Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dostoiévski no Canal Universitário de São Paulo


Meus amigos,

Convido a todos a assistirem à entrevista que concedi ao programa Autores & Obras da TV São Marcos, transmitido pelo Canal Universitário de São Paulo e apresentado por Júlio Galharte, pós-doutorando em literatura brasileira pela Unicamp.

O tema do programa em questão?

A poética e a recepção polifônicas de Dostoiévski

O Canal Universitário de São Paulo pode ser sintonizado pelos canais 11 da NET e 71 da TVA.

Aqui vão os dias e os horários de apresentação do programa Autores & Obras:

(1) Hoje, terça-feira, 05 de outubro, às 19h:
http://www.cnu.org.br/programacao.asp?progdia=5&progmes=10

(2) Quinta-feira, 07 de outubro, às 2h (Dostoiévski no subsolo da madrugada):
http://www.cnu.org.br/programacao.asp?progdia=7&progmes=10

(3) Sexta-feira, 08 de outubro, às 10h30:
http://www.cnu.org.br/programacao.asp?progdia=8&progmes=10

(4) Sábado, 09 de outubro, em dois horários:
(4.1) Às 2h (Dostoiévski Reloaded no subsolo da madrugada);
(4.2) Às 15h30:
http://www.cnu.org.br/programacao.asp?progdia=9&progmes=10

Saudações dostoievskianas,

Flávio Ricardo
www.subsolodasmemorias.blogspot.com

16 comentários:

  1. Daniel Franção Stanchiterça-feira, 05 outubro, 2010

    Flavio, a tv que vc vai dar entrevista está relacionada à Universidade São Marcos? Pergunto pois é lá que eu estudo.
    abraço. Daniel

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  2. Olá, Daniel!

    Sim, trata-se da TV São Marcos, velho. A entrevista foi feita em uma das unidades da universidade.

    Agora é só acompanhar o programa - a primeira apresentação já é hoje, às 19h.

    Abraço,

    Flávio Ricardo

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  3. Assiti a sua entrevista concedida a Tv São Marcos e senti muita firmesa na sua pesquisa. Concordo quando comentou que Dostoiévski é um autor da angústia humana. Trata a particularidade e o absurdo da vida como ninguém. Seguirei seus passos aqui no seu blog para saber mais sobre sua tese.

    Abraço e boa sorte.

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  4. Olá, Aldo!

    Seja muito bem-vindo ao Subsolo das Memórias, velho!

    Estou ministrando um curso sobre Dostoiévski na Casa das Rosas - caso você queira participar, é só observar os dias e horários nos posts abaixo destes. (A próxima aula será amanhã, sexta, às 19h.)

    Muito obrigado pelos cumprimentos, esteja sempre por aqui!

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

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  5. Flávio,

    Assisti há pouco ao seu programa na TV. Presente do acaso. Surpreendi-me com a rara condensação de entusiasmo pela obra e clareza interpretativa.

    O que vc disse dos personagens de Dostoiévski trouxe a mim um trocadilho antropofágico (e infame): Deus e o ateu na terra dos sós.

    Grato pela entrevista. Parabéns pelo trabalho.

    Abraço,

    Viça

    P.S.: Já nos conhecemos. Deparamo-nos no lançamento do livro do Juliano Peçanha (há coisa de um ano)

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  6. (Para Daniel Franção Stanchi)

    Pensei em 4 possíveis vias de abordagem em que psicologia e teoria literária poderiam se vincular para a discussão dostoievskiana.

    (1) A culpa da personagem cindida diante da quebra da lei moral - Raskolnikov (Crime e Castigo);

    (2) A consciência hipertrofiada a respeito da autodegradação como fonte inequívoca de prazer - o homem do subsolo (Memórias do Subsolo);

    (3) A proximidade da caridade cristã em termos de aquiescência diante do assassinato - Míchkin e Rogójin (O Idiota);

    (4) O parrícidio de Smierdiakov e Ivan Karamázov (Os Irmãos Karamázov).

