Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sport Club Corinthians Paulista


Moscou, 01 de Novembro de 2008


Meus amigos,

1988. Final do Campeonato Paulista. Estádio Brinco de Ouro da Princesa, Campinas. Guarani x Corinthians. Nós em casa – quem? Meu pai e eu. Meu pai ia escalando o time junto com o Osmar Santos. O Neto ainda jogava no Guarani. O rádio e a TV ligados – meu pai não podia passar sem o Fiori Gigliotti. Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo, torcida brasileira! Tinha 7 anos – se tanto. A imagem da TV era bem chuviscada, eu tinha que chegar bem perto da tela pra poder ver o jogo. Sai daí mininu! Não sei por que minha mãe não gostava. Hoje eu uso óculos. Já chegaram perto da tela da TV? Você vê os pontinhos que formam a imagem – eu costumava levar a minha irmã nessas aventuras. Lari, sai um ventinhu da tela, veim vê! E ela de fato encontrava a tela bem de perto – depois meu pai vinha brigar comigo, não sei por quê. Eu só queria que ela visse melhor, mas eu sempre achava que ela não chegava perto o suficiente – no que eu, claro, me dispunha a ajudar. E me dispus ainda uma – duas, três, quatro – vez aquele dia. Curioso: pela primeira vez – e que eu me lembre –, meu pai não ligou. Brigou foi com a minha irmã, ora, que tá na frente da TV, caramba! Meu pai tava obsedado, eu não entendia. Eu mexia na pasta dele – e nada. Peguei até dinheiro na carteira – e nada. Pai, assina um cheque pra mim? Ele disse que depois assinava, depois, depois. Até promessa? Ali, na pasta, aqui, tem uma revista que eu sempre quis ver. Nem sei o que é, mas, bom, se eu não posso ver, bom, deve ser legal, deve ter figurinha. “Tênis sem bolas” – quiquié issu? Beim, óu minunu ali, óu quieli tá fazenu! Minha mãe. Isquenta não, isquenta não – e ainda passou a mão na minha cabeça. Confesso: a revista perdeu muito da graça – e ela tinha muita. Talvez eu quisesse saber o que é que prendia tanto a atenção do meu pai. E a gente tem dessas, né?! Me sentei no sofá como ele – tá certo que meus pés não conseguiam tocar o chão, bom, mas isso é com o tempo, né?, quando eu crescer. Ele protestava – eu também. Tinha algumas palavras que ele falava – eu não entendia. Minha mãe brigava – eu não. Pai, quantu tá u jogu? Péra, péra! Vi quando os olhos dele ficaram esbugalhados, o corpo foi pra frente, ele parecia que tava jogando – vai, vai! Nem notou que eu tirei a almofada dele – vai, vai! Nem notou, só notava, só, eu notava – vai, vai! A bola cruzou a grande área, era a primeira vez que eu via uma bobeada dos zagueiros – menos um, o atacante: Paulo Sérgio Rosa, o Viola. A bola cruzou a grande área, ele na pequena, carrinho, é fogo, é gol! Gol, gol, gol! É gol, é gol, é gol! Futibol é cua Bandeirantis, qui traiz a emoção dessi gol pra mim, gol! Viola, violão, violino! Meu pai pulava, eu não entendia – mas, bom, bem, pulava junto, eu até sabia o que tava fazendo. O quê? Ué, meu pai pulava, eu também. Caiu até o bombril da antena, daí a imagem ficou chuviscada, chuviscada, mas já não interessava. Corinthians Campeão Paulista! Eu, corintiano.

