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sábado, 15 de maio de 2010

Crise da arte ou arte da crise?


Meus amigos,

Há poucos dias, me deparei com O escritor e seus fantasmas (Companhia das Letras), do argentino Ernesto Sabato.

São vários os fragmentos sobre os mais diversos temas que obsedam o artista.

Os prolegômenos da imaginação.

A relação com a crítica.

A (de)formação do estilo.

Os percursos e percalços da carreira.

A repercussão da obra entre leitores incógnitos - a abordagem pelas ruas!

A discussão com os pares.

O prazer de escrever.

O escrever a dor.

Em meio aO escritor e seus fantasmas, me deparo com um fragmento que prenuncia o fantasma e seus escritores: a arte e seu contexto, o diálogo - e a mordaça.

Crise da arte ou arte da crise?

"Neste momento crucial da história acontece um dos fenômenos mais curiosos: acusa-se a arte de estar em crise, de ter se desumanizado, de ter explodido todas as pontes que a uniam ao continente do homem [grifo da Al Qaeda]. Quando é exatamente o contrário, tomando-se por uma arte em crise o que, a rigor, é a arte da crise, mas o que ocorre é que se partiu de uma falácia. Para Ortega y Gasset, por exemplo, a desumanização da arte está provada pelo divórcio existente entre o artista e seu público. Ele não se dá conta de que poderia ser exatamente o oposto, que não fosse o artista o desumanizado, mas o público. É óbvio que uma coisa é a humanidade e a outra muito diferente o público-massa, esse conjunto de seres que deixaram de ser homens para se converterem em objetos fabricados em série, moldados por uma educação padronizada, embutidos em fábricas, escritórios, sacudidos diariamente em uníssono pelas notícias lançadas por centrais eletrônicas, pervertidos e reificados por uma indústria de historietas e novelas radiofônicas [grifo psicografado de Roberto Marinho], de imagens jornalísticas e estatuetas de bazar. Ao passo que o artista é o único por excelência, aquele que, graças à sua incapacidade de adaptação [grifo do terapeuta que jamais recebe em dia o pagamento itinerante do artista], à sua rebeldia, à sua loucura [grifo sob os auspícios de Valium], conservou paradoxalmente os atributos mais preciosos do ser humano. Que importa que às vezes exagere e corte uma orelha? [grifo da pimenta no esfincter dos outros]. Ainda assim, estará mais perto do homem concreto do que um amanuense razoável no fundo de um ministério. É certo que o artista, encurralado ou desesperado, acaba por fugir para a África, para os paraísos do álcool ou da morfina [grifo de Thomas de Quincey, Charles Baudelaire; adendo: para os paraísos de Aurora e Augusta e Red Light District], para a própria morte [grifo de Ernest Hemingway, por quem os sinos dobram]. Tudo isso indica que é ele quem está desumanizado?

'Se nossa civilização está doente - escreve Gaughin a Strindberg [grifo de um diálogo a ser presenciado em qualquer bar] - também há de estar nossa arte; e só podemos devolver-lhe a saúde começando de novo, como crianças ou como selvagens [grifo eufórico de Jean-Jacques Rousseau]. (...) Vossa civilização é vossa enfermidade'.

O que está em crise não é arte, mas o conceito burguês caduco da 'realidade', a crença ingênua na realidade externa [grifo do BBB Pedro Bial]. E é absurdo julgar um quadro de Van Gogh desse ponto de vista [grifo perspectivo da orelha esquerda decepada]. Quando, apesar de tudo, se faz isso - e com que freqüência! -, só se pode concluir o que se conclui: que descreve uma espécie de irrealidade, figuras e objetos de um território fantasmagórico, produtos de um homem enlouquecido pela angústia e pela solidão.