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  7. Daniel Franção Stanchiquinta-feira, 11 novembro, 2010

    Eu gostaria de tratar os temas mais no que diz respeito às contribuições para pensarmos a condição humana. Então, penso que talvez você poderia falar mais da questão literária, no sentido das contribuições de cada livro para pensar a cultura, especialmente pensando o homem na modernidade, e eu entraria fazendo possíveis articulações entre as contribuições artísticas de Dostoiévski e a clínica contemporânea. Pensando que o povo russo viveu diversos momentos de desenraizamento: a implantação do Cristianismo pelo principe Vladimir, o ímpeto de europeizar o país por Pedro, O Grande etc. contribuíram para que este povo experimentasse o fenômeno do desenraizamento já no século XIX, algo que seria reconhecido como evidente no ocidente somente no século XX, com as grandes guerras. Então, penso que a literatura de Dostoiévski contribui para se pensar a questão humana a partir das condições mais básicas e necessárias para que o homem aconteça no mundo.

    Deste modo é possível refletir, por exemplo, com Raskólnikov como se dá a condição humana quando o homem tem sua existência tamponada por ideais que tendem a dispensar a presença do outro em prol da individualidade - Raskólnikov simplesmente mata a velhinha pois acha que ela é insignificante e depois se vê atormentado pela consciência do que fez, que desemboca no seu encontro com Sônia e com sua ida para a Sibéria.

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  8. Quanto à Rússia, só um detalhe: ela não esteve à frente do ocidente, mas bastante atrasada em termos das reformas e transformações da sociedade - em pleno século XIX, a Rússia ainda mantinha estruturas feudais em sua sociedade.

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  9. Daniel Franção Stanchiquinta-feira, 11 novembro, 2010

    Sim, então, o fato de a Rússia estar ''atrasada'' em relação ao ocidente assinala que eles tinham um outro modo de viver e enxergar a vida: a religiosidade pagã, a ligação profunda com a terra (Mir). A vida acontecia de modo comunitário, não como sociedade do modo como acontecia na Europa e nos países mais desenvolvidos - de acordo com a lógica do progresso.

    Esta ligação com a terra e também a importância da arte e da ortodoxia ofertaram ao povo russo uma consciência profunda (e por vezes trágica e dolorosa) da condição humana e do sofrimento inerente a esta condição. Penso que estas preocupações, especialmente com os pobres e com o futuro da humanidade, já aparecem no Gente Pobre [obra de estréia do autor na literatura], em que Dostoiévski já põe em questão, por exemplo, o jeito rebuscado e distante do cotidiano de se fazer literatura e arte, algo que pode ser visto como seu posicionamento diferente em relação tanto à intelligentsia quanto aos eslavófilos.

    A intelligentsia achava, de inicio, que Dostoiévski era o cara - que tinha comprado por inteiro a idéia deles, mas logo em seguida isto cai por terra e Dostoiévski sofre uma enxurrada de críticas, principalmente em relação ao estilo mais, digamos, ''despreocupado com a forma'' , segundo os ''inteligentes".

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  10. Então, acho que há muita idealização - inclusive da parte de Dostoiévski - em relação ao potencial do povo russo para representar a condição humana. No pólo positivo, ou seja, naquilo que desponta da literatura de Dostoiévski como propostas para a constituição concreta de um projeto alternativo, resta menos que nada.

    A comuna russa foi completamente devastada pelo capitalismo no campo. Os assim tidos valores comunitários diziam respeito a formas arcaicas e obsoletas de solidariedade social - que, pelo prisma de um movimento de fato emancipatório, jamais seriam positivas em termos de uma transcendência em relação ao capitalismo. Que esse tipo de associação gera um ethos particular no povo russo - povo completamente espoliado pelo regime tsarista - não resta dúvida. Mas, bom, dizer que esse ethos pode conter germes de contraposição em relação ao capitalismo ocidental - como o Fiódor Dostoiévski Ortodoxo o fez -, bom, a história nos mostrou que isso não se deu. Por isso acho que o Dostoiévski Artista foi bem mais dialético e tem muito mais força histórica do que o Fiódor Ortodoxo.