1990. Final do Campeonato Brasileiro. Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi). São Paulo x Corinthians. Nós em casa – quem? Meu pai e eu. Meu pai ia escalando o time junto com o Luciano do Valle. O Neto já jogava no Corinthians. Quem? José Ferreira Neto, meu primeiro ídolo no futebol. O rádio e a TV ligados – eu e meu pai não podíamos passar sem o Fiori Gigliotti. Crepúsculo de jogo, torcida brasileira, placar Bandeirantes: São Paulo 0, Corinthians 0. Eu já conhecia o ritual, ora: a bola tá chegando, vai, vai, vai! Xinga se tiver vindo, xinga, xinga! Ele, né?! Eu xingava baixinho, minha mãe sempre por ali – óu minunu, beim! Aquele campeonato foi todo pra minha pasta. Sim, eu tinha uma pasta! Recortava todas as notícias do Diário do Grande ABC, tudo que saía do Corinthians. Curioso: por que as notícias do Diário do Grande ABC são iguais às da Folha ou do Estado? Vai saber! O time do São Paulo era melhor – assim todo mundo dizia, todo mundo. Meu pai também. Eu ficava bravo, ficava triste, acho que inventava um mundo só pra mim – e o Corinthians era melhor, claro. E o Neto, bom, o Neto comandava, sempre. Quando ele fazia gol, ele deslizava de joelhos, vibrava alternando os braços pra cima, era uma comemoração só dele. Ele levou o time nas costas – nunca um time foi Campeão Brasileiro com tantos empates por 0 a 0. Mero detalhe. Meu pai tava de folga, até tinha falado que um amigo do serviço tinha ido lá pro Morumbi. É, pai? Pó-de-arroz, vai ver o São Paulo perder! Quiquié pó-de-arroz, pai? Beim, óu mininu! Minha mãe sempre à espreita. O jogo tava duro, muito difícil, o Ronaldo tava garantindo. Quem? Ronaldo Soares Giovanelli, meu segundo ídolo no futebol. Curioso: antes, o Ronaldo era reserva do Carlos – se não me engano –, e ele então tinha entrado pra cobrir o titular que tava contundido. Era um clássico contra o São Paulo. Teve um pênalti. O Ronaldo chamou pra si a responsa, bateu as luvas e o caramba. Dario Pereira na bola – e o Ronaldo de-fen-deu! E ele ali, agora, garantindo todas. Meu pai tava reclamando muito – por que o Nelsinho não mexe no time? Quem? Nelsinho Batista, técnico do Coringão. Mas a gente sempre tinha o Neto – assim eu pensava. E, bom, eu tinha sempre um truque – e tava dando certo, e dá certo. Lembra aquela almofada que eu peguei do meu pai, em 88? Só 2 anos atrás, lembra? Pois então: passei a ver os jogos sempre com ela, sempre. Quando o time adversário atacava, bom, eu sempre fazia uma figa debaixo da almofada, uma boa figa – e não saía gol, não saía. Não saía? Se saísse eu já sabia: tinha feito a figa errada, esse era o problema. E naquele jogo, aqui, a figa tá funcionando direitinho. Meu pai era alto, é grande, minha mãe sempre falava do lustre na sala, que ia quebrar – mas não dava pra deixar de pular, né?! O Neto lançou o Tupãzinho na ponta direita – óu Tupãzinho, mãe, o Tupãzinho: minha mãe vinha correndo ver, ela é de Marília, fica próxima. Minha mãe era palmeirense, meu vô italiano – mas logo ela ia virar corintiana, deixa estar. O Tupãzinho seguia com a bola, ponta direita, e quem o marcava, quem? O Cafu, meus amigos, o Cafu. Mas ele – desde aquela época! – deixou o Tupãzinho ganhar espaço, deixou o corintiano se aproximar, e ele veio, e nós vínhamos, já távamos de pé – e o Cafu então foi pra cima, opa!, tomou um rolinho, bola no meio das canetas, coisa linda!, o Tupãzinho tocou pro Fabinho, atenção, torcida brasileira!, o Fabinho de frente pro Zetti, chuta, puta que o pariu!, o Zetti pega, e rebote, e rebote, e rebote, Tupãzinho o carrinho é gol! Gol, gol, gol! É gol: que feli-cida-de! É gol: o meu time é alegria da cidade! O Tupãzinho foi comemorar com a Gaviões, a Coringão Chopp, a Camisa 12, a gente pulava, o lustre cortou a careca do meu pai, manchou até minha camisa do Neto – minha primeira camisa corintiana, a primeira. Kalunga. Minha mãe até que não reclamou muito, ficou estancando a ferida pro meu pai, que berrava, a gente cantava – ele até me deixou dar uma bicadinha na cerveja –, Tadeu, óu minunu, Tadeu! E o Senra – o colega de serviço do meu pai –, o Senra pó-de-arroz tava no Morumbi – meu pai ria e vibrava. E eu me lembro, eu me lembro: um corintiano, já velhinho, ia cruzando o campo do Morumbi de joelhos, foi até o gol do Ronaldo – naquela época a gente podia invadir o campo. Ele tirou as redes, tirou. Pagou a promessa, eu fiz a minha: a partir de então, não mais figa. Nossa Senhora de Aparecida me acompanharia nos jogos, ela vai ficar sobre o rádio do Fiori. Corinthians Campeão Brasileiro!

