Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Algo de novo no front, por Vasily Grossman


Meus amigos,

Há alguns meses, me deparei com um livro que não pôde abandonar o subsolo de minhas memórias desde então. Ventosas insistentes me diziam que um dia eu iria resgatá-lo. Tomei nota de suas referências em mais um daqueles papéis-vestígios, escombros que inevitavelmente se avolumam sobre a mesa e dentro das gavetas do leitor contumaz – e sem muito tempo.

Eis que, há pouco mais de uma semana, fui pegar uns livros na biblioteca da faculdade. Biblioteca na iminência de uma grande reforma, caixas de livros empilhadas, o semblante da evacuação. Minha lista de livros estava pronta, os números de tombo devidamente perfilados, mas eis que, antes de me dirigir às prateleiras cheias de pó e espirros, eu insisto em encontrar algo de novo no front de prateleiras outras que perfilam as novas aquisições da biblioteca.

Pois foi lá que Vasily Grossman, o brilhante escritor soviético, voltou a me intimar.

– I want you for the US Army!


Um escritor na guerra:
Vasily Grossman com o Exército Vermelho, 1941-1945
(Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2008)

O leitor, muitas vezes, não têm a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento paulatino do estilo do escritor. A obra supostamente pronta entre a capa e a contracapa tende a ressoar o Canto de Circe de que o estilo e a sensibilidade aguçados e afiados – co-incidências literárias, vale dizer – pairam hirtos e invulneráveis como um encouraçado pronto a rechaçar tudo aquilo que lhe fizer frente.

A prosa frenética e alquebrada de Grossman sentencia que não. Prosa que tateia por entre os assovios das ogivas. Prosa poética que não sabe se o pé direito terá guarnição após o pé esquerdo sentir sob o coturno a rugosidade de uma mina. O dostoievskiano Vasily Grossman tenta captar o humano como se o fio da corda pênsil sobre a qual nos sustentamos fosse a lâmina de uma navalha que só nos faz recordar que ainda há um revólver contra a têmpora e que ainda precisamos disputar com os morteiros cegos a carne crua de um cavalo recém-abatido e estirado sobre um companheiro de armas que já não vai mais sentir fome.

Grossman acompanhou a evolução tensa, errante e errática do Exército Vermelho contra a metástase nazista no front oriental. Os escombros literários de Grossman descreveram a Ucrânia em chamas, as janelas vazias de Stalingrado, o corredor polonês de Treblinka. O judeu Vasily Grossman não pôde batizar o holocausto – Ióssif Vissariónovitch Djugachvíli, também conhecido como Stálin, não queria que fosse feito proselitismo com as vítimas do nacional-socialismo. O engenheiro georgiano do Gulag sabia que a morte é o fenômeno mais democrático de que já se teve notícia: não discrimina nacionalidade, cor, credo, sexo e filiação partidária. Apenas precisa ser estatisticamente indiferente.

Desde que peguei o livro em mãos, uma sensação contraditória passou a me tomar – uma sensação furiosa e autofágica que reencontrei entre o ímpeto de descrição cirúrgica do escritor que marchava rente às explosões e seu apego à sobrevida – apenas para poder escrever mais, apenas para continuar a publicar seus textos no jornal Estrela Vermelha para continuar a dissecar a guerra aos moscovitas em polvorosa. Uma sensação de que a leitura incessante me faria, ao fim e ao cabo, abandonar as trincheiras que já haviam moldado minha apercepção do cotidiano. Passei a sentir uma forte dubiedade diante de minha sala em ordem, as almofadas sobre o sofá, o gato que teimava em não cair da sacada, a planta em silêncio cúmplice, o leite não derramado que insistia em se contrapor à resistência das natas.

Onde estariam os escombros de Stalingrado? Será que somos culpados por termos sobrevivido ao corredor polonês de Treblinka? Senti euforia e raiva por ainda não ter nascido. Por que você não escreveu a estória sem fim, Grossman? Deve haver mais rostos a serem escavados pelas crateras das bombas incendiárias! Será que não há o vestígio de um sorriso sob a ausência côncava do cadáver que a palha da trincheira acaba de tornar indelével? Você viu aquela foto do soldado recém-casado, Grossman? Diga à bela esposa moscovita que Stalingrado acaba de sentenciar um divórcio litigioso.

Poucas leituras efetivamente emparedam o leitor como se ele estivesse em uma cidadela cuja única escapatória fossem os dutos subterrâneos do esgoto. Poucas leituras esgarçam os nervos como se fôssemos cordas estioladas de um violino que já não pode ressoar senão a dissonância da artilharia antiaérea ou o estrondo da bateria antitanque. Meu travesseiro se tornava uma barricada sempre que o 6º Exército de Hitler parecia encontrar forças atávicas para conter a expansão dos Vermelhos.

Se o melhor lugar é justamente onde não estamos, eu gostaria de rasgar o tempo e hastear uma bandeira soviética sobre o Reichstag em Berlim – não sem antes grafitar as paredes com letras cirílicas que, até hoje, permanecem contras as paredes do parlamento berlinense como uma lembrança dolosa e ressentida da derrota.

Não, não, pensando bem, eu não poderia estar em Berlim em 1945. (Ainda faltava um ano para a minha mãe nascer.) Mas não importa, Grossman me conduziu até a capital do Reich. O Portal de Brandemburgo se tornou um suporte para barricada de sacos de areia e tábuas de madeira tetânica; o Portal de Brandemburgo se tornou uma moldura mórbida para enquadrar os escombros da Avenida Unter den Linden que um dia marchara em um só corpo sob a suástica que hoje mimetiza à perfeição os corpos esquartejados.