    Precisamos, na esteira desse curso sobre Memórias do Subsolo, conversar sobre a noção de nós à qual você se referiu, velho. Porque o nós do nosso (anti-)herói é a anti-sociabilidade, não há mais outro, como você nota, MAS TAMBÉM NÃO HÁ MAIS EU. Como eu procurei mostrar, o próprio princípio de identidade é solapado em termos de uma relação coercitiva que rasga a individualidade cartesiana.

    E quanto à Rússia "atrasada", velho, eu certamente retiraria as aspas. Atrasada, mesmo. Não devemos descartar o projeto Iluminista - ainda que ele tenha fracassado como emancipação total. Dialeticamente, a negação contém também o seu contrário, e não podemos apostar em uma sociedade tão desigual como a da Rússia novecentista. Basta ver a vizinha Finlândia e sua enorme justiça social - sob quaisquer aspectos bem maior do que a tristemente autoritária sociedade soviética.

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  11. Daniel Franção Stanchiquinta-feira, 11 novembro, 2010

    Todas essas são contribuições para se pensar a condição humana.

    Trata-se de uma concepção paradoxal de condição humana, algo que de meu ponto de vista é interessante e, na clínica, fundamental.

    Ser humano acontece no paradoxo e é, no abismo de si, paradoxo. Comunidade é bastante diferente de sociedade; deste modo, podemos pensar que a grande tarefa de todo ser humano é a de vir a se tornar humano.

    Ontologicamente, o ser humano acontece entre o ser e o não ser, posição portanto paradoxal, pois não detemos o ser, ele nos visita, nos atravessa, e nosso gesto, quando tudo vai mais ou menos bem, possibilita um destino, sempre trágico.

    A questão de conceber a existência humana como sendo trágica implica uma antropologia na qual o ser humano é ser de liberdade. Liberdade trágica, pois acontece sempre entre o ser e o não ser. Liberdade em si mesma pode ser trágica, pois implica niilismo. Muitas pessoas no mundo contemporaneo abraçam o niilismo como forma defensiva de não se verem caindo no Nada sem fim.

    Na concepção russa de Sobórnost, que é utilizada em diversos campos, seja no filosófico, religioso, psicológico etc., não há concepção de indivíduo como estamos acostumados a pensar. O ser humano, nesta concepção, é evento comunitário, ele só acontece ali onde houve a presença de alguém que lhe oferta a possibilidade de se tornar - o que é bastante diferente de conceber o homem como ser de sociedade, que é determinado pelas influências culturais. Nem tampouco se trata de um ser humano determinado pela biologia. Nestas duas visões, herdeiras das concepções platônica e aristotélica, nas quais, respectivamente, o ser é concebido ou como provindo das Idéias ou da Substância, o ser humano perde a sua ontologia, sendo concebido como um ser que é ou determinado socialmente (pela sua posição ou ação na sociedade - vide a função da Máscara na cultura grega ou então a importância do papel social determinado e exigido pelo Estado, na sociedade romana, onde a Lei era a diretriz organizadora da sociedade) ou por sua herança genética, biológica (vide as ciências positivistas, a engenharia da beleza e da juventude eterna e do botox, por exemplo) etc.

    Penso que o ser humano é, sim, influenciado pelo momento histórico e também por sua biologia, é inegável que temos um corpo com certas tendências e que nossa vida acontece em um momento histórico com certas características, mas não concordo que isto nos determina. Dizer que o ser humano é determinado por sua biologia ou pelo campo social é retirar do ser humano sua ontologia, ou seja, a maneira mesmo como a condição humana acontece. Nesta visão compreendida por alguns autores russos na concepção de Sobórnost, o ser humano é, no umbigo de si, ruptura e gesto que, paradoxalmente, reposicionam a história a fim de fazer a história. Isto fica mais evidente, por exemplo, quando um bebê nasce em uma familia - o bebê reposiciona a tradição a fim de ter um rumo pessoal que, por sua vez, é oferta de outros, portanto, paradoxo: lá, no silêncio de nós mesmos há todos aqueles que nos ofertaram a possibilidade de nos tornarmos. A frase de Rimbaud ilustra um pouco isto: "O eu é um outro".