A arte de cada época carrega consigo uma visão do mundo e o conceito que essa época tem da verdadeira realidade [grifo do Georg Lukács de Narrar ou Descrever?], e essa concepção, essa visão, está baseada numa metafísica e em um ethos que lhe são próprios. Para os egípcios, por exemplo, preocupados com a vida eterna, este universo transitório não podia constituir o verdadeiramente real : daí o hieratismo de suas grandes estátuas [grifo dos escravos extenuados], o geometrismo, como se fosse um indício da eternidade [grifo de algum mortal], despojado ao máximo dos elementos naturalistas e terrenos; geometrismo que obedece a um conceito profundo e não é, como alguns acreditaram apressadamente, incapacidade plástica, já que podiam ser minuciosamente naturalistas quando esculpiam ou pintavam os desprezíveis escravos [grifo do eterno retorno dos detratores futuros de Pablito Picasso]. Quando se passa a uma civilização mundana como a de Péricles, as artes fazem naturalismo e até os deuses são representados de forma 'realista', pois para esse tipo de cultura profana [grifo do onanista São Saulo de Tarso], interessada fundamentalmente nesta vida [grifo e grito dos ressentidos], a realidade por excelência, a 'verdadeira' realidade é a do mundo terreno. Com o cristianismo reaparece, pelos mesmos motivos, uma arte hierática [grifo de Maria Madalena], alheia ao espaço que nos rodeia e ao tempo em que vivemos. Ao irromper a civilização burguesa, com uma classe utilitária que só acredita neste mundo e em seus valores materiais, a arte volta novamente para o naturalismo. Agora, em seu crepúsculo, assistimos à reação violenta dos artistas [grifo de Stálin por intermédio da psicográfica KGB] contra a civilização burguesa e sua Weltanschauung [cosmovisão]. De modo convulsivo [grifo de Simão Bacamarte, O Alienista] e, muitas vezes, incoerente, revela-se que aquele conceito da realidade chegou ao fim e já não representa as mais profundas ansiedades da criatura humana.

O objetivismo e o naturalismo do romance foram mais uma manifestação (no caso do romance, paradoxal) do espírito burguês. Com Flaubert e Balzac, mas sobretudo com Zola, essa estética e essa filosofia chegam ao seu apogeu, a ponto de que, por seu intermédio, estamos em condições não somente de conhecer as idéias e os vícios da época, como também o tipo de tapeçaria que se usava [grifo de um empresário da Rua Oscar Freire; grifo do editor de Caras]. Zola, que reduziu ao absurdo essa modalidade, chegou até a levantar prontuários de seus personagens [grifo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], onde anotava desde a cor dos olhos até a forma de se vestir de acordo com as estações [grifo do Marquês de Sade]. Gorki levou ao fracasso parcial seus excelentes dotes de narrador por acatar essa estética burguesa (que ele acreditava ser proletária), e afirmava que para descrever um dono de armazém era necessário estudar cem para tirar os traços comuns, método da ciência [grifo da agência publicitária de Roberto Justus], que permite a obtenção do universal com a eliminação dos particulares [grifo de Heinrich Himmler]: caminho da essência [grifo do Fiódor Ortodoxo], não da existência [grifo do artista Dostoiévski]. E se Gorki se salva quase sempre da calamidade de pôr em cena protótipos abstratos, em lugar de tipos vivos [grifo do Arquipélago Gulag], é apesar de sua estética, não devido a ela; é graças ao seu instinto narrativo, não à sua filosofia desatinada.

Muitas décadas antes de Gorki se entregar a essa concepção, Dostoiévski acabara de destruí-la e abria as comportas de toda a literatura de hoje em Memórias do Subsolo. Ele não somente se rebela contra a trivial realidade objetiva do burguês, como também, ao se aprofundar nos tenebrosos abismos do eu, descobre que a intimidade do homem nada tem a ver com a razão, nem com a lógica, nem com a ciência, nem com a prestigiosa técnica [grifo meu].

Esse deslocamento na direção do eu profundo generaliza-se logo em toda a grande literatura posterior, tanto no vasto mural de Marcel Proust, como na obra aparentemente objetiva [grifo e grito amordaçados!] de Franz Kafka.