1991. Primeiro jogo da final do Campeonato Paulista. Estádio Cícero Pomposo de Toledo (Morumbi). Corinthians e São Paulo. Eu em casa – e meu pai? Tava trabalhando. Liguei pra ele antes do jogo: e aí, pai? Não sei, não sei... Não importava se o Corinthians era favorito ou não, meu pai sempre duvidava. Nunca entendi isso, nunca. Sempre uma hesitação. Nunca entendi? Não entendia – entendo: não é sempre que a gente pode jogar ofensivo, né, pai? Tem vezes que a gente é obrigado a não cobrir o atacante, deixa passar. Tem até gol contra. Isso meu pai me ensinava em silêncio. Mas vai ou não vai, pai? Não sei, não sei... Seria a primeira vez que o Raí atravessaria o meu caminho. Mas eu sei por que o Corinthians não ganhou aquele jogo, eu sei, eu sei: eu ainda tava num período meio dúbio, fazia a figa e tava com a Nossa Senhora de Aparecida, Deus e o diabo – não necessariamente nessa ordem –, então foi isso. Sim, é isso. Culpa minha. Primeiro gol de cabeça, bola de escanteio. Depois um golaço, o Raí conduziu a bola desde o meio-campo. O Neto nada pôde fazer. Liguei pro meu pai depois do jogo – ainda dá, pai? Não sei, não sei... Se bem me lembro, o Basílio era nosso técnico então, o Basílio de 77. Tínhamos tomado uma goleada do Internacional pela Copa do Brasil, no jogo de ida. Na volta, em Porto Alegre, o Nelsinho, de volta ao Timão, só conseguiu segurar o empate. Seria a primeira vez que o Inter atravessaria o meu caminho. Por sinal, deu empate também no segundo jogo entre São Paulo 0 x 0 Corinthians – uma chuva que Deus mandava, Morumbi encharcado. Corinthians vice-campeão paulista. Aprendizado prático na escola cheia de são-paulinos: vice-campeão, segundo lugar, primeiro a perder.

1992. Campeonato Paulista. Estádio Alfredo Shurig. A famigerada Fazendinha. Corinthians x Santo André. Nós em casa? Não, no estádio! Quem? Meu pai e eu. Vocês não vão de arquibancada, pelo amor de Deus! Eis a condição da minha mãe – meu pai piscava de soslaio. Ora, a numerada era mais cara, claro, e que que tem ir de arquibancada? Só não vai contar pra tua mãe, hein?! Tudo bem, pai, tudo bem, mas o sorveteiro tá passando, alá! Vai sorvete aí, Alemão? Meu pai tava bonzinho aquele dia, tinha pipoca, amendoim – amendoim do Jorge Tadeu, comeu, fodeu! Pai, ele tá falando teu nome, pai! Que que ele tá fa-lando? Meu pai só ria – e me apontava o campo, o campo. Pai, você não é alemão, por que eles te chamam de alemão? Acabei não vendo o primeiro gol do Viola – Viola, Violão, Violino. Estranho: não tinha a narração do Fiori. Minha mãe não me deixou trazer a Nossa Senhora. O sol forte, eu não via tudo – poxa, não tinha replay. O campo parece grande pela TV, eu não entendia, no estádio fica menor – poxa, e tudo é bem grande. Como é que pode? As jogadas ficam mais lentas. Um cara do meu lado chamava o Neto de leitão, de prego. Prego? Pai, quiquié issu? Comu assim? Logo o Neto? Meu pai quieto. O Santo André tava equilibrando o jogo. E o cara do meu lado só xingando – e meu pai quieto. E eu curioso, curioso. Filho da puta! Fui eu que disse, fui eu – meu pai me olhou feio, me olhou feio, mas eu não entendi, eu não entendi: em casa, quando eu queria xingar – ainda que eu não soubesse muitos palavrões –, meu pai me reprimia na hora, não deixava. Ali no estádio, bom, ele só me olhou feio, não me mandou parar, curioso. O cara do lado xingando, xingando, e eu também, também xinguei, xinguei o Neto, eu ficava triste, mas xingava, e meu pai me cutucava, e aí eu xingava mais e mais e mais. E olha, olha: a imagem não era chuviscada, não, só não dava pra sentar. Todo mundo preferia ficar de pé, eu não entendia. E não entendia por que eu podia xingar – e xingava assim como tava de pé. O segundo gol eu comemorei muito – foi nessa hora que dei um baita pisão no pé do cara do lado. Quem mandou xingar o Neto? Mas, vocês dizem, eu também xinguei, né?! Bom, era legal xingar, se é que eu sabia que tava xingando, mas ele, aquele cara, ele não podia; além do mais, ora, o Neto tava lá na minha pasta, capa da Veja – Neto, o Anti-Herói corintiano. Anti-Herói? Qui-quié issu, pai? Meu pai me calava com pipoca e sorvete – eu não me importava de ficar quieto então. Mas eu queria o amendoim do Jorge Tadeu, comeu, fodeu! Na volta, nossa!, fiz questão de contar tudo em detalhes pra minha mãe – e na frente da minha irmã, que não pôde ir: léru-léru, léru-léru! Mãe, mãe, a gente foi na arquibancada, mãe, na arquibancada! Não mais no estádio, meu pai não só me olhou como me beliscou, mas não teve jeito. Não entendi por que meu pai dormiu na sala alguns dias, coisa estranha. Eu ainda tinha um saquinho de amendoim do Jorge Tadeu – comeu, fodeu! –, mas ele já não dava risada, já não dava, não dava, mesmo. Tirei a camisa (do Neto), o short, o meião, o kichute. Tinha um zumbido de torcida ainda comigo, eu só saí do estádio quando o policial apontou o portão. O campo voltou a ficar grande, eu não ouvi o Fiori fechando as cortinas – e termina o espetáculo.