Que estas palavras resgatadas a esmo de uma leitura que (não) me fez sobreviver possam transmitir a tensão que a escrita de Grossman e a ofensiva do Exército Vermelho me trouxeram. A partir de agora, convido vocês a descobrirem se realmente há


Algo de novo no front, por Vasily Grossman


“O cheiro habitual da linha de frente – uma mistura de necrotério e serralheria”.

“Crianças estão brincando em montes de areia colocados ali para apagar bombas incendiárias”.

“Bombardeio em Gomel. O forte cheiro de perfume – de uma farmácia atingida pelo bombardeio – bloqueou o mau cheiro dos incêndios, só por um instante”.

“A imagem de Gomel em chamas nos olhos de uma vaca ferida”.

“Contaram-me como, depois que Minsk começou a arder, homens cegos do lar de inválidos caminharam pela estrada em uma longa fila, amarrados uns aos outros com toalhas”.

“Um soldado do Exército Vermelho está deitado na grama depois de uma batalha, dizendo para si mesmo: ‘Animais e plantas lutam por sua existência. Seres humanos lutam por supremacia’”.

“Uma longa estrada. Carruagens, pedestres, filas de carroças. Uma nuvem de poeira amarela sobre a estrada. Rostos de homens e mulheres idosos. O condutor Ivan Kuptsov estava sentado sobre seu cavalo a 100 metros de sua posição. Quando teve início um recuo e só restava um canhão, as baterias alemãs lançaram uma chuva de balas mas, em vez de galopar para a retaguarda, ele correu até o canhão de campo e o retirou de um pântano. Quando o oficial do Departamento Político perguntou como ele tivera coragem para aquele ato de bravura diante da morte, Kuptsov respondeu: ‘Eu tenho uma alma simples, tão simples quanto uma balalaica. Ela não tem medo da morte. Aqueles que têm almas preciosas é que têm medo da morte”.

“Depois de um ataque bem-sucedido a uma coluna alemã, os caças voltaram e aterrissaram. O avião de comando tinha carne humana presa no radiador. Isso porque um avião de apoio havia atingido um caminhão com munição que explodiu exatamente no momento em que o avião de comando estava passando sobre ele. Poppe, o líder, está retirando a carne com uma pasta de arquivo. Eles consultam um médico que examina a massa de sangue atentamente e declara que é ‘carne ariana’. Todos riem. Sim, um tempo sem piedade – um tempo de ferro – chegou!”

“O fundo de uma trincheira alemã está forrada de palha. A palha conserva a forma de corpos humanos”.

“O sempre mutável senso de perigo. Um lugar parece assustador de início, mas depois você se lembra dele como sendo tão seguro quanto seu apartamento em Moscou”.

“Henkels e Junkers estão voando à noite. Espalham-se entre as estrelas como parasitas. A escuridão do espaço é coberta por seus zunidos. Bombas estão caindo. Vilas estão se incendiando em toda parte. O céu negro de agosto se torna mais leve. Quando uma estrela cai ou quando há um trovão durante o dia, todos ficam assustados, mas em seguida riem. ‘Isso vem do céu, do verdadeiro céu’”.

“Pensar nas cidades agora ocupadas que se visitavam antes é como se lembrar de amigos que morreram”.

“Uma mulher idosa diz: ‘Quem sabe se Deus existe ou não? Eu rezo para Ele. Não é uma tarefa difícil. Você o cumprimenta com a cabeça duas ou três vezes e quem sabe talvez Ele o aceite”. [Adendo simultâneo de Nietzsche e Ivan Karamázov: “Ou talvez não...”]

“Um menino fica chorando a noite inteira. Ele tem um abscesso em sua perna. Sua mãe fica sussurrando para ele tranqüilamente, acalmando-o: ‘Querido, querido’. E uma batalha noturna está trovejando do lado de fora da janela deles”.

“O major Guron recebeu uma carta de sua mulher. Como estava com trabalho naquele momento, rapidamente pôs a carta fechada de lado. Ele a leu mais tarde e então disse com um sorriso: ‘Eu não sabia se minha mulher e meu filho estavam vivos ou mortos; eu os deixei em Dvinsk. E agora meu filho me escreveu: ‘Subi no telhado durante um ataque aéreo e atirei nos aviões com um revólver’. Ele tem um revólver de madeira”.

“No bunker do inimigo – no Eixo Ocidental. Trincheiras alemãs, fortalezas, bunkeres de oficiais e de soldados. O inimigo esteve aqui. Há vinhos franceses e conhaque; azeitonas gregas, limões cuidadosamente espremidos, de seu ‘aliado’, a submissa e obediente Itália; um jarro de geléia com um rótulo polonês, uma lata de peixes em conserva – imposto da Noruega; um balde de mel da Tchecoslováquia. E fragmentos de munição soviética estão no meio do banquete fascista. Os bunkeres dos soldados são uma visão diferente: aqui não se verão caixas de chocolates vazias e restos de sardinhas. Há apenas latas de ervilha e pedaços de um pão tão duro quanto ferro fundido. Pesando na palma das mãos, esses pães são semelhantes a asfalto tanto na cor como na densidade. Soldados do Exército Vermelho riem e dizem: ‘Bem, irmão, este é pão de verdade!’”

“Soldados estão se movendo no escuro. Uma menina corre para vê-los: ‘Para procurar meu irmão’. Ela parece uma boneca, com um rosto redondo, olhos azuis e lábios de boneca. Esses lábios dizem o seguinte sobre uma menina de um ano que está chorando: ‘Vai ficar tudo bem se ela morrer. Uma boca a menos’”.