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  12. Daniel Franção Stanchiquinta-feira, 11 novembro, 2010

    Pensando na questão da Máscara, muitas pessoas na atualidade, quando tiram a máscara, encontram um Nada, pois nunca tiveram a possibilidade de um encontro humano em que possa surgir um Rosto a partir do cuidado ofertado por alguém. Pavel Florensky, por exemplo, nos fala em sua obra Iconostasis da importancia da Máscara, da Cara e do Rosto. A Máscara implica a deteminação de certa pessoa por seu papel ou função social; a Cara implica a determinação pela biologia - tipo, fulano só existe pois tem um corpo que funciona, algo bastante comum atualmente no discurso biologizante e na promessa da ''juventude prolongada ad infinitum'' praticada pela mídia nas suas diversas manifestações. Quando o ser humano tem a possibilidade de ter um Rosto, que, paradoxalmente só acontece por oferta de alguém que possibilita o gesto que fura a história, o ser humano é revelação e mistério da condição humana. Temos aqui uma concepção diferente da de individuo, que concebe o ser como ontologicamente isolado. Rosto é transcendencia, nos diz o filósofo Immanuel Lévinas, assinalando esta concepção em que o ser humano está sempre para além de si mesmo, ele não pode ser capturado por conceitos, algo muito caro, também, por exemplo, para Florensky que afirma que a única maneira justa de falarmos do ser humano é a partir da poesia, pois esta revela, ao mesmo tempo em que preserva o mistério. Veja só, temos aqui, por exemplo, Raskólnikov, que mata a velhinha, mas esta na verdade não morre, mas permanece em presença no silêncio de Raskólnikov.

    Há uma passagem muito contundente em que Raskólnikov escuta um pessoal conversando e um deles comenta que a velhinha havia lavado umas peças de roupa de Raskólnikov, que fica ultrajado: "como aquela velha que eu pensei insignificante teve para comigo um gesto de solidariedade?" Neste sentido, penso que a leitura da obra de Dostoiévski nesta concepção ontológica, ou seja, uma concepção que procura olhar o ser humano na maneira mesma como ele acontece, em suas questões mais fundamentais, nos oferece a possibilidade de aprender bastante com o que Dostoiévski nos mostra em sua obra. Raskólnikov, por exemplo, encarna este homem sem a possibilidade de ter Rosto, Raskólnikov é um exemplo das inúmeras pessoas que passam a vida determinadas pela Máscara do homem de sociedade que, para não sucumbir ao Nada sem presença, se agarra aos ideais (por exemplo com Napoleão, em Crime e Castigo).

    Esta concepção é bastante rara em Psicologia, por exemplo, na qual há tendências de se conceber o Homem ou por sua interioridade e por seu psiquismo ou por sua condição social. Não se aborda a condição humana a partir das condições fundamentais para que possamos acontecer no mundo.

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  13. Daniel Franção Stanchiquinta-feira, 11 novembro, 2010

    Eu penso, Flávio, que a possibilidade de leitura das obras de Dostoiévski é esta de refletirmos e de retomarmos questões tão caras ao ser humano e ao seu percurso pela vida e, neste sentido, acredito que estes textos requerem de nós um certo tipo peculiar de posicionamento em que nos colocamos na sombra, a fim de que a obra possa surgir e nos dizer algo. Posição centrada na atenção, como nos mostra Simone Weil, atenção como um gesto de generosidade para que a obra surja e nos revele a condição humana naquilo que ela tem de mais fundamental, inclusive preservando o Mistério, que em nosso tempo é sempre preenchido com conteúdos, programação, pacotes de todos os tipos, e tal.