1993. Final do Campeonato Paulista. Estádio Cícerro Pompeu de Toledo (Morumbi). Palmeiras x Corinthians. Meu irmão palmeirense. Eu ligava todo dia pra ele, tirava um sarro – ele nunca tinha visto o Palmeiras ser campeão.

Ó Santa Porcolina,
protetora dos porcos sem sorte,
livrai-nos do Timão,
ajude o Verdão a ser Campeão!
Se a minha prece assim for atendida
prometo tomar banho,
uma vez por mês,
até o fim de minha vida!
Amém!

Esquema Parmalat em curso. Viola Violão Violino e seu 1988 revisitado no Gol Porquinho. Já perdera as contas de quantas vezes imitara aquele gol pro meu irmão. Pára, Flavinho, pára! Eu não deixava o Danilo quieto. Ele nem quis ver o jogo com a gente. Foi pra casa dele. O Corinthians tinha batido o Santos na semi, gol de peixinho – que ironia, santistas! – do Ezequiel, pequeno gigante. Nem vou dizer os apuros que eu passava com os dribles desconcertantes que o Almir dava nos marcadores corintianos. Endiabrado. Na época, os canais de TV só passavam compactos, não apresentavam os jogos ao vivo. Fiori Gigliotti e a Santa. Mas não, a final ia passar, ia, sim. Até minha vó quis ver o jogo – eu achei que se ela ficasse no quarto ia dar azar. Azar: carrinho criminoso do Edmundo no Paulo Sérgio. José Aparecido não apareceu com o cartão vermelho. Liguei pro Danilo na hora – ele não atendeu. Logo o Zinho abriria a contagem – e daí foi um passeio palestrino. Nota alegre: na confusão da prorrogação, o Ronaldo ainda conseguiu levar o Tonhão expulso. Foi a única boa risada que eu dei durante aquele jogo. E fiquei ainda mais triste: descobri que o Fiori era palmeirense. Gigliotti, fio, como não vai ser? Mas eu sou corintiano, mãe! O Palmeiras sairia da fila – quase 18 anos. Curioso, logo o telefone tocou. Não, eu não vou falar com o Danilo! Vai, Flávio, agora fala, sim. Quando surge o Alviverde imponente! Meu pai me fez ouvir todo o hino do Palmeiras, disse que agora era a minha vez. Corri até a Santa – cadê? Minha mãe disse que era justo, que fazia tempo que o Palmeiras não ganhava, que agora tava direito. Não me consolou muito, não. Muito a contragosto – porque a vida tem desses revezes –, dei um bichinho da Parmalat pra minha primeira namorada – são-paulina, raizete. Minha mãe me viu triste, muita raiva, veio me abraçar. Palmeirense, mãe? Sai! Não, fio, agora eu torço pro Corinthians... Ora, quem disse que eu não fui Campeão Paulista naquele ano?

