Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

domingo, 5 de setembro de 2010

Minima Moralia


Meus amigos,

Percorramos os estilhaços da vida danificada através dos aforismos de Theodor Adorno (1903-1969).

A Minima Moralia (Editora Ática, São Paulo, 1993) sob a couraça, porque “a vida não vive” (Ferdinand Kürnberger).

“Quem quiser saber a verdade acerca da vida imediata tem que investigar sua configuração alienada, investigar os poderes objetivos que determinam a existência individual até o mais recôndito dela. Se falarmos de modo imediato sobre o que é imediato, vamos nos comportar quase como aqueles romancistas que cobrem suas marionetes de ornamentos baratos, revestindo-as de imitações dos sentimentos de antigamente, e fazem agir as pessoas, que nada mais são do que engrenagens da maquinaria, como se estas ainda conseguissem agir como sujeitos e como se algo dependesse de sua ação. O olhar lançado à vida transforma-se em ideologia, que tenta nos iludir escondendo o fato de que não há mais vida”.

“A experiência individual apóia-se necessariamente no antigo sujeito, historicamente condenado, que ainda é para si, mas não é mais em si. Ele ainda se crê seguro de sua autonomia, mas a nulidade que os campos de concentração demonstraram aos sujeitos já assume a própria forma de subjetividade”.

“Encontramo-nos diante de uma geração supostamente jovem que, em cada uma de suas reações, é insuportavelmente mais adulta que seu pais o foram; que já se resignou antes mesmo de entrar em conflito e daí extrai seu poder de maneira encarniçadamente autoritária e inabalável”.

“Com horror, somos forçados a reconhecer que já muitas vezes no passado, quando nos opúnhamos a nossos pais porque defendiam o mundo, éramos porta-vozes do mundo pior em oposição ao ruim”.

“Antigamente, quando ainda havia algo como a famigerada separação burguesa entre o trabalho e a vida privada, da qual já se tem quase saudades, olhava-se com desconfiança e como um intruso sem modos quem perseguisse fins na esfera privada. Hoje parece arrogante, estranho e deslocado quem se entrega a algo privado sem que nele se possa notar uma orientação para algum fim”.

“O burguês é tolerante. Seu amor para com as pessoas como elas são nasce do ódio ao homem correto”.

“Não há mais beleza nem consolo algum fora do olhar que se volta para o horrível, a ele resiste e diante dele se sustenta, com implacável consciência da negatividade, a possibilidade de algo melhor”.

“A glorificação desses magníficos underdogs (vira-latas) acaba na glorificação do magnífico sistema que os torna assim”.

“O escritor que se enerva com configurações de linguagem banais ou pedantes reage tão drasticamente contra elas porque há instâncias nele mesmo que o atraem para elas”.

“Após a separação, respeitáveis professores invadem a casa de uma mulher para retirar objetos da escrivaninha e senhoras materialmente bem situadas denunciam os maridos por sonegação de impostos”.

“O infinito sofrimento de morrer em um mundo no qual há muito tempo há coisas piores a se temerem do que a morte”.

“O que significa para o sujeito que não existam mais janelas que se abram como asas, mas somente vidraças de correr para serem bruscamente impelidas?”

“É na persecução dos interesses absolutamente particulares de cada indivíduo que se pode estudar com a maior exatidão possível a essência do coletivo na sociedade falsa”.

“Primeiro e único princípio da ética sexual: o acusador nunca tem razão”.

“É preciso possuir em si mesmo a tradição para odiá-la apropriadamente”.

“Basta pensar na questão da vingança em nome dos que foram assassinados. Se igual número de pessoas do outro lado forem agora liquidadas, o terror torna-se instituição e o esquema pré-capitalista da vingança pelo sangue, confinado desde tempos imemoriais apenas a regiões montanhosas afastadas, será reintroduzido de maneira ampliada, com nações inteiras funcionando como um sujeito desprovido de subjetividade. Entretanto, se os mortos não forem vingados e não se usar a clemência, então o fascismo, deixado impune, é quem sai ganhando apesar de tudo, e uma vez que tiver mostrado como tudo foi fácil, recomeçará tudo em outros lugares. A lógica da história é tão destrutiva quanto os homens que ela engendra: para onde quer que tenda sua força de gravidade, ela reproduz o equivalente da calamidade passada. Normal é a morte”.

“À questão, o que se deve fazer com a Alemanha derrotada, eu só saberia responder duas coisas. Em primeiro lugar: em hipótese alguma e sob nenhuma condição eu desejaria ser carrasco ou fornecer legitimidade aos carrascos. Em segundo lugar: tampouco deteria a mão de alguém, menos ainda através do aparato jurídico, que se vinga pelo que aconteceu. Esta é uma resposta inteiramente insatisfatória, contraditória e que escarnece tanto de sua generalização quanto da práxis. Mas talvez isso já se encontre na questão e não em mim”.

“A inumanidade plena é a realização efetiva do sonho humano de Edward Grey: a guerra sem ódio”.

“A partir do momento em que o prazer é depreciativamente situado entre os truques da conservação da espécie, sendo dissolvido ele próprio numa espécie de razão astuciosa, sem que se considere no prazer aquele aspecto que transcende o âmbito da subserviência à natureza, a ratio se rebaixa à racionalização. A verdade fica entregue à relatividade, e os homens, ao poder”.

“Somente aquele que fosse capaz de determinar a utopia no cego prazer somático, que não possui nenhuma intenção e que aplaca qualquer uma, seria capaz de uma idéia inabalável da verdade”.

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