    Há pacientes, por exemplo, que observam essas questões com profunda sensibilidade e que procuram a terapia, por exemplo, para terem um lugar de silêncio, de descanso desse mundo inundado de luzes, onde tudo é conceituado e nomeado. Há pessoas que anseiam esta possibilidade, por exemplo, de experimentar silêncio na companhia de alguém, algo que em um mundo dominado pela técnica acaba ficando em eclipse.

    É por aí que eu te digo que a obra de Dostoiévski me ajuda demais, por exemplo, na clínica. Eu penso que deveria haver pelo menos um ano de Dostoiévski no curso de Psicologia, hehehe. As obras dele são intervenções: os Irmãos Karamázov na Rússia não é só um livro de literatura, mas é utilizado para se discutir filosofia, ética, religiosidade, política, antropologia. Trata-se uma obra artística que põe em questão a existência humana. O Idiota é outra obra magnífica que ilumina muitas questões importantes sobre as quais podemos ir conversando.

    Acho que essas contribuições polifônicas, no sentido apresentado por Bakhtin, revelam uma polifonia anterior mesmo aos textos e à critica literária em si: revelam nossa própria condição de no silêncio de nós mesmos habitar o Humano, com seu mistério, com sua precariedade, criatividade, destruição, tudo. Por isso que, como nos diz Gilberto Safra [professor de Psicologia da USP e futuro orientador do Daniel no mestrado], o ser humano é a singularização dos que foram e o pressentimento dos que virão: buraco ambulante em busca de mais Ser.

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  14. Daniel, agora consigo apreender quais são os seus pressupostos, e tal. Não vou entrar no mérito da questão da pragmática clínica, mas temos bastante que conversar a respeito da questão ontológica - porque, bom, se você não pretende sublimar - e aqui o psicologismo não é equívoco :-) - o fato de que Dostoiévski é um artista, é muito importante saber como todas as questões foram enformadas.

    As pessoas amam Dostoiévski pelo conteúdo das obras - mas muitas vezes não se dão conta do fato de que tais conteúdos foram tratados artisticamente.

    Quando você menciona ontologia, Daniel, me remeto à própria etimologia da palavra, já que TO ON, em grego, remete ao ser. Você estabelece vinculações com a metafísica, então a pergunta não poderia ser mais propícia: existe algum ser que não tenha corpo? Existe algum ser que não ESTEJA no tempo? Falar de ontologia sem mencionar o modo pelo qual o ser humano vem à tona implica entender como ele se relaciona - o ser humano só existe relacionalmente. Aliás, só se começou a falar em ser humano, de fato - em humanidade -, a partir de 1789. Falar em subjetividade, em alma, em condição humana - no inominável, enfim, é falar ideologicamente [no sentido em que ideológico se aproxima do que falseia o real], a meu ver.

    Platão está muito mais no seu sentido, Daniel, já que é o grande pai da Idéia, do transcendente - a Igreja Católica bebeu muito em Platão para estabelecer sua doutrina. Aliás, curiosamente, em Aristóteles também - que foi aquele que falou sobre o zoon politikon, o animal político, o animal social. Mas o que nos une, velho, não é o fato de sermos sociais - e sim a brutal desigualdade que nos arregimenta socialmente. Hannah Arendt, que escreveu justamente um livro sobre a condição humana, tinha medo do ímpeto individualizante que poderia advir de uma sociedade que liberasse as massas do peso do trabalho social. "E quanto à esfera pública?" Mas é curioso que não foi dada a oportunidade de os espoliados viverem a não-opressão - e daí a condição humana de Arendt pode continuar a filosofar, já que o lixeiro continua a varrer as ruas no lugar dela (quando, pelo contrário, haveria condição de suprimir profissões odiosas e liberar o ser humano para o belo, para o elevado, para o intelecto, para a vida a que o homem do subsolo apenas tangencia). Isso é Oscar Wilde - A alma do homem sob o socialismo. E isso, velho, foi violentamente frustrado pela história.