1995. Final do Campeonato Paulista. Estádio do Botafogo de Ribeirão Preto. Corinthians x Palmeiras. Meu irmão palmeirense. De novo não quis ver o jogo com a gente. Meu pai tava trabalhando – 91 de novo, não! Tinha a Santa, a figa eu escondia sob a almofada, os cartazes antipalmeirenses pela parede. Marcelo Pereira Surcin, também conhecido por Marcelinho Carioca, e depois Marcelinho. O Spit Fire de Sílvio Luiz, que por sinal narraria aquele jogo pela Bandeirantes. Falta perto da meia-lua. O Marcelinho conversa com a bola, eu converso com a almofada – a Santa não pode ver minha figa, e eu queria esquecer que Deus é onisciente. O Velloso procura ficar no meio do gol. O Müller fica rente à trave direita. Marcelinho o Spit Fire para a cobrança, lá vem ela olhu nu lance: éééééééééééééééééééééééééééeééééeé doooooooooooooooooooooooooo Coriiiiinnnthiaaaaannnsss! Con-fi-ra co-mi-go no re-play: Má-Má-Má-Mar-ce-li-nho, o Spit Fire! O Craque da camisa número 7! Quando eram jogados redondos 32 minutos da primeira etapa. Agora: Corinthians 1, Palmeiras nada! Otávio Muniz, uquiéqui só você viu? O que eu vi: a bola do Marcelinho entrou pelo ângulo direito justamente por sobre a cabeça do Müller. O Velloso só pôde observar apalermado. Naquele jogo, meus amigos, o Marcelinho – meu terceiro ídolo no futebol – fez o que quis pra cima do volante argentino Mancuso, que até hoje sente fortes dores lombares por conta dos cortes secos. Depois teve o golaço do Elivelton, bola que veio do Tupãzinho. Chute de fora da área, bola em diagonal, in-de-fen-sá-vel. Tava vingado! Liguei pro Danilo – nada. Meu pai tava feliz, vibramos por telefone – pai, pai, vamos ver Corinthians e Vasco pela Copa do Brasil, vamos? Vamos, pai? Não sei, não sei... Vamos, pai, vai, pai, vamos! Por um lapso, ele prometeu. Promessa, meus amigos, é dívida. Me descobri um péssimo pagador: se o Corinthians fosse campeão, como foi, andaria de joelhos até a próxima rua – módicos 100 metros. Na esquina eu já me dei por satisfeito. Mas você prometeu, pai! Então:

1995. Semifinal da Copa do Brasil. Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o corintiano Pacaembu. Corinthians e Vasco. Meu pai me pegaria na saída da escola – como tava demorando, nossa! –, e então iríamos logo pro estádio. Um colega de serviço da minha mãe também quis ir junto, o Rato. Sujeito algo atarracado, carismático, espaçoso. Meu pai não fumava dentro do carro, mas como fumaram aquele dia, como! Que trânsito na Paulista – e como a Paulista é grande! São Bernardo fica a 35 quilômetros de São Paulo, se tanto, mas não poderia haver mais distância. Que trânsito! O Rato puxava papos interessantes com o meu pai, falava duma tal de Augusta, tinha uma outra Aurora – não sei por que meu pai aumentava o rádio –, os alto-falantes falavam alto ali no banco de trás. Foi só pararmos o carro e o flanela já se achegou. Fala, Alemão, 15 real pra garanti u patrimôniu patrão! Fumante contumaz, o Rato quis um cigarro justo naquele momento e, visão noturna, tinha um fumante só lá longe, de modo que só o meu pai fez a caridade de desembolsar o dinheirinho-pro-café. Os arredores do Pacaembu tavam completamente tomados. A cavalaria ia fazendo sua parte. Já tinha quem escalasse os muros do estádio, os ambulantes vão sempre ali pelo Tobogã. Cassetete, tête cassée. Não tínhamos ingressos. O time do Corinthians era exuberante: Marcelinho, o Spit Fire, e Rincón, armação e contenção. Ia batendo uma ânsia, eu ouvia a torcida gritar, o time ia entrar em campo, os portões abertos nas laterais do Pacaembu deixam a gente ver a grama que cheira verde, listras brancas a esclerótica dos olhos sedentos. Meu pai me tomou pelo braço, o PM nos queria longe, naquele dia não teve acerto, com o Choque não tem conversa. Voltamos pra São Bernardo, um bar no Baeta Neves, lá perto da minha escola. Eterno retorno. Foi o melhor jogo do Corinthians que eu não vi. Corinthians 5 x 0 Vasco. O Rato ainda pediu carona pra casa e, longe do meu pai, prometeu me apresentar à senhorita Aurora – ou seria Augusta? Até peguei um dinheirinho que eu tinha e, longe do meu pai, paguei uma cervejinha pro Rato em nome da Augusta – ou seria Aurora? O Grêmio seria páreo duro, mas seremos campeões ali no Olímpico! E o Rato? O Rato tinha uma namorada muito, mas muito compreensiva, a Tânia. 10 anos juntos – o casamento, o objetivo, a promessa. A fé. A Tânia o largou três anos atrás. No bilhete de despedida, o Rato disse que não se foi por isso. Bilhete? Ia me esquecendo, despedida: o Rato se matou com um tiro na cabeça – mais precisamente, na têmpora direita.

