Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Sobre verdade e verossimilhança das obras de arte


Meus amigos,

Vejamos o que tem a nos dizer Johann Wolfgang von Goethe Sobre verdade e verossimilhança das obras de arte (1798) - in Ensaios sobre arte, Edusp, São Paulo. Tradução de Marco Aurélio Werle.

"Em um teatro alemão foi representada uma construção oval, sob certo aspecto anfiteatral, em cujos camarotes foram pintados vários espectadores, como se participassem do que se passava lá embaixo. Muitos espectadores reais da platéia e dos camarotes estavam insatisfeitos com essa imagem e quiseram ficar ofendidos por se imputar a eles algo tão sem verdade e inverossímil. Nessa ocasião se dá uma conversa, cujo conteúdo provável é aqui indicado.

O DEFENSOR DO ARTISTA: Permita-me que vejamos se não é possível que nos aproximemos por algum caminho?

O ESPECTADOR: Não consigo imaginar como você pretende desculpar uma tal representação.

O DEFENSOR: Mas, quando você vai ao teatro, você espera que tudo o que você vê no interior dele seja verdadeiro e real?

O ESPECTADOR: Não! Mas exijo pelo menos que tudo deva parecer verdadeiro e real.

O DEFENSOR: Desculpe-me se desminto você diretamente, ao dizer: isso você não exije de modo algum.

O ESPECTADOR: Mas isso seria surpreendente! Se não é isso que exijo, por que o decorador perderia tempo em desenhar todas as linhas exatamente segundo as regras da perspectiva, em pintar todos os objetos segundo a mais perfeita postura? Por que se estudaria o figurino? Por que se demandaria tanto esforço para permanecer-lhe fiel, a fim de me introduzir noutra época? Por que se elogiaria tanto o artista que mais verdadeiramente exprime os sentimentos, o que na fala, na postura e nos gestos mais se aproxima da verdade, o que me ilude de tal modo que acredito ver a coisa mesma e não uma imitação?

O DEFENSOR: Você exprime muito bem os seus sentimentos, mas talvez seja mais difícil do que você pensa reconhecer distintamente o que se sente. O que você diria se eu lhe objetasse que para você toda representação teatral de modo algum parece verdadeira, de que você possui antes uma aparência do verdadeiro?

O ESPECTADOR: Eu lhe responderia que você está antes produzindo uma sutileza que certamente só pode ser um jogo de linguagem.

O DEFENSOR: E eu posso retrucar dizendo que, quando falamos de efeitos de nosso espírito, nenhuma palavra é suave e sutil o suficiente e que jogos de linguagem desta espécie indicam eles mesmos uma necessidade do espírito, o qual, uma vez que não podemos expressar como queremos o que se passa em nós, procura operar por meio de oposições, procura responder a pergunta segundo dois lados e assim como que apreender a coisa pelo centro.

O ESPECTADOR: Pois bem! Então somente se explique mais nitidamente e, se posso pedir-lhe, com exemplos.

O DEFENSOR: Estes facilmente saberei dar a meu favor. Por exemplo, se você se encontra na ópera, você não sente um prazer vivo e completo?

O ESPECTADOR: Se tudo estiver combinando bem, é um dos prazeres mais perfeitos dos quais tenho consciência.

O DEFENSOR: Mas se as pessoas lá em cima se encontram e se cumprimentam cantando, recitam pequenos bilhetes de amor que recebem, manifestam com o canto todo o seu amor, seu ódio, toda a sua paixão, caminham para lá e para cá cantando e se despedem cantando, você poderia dizer que toda esta representação ou apenas uma parte dela parece verdadeira? Aliás, posso dizer, apenas têm uma aparência do verdadeiro?

O ESPECTADOR: Sinceramente, se reflito, não me atrevo a dizê-lo. De tudo o que vejo, nada me parece verdadeiro.

O DEFENSOR: Mas mesmo assim você sente um prazer completo e está satisfeito.

O ESPECTADOR: Sem objeções. Inclusive me recordo quando outrora se quis ridicularizar a ópera justamente por causa de sua inverossimilhança e que desde sempre, alheio a essa crítica, sentia o maior prazer e sempre mais sinto quanto mais rica e completa ela se tornou.