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  15. Você fala em comunidade - Gemeinschaft (falo com Max Weber, um teórico importante para o seu assunto). Mas a Gemeinschaft, a comunidade, foi extinta pela Bürgerliche Gesellschaft, a sociedade civil, a sociedade burguesa (olhe para o adjetivo Bürgerliche e veja que o alemão é inequívoco: Bürger, burguês). Só há comunidade, velho, como resíduo, como um nicho residual da divisão social do trabalho. Daí, velho, quando você fala em outro, eu prontamente me pergunto e te pergunto: que outro? Qual o nome dele? A que classe pertence? Quais foram as possibilidades de vida? Quem são os pais? O que ele vê? O que pensa? Isso não significa dizer que ele é COMPLETAMENTE determinado pela sociedade, mas significa dizer que, independentemente do que ele queira ou pensa, vai estar inserido em um contexto dado. Falar em nós, em outro, sem conceber em que contexto se dão as relações, velho, é propugnar por uma subjetividade incondicionada - mais um belo paradoxo para a condição humana. Falar em ontologia sem olhar para os próprios pés, velho, é pensar em um Deus que paira sobre a face vazia do abismo. Bem sei que seus pressupostos estão ancorados em teorias religiosas, daí essas colocações.

    Falar em Mistério, velho? Bom, acho até interessante, mas não nos esqueçamos qual era o preço do silêncio para aqueles que ousavam romper o véu da mudez - ou a fogueira não nos remete a nada? Estou contigo na crítica à biologização coisificada, velho, mas, a meu ver, isso passa por uma crítica radical - e aqui radical não vai apenas a reboque de um piquete, hehehehe, mas na esteira da raiz, mesmo - da estrutura de nossa sociedade. Falar em nós em meio ao contexto competitivamente canibalesco em que vivemos beira a apologia ao que existe - "Porque a vida é agora" (Visa). Saca?

    Mas falemos sobre Dostoiévski. Raskólnikov sente culpa, é verdade, ele não conseguiu se desvincular dos pressupostos basilares da moralidade. Mas pensemos por um prisma diverso: Raskólnikov é um intelectual, um estudante que, ainda que a duras penas, pôde se desenvolver, pôde chegar à universidade, e tal. A moralidade lhe foi ensinada - a não ser que pensemos que o ser humano possui de fato uma alma. Não tenho nada contra o livre arbítrio, acho a tentativa de auto-determinação uma das coisas mais importantes. Mas se não nos ensinarem que não devemos transar com a irmã - e isso como uma das condições fundantes da civilização -, por que não o faríamos?

    Então imagine o seguinte: um pai é levado a juízo pelo fato de ter estuprado a própria filha. O réu entra na sala de audiência com uma havaiana rasgada. Tem 3 dentes na boca. O juiz prontamente o interpela: meu senhor, como isso é possível? Como pôde o senhor estuprar a própria filha? Ele só faz dizer: ué, não fui eu que fiz? Se eu fiz posso entrar nela de novo, ué? Isso te soa estranho, velho? Onde está a condição humana desse pária? Desse miserável em quem a sociedade só soube cuspir? Para ele, falar em culpa, velho, é falar em nada, em algo exógeno - e talvez não, porque pode ser que ele estivesse embriagado ao cometer o ato. Pois é, ainda assim a sociedade pôde emitir instâncias de controle, que também são instâncias de socialização, mas o que é ele teve em troca? Ao procurar emprego, nada - a não ser a varredura da lata de lixo. Mulheres não o querem. A orelha ainda persiste pênsil - mas os ratos o visitam com contumácia. E ainda por cima lhe dizem que não se pode ter prazer com a única posse que o circunda? Percebe, velho? Onde está a ontologia desse dejeto social? Onde está o arbítrio de um pobre diabo como esse? Mas então não sejamos tão escatológicos, peguemos um pobre poderoso: um traficante. Perguntemos a um traficante se ele precisa ler Thomas Hobbes para conhecer a guerra de todos contra todos. Na favela há comunidade, Daniel - aliás, eis o termo politicamente correto. Quais foram os valores que chegaram ao traficante? Por que ele optou por essa carreira? - nem preciso mencionar que é uma carreira a ele aberta como a de acadêmico ou bancário, por exemplo.