1996. Oitavas-de-final (quartas?) da Copa Libertadores. Estádio Paulo Machado de Carvalho, o gremista Pacaembu. Corinthians x Grêmio. Meu pai e eu na sala, agora vai! Vai, ia, não fosse o Célio Silva bola cedida ao Argel. Foi o último jogo em que a Santa esteve presente. Logo eu viraria laico. Tomei contato com uns certos barbudos nas aulas de história. E o Corinthians te leva nessa toada: se entrega pra ela e vai ver o que você leva! Você de soslaio, ah, daí ela te busca. O Adalberto – um amigo-rival são-paulino – podia me zoar o quanto fosse, aposentei meu fanatismo na gaveta junto com a camisa das Tintas Suvinil. Queria um torcer mais racional. Meu pai – não sei, não sei... Prometi não mais ver o Mesa Redonda – apesar de zapear pelo clássico Cartão Verde de Juca Kfouri, Armando Nogueira, José Trajano e Flávio Prado. Vá lá que o maior rival do Corinthians seja o Palmeiras – mas meu fanatismo se forjou contra o São Paulo, o time pragmático, e vinha sempre aquela história de Libertadores. Vinha? Vem.

1998. Final do Campeonato Paulista. Estádio Cícero Pompeu de Tolhedo (Morumbi). São Paulo x Corinthians. Tínhamos ganhado o primeiro jogo – o nome do gol? Didi – Mocó Sorrisepe Colesterol Novalgina e Mufumbu. Eis que o algoz Raí decide voltar para o São Paulo para a disputa do último jogo – justo para aquele jogo, e nós no estádio. Quem? Meu pai e eu. Raí e toda uma pompa, volta de helicóptero, Paris Saint-Germain. Foi uma surra, meus amigos – ainda que meu pai e eu estivéssemos na cativa. Cativos. O Coringão ainda empatou com o Querido Trapalhão – um golaço de cobertura em ninguém menos que Rogério Ceni –, mas Denílson, França e Raí não tavam pra brincadeira. E a gente tava perto do pedaço de pizza, ou pior, do símbolo do São Paulo. E havia muitas são-paulinas interessantes interessadas em ver o Raí – por isso eu te agradeço, Raí, ou melhor, irmão do Sócrates. Não ficamos para a festa são-paulina, claro, mas aquele jogo a contrapelo hoje me afaga como o mais nostálgico entre todos: foi o último jogo que vi com o meu pai querido num estádio de futebol.

1999. Semifinal do Campeonato Brasileiro. Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Amorumbi). Corinthians x São Paulo. Na casa da minha namorada são-paulina, eu o único corintiano. Sabem como é, né?! Disputas acirram o gosto por aquilo a que nos entregamos. Raí, terror do Morumbi! Pênalti. Nunca vira Raí perder um pênalti – nunca. Nunca vira. Até então. Di-da! – o primeiro. Di-da! – sem replay, o segundo. E teve aquele lance da chuteira no joelho do Dida, Sr. Raí! Foi simplesmente um descuido do Raí! Isso discutíamos minha namorada e eu. A história se repete como farsa: dormi no sofá, pai, e sem direito a amendoim do Jorge Tadeu.