“Eu achava que já havia visto uma retirada, mas nunca tinha visto qualquer coisa parecida com o que estou vendo agora e nunca poderia imaginar alguma coisa desse tipo. Êxodo! Êxodo bíblico! Veículos estão se movendo em oito pistas, há o rugido violento de dezenas de caminhões tentando arrancar suas rodas da lama ao mesmo tempo. Enormes rebanhos de carneiros e vacas são conduzidos pelos campos. Eles são acompanhados por trens e carroças puxadas por cavalos, há milhares de carroças cobertas com pano de saco colorido, verniz, latas. Nelas há refugiados da Ucrânia. Também há multidões de pedestres com sacos, trouxas, malas. Isso não é uma enchente, não é um rio, isso é o lento movimento de um oceano fluindo, fluxo de centenas de metros de extensão. Cabeças de crianças, claras e escuras, despontam de tendas improvisadas que cobrem as carroças, bem como as bíblicas barbas de judeus idosos, os xales das camponesas, os chapéus de tios ucranianos e as cabeças de cabelos negros das meninas e das mulheres judias. Que silêncio em seus olhos, que ampla tristeza, que sensação de destruição, de uma catástrofe universal! Ao entardecer, o sol surge entre nuvens de múltiplas camadas azuis, negras e cinzas. Seus raios são longos, esticando-se do céu até o chão, como em pinturas de Doré que retratam essas cenas bíblicas assustadoras quando as forças celestiais atingem a Terra. Esse movimento de idosos, de mulheres carregando bebês em seus braços, de rebanhos de carneiros e carroças, parece, em meio a esses amplos raios amarelos de sol, tão majestoso e tão trágico. Há momentos em que sinto com total vivacidade como se tivéssemos sido transportados de volta no tempo até a era das catástrofes bíblicas. Todos ficam olhando para o céu, mas não porque estejam esperando o Messias. Estão atentos aos bombardeiros alemães. De repente há gritos: ‘Aí estão eles!’ Estão chegando, estão vindo diretamente para nós!’ Dezenas de barcos aéreos estão deslizando no céu, lenta e suavemente, em colunas triangulares. Estão se movendo em nossa direção. Dezenas, centenas de pessoas sobem nas laterais dos caminhões, pulam para das cabines, correm em direção à floresta. Todos estão tomados pelo pânico, a multidão em correria está aumentando a cada minuto. E então todos ouvem a voz estridente de uma mulher: ‘Covardes, covardes, são apenas aves voando!’ Confusão”.

“Geada severa. A neve está rangendo. O ar gelado faz com que se prenda a respiração. As narinas colam uma na outra, os dentes doem de frio. Os alemães, completamente congelados, estão estendidos nas estradas por onde avançamos. Seus corpos estão absolutamente intactos. Nós não os matamos, foi o frio. Brincalhões põem os alemães congelados de pé, ou de quatro, formando grupos de esculturas intrincados e estranhos. Alemães congelados permanecem com os punhos erguidos, com os dedos separados. Alguns parecem estar correndo, suas cabeças encolhidas nos ombros. Eles estão com botas rasgadas, sobretudos finos, camisetas que não conservam o calor. À noite, os campos de neve parecem azuis sob a lua clara, e os corpos escuros dos soldados alemães congelados estão de pé na neve azul, colocados ali pelos brincalhões”.

“Em uma clara manhã fria, izbás [chalezinhos rústicos] produzem fumaça como navios de batalha no porto. Não há vento nenhum, nem brisa, e várias dezenas de colunas de fumaça permanecem como suportes entre a neve branca do chão e o céu de um azul cruel”.

“Imediatamente depois do fim de uma batalha, uma multidão de mulheres correu para o campo, para as trincheiras alemãs, para apanhar suas cobertas e seus travesseiros”.

“Um homem ferido:
– Camarada major, estamos tendo uma briga furiosa aqui. Posso falar com o senhor?
– O quê? O quê? – O major está alarmado.
– Bem, estávamos discutindo se a Alemanha ainda vai existir depois da guerra”.

“Um homem idoso estava esperando os alemães chegarem. Pôs uma toalha na mesa e arrumou ali diferentes alimentos. Os alemães vieram e roubaram e saquearam a casa. O homem idoso se enforcou”.

“O comandante do regimento Kramer. Ele bate em alemães diabolicamente. Quando ficou doente durante uma batalha e teve uma febre de 40 graus, puseram água fervente em um barril, esse homem gordo entrou no barril e se recuperou”.

“Lua sobre o campo de batalha coberto de neve”.

“Marusya, a operadora de telefone. Todos a elogiam, todos a conhecem. Ela chama todo mundo pelo primeiro nome e sobrenome. Todos a chamam: ‘Marusya, Marusya!’ Ninguém jamais viu seu rosto”.

“Um alemão capturado em um trem-hospital. Ele precisava de uma transfusão de sangue para salvar sua vida. Gritou: ‘Nein, nein!’ (Não queria receber sangue eslavo.) Morreu três horas depois”.

“A noite fria é de uma beleza inexplicável. É quieta e clara. A lenha está estalando nas cozinhas de campanha. Os soldados de cavalaria estão conduzindo os cavalos. No meio da rua, uma menina está beijando um cossaco e chorando. Ele se tornou sua família nos últimos três dias. Para essa garota da vila de Pogorelovo, perto de Kursk, ele se tornou seu”.

“Um maravilhoso canhoneiro em sua bateria, que tem lutado desde o primeiro dia da guerra, foi morto por um fragmento de bala enquanto ria. E ali está ele, estendido, rindo, morto. Ele fica ali durante um dia e mais outro dia. Ninguém queria enterrá-lo. Estão todos com preguiça. A terra está dura como granito por causa do frio. Ele tinha camaradas ruins. Eles não enterram os corpos! Deixam os homens mortos para trás e vão embora. Não há destacamentos para enterros. Ninguém se importa. Eu informei ao posto de comando da linha de frente sobre isso em uma mensagem em código. Que asiáticos loucos e sem coração! Como é freqüente ver soldados de reserva que chegam à linha de frente e reforços enviados a locais de batalha recentes caminhando entre soldados mortos. Quem consegue ler o que se passa na alma desses homens que avançam para substituir aqueles que estão estendidos na neve?”