Não obstante, Wladimir Weidlé (...) afirma que assistimos ao ocaso do romance porque o artista de hoje 'é incapaz de se entregar por completo à imaginação criadora', obcecado como está por seu próprio ego; e diante dos grandes romancistas do século XIX, [Weidlé] diz, 'de escritores que, como Balzac, criavam um mundo e mostravam de fora criaturas vivas [grifo dos dramaturgos da Rede Globo], de romancistas que, como Tolstoi, davam a impressão de ser o próprio Deus [grifo de Nietzsche a retornar eternamente], os escritores do século XX são incapazes de transcender seu próprio eu [grifo do vaidoso Prozac], hipnotizados por suas desventuras e ansiedades [grifo do mais novo ansiolítico do mercado - conferir diariamente a lista já defasada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária], eternamente monologando [grifo da mordaça] em um mundo de fantasmas'".

O escritor e seus fantasmas.

O fantasma e seus escritores.

5 comentários:

  1. la que da crisis es la mente... jsjsjssaa


    por cierto , puedes leer a roberto arlt..

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  2. Então, estava eu estudando outras coisas quando surgiu uma inquietação e comecei a escrever, para compartilhar com vocês este anseio. Fiquei muito intrigada quando recebi um email do Flávio com um texto "comentado", via grifos literários, de Ernesto Sabato que tem tudo a ver com o que escreverei aqui. Portanto irei encaminhá-lo para vocês também.
    De qualquer forma, ai vai o meu texto/email/anseio:
    Lanço-lhes uma pergunta: se nossa realidade encontra-se demasiadamente fragmentada, dificultando a tarefa individualizante de apreensão e construção dos sentidos; e se, ao mesmo tempo, somos sujeitos de nossa própria época, fazendo uso dos arsenais que ela nos dispobiliza, como conseguir tecer narrativas próprias que consigam ligar tais fragmentos - e quem sabe um dia legar algo de enxuto a um porvir que não detemos?
    Se vivemos a proliferação frenética de signos, imagens e significantes despojados de qualquer significado, como conseguir tecer relações e obras realmente significativas?
    A arte contemporânea já se absteve de tal pretensão. Ela não só espelha, como reifica essa fragmentação. Que dizer dessas obras/sucatas que não nos dizem nada? Parecem mais ecos desgarrados de um grito sem som, a ouvidos desatentos e surdos.
    Ai, paro e penso. Mas e a literatura, não estaria nela o começo? Pode ser... mas será que nossos personagens, eles próprios esfacelados, serão capazes de dar urdidura e elo aos nossos farrapos?
    Não adianta, uma obra é fruto de seu tempo. Não há como pedir epopéias numa era como a nossa. Mas fica sempre, lá no fundo, esse anseio. Como, estando cientes da conjuntura fragmentária de nosso tempo, conseguir ultrapassá-la? Como coletar os cacos e signos, restituindo-lhes seu valor num sentido unitário (que liga, unifica)?
    Vocês entenderam o que me inquieta?
    Às vezes sinto que sou de um outro tempo. O mundo ao meu redor parece quase todo simulacro: modas "hippies"/vila madalena cruzando com as pinups dos anos 50. Os primeiros sem saber o que é comunhão, nem AMOR, muito menos livre; e as últimas escutando punk-rock como se fora blues. Da indústria cultural só engolimos merda, camuflada por pirotecnias, efeitos especiais e ruídos majestosos, que transformam o País das Maravilhas em campo tridimensional de batalha, e Alice numa emperialista nata.
    Por outro lado, boa parte da produção que se roga "artística alternativa" - e talvez seja mais marginal e periférica do que audaz - não escapa à lógica apelativa de uma "cultura" que na cultiva. O que falar das inúmeras peças/pornografia/porcaria? Das performances vazias que mais parecem colos para egos pseudo-artísticos, carentes de aplausos?
    Tudo bem, admito. Em meio a esta miríade medíocre de "entretenimentos" enfadonhos, bem lá no fundinho, escondidos, encontram-se as pérolas tecidas pelos nossos amigos. Estas, que brotam das profundezas insondáveis do espírito humano - dando forma e flor às angústias de um ser deslocado no tempo - são não somente raras, como talvez inaudíveis a muitos dos nossos contemporâneos. Sua inspiração é