2000. Final do Primeiro Torneio Mundial Interclubes da Fifa. Estádio Mário Filho (Maracanã). Corinthians x Vasco. O presidente do Real Madrid realmente declarara: Edílson, o capetinha, é um ilustre desconhecido. Até hoje ele se lembra da caneta que Carimbeau tomou de Edílson, antes que o capetinha arrematasse a gol. Muito prazer! Dida diante de Edmundo – pênalti, o último, o decisivo. Edmundo, Edmundo: 7 anos depois, Edmundo, eu ainda não engulo aquele carrinho no Paulo Sérgio. Pra fora! Corinthians Campeão do Mundo! A porcada, os bambis e os pescadores dizem que foi um mero torneio de verão, que os europeus tavam só de férias, curtindo a Avenida Atlântica e suas atrações curvilíneas, coisa e tal. Quem pode atirar a primeira pedra? Digam-me, meus amigos: fossem vocês os europeus, ora, não fariam exatamente o mesmo? Faríamos. Mais: assim fizeram os corintianos, ora, e nem por isso deixaram de se sagrar campeões. Corinthians, Primeiro Campeão do Mundo pela Fifa.

2005. Campeonato Brasileiro. Novembro. Meu aniversário. Me liga meu bom amigo Teixeirinha: Flavião, tenho um presente de aniversário pra você, velho! Fala, cara! Vambora pra Porto Alegre, a Lusa vai jogar contra o Grêmio, jogo decisivo da segundona. Um amigo meu então morava em Porto Alegre – Henrique, querelista jurídico desde o sobrenome, Júdice. Vamos pra Porto Alegre no ônibus da Leões da Fabulosa. Alguns paralelepípedos contra o ônibus na chegada à capital gaúcha – singelos ossos do ofício. A Lusa jogou como nunca – perdeu como sempre. Empatou, na verdade, depois de estar à frente por 2 a 0. Os gremistas se nos mostravam muito arredios – nada tínhamos contra as gremistas. Alguns dias depois, o Inter ainda uma vez atravessaria o meu caminho: Estádio Gigante da Beira Rio. Pra quem não se lembra, Corinthians e Inter disputaram palmo a palmo o título de campeão brasileiro daquele ano. Márcio Rezende de Freitas por testemunha. Fui ao estádio inimigo para ver Internacional e Brasiliense, time de Marcelinho, o Spit Fire, e Vampeta, o holandês mais boa praça que já esteve no Timão (Van Peta). Pra variar, passaram a mão no Corinthians, ou melhor, no Brasiliense – teve gol impedido do Inter e tudo o mais. Henrique, torcedor do Galo Mineiro, e um outro são-paulino ameaçavam me denunciar para a torcida colorada – tem corintiano aqui no meio! E quase grito gol quando Marcelinho enfia uma bola na trave lá da intermediária...

2006. Copa Libertadores da América. Estádio Paulo Machado de Carvalho, o portenho Pacaembu. Corinthians x River Plate. Depois de um completo latrocínio anticorintiano em Buenos Aires, Tevez, Roger, Nilmar e companhia bem limitada tinham por obrigação levar o milionário time corintiano ao inédito título no torneio sulamericano. Pouco menos de uma semana antes do jogo, saio de uma aula da faculdade, às 11h, e passo toda uma quinta-feira ao redor da Praça Charles Miller em busca de ingresso. Às 17h, meus amigos, os ingressos, como que por mágica, se esgotam. Os prestidigitadores cambistas, sob a benção da Polícia Militar, passam a nos oferecer os ingressos que por poucas posições na fila não pudemos comprar. Módico quíntuplo do preço. Desisto. Quem sabe se eu mesmo não quebraria umas cadeiras da numerada laranja se estivesse no Pacaembu aquele dia? Aspecto maquiavélico da iminente invasão de campo por parte da torcida corintiana: a elite brasileira pragmaticamente perfeita. Um leninista talvez pensasse: se ao menos pudéssemos canalizar esse profundo ressentimento das massas para fins político-teleológicos, ora!, todo o poder aos maloqueiros! Mas não, não: a festa é consentida – tem lugar e hora para acontecer –, tanto quanto a possibilidade (dádiva) de catarse. Alguns poucos policiais – pouco mais de uma dezena – conseguiram conter milhares de torcedores. E o querido Coelho, gol contra a esconder, rapidamente se embrenhou na toca do vestiário. Voltemos ao nosso bairro, marginais, Marginal s/n.