“É bom lutar ao amanhecer. É como se estivéssemos indo para o trabalho. É um pouco escuro e se podem ver suas posições por causa dos projéteis traçantes, e quando invadimos uma vila, já está claro”.

“A volta a Moscou teve sobre mim um efeito profundo – a cidade, as ruas, os bulevares são como rostos de pessoas queridas”.

“Macieiras secas estão cinzas, mortas como cruzes de sepulturas”.

“Stalingrado está incendiada. Eu teria que escrever demais se quisesse descrevê-la. Stalingrado está incendiada. Stalingrado está envolta em cinzas. Está morta. Pessoas estão em porões. Tudo está queimado. As paredes quentes dos prédios são como corpos de pessoas que morreram no terrível calor e ainda não esfriaram”.

“O prédio de um hospital infantil com um pássaro de gesso no telhado. Uma asa está quebrada, a outra, estendida para voar. O Palácio da Cultura: o prédio está preto, aveludado pelo fogo, e duas estátuas de nus brancas como a neve se destacam diante do fundo negro”.

“É preciso ser honesto. Naqueles dias cheios de ansiedade, quando o estrondo dos combates podia ser ouvido nos subúrbios de Stalingrado, quando à noite se viam foguetes disparados ao longe e pálidos raios azuis de refletores vagavam pelo céu, quando os primeiros caminhões, desfigurados por estilhaços, transportando os feridos e os pertences dos postos de comando que recuavam apareceram nas ruas da cidade, o medo abriu caminho em muitos corações, e muitos olharam através do Volga. Para essas pessoas, parecia que elas não tinham de defender o Volga, parecia que o Volga é que tinha de defendê-las”.

“Um soldado com um fuzil antitanque está conduzindo um enorme rebanho de carneiros pela estepe”.

“Chegamos a Stalingrado logo depois de um ataque aéreo. Incêndios ainda estavam soltando fumaça aqui e ali. Nosso camarada de Stalingrado que nos acompanhou nos mostrou sua casa incendiada. ‘Aqui era o quarto das crianças’, diz ele. ‘E aqui ficava minha estante de livros, e eu trabalhava naquele canto, onde estão agora aqueles canos retorcidos. Minha mesa ficava aqui’. Era possível ver os esqueletos curvados das camas das crianças sob uma pilha de tijolos. As paredes casa ainda estavam quentes como o corpo de um homem morto que não tivera tempo de esfriar”.

“Neste silencioso entardecer, o belo pôr do sol róseo parece muito melancólico através das centenas de olhos vazios das janelas”.

“Entramos em uma casa destruída. Os habitantes do prédio estavam jantando, sentados a mesas feitas de tábuas de madeira e caixas, crianças estavam soprando uma sopa quente em suas tigelas”.

“Sentença. Execução. Eles tiraram suas roupas e o enterraram. À noite, ele voltou para sua unidade, com suas cuecas encharcadas de sangue. Atiraram nele novamente”.

“De repente, uma coluna de água azulada, alta e fina, formou-se a cerca de 50 metros da barca. Imediatamente depois, outra coluna surgiu e caiu ainda mais perto, e, em seguida, uma terceira. Bombas explodiam na superfície da água, e o Volga estava coberto de feridas espumantes dilaceradas; fragmentos começaram a atingir os lados da barca. A essa altura, balas de fuzis já haviam começado a assoviar sobre a água”.

“Houve um momento terrível em que um obus de grande calibre atingiu o lado da pequena barca. Surgiu uma chama, fumaça preta encheu a barca, uma explosão foi ouvida e, imediatamente depois, um grito se anunciou, como se brotasse desse trovão. Milhares de pessoas viram imediatamente os capacetes verdes dos homens nadando no meio dos escombros de madeira que balançavam na superfície da água”.

“Aqui, onde o significado de medida mudou, onde o avanço de apenas alguns metros é tão importante quanto o de muitos quilômetros sob condições normais de batalha, onde a distância para o inimigo sentado em uma casa vizinha é às vezes contada em dezenas de passos”.

“Latas vazias, granadas, granadas de mão, um cobertor manchado de sangue, páginas de revistas alemãs. Nossos soldados estão sentados entre corpos, cozinhando em um caldeirão pedaços cortados de um cavalo morto e esticando suas mãos congeladas em direção ao fogo”.

“Está descendo gelo pelo Volga. Pedaços de gelo flutuante estão murmurando, desintegrando-se, comprimindo-se uns contra os outros. O rio está quase todo coberto de gelo. Só de vez em quando se vêem partes de água nessa ampla faixa branca que flui entre as escuras margens sem neve. O gelo branco do Volga está carregando troncos de árvores, madeira. Um grande corvo permanece de cara feia sobre um pedaço de gelo. Um soldado do Exército Vermelho, morto, com uma camisa rasgada, passa flutuando. Homens de um barco de carga a vapor o retiram do gelo. É difícil arrancar o homem morto do gelo. Ele está enraizado ali. É como se não quisesse deixar o Volga, onde lutou e morreu”.

“O sol nasce sobre centenas de trilhos de trem sobre os quais vagões-trem estão estendidos como cavalos mortos, com suas barrigas rasgadas abertas; sobre os quais centenas de vagões de carga estão comprimidos uns sobre os outros, destruídos pela força de uma explosão e amontoados em torno de locomotivas frias como um rebanho em pânico se aconchegando em torno de seus líderes”.

“Passamos por uma pilha de lixo de metal cor de fuligem, passamos por colossais conchas de fundição ao longo das quais o aço escorre, passamos por chapas de aço e paredes quebradas. Soldados do Exército Vermelho estão acostumados com a destruição aqui, então eles não conseguem notar nada disso. Pelo contrário, um item de interesse aqui é o vidro intacto em uma janela de um escritório destruído da fábrica, uma chaminé alta ou uma casa de madeira que milagrosamente sobreviveu. ‘Por favor, olhe. Aquela casa ainda está viva’, dizem os passantes, sorrindo”.

