo mencionar ao Sr. Eduárduo os expurgos do Gulag ainda uma vez? Não, não: fiquemos com o Starbucks, a solidão, a Blockbuster - será que devo dizer ao Sr. Eduárduo a origem bélica e moderna do nome da pós-moderna locadora?

    Não, não, o senhor já está em chaves que elevam ainda mais a 'Aufhebung' dialética: Consenso de Washington, Guerra Fria.
    A César o que é de César, a Deus o que é de Deus.

    Adeus, Sr. Eduárduo, K.Y. Rabinovitch lhe manda um abraço,

    Flávio Ricardo

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  3. PARTE I

    Senhor Eduárduo,

    É interessante como o senhor trabalha de fato com rótulos. Seria importante remetê-lo ao primeiro capítulo de O Capital para uma discussão a respeito do fetiche da mercadoria - mas, muito provavelmente, o senhor considera apenas a luta de classes, o marxismo exotérico. Quanto ao esoterismo da teoria do valor, bom, é melhor, de fato, ficar com rótulos. Quanto à dialética, Deus meu!, é melhor falar em disputas do Cômite Central e em filmes de Hollywood.

    Jameson e seu Marxismo Tardio - muito importantes para o público norte-americano bastante afeito a rótulos e com pouca capacidade de abstração -, Sr. Eduárduo, ainda procuravam discutir noções de totalidade, ainda tentavam flertar com uma possibilidade de síntese - aliás, fundamentalmente a partir da Dialética Negativa, de Theodor Adorno. Mas qual a importância da filosofia da história diante de uma derrota pragmática pelos membros da Nomenklatura? Não se trata aqui de denegar Lênin, Sr. Eduárduo - mas isso um pensamento mecanicista não vai entender, a menos que lide com a "negação determinada".

    Não se trata de negar completamente a racionalidade, mas de fazê-la percorrer o labirinto do negativo para que o pensamento crítico possa trilhar as contradições da história. Esse seria o aspecto não apenas de elevação dialética (Aufhebung), mas também de efetivo aprendizado. Não se trata, aqui, apenas de Lênin, mas do movimento histórico que lhe deu guarida, o Iluminismo. Não apreender que a totalidade flertou com o totalitário - será que o senhor Eduárduo nega Auschwitz e o Gulag ao lado do premiê iraniano? - seria estar imbuído do mesmo otimismo - à época profundamente justificado - da Revolução Russa. Sendo assim, Sr. Eduárduo, seria importante perguntar sobre a própria existência do pós-moderno: quando Baudelaire primeiro cunhou a expressão "moderno" - a princípio um adjetivo que apenas posteriormente passaria a substantivo adjetivado -, tratava-se de apreender a decrepitude do romântico, um novo paradigma estético - e social - vinha à tona. Mas e quanto ao pós-modernismo? Qual é o novo paradigma que pode assim considerá-lo? Na verdade, a totalidade nunca esteve tão forte - ao invés de se escorar em regimes totalitários ou em democracia formais, o Panóptico hoje foi introjetado: cada um de nós pode fazer o que quiser, desde que amanhã seja segunda-feira. O pós-modernismo - e seus epígonos rotuladores - gostam de alardear as mudanças quantitativas nos meios de comunicação, a perda de aura da cultura (Benjamin talvez tenha feito muito bem em se suicidar). Mas poderíamos hoje falar na mais completa absorção do todo etéreo, do Capital, como o ápice da sociedade administrada - algo que, caro Sr. Eduárduo, já estava presente na Dialética do Esclarecimento de 1946-47.

    Os entusiastas pós-modernistas e seus epígonos rotuladores se ressentem pelo fato de à totalidade administrada - apenas aparentemente não tão claustrofóbica - não se contrapor uma nova Utopia. Eis onde, a meu ver, o senhor se situa por meio de sua argumentação. Daí temos as prateleiras teóricas do supermercado conceitual de Deleuze e Derrida. Mas também temos os cães farejadores dos nostálgicos. Eis os dois pólos da mesma moeda a não objetivar o Espírito da Época. Por isso o Sr. Eduárduo me aproxima dos pós-modernistas - por quem não nutro simpatia alguma -, já que ainda tento trilhar caminhos dialéticos por meio da "negação determinada".

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  4. PARTE II

    A negação determinada, desde Hegel, tornou-se a quintessência materialista do pensamento de Marx. Trata-se de entrever as contradições sociais de um sistema como sendo negativas e positivas concomitantemente para o devir da história. Negativas para o que está a ruir - tudo o que é sólido desmancha no ar - e positivas para o estabelecimento do novo - que, vale dizer, não implica a ruptura completa com o velho. (Não se trata, aqui, de pensar como Thomas Kuhn em suas estruturas para as revoluções científicas, em que o novo significa uma edição inédita do tempo lógico.) Trata-se de entender o completo imbricamento histórico dos eventos e dos processos. O capitalismo expande a universalidade e a igualdade - só a partir do capitalismo se pode falar em humanidade -, mas o faz a galope de sua contradição fundante, a cisão de classes, o devir tautológico do valor. Daí a igualdade apenas formal - a sua dileta democracia americana, Sr. Eduárduo. Mas Marx ainda podia apostar na revolução iminente. E quanto a nós? Horkheimer, por exemplo, lança mão da revolução quase como categoria heurística, tamanha a iminência que lhe parecia possuir a mudança das condições de produção e reprodução da sociedade. (Não à toa o frankfurtiano se aproximou de Schopenhauer ao fim da vida...)

