Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

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sábado, 21 de agosto de 2010

Karl Kraus


Meus amigos,

Tateemos pelo labirinto poético de Karl Kraus (1874-1936), cujos aforismos vienenses desnudam a consciência.

Ah, a consciência! Ela beija – enquanto nos morde.

“O aforismo jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia”.

(* Karl Kraus: Aforismos, Tradução de Renato Zwick, Arquipélago Editorial, Porto Alegre, 2010)

“Para fazer uma excelente sátira, basta dizer a maior parte das coisas como elas são”.

“O ‘sedutor’ que se gaba de iniciar as mulheres nos mistérios do amor: o estrangeiro que chega à estação ferroviária e se dispõe a mostrar as belezas da cidade ao guia turístico”.

“Eis o triunfo da moralidade: um ladrão que invadiu um quarto afirma que seu pudor foi ferido e, ameaçando fazer uma acusação de imoralidade, consegue se livrar da acusação de invasão”.

“A moral é um pé de cabra que possui a vantagem de nunca ser deixado para trás na cena do crime”.

“Uma prostituição moralmente aceita se baseia no princípio da monogamia”.

“Toda conversa sobre sexo é uma atividade sexual. O pai que esclarece o filho – esse ideal do esclarecimento – está envolto por uma aura de incesto”.

“O cristianismo enriqueceu o banquete erótico com o antepasto da curiosidade e o arruinou com a sobremesa do arrependimento”.

“O beijo de Judas que a cultura cristã deu no espírito humano foi o último ato sexual que ela permitiu”.

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Pois cada um é o próximo de si mesmo”.

“Maldita lei! A maioria de meus próximos é a triste conseqüência de um aborto não feito”.

“Nada é mais tacanho do que o chauvinismo ou o ódio racial. Para mim, todos os seres humanos são iguais; há idiotas em toda parte e tenho o mesmo desprezo por todos. Nada de preconceitos mesquinhos!”

“O mundo é uma prisão em que é preferível a solitária”.

“O psiquiatra sempre reconhece os loucos pelo fato de exibirem um comportamento agitado após a internação”.

“Aqueles dois não se casaram: vivem desde então em mútua viuvez”.

“Pai, perdoa-lhes, porque sabem o que fazem!”

“Muitas vezes, a filosofia não é mais do que a coragem de entrar num labirinto. E quem se esquecer do portão de entrada, pode facilmente adquirir a reputação de pensador independente”.

“O tormento não me deixa escolha? Bem, eu escolho o tormento”.

“O super-homem é um ideal prematuro que pressupõe o homem”.

“O Diabo é um otimista se acredita que pode tornar os seres humanos piores”.

9 comentários:

  1. "(...) enquanto leitor, humildemente, o grande romancista contemporâneo português é o [António] Lobo Antunes. O que o Lobo Antunes tem a mais do que o Saramago como grande autor é a liberdade ideológica; é ser um homem livre. Várias vezes tive a sensação de que Saramago era um escritor aprisionado dentro de um homem livre nas suas opiniões, no sentido em que o homem era mais livre do que o escritor, mais livre do que a ficção que escrevia. Há um programa e há uma obrigação política na ficção do Saramago. Isso comporta a qualidade da coerência física, mas tem o grande problema da qualidade criativa."

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  2. Marcelo Pecciolisábado, 21 agosto, 2010

    Interessante! obrigado por compartilhar!

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  3. Flávio,
    Até agora, eu só conhecia o Karl Kraus de nome. Vejo que os aforismos dele são da contundência do Baal, de Dostoievski. Haja estômago prá continuar vivo.
    Regina

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  4. Olá, Regina!

    Eu conheci o Kraus em Moscou, por intermédio de um amigo que trouxera um livro de vários autores de aforismos. "Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos": o último aforismo da lista foi o primeiro de Kraus que me apunhalou.

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

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  5. Olá, Pedro! Tudo bom, gajo?

    Meu velho, diria o seguinte: a colocação de que o homem Saramago é mais livre do que o escritor me parece justamente o inverso. O escritor Saramago me parece profundamente dialético. Será que poderíamos falar em uma síntese unívoca para Ensaio sobre a cegueira? Qual sentido desponta daquela barbárie? O narrador de Saramago faz confluir a estória para uma tendência que prevaleça?

    Agora, o homem Saramago - aproveitemos a cisão de hipostasia - assumiu, de fato, uma práxis política no bojo de sua influência artística. E acho isso extremamente louvável. Enquanto muitos silenciam politicamente, Saramago procurava colocar o dedo na ferida. A questão é que o debate político, infelizmente, está muito arrefecido. Assim, Saramago era menos ouvido pela pujança de suas idéias críticas, e mais por ser Saramago, por já ter sido chancelado.

    De qualquer modo, Pedro, tenho críticas a Saramago no seguinte sentido: o narrador algo irônico poderia modular mais o tom das estórias. Há algo de monocórdico na escrita de Saramago. E uma vez, numa entrevista para um programa brasileiro, o Roda Viva, o Saramago falou sobre a questão da pontuação. Dizia se tratar de mera convenção, coisa e tal. Pois bem: eu me pergunto quão contingentes seriam as omissões de Saramago - porque, ao fim e ao cabo (como ele bem sabia) -, os sinais se impõem sub-repticiamente. Agora, velho, o ponto alto de Saramago, a meu ver, é a brilhante imaginação escatológica. (E isso é profundamente dostoievskiano.) A percepção imaginativa não apenas dos sentidos limítrofes para uma idéia ou desenvolvimento, mas o desdobramento cênico do limite pela própria literatura. Hoje, é muito intrigante pensar no limite da cegueira - intrigante, claro, após a criação de Saramago. Tão simples como ter a roda já feita.

    Grande abraço, gajo, está sempre pelo Subsolo!

    Flávio Ricardo

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  6. Muito bom, Flávio. Apesar de não comentar muito, continuo a vir com prazer ao subsolo. Um abraço.

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  7. O último aforismo me rendeu bom meio minuto de um riso "rouco", estatelado, assombrado, silencioso, não-riso.
    Na verdade, duas pessoas sempre me "perturbaram": Vinicius de Moraes e Flavio Ricardo Vassoler.
    Confesso que Karl Kraus hoje, então, começou a me "incomodar".
    Abraço!
    Flavinho

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  8. Não sei se dou risada ou cometo sepuco!!!A insânidade seria melhor que a consciência?

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  9. Sr. Anônimo,

    Se o senhor propugna tanto pela consciência, por que o anonimato?

    Ah, a consciência! Ela beija - enquanto nos morde.

    Não se trata de denegar a consciência, Sr. Anônimo - a dialética perfurocortante de Kraus, Kafka, Dostoiévski e companhia infelizmente limitada não propugna pelo OU, mas pelo E.

    "Hoje, parece vigorar o 'Ou-Ou', mas como se o pior já houvesse sido escolhido" (Adorno e Horkheimer, Dialética do Esclarecimento).

    Sr. Anônimo, esteja sempre consciente e/ou inconscientemente pelo Subsolo das Memórias.

    Um abraço e/ou uma saudação,

    Flávio Ricardo

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