“Um cachorro está correndo ao longo da estrada, um osso humano entre seus dentes”.

“Um canhão antitanque depois de uma batalha é como um ser humano que está vivo mas que sofreu”.

“Às vezes você fica tão abalado com o que viu, o sangue corre apressado em seu coração e você sabe que a terrível visão que seus olhos acabaram de ter vai assombrá-lo e repousar pesadamente em sua alma por toda a sua vida. É estranho que, quando você se senta para escrever sobre isso, não encontra espaço suficiente no papel. Você escreve sobre um corpo de tanques, sobre artilharia pesada, mas de repente se lembra de como as abelhas estavam formando enxames em uma vila em chamas, e um velho bielo-russo descalço saiu de uma pequena trincheira onde se escondia de bombas e espantou o enxame com um galho, de como soldados olhavam para ele e, meu Deus, pode-se ler tanta coisa em seus olhos pensativos e melancólicos. Nessas pequenas coisas está a alma do povo e nossa guerra com seu sofrimento e suas vitórias”.

“É difícil dizer se é menos terrível seguir para a própria morte em um estado de sofrimento terrível, sabendo que se está chegando cada vez mais perto da morte, ou estar completamente inconsciente, olhando pela janela de um confortável vagão de passageiros no momento em que pessoas na estação de [o campo de extermínio de] Treblinka estão telefonando para o campo para informar detalhes sobre o trem que acabou de chegar e o número de pessoas nele”.

“Sabemos pela realidade cruel dos últimos anos que uma pessoa nua perde imediatamente a força de resistir, de lutar contra seu destino. Quando despida, uma pessoa perde imediatamente a força do instinto de sobreviver e aceita o destino como uma sorte”.

“A luta nas ruas continua. As ruas mais calmas estão cheias de gente. Há senhoras com chapéus na moda carregando reluzentes bolsas de mão e cortando pedaços de carne de cavalos mortos sobre o calçamento”.

“Uma história sobre uma mãe lactante que estava sendo estuprada em um celeiro. Seus parentes chegaram lá e pediram aos atacantes que lhe dessem um intervalo, porque o bebê faminto estava chorando o tempo todo”.

“Na cidade de Landsberg, perto de Berlim. Crianças estão brincando de guerra no telhado plano de uma casa. Nossas tropas estão liquidando com o imperialismo alemão neste minuto, mas aqui os meninos com espadas e lanças de madeira, de pernas compridas, cabelo cortado curto na parte detrás da cabeça, franjas louras, estão gritando com vozes estridentes, apunhalando uns aos outros, pulando, saltando loucamente. Aqui está nascendo uma nova guerra. Isso é eterno, não morre”.

“Contradizendo a idéia de que Berlim era um quartel do exército, há muitos jardins em flor. O céu é coberto por um grandioso trovão de artilharia. Nos intervalos, podem-se ouvir pássaros”.

“O Portal de Brandemburgo está bloqueado com um muro de troncos de árvores e areia, com dois a três metros de altura. No espaço, como em uma moldura, pode-se ver o impressionante panorama de Berlim em chamas”.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Quadros Parisienses II

Meus amigos,

Há pouco mais de 2 meses, o Subsolo das Memórias iniciou sua trajetória pelas alamedas francesas.

Como bem observou um assíduo amigo do Subsolo, Reinaldo Benjamin, estamos em busca das filigranas que compõem a história sub-reptícia dos locais que visitamos – e lemos.

Antes de continuarmos a escavar as alamedas da capital francesa, seria interessante retomarmos as duas jornadas já realizadas pelo Subsolo das Memórias em solo francês. Aqui vão elas a partir de seus respectivos links:

Palácio de Versalhes
http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2011/09/palacio-de-versalhes.html

Quadros Parisienses I
http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2011/10/quadros-parisienses-i.html

Esta semana, meus amigos, continuaremos a caminhar por Paris tentando entrever os interstícios da história contemporânea.

Um grande escritor-viajante, Jorge Luís Borges, bem pôde notar a diferença entre o belo em Genebra e em Paris. “Genebra tem o bom quinhão de poder ignorar a si mesma. Paris nunca se esquece de que é Paris”.

Pois a sentença de Borges nos dá o que pensar.

Se as promessas históricas da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão não foram cumpridas em seu caráter emancipatório – ou por outra, se o caráter emancipatório da Declaração dizia respeito às amarras que emperravam o livre desenvolvimento do ethos e da prática burguesas –, como fica a aura da Cidade-Luz quando seu apogeu se transforma em memória artística confinada em museus?

Não sei se conseguiremos chegar a uma resposta, mas certamente faremos novas perguntas em meio às fotonarrativas dos


Quadros Parisienses II


As veias abertas da arte contemporânea


"Tão bizarro quanto estranho... Eu diria mais: estranho..."
Eu diria ainda mais: bizarro...


O discreto charme da burguesia paulista
"Papai, papai, aquela não é a torre da Gazeta lá na Av. Paulista, papai?"


A arte contemporânea e os descendentes de Gulliver


O discreto charme da burguesia paulista
"Não, filhinho, aquela ali é a nova torre de transmissão da TV Bandeirantes, fica no Sumaré"


O discreto charme da burguesia - Parte I
Sade auscultou muito bem o silêncio austero que prenuncia as antecâmaras sodomitas


Entrada/Saída exclusiva para suicidas iminentes, favor não insistir
Obs: 15 euros para o espectador também pagante levar a carta de despedida à respectiva mãe e ao respectivo pai, se houver


14 de julho...


... de 1789


Mas será mesmo que a história humana erradicou o espírito da Bastilha de seu ethos?