O DEFENSOR: E você não se sente completamente iludido também na ópera?

O ESPECTADOR: 'Iludido', esta palavra eu não ousaria empregar - e todavia sim -, mas também não.

O DEFENSOR: Mas aqui você se encontra numa contradição completa, que parece ser ainda mais grave do que um jogo de palavras.

O ESPECTADOR: Calma! Logo iremos esclarecer este ponto.

O DEFENSOR: Tão logo o esclarecermos, estaremos de acordo. Você me permitiria colocar algumas perguntas a propósito do ponto no qual nos encontramos?

O ESPECTADOR: É seu dever tirar-me desta confusão por meio de perguntas, já que você me colocou nela por meio de perguntas.

O DEFENSOR: Você então não gostaria de chamar de ilusão o sentimento que lhe é suscitado por meio de uma ópera?

O ESPECTADOR: Eu não gostaria, mas de fato ele é uma espécie de ilusão, algo que está estreitamente aparentado a ela.

O DEFENSOR: Não é verdade que você quase se esquece de você mesmo neste sentimento?

O ESPECTADOR: Não só quase, mas completamente, se o todo e a parte são bons.

O DEFENSOR: Você se entusiasma.

O ESPECTADOR: Já me ocorreu mais de uma vez.

O DEFENSOR: Você poderia me dizer sob quais circunstâncias?

O ESPECTADOR: São tantos os casos que é difícil relatá-los.

O DEFENSOR: Você mesmo já respondeu, isto é, na maioria das vezes quando tudo está combinado.

O ESPECTADOR: Sem objeções.

O DEFENSOR: Uma tal representação perfeita concordava consigo mesma ou com algum outro produto da natureza?

O ESPECTADOR: Sem dúvida consigo mesma.

O DEFENSOR: E esta concordância era certamente uma obra de arte?

O ESPECTADOR: Certamente.

O DEFENSOR: Anteriormente havíamos negado à ópera uma espécie de verdade; sustentamos que ela de modo algum representa de modo verossímil o que imita; mas podemos negar a ela uma verdade interna que decorre da conseqüência de uma obra de arte?

O ESPECTADOR: Se a ópera é boa, ela certamente constitui um pequeno mundo por si mesmo, no qual tudo decorre segundo certas leis, que quer ser julgado segundo suas próprias leis, que quer ser sentido segundo suas próprias propriedades.

O DEFENSOR: Não se segue disso que a verdade artística e a verdade natural são completamente distintas e que o artista de modo algum poderia nem deveria aspirar que sua obra parecesse uma obra da natureza?

O ESPECTADOR: Mas ela nos parece tantas vezes ser uma obra da natureza.

O DEFENSOR: Não posso negá-lo. Mas também posso ser sincero contra isso?

O ESPECTADOR: Por que não! Não estamos aqui para ficar adulando um ao outro.

O DEFENSOR: Então arrisco dizer: apenas a um espectador completamente inculto uma obra de arte pode parecer uma obra da natureza, e tal espectador também é amado e tem seu valor para o artista, embora esteja no mais baixo estágio. Mas infelizmente ele ficará satisfeito apenas até o momento em que o artista descer até ele, nunca, porém, ele irá se elevar juntamente com o artista autêntico quando este deve alçar vôo, para o qual impele o gênio, e concluir sua obra em toda a sua amplitude.

O ESPECTADOR: É estranho, mas é possível aceitá-lo.

O DEFENSOR: Você não iria aceitá-lo com prazer se já não tivesse galgado você mesmo um estágio mais elevado.

O ESPECTADOR: Deixe-me fazer um ensaio para ordenar o que foi dito e prosseguir, permita-me tomar o lugar de quem pergunta.

O DEFENSOR: Com prazer.

O ESPECTADOR: Apenas para uma pessoa inculta, você dizia, uma obra de arte pode parecer uma obra da natureza.

O DEFENSOR: Você certamente se lembra dos pássaros que foram bicar as cerejas do grande mestre.

O ESPECTADOR: Mas isso não comprova que estas frutas foram pintadas primorosamente?

O DEFENSOR: De modo algum, isso comprova muito antes que estes apreciadores eram autênticos pardais.