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  16. Pensemos no corpo, velho - e, agora, não falo em corpo apenas como apêndice biológico, Daniel, mas como uma matriz de interação sobre a qual tudo acontece. Ser bonito ou feito pode ser decisivo - perguntemos a um pardo - denominação do asséptico e eugênico IBGE - se a pele não lhe é arremessada na cara desprezada a cada momento. A alma tem cor, velho, assim como a condição humana - que também tem sexo. Será que a condição humana é a mesma para um homem e para uma mulher? O humano, velho, são os valores que levamos no bojo - e isso consuetudinária e imemorialmente. É por isso que lemos Homero e ainda assim, vivendo em uma sociedade tão distinta, podemos nos identificar. Não se trata de uma condição que esteja para além da história - ou mesmo fora dela, porque aí entramos no âmbito da teologia -, mas de algo que se prolonga pelo tempo do homem.

    Acabou a opressão?

    Os seres humanos são livres?

    A dominação se reedita de várias formas.

    A meu ver, velho, se a ontologia não lidar com o SER E O TEMPO - a menção aqui é não apenas provocativa, mas tensa, já que Adorno esteve sempre em disputa com Heidegger -, estaremos reeditando a subjetividade incriada e fazendo apologia do existente, do real como natural e impossível de ser transformado - o inverso do que você pretende fazer, não?

    O que você diria ao estuprador da própria filha? Será que ele chegaria à clínica terapêutica? Que nós ele possuiu? Comunidade? Pergunte ao Zé Pequeno (Cidade de Deus) ou ao Baiano (Tropa de Elite 1). E o que você diria ao Capitão Nascimento, velho?

    Velho, isso já está em Dostoíevski: não é o intelectual Ivan Karamázov que mata o pai - ele é o mentor do assassínio, bem entendido, mas não executa a ação. Ivan é um nobre - é verdade, Ivan é um pobretão, hehehehe, mas tem origem nobre, é um intelectual, um niilista profundo. Um ateu. Mas não há problema: o irmão BASTARDO executará o PARRICÍDIO. Smierdiákov, smierd, merda - o cagado, o parido pelo estupro. Smierdiákov não apenas sobrepuja Ivan intelectualmente - você deve se lembrar da cena em que Ivan vê a escatologia de suas idéias pelo prisma da ação do bastardo, não? Pois então: é o pária que executará a ação - em Dostoiévski, o pária é sobretudo eloqüente. Mas nossas favelas mostram que o gatilho da AR-15 não precisa conjugar o verbo. Dostoiévski nos forneceu a genealogia - repito, GENEALOGIA - da barbárie, velho, o niilismo não é uma mera degenerescência do humano que se isola ou se individualiza - ele se isola pela profunda competição, pela gestão privada da riqueza social. Somos postos em atritos - não somos uns contra os outros, somos forçados a viver isso. E aí Dostoiévski concebe a transição da intelligentsia de gabinete para os criminosos práticos. (Que a alma de Stálin não nos possa escutar.)

    Você bem pode ver que partimos de prismas bem diferentes. Eu parto do ser humano não como ele deveria ser. Não concebo que haja o inominável para a partida. O nós são os nós que precisamos desatar - e digo isso com pesar, velho, mas nem por isso posso deixar de vê-lo. Parto da condição histórica do ser humano - não conheço nada que esteja fora da história (nem mesmo Deus, sobre quem tenho dúvidas dostoievskianas :-)

    Fico curioso pra ver o que você vai me dizer sobre ontologia depois do que eu coloquei. (1) Não a concebo como determinismo biológico; (2) não digo que a sociedade feche a campa sobre o indivíduo; (3) há ser fora do tempo?; (4) o tempo está fora da história?

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