Quem vê cara bem vê o (bom) coração ;-)
(O desejo sub-reptício desta foto só ficará claro quando chegarmos ao Moulin Rouge)


Regalo de Napoleão aos revolucionários parisienses sedentos pela liberdade do imperialismo


O discreto charme da burguesia paulista
"Papai, papai, eu prefiro o Arco do Triunfo que a prefeitura faz lá na Paulista em comemoração ao Natal, papai!"


Subsolo das Memórias


Mesmo o Colosso de Rodes sentiria vertigens (os franceses quase se envaidecem)


Para os amigos de Napoleão, tudo; para os inimigos prostrados, o Arco como o reverso do sorriso


Gargântula


21 anos depois, a pacífica região da Alsácia-Lorena seria objeto de disputa entre a França ajoelhada e o III Reich apenas eventual e visceralmente ressentido
Um tal de Adolf Schicklgruber chegou a mencionar o Tratado de Versalhes para tentar galvanizar o impecto revanchista de seu povo quiçá humilhado
"Papai, papai, quem é esse tal de Schicklgruber, papai?"
"Ninguém que tenha interferido no curso da história mundial, filhinho. Adolf Schicklgruber, também conhecido como Adolf Hitler, um velho amigo da França ocupada"


Trincheira


"Não temos nada a perder, soldados, a não ser a nossa própria inércia!"


O cristianismo, que jamais arregimentou soldados para guerras (mundanas), ressoa ainda uma vez as Trombetas de Jericó


"Papai, essa foto é repetida"


No teto da Capela de Michelangelo, os dedos de Deus e Adão não chegam a se encontrar
Napoleão e seu Arco do Triunfo só fazem dizer:
"E para que o encontro? Depois teríamos que pagar o dízimo. Fiquemos com o que é de César"


Inventário da Segunda Guerra Mundial
(O antigo granadeiro em questão prefere usar a luva alva para se lembrar dos três dedos que já não tem)


Colocação da policial que estava ao meu lado durante a homenagem:
"Não sei por que Sarkozy os homenageia. Afinal, eles assistiram ao desfile de Hitler sob o Arco do Triunfo, não assistiram?"


Moulin Rouge!
Enfim, Quixote e seus moinhos de vento reencontrarão Dulcinéia entre as tchecas, espanholas, brasileiras, colombianas, armênias, húngaras, finlandesas, holandesas, quiçá alemãs, romenas, albanesas, turcas, argelinas, argentinas, russas sobretudo, suecas, belgas, estonianas, letonianas, ucranianas, búlgaras, bielo-russas, portuguesas, dinamarquesas etc. etc. do etc.
(Filial parisiense - e, portanto, mais hipócrita - do Red Light District de Amsterdam)


Seria uma injustiça anti-internacionalista e algo xenófoba não mencionarmos as canadenses, as mexicanas, as mongóis, as chinesas, as iranianas excomungadas, as paraguaias, as venezuelanas antichavistas, as cubanas caridosas de Fidel, as afegãs renegadas de Bin Laden, as norte-americanas, as egípcias viúvas de Mubarak, as tchetchenas rivais das russas de Putin, as italianas viúvas do vovô Berlusconi etc. etc. do etc.
(Filial parisiense - e, portanto, mais cara - da ANTIGA Rua Augusta: in memoriam)


Sentinela


Antes pisar em ovos


Sentinela


Eis que encontraremos alguns pintores e, quiçá, um escultor algo histórico


O discreto charme da burguesia paulista
"Papai, papai, não parece a Estação da Luz, papai"
(O pai austero fica escandalizado:
"Será que a doida da minha ex-mulher levou o meu filho asséptico para perto da Cracolândia alguma vez?"


Bozo Pictures, através de Papai Papudo, informa a hora certa:
"Em Paris, 5 e 60"


Minha nunca se ajoelha


Frieiras após o calor intenso


Banho mensal parisiense


Chaves Pictures informa:
"Atualmente, Dona Clotilde vive em Paris"


O discreto charme da burguesia - Parte II
Bodas de Prata


Após a Revolução Francesa, Cristo foi enviado ao Brasil para ser um dos co-fundadores do SUS
Como a falta de verbas não permitiu a filmagem da Ressurreição de Lázaro Reloaded - Sônia Braga e Rita Cadillac disputaram a tapas, unhas e dentes o papel da concubina Maria Madalena -, Jesus traz boas novas para os pacientes do SUS:
"Calma, Seu José, não vai demorar, o senhor já vai morrer"


O discreto charme da burguesia - Parte III
Rocco, Baco e seu irmãos


Eis o que diz o credor de Vincent:
"Sr. Van Gogh, veja bem, não há a menor condição para um novo empréstimo. Ora, se até mesmo as suas personagens são inadimplentes, que dirá o senhor!"


O irmão de Theo:


Um...


... tal...


... de...


... Vincent...


... Van...


... Gogh


O mais dostoievskiano dos pintores


A tela traga, pinceladas como o punho rente que oprime o colarinho, o dedo em riste


Em mensagem que acabo de psicografar do espírito bêbado e andarilho de Van Gogh, chega-me um título reloaded para a tela em questão:
"A ética protestante sem o espírito do capitalismo
ou
Contribuição da América Latina ao capitalismo internacional"


Casalcova da mãe de Sade
(Presente do assíduo Vincent)


O discreto charme da burguesia - Parte de que já não me lembro, exceto por pertencer ao período de acumulação primitiva de capitais
Os colonizadores pediram a um exímio pintor que eternizasse as choupanas dos nativos de não sei que continente-mais-um-a-ser-pilhado antes que elas fossem incendiadas e antes que mesmo o espírito das indiazinhas fosse estuprado pelos descobridores quiçá sifilíticos


Faber Castell
"Incentive a reciclagem, nós sempre precisaremos de mais árvores de piranha"


Quando eu era pequeno, sempre achei que as coisas exteriores existiam independentemente do nosso olhar


Foi então que um pintor francês muito da minha predileção começou a dizer que não


Segundo ele, haveria uma catedral para cada matiz de incidência do sol


E assim eu virei um adepto do perspectivismo
(Até que recebi uma carta da Receita Federal dizendo que há apenas uma realidade para aqueles que caem na malha fina)


O discreto charme da burguesia - Parte sedenta
"Por que é que o Marquês demora tanto?"


"Ah, Sade, você nos deixa loucas!"


O discreto charme da burguesia
Parte Familiar (e/ou família pré-partida)
(Garçons, por favor, - sussurros em tempos democráticos: como ousam! -, dê-nos um momento em sua aparição pedinte)


Where the rainbow ends


Madame Mignon lê Boccaccio e seu pedagógico "Decameron", uma vez que o marido erudito a proibiu de ler - e exercer - os 120 dias de Gomorra, de um tal Marquês


Se o desejo sob o véu pudesse ser audível...
(Nietzsche já dissera que aquele que pudesse prever um rosto vinte anos mais tarde passaria pela vida incólume, isto é, jamais hipotecaria uma paixão)


A garagem de um tal de Sarkozy


NESTA BARBEARIA NÃO SE ACEITA FIADO
FAVOR NÃO INSISTIR


O charme nada discreto da burguesia


Juro a vocês: um passo a mais em direção à tela e é possível ser afogado pelas cores


Se a história humana fosse um pouco menos irônica, seria possível se entusiasmar com a primeira fase da Revolução Francesa antes de 1793 e, quiçá, antes do republicaníssimo Bonaparte, um tal de Napoleão


O discreto charme da burguesia
Da Riviera de São Lourenço para o balneário francês em 60 prestações
"Mimi, meu amor, leia para mim aquela parte em que a garotinha de 6 anos encontra o octogenário na casa festiva do Marquês, por favor!"


A classe operária (não) vai ao paraíso
"Só poderei encontrar Mimi quando o corno voltar do balneário. De qualquer modo, o dia 20 ainda demora pra chegar. Até lá, acho que vale a pena me calejar com o esse telecurso via Sade"


A crise dos EUA excepcionalmente informa:
"Por conta da greve dos atores de Hollywood que atinge toda a indústria cultural, excepcionalmente não exibiremos o Cisne Negro hoje à noite"


"Muito obrigado por cuidar das minhas frieiras, padre, não sei o que seria dos meus pezinhos sem o senhor! Deus te abençoe!"
"Por nada, minha filha, Cristo já nos ensinara o lava-pés"
"A propósito, padre, como vai o cancro mole, já sarou?"
"Não, minha filha, ainda não. E sua mãe, já se banhou com permanganato de potássio?"


O discreto charme da burguesia
Parte Terminal
Bodas de Ouro


"Se alguém pudesse prever o devir de um rosto 20 anos mais tarde, passaria pela vida incólume"


"Caramba, pessoal, isso não vale! A gente aqui envernizando esse chão, poxa, e depois jamais vão nos convidar pras festas que vão rolar aqui - e imagina o que vão fazer justamente sobre esse chão"
(Marx e Lukács estavam certos: é da opressão material que nasce a consciência de classe)


Sociedade dos Poetas Imortais


"De que me adianta ser bela se só esses querubins me fazem companhia?"


O indiscreto charme do proletariado
(Primeira propaganda de laqueadura de que se tem notícia)


Ainda visitaremos...


Em "Morangos Silvestres", Bergman erige uma belíssima metáfora da Morte - e da ausência paradoxal do tempo:
o velho e decrépito protagonista, em sonhos, vê através de seus olhos vazios um relógio sem ponteiros!


"Senhor, diga-me o que vê, por favor"
(A testa franzida sentencia: 5 de miopia)


Os óculos ou, se eles se foram (perdidos), a lente da câmera


"Isso, querida, aí mesmo, ai!, bom, muito bom, foi por isso que escolhi você, continue!"


"Não pare, querida, não pare!"
"Senhor Bovary, devo adverti-lo de que vou cobrar 100 euros a mais se o senhor de fato quiser que eu use unhas postiças"


Mensagem atrasada de um tal de Auguste a um tal de Honoré:
"Caro Honoré, não pude ir ao seu aniversário hoje. Sinto muito. Para compensar a minha ausência, pensei em enviar a você o singelo presente que segue com essa carta". (O entregador extenuado tenta levantar a estátua a todo custo.) "Por favor, aceite meu pedido de desculpas. Espero que minha lembrança, ainda que tardia, se materialize em minha franca homenagem. Parabéns pelos 40 anos, Auguste"
Só não consigo lembrar quem são Auguste e Honoré, meus amigos!


Ah, sim, lembrei:
uns tais de Honoré de Balzac e Auguste Rodin


Auguste manda outro bilhete, dessa vez a um aristocrata chamado Hugo
"Victor, meu caro, não seja miserável: terminarei seus braços assim que você amortizar a segunda parcela"


"Não queira perguntar quem eu sou"


Janta


Acabo de psicografar o título de Sade para a tela em questão
Parece que o Marquês diz que se refere a uma passagem dos evangelhos
EM PELE DE CORDEIRO
(O Marquês faz questão de que não haja reticências em seu título; ele diz que elas contradiriam a expressão do quadro que há muito não é reticente)


Os franceses e, sobretudo, os parisienses são profundamente coerentes em seu pragmatismo e em sua filosofia da história
LA PETITE MORT
(Como evitar o sorriso de soslaio, a ironia, que logo vai nos corroer?)


Um amigo da humanidade dá o seguinte grito-título em face desta tela:
AVALANCHEEEE!


Eis que os inimigos da ironia se exaltam!
"Enfim conseguimos capturar o pai fundador da deformação e da pilhéria!"