O ESPECTADOR: Mas por causa disso não posso defender que tal quadro é excelente?

O DEFENSOR: Posso contar-lhe uma história mais recente?

O ESPECTADOR: Em geral prefiro histórias a raciocínios.

O DEFENSOR: Um grande naturalista possuía entre seus bichos de estimação um macaco, que de repente tinha sumido e depois de muita procura foi encontrado na biblioteca. Lá, o bicho estava sentado no chão e tinha em torno dele espalhadas gravuras em cobre de uma obra de história natural. Admirado por este estudo zeloso do amigo da casa, o senhor se aproximou e viu, para a sua admiração e para seu aborrecimento, que o animal curioso havia roído todos os insetos que encontrou retratados.

O ESPECTADOR: Esta história é bem engraçada.

O DEFENSOR: E oportuna, espero eu. Mas você gostaria de colocar estas gravuras ilustrativas ao lado do quadro de um tão grande mestre?

O ESPECTADOR: De fato, não.

O DEFENSOR: Mas você considera o macaco entre os apreciadores incultos?

O ESPECTADOR: Bem, certamente entre os mais ávidos. Você desperta em mim um pensamento singular! Não se poderia imaginar que um apreciador inculto justamente requer que uma obra de arte seja natural a fim de também poder desfrutar dela de um modo natural, muitas vezes grosseiro e ordinário?

O DEFENSOR: Concordo inteiramente consigo.

O ESPECTADOR: E você defende, por conseguinte, que um artista se rebaixa quando trabalha para este tipo de efeito?

O DEFENSOR: Esta é uma forte convicção que tenho.

O ESPECTADOR: Mas ainda sinto que há aqui uma contradição. Você me mostrou anteriormente e em outros momentos a honra de me colocar pelo menos entre os apreciadores que estão a meio caminho de se tornarem cultos.

O DEFENSOR: Entre os apreciadores que estão a caminho de se tornarem conhecedores.

O ESPECTADOR: Mas então me diga: por que também para mim uma obra de arte perfeita parece ser uma obra da natureza?

O DEFENSOR: Porque concorda com a sua melhor natureza, porque é supranatural, mas não extranatural. Uma obra de arte completa é uma obra do espírito humano, e nesse sentido também uma obra da natureza. Mas na medida em que os objetos dispersos são compreendidos conjuntamente e mesmo os mais comuns são acolhidos em seu significado e dignidade, ela está além da natureza. Ela quer ser apreendida pelo espírito que nasceu e foi formado harmoniosamente, e este encontra o que é excelente, o que é em si mesmo perfeito também de acordo com a sua natureza. O apreciador comum não possui conceitos sobre isso, ele trata uma obra de arte como um objeto que encontra no mercado, mas o verdadeiro apreciador não apenas vê a verdade do que é imitado, mas também os méritos do que é escolhido, o que é rico de espírito na combinação, o que é supraterreno do pequeno mundo artístico, ele sente que precisa se elevar ao artista, a fim de desfrutar da obra, ele sente que deve se concentrar a partir de sua vida dispersa, habitar com as obras de arte, observá-las repetidamente e, desse modo, dar a si mesmo uma existência mais elevada.

O ESPECTADOR: Muito bem, meu amigo, eu certamente tive sentimentos semelhantes diante de quadros, no teatro, com outros gêneros poéticos e mais ou menos pressenti o que você exige. No futuro quero observar ainda mais a mim e as obras de arte; mas, se me lembro bem, nos afastamos bastante do assunto de nossa conversa inicial. Você queria me convencer para que eu permitisse os espectadores retratados em nossa ópera; mas ainda não vejo como estou mais de acordo com eles, como você pretende também defender esta licença e sob qual rubrica você pretende introduzir em mim estes participantes retratados.

O DEFENSOR: Por sorte hoje a ópera será retomada e você não quer perdê-la, não é?

O ESPECTADOR: Sem dúvida.

O DEFENSOR: E os homens retratados?

O ESPECTADOR: Não irão me atrapalhar, porque me considero algo melhor do que um pardal.

O DEFENSOR: Então desejo que um interesse mútuo logo nos ofereça novamente um motivo de encontro".