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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dostoiévski e Bergman: A morte e a exumação de Deus


Meus amigos,

O curso Cinema e Literatura: Um diálogo sobre o nosso tempo terá início amanhã, 04 de fevereiro, sexta-feira, às 19h30, no MuBE – Museu Brasileiro da Escultura (Av. Europa, 218; tel.: 2594-2601).

O programa e o cronograma completos do curso podem ser encontrados a partir do seguinte link:

Cinema e Literatura: Um diálogo sobre o nosso tempo
http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2011/01/cinema-e-literatura-um-dialogo-sobre-o.html

As duas primeiras aulas – dias 04 e 11 de fevereiro – comporão o módulo inicial, cujo tema é A morte e a exumação de Deus.

Para bem auscultarmos o silêncio de nosso Deus ausente, estabeleceremos um diálogo entre Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman, dois artistas cujas obras, em grande medida, procuraram apreender as conseqüências da morte de Deus para o devir da humanidade.

Dostoiévski nos municiará com os capítulos A Revolta e O Grande Inquisidor, presentes em seu romance Os Irmãos Karamázov. Bergman, por sua vez, fará resplandecer o silêncio de Deus em meio à opaca Luz de Inverno.

Como uma síntese literária para os debates que se darão durante nossas duas primeiras aulas, segue abaixo um texto que entrelaça Svidrigáilov, Raskólnikov, Ivan Karamázov e o Grande Inquisidor, personagens de Fiódor Dostoiévski, e o pastor Tomas Ericsson, Märta Lundberg e Jonas Persson, personas de Ingmar Bergman.


A morte e a exumação de Deus


E Jesus Cristo, extenuado, balbucia ao Pai longínquo:

– Pai, por que me abandonaste?

O pastor Tomas Ericsson também se sente órfão. Estamos na Suécia do pós-guerra, mas a igreja provinciana do pastor é açoitada constantemente pelo fardo da memória.

A consciência como um bunker.

Durante a guerra civil espanhola, Tomas realizava préstimos religiosos em Lisboa. Até então, o clérigo nunca questionara a bondade de Deus como a de um Pai misericordioso. O mundo formava um todo coeso sobre o qual Deus pairava.

“Crescei e multiplicai-vos”.

Mas como é possível ministrar a Palavra a corpos retalhados e emudecidos?

Como pode o mundo se estruturar organicamente diante da metástase blindada?

Como ouvir o cântico dos querubins em meio ao assovio errante das ogivas?

A fé de Tomas precisou esgueirar-se pelas trincheiras.

A fé apruma os ouvidos, mas “Deus está silencioso”.

– “Toda vez que confrontava Deus com questões reais, percebia que Ele se transformava em algo feio e revoltante. Um Deus-aranha, um monstro”.

Deus-aranha?

O dostoievskiano Svidrigáilov, personagem de Crime e Castigo, certa vez concebeu a eternidade como um quarto escuro repleto de aranhas sequiosas.

Apesar de haver cometido um duplo assassinato, Raskólnikov não pôde evitar um comichão eriçado a lhe rasgar as costas diante de tamanha apostasia. Sem mais, o estudante niilista redargüiu:

– Caríssimo Svidrigáilov, devo dizer-lhe que, mesmo para mim, a sua concepção da eternidade não me soa nada justa...

Ora, caro Raskólnikov, Ivan Karamázov, ao fim e ao cabo, lapidou o dito de seu antecessor por meio do aforismo que procede à exumação do Criador:

“Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Se “fomos esquecidos pelo próprio Deus – expressão duma profundeza e duma energia notáveis”, é preciso separar o joio do trigo para dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Em meio ao Silêncio do Verbo, uma pergunta prostrada clama pelo Deus do Dilúvio – o Deus que assiste impassível à morte do Filho, o Deus que convida Maria, mãe de Deus, para a cerimônia de holocausto:

– Se Deus não existe, “diante de quem devemos nos inclinar? Porque não há, para o homem que fica livre, preocupação mais constante e mais ardente do que procurar um ser diante do qual se inclinar. Sim, pois o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo de viver. Sem uma idéia nítida da finalidade da existência, prefere o homem a ela renunciar e se destruirá em vez de ficar na terra, embora cercado de montes de pão”.

Ivan, meu caro, você prenunciou Jonas Persson:

– “Vivemos nossas vidas simples e atrocidades ameaçam a segurança do nosso mundo. É tão opressivo e Deus parece tão distante”.

Jesus Cristo não nos dissera que as preces devem prosseguir? “Quando fores orar, fecha a porta do teu quarto: teu Pai te ouve”.

– “Fazia minhas preces para um deus-eco que me dava respostas agradáveis e bênçãos tranqüilizadoras”.

Jonas Persson carrega sobre as costas vergadas o sentimento do mundo.

Jonas Persson inquieta-se pelo fato de a onisciência não ser divina, mas mundana:

– Primeiro os americanos, depois os russos. Agora, são os chineses que logo chegarão ao domínio da energia nuclear.

Não há mais por que viver, os prótons e elétrons asiáticos em colisão não me deixam amar os gravetos e amoras provincianos. Afinal, Deus não é o todo? Por que é que as partes devemos sofrer tanto? Estilhaços: “Deus, por que me criou tão eternamente insatisfeito? Tão assustado, tão amargo? Por que devo perceber o quanto sou desgraçado? Por que devo sofrer por minha insignificância?”

Mas tu, Cristo, “tu não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste as três tentações do deserto” – eis a verdadeira tríade à sombra da qual Pai, Filho e Espírito Santo se apequenam trêmulos. “Tu recusaste as tentações do deserto, Cristo, ainda que resumissem e predissessem toda a história ulterior da humanidade. Tu não te curvaste diante das três formas no seio das quais se cristalizam todas as contradições insolúveis da natureza humana. Tu não quiseste privar o homem da liberdade, estimando-a incompatível com a obediência comprada por meio de pães. Replicaste que o homem não vive somente de pão. Aumentaste a liberdade humana em vez de confiscá-la e assim impuseste para sempre ao ser moral os pavores dessa liberdade. Tu não desceste da cruz, quando zombavam de ti e gritavam-te, por derrisão: ‘Desce da cruz e creremos em ti’. Não o fizeste, porque de novo não quiseste sujeitar o homem por meio de um milagre. Desejavas uma fé livre e não inspirada pelo maravilhoso. Em lugar da Lei Antiga, o homem devia doravante, com coração leve, discernir o bem e o mal”.

Não, Cristo, todo homem deve ter um lugar para onde possa voltar. Os despojos precisam ser enterrados. Todo homem deve sair do calabouço. (Nem todo calabouço consegue sair do homem.) Todo homem deve ter um lugar contra o qual se possa voltar.

11º Mandamento: Obedecerás.

Jonas Persson pede ao discípulo do ateu Ivan Karamázov, o pastor Tomas Ericsson, que lhe apresente um motivo pelo qual ainda se deva viver.

Rasgado pelo silêncio próprio à morte de Deus, Tomas não sabe como prosseguir a exumação do Pai que lhe deixou órfão.

Que nos deixou órfãos.

E Jesus Cristo, extenuado, balbuciamos ao Pai longínquo:

– Pai, por que nos abandonaste?

(Silêncio divino.)

Por séculos e séculos, amém.

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