(Mensagem sub-reptícia aos anti-irônicos: voltem à foto anterior, meus amigos, e vejam que o escultor em questão estudou Da Vinci e sua Monalisa antes de terminar sua obra.)
VOLTAIRE
A persistência do sorriso de soslaio


"Papai, papai, eu acabei de aprender na escola a teoria do baricentro, papai!"


Teia


A arte moderna, em face do antigo palácio de Sua Majestade, pergunta:
Seria a tirania um mero atavismo?


A tirania empresarial responde:
"Não, não, somos apenas seus investidores, nada mais"
(Conferir no Dicionário de Capitalização o termo "mecenas" como anacronismo para "investidor")


"Mamãe, acabo de contar quantos triângulos estão aqui!"


"Exatamente 1789"


Gargântula


Se os japoneses armados até os dentes com suas câmeras-metralhadoras nos deixarem, flertaremos com a Monalisa


O artista em questão era bisneto do general de Napoleão que saqueou o Egito e a tumba de Cleópatra, daí o atavismo


Imaginem vocês a ousadia do mensageiro de Her Majesty ao pisar no sagrado solo parisiense para levar uma carta ao Messias Reencarnado, o rei DE França
"I am afraid I should like to tell You, Sir, that my humble country is on war against France"


Luís XIV sentencia:
"Além de eu ser o Estado, a partir de hoje, 14 de julho, é proibido chover enquanto eu estiver sob a minha peruca e enquanto o pó-de-arroz ainda não estiver devidamente impregnado em minha pele real. CUMPRA-SE!"
(Judas Iscariotes será o emissário, Kardec é chamado às pressas para fazer a ligação com o umbral)


Decreto de Luís XIV:
"Ordeno que seja possível caminhar sobre as águas diante do meu palácio. Se Cristo não concordar, diga que cortaremos a intermediação das cruzes e falaremos diretamente com o rei do Velho Testamento, isto é, favoreceremos os novos contratos não com as igrejas, mas com as sinagogas. CUMPRA-SE"
(Pedro e sua tripla negação serão os emissários)


Seria a arte moderna um anacronismo em face da tirania?


"Não sei, mas a pirâmide translúcida quiçá expresse menos um antagonismo e mais uma contigüidade" (mensagem que acabo de psicografar do antigo autor de "Cândido ou o Otimismo", um tal de Voltaire; ah, o criador do Doutor Pangloss nos manda ainda uma mensagem: lá no umbral, ao lado de um tal de Marquês de Sade e de seu exército de cortesãs, o título de seu livro teve que ser mudado para "Candidíase ou o Priapismo". (Sorte a deles haver um inusitado encontro com Pasteur e sua penicilina)


Antagonismo contíguo
(Subtítulo: para uma metafísica materialista da ironia histórica)


Sucessão ao trono


Ao lado da última janela à direita, o amigo dileto da rainha
"Louis está sempre tão ocupado, mon Dieu!"


O espírito de Salvador Dalí realizou uma inusitada psicografia de uma mensagem do espírito de Leonardo da Vinci:
"O segredo do sorriso da Monalisa talvez se encontra na quadratura do círculo ou então na dobra (?) e nas réplicas (?) da foto em questão - ou então esqueça o que eu disse e pinte rinocerontes voadores"


Sentinelas


Todos os caminhos levam a Roma (mensagem natalina do Vaticano parisiense)


"Não, não, Sr. XIV, todos os caminhos levam a mim"
Mensagem do Imperador Bonaparte ao mero rei Louis


Introdução aos Estudos do Ethos Arquitetônico Nacional
Aula 1: O gigantismo como expressão da nacionalidade
(e seus efeitos deletérios quando a nação já não dita mais nada)


O tutor ao pupilo:
"Nunca se esqueça dos investidores que, via de regra, envergam coturnos"


Arquinho do Triunfo


A falta de charme da burguesia (aqui as gengivas e os dentes afiados bem se mostram)
Os tataranetos dos pedreiros-construtores do Arco do Triunfinho foram convidados para a cerimônia de enésimo aniversário
(Mero detalhe o fato de haver rachaduras na base da construção: "senhores, contamos com o seu auxílio - enquanto eles estão sob uma lona imperceptível, a cerimônia pode ocorrer sem qualquer mélange)


O discreto charme da burguesia
Parte Paulistana
"Ei, Astolfo, eu vou apostar precisamente naqueles cavalos quando estivermos em nosso Jockey!"


Da próxima vez encontraremos Da Vinci e Delacroix


E, claro, a torre de transmissão da TV Bandeirantes, aguardem ;-)


Agora é sério: Burle Marx não fica atrás, não!


Os egípcios já impetraram 569.857.231 ações para que os franceses devolvam o obelisco subtraído pelas campanhas napoleônicas, mas a República da Bastilha diz que se trata de uma dívida de guerra
(O brasileiro Celso Furtado há muito nos ensinou: a vitória privatiza as conquistas; somente na derrota há a socialização das perdas)


"Papai, papai, me diga: vale a pena trabalhar para subir na vida, não é, papai?"


"Claro, meu filho, você não viu o belo obelisco que a França conquistou com tanto suor dos soldad..." (Não se sabe por que o pai não continuou a lecionar ao filho a "Pedagogia do Oprimido")


NÓS QUE AQUI ESTAMOS POR VÓS ESPERAMOS


Inequívoca morada


A religião e a síntese do religare


Esboço para um estudo histórico-literário:


Eram os franceses realmente menos antissemitas do que os alemães?
Como foi a vida da capital parisiense durante a ocupação nazista?
Houve efetivo cotidiano na capital francesa sob o punho de Hitler e seus pseudópodes burocráticos?
Que diria a ironia de Voltaire se pudesse ser psicografada naquela época?
Quem seria o pupilo do Doutor Pangloss então?