2007. Último jogo do Campeonato Brasileiro. Corinthians e Grêmio. Um domingo – eu tinha ido trabalhar. Voltei cansado, obsedado – o Corinthians não vai cair, não vai. Meu pai tinha uma mala azul-marinho que ele levava pro serviço. Lembro que ele arrumava tudo com esmero – lembro não sem uma certa aflição. Pai, vai logo! Cada coisa a seu tempo, cada coisa em seu lugar. Mas eu lembro mais, lembro o cheiro, ouço o toque: eu ia fuçar na mala justamente porque meu pai não permitia. Às vezes tinha lanche, sempre a blusa, depois aquele cheiro. Cheiro velho, aprisionado, o mofo, o escape e a minha fuga – nunca tive muito tempo para senti-lo, meu pai sempre à espreita. Nunca tive muito tempo para senti-lo, sempre o efêmero, daí a marca, a memória. Ia vendo aquele jogo sofrível, aquele time sofrível em queda – senti saudade de Gralak, Baré, Embu e companhia ilimitada. Ia fazendo meus trabalhos enquanto ouvia o jogo. Ué, mas onde é que tá o meu dicionário? Na minha mala. Na minha mala, as malas, o cheiro.

“O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo
Futuro
E o tempo futuro, no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente,
Todo tempo é irredimível” (T.S. Eliot).

Saudade.

2008. Campeonato Paulista. Abril. Imediações do Estádio do Morumbi depois de Palmeiras 1 x 0 Corinthians. Saíamos tristes, cabisbaixos. Queria me despedir do Corinthians com uma vitória, dali a poucos dias estaria aqui em Moscou. Mas não. Ao vencedor, as batatas – ao perdedor, o purê. Aí alemão! quiqui cê tá fazenu aqui playboy? Ouvi, mas não podia ser comigo. É tu memu playboy cê é paumerensi rapá quiqui cê tá fazenu aqui aqui é curintiá carai quiqui cê tá fazenu aqui? Logo uma roda me enquadrava. Aí paumerensi quiqui cê tá fazenu aqui carai? Como palmeirense? Eu sou corintiano, porra! Curintiá é u carai cê é da porcada playboy! Canta u inu playboy canta u inu! O hino que meu pai havia me ensinado. Tudu mundu sabi u inu cadê a camisa playboy cadê a camisa? Querendo evitar um encontro ao léu com palmeirenses, a ausência da camisa me entregou aos corintianos. Adiantaria falar sobre o Neto e o sangue do meu pai na camisa? Mostruingressu playboy vai alemão vai porra! Tenho guardados todos os ingressos dos jogos a que eu fui – cada coisa em seu lugar, filho, cada coisa a seu tempo. Contrariados, me liberaram – não sem uma singela expropriação revolucionária, Lênin: o leite das crianças, solidariedade com o chapéu – dos outros.

2008. Novembro. Depois de madrugar em junho e amargar aqui em Moscou a improvável derrota do Corinthians para o Sport Recife na final da Copa do Brasil, recebo a reconfortante notícia de que o Sport Club Corinthians Paulista acaba de garantir matematicamente o retorno à Série A do Campeonato Brasileiro. O Corinthians que há 20 anos acompanho, o Corinthians que há vinte anos me acompanha. Santos, quem é o seu maior rival? Corinthians. São Paulo, quem é o seu maior rival? Corinthians. Palmeiras, quem é o seu maior rival? Corinthians. E atenção: neste exato momento, o Corinthians já garantiu o retorno à Série A e, de quebra, ainda não conquistou o ultrajante título da Série B. Portanto, meus amigos, ainda podemos perguntar aos palmeirenses como é sentir tão frustrante sensação.

2 comentários:

  1. Porra, Flavião, como tu tá, meu velho?!
    to em santos tirando um descanso do trampo. volto para mato grosso no dia 8.
    tu tá onde?
    nunca gostei de futebol, já tentei torcer para o corinthians, mas antes dos 8 anos já tinha desistido...
    nao tenho ouvidos para o futebol. hj em dia simpatizo pelo santos, por ouvir tanto o meu avo falar.
    depois de ler a tua linda cronica, entendi melhor a minha relaçao com tudo isso.
    nao criei os laços com o futebol porque meu pai nunca ligou para isso.
    por isso mesmo nao criei com meu pai a cumplicidade de torcedor que vc tinha/tem com o seu.
    essa é uma coisa muito legal do futebol q percebi agora contigo.
    Há algo do universo masculino, onde o q importa mais é pular junto, xingar e depois, se for o caso, ir dormir no sofa...
    espero q teu coringao te traga ainda muitas felicidades e que a vida te traga um flavinho.
    e alem disso, q vc nao tenha a infelicidade, como seu pai teve, desse guri ser um palmeirense...
    abraçao, Andre

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  2. Parabéns, corintiano.

    Araços alvinegros.

    Lucilene.

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