    Sendo assim, Sr. Eduárduo, a negação determinada implica o pensamento crítico que apreende a realidade - o século XIX e mesmo parte do XX ainda propugnavam pela verdade objetiva -, busca suas formas de produção, de modo que a Razão possa orientar o velho e o devir. Esta é a melhor herança do iluminismo, o socialismo e sua política revolucionária. Mas o que foi que a história nos trouxe? A negação não se estabeleceu como auto-reflexão - os revolucionários se cristalizaram no poder. Mas, bem, para além dessa análise política micrológica, poderíamos perguntar se os revolucionários deliberaram para além do Capital, Sr. Eduárduo, ou se a finada União Soviética concretizou em 90 anos uma modernização tardia que a Europa teria feito em séculos de mudança. Eis a leitura de Kurz, grosso modo, a vislumbrar o Gulag como a reedição de nossa escravidão. Algo muito engenhoso, sem dúvida, já que a derrocada da incestuosa Mãe Rússia - que digam os vizinhos do quintal russo no Leste Europeu - não significou a vitória do capitalismo para Kurz, mas a impossibilidade da reprodução do valor segundo a reposição da força de trabalho (o Manifesto contra o Trabalho faz uma exposição didática que mesmo leitores norte-americanos chegariam a entender.)

    Kurz ainda propugna pela totalidade. E mais difícil: totalidade em meio à distopia. Mas há quem diga que os textos finais de Adorno já não caminhavam pela negação determinada. Quiçá teológicos, buscavam uma transcendência alheia - laivos de Deus. Mas aqui estamos em outro momento da história do pensamento. Não se trata nem da desconstrução própria ao caos de Deleuze - é importante que os adeptos de hoje possam curtir a valer, já que amanhã usarão terno na entrevista de emprego -, nem do desconhecimento da dialética próprio aos cães farejadores.

    Ah, como alguém que proculha trilhar pelo negativo - mas que aprecia Minima Moralia e sabe que o completo negativo pode muito bem ser arregimentado pelas hordas fascistóides -, eu tenho respeito pela tradição. E a ironia, curiosamente, pode ser a expressão literária do negativo. A ironia que tenta não se vincular, a ironia que questiona, que pede o questionamento. Que lança mão de alegorias para que o símbolo crítico frutifique.

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  5. PARTE FINAL

    E faço citações, sim - tenho um profundo respeito pelo pensamento, e não por instituições (que diria por rótulos...) Foi por conta desses mestres - muitos deles na periferia do capitalismo, como Dostoíévski - que pude estabelecer minha formação.

    Agora sobre a minha forma de escrita: se quero - e/ou se posso - transformar algo ou alguém, não consigo responder por mim mesmo.

    Veja como o texto perde autonomia em face do criador, tornando-se mesmo uma criação. Uma criatura. (Mais uma vez remeto o Sr. Eduárduo a Mary Shelley.) Além de ser escritor, sou professor e tenho apreço pelo conceito. A Indústria Cultural esteriliza a linguagem, de modo que Brecht, hoje, poderia muito bem ser arregimentado como garoto propaganda em um congresso publicitário: "Das Leicht, das Schwer zu machen ist". O fácil é que é difícil de fazer. Se o processo de totalização (e de formação) é árduo; se a linguagem parece segregar - apenas a linguagem, e não o modo de reprodução social -, acabemos com a frase mais longa, prescindamos de Kafka em favor de Paulo Coelho, assim o público bestializado se sentirá menos prostrado, o público se sentirá afagado. Que importa se trabalhamos mais e mais e mais e se não há tempo para a leitura? Corroboremos as estruturas de dominação e alcunhemos de elitistas aqueles que se propõem a uma distinção tão anacrônica como a de "alta cultura".

    Adorno foi taxado de elitista por lutar por tal distinção. Pois eu diria que epígonos como o senhor é que são elitistas: ao propugnarem por uma igualdade de expressão contraditória, alquebrada, os senhores apenas corroboram a exclusão, quando pensam instrumentalizar e politizar o debate. À pobreza do debate corresponde a impotência diante do devir. Daí fica até mais instigante entender como o ethos de Stálin pôde suplantar a figura aristocrática de Tróstki - veja que se trata do ethos, Sr. Eduárduo, e não de ficar apenas folheando documentos para buscar factos e factóides. Aliás, certamente é mais fácil manipular bibliografia - sem lê-la devidamente, claro - do que pensar e imaginar.

    Sem mais de facto,

    Flávio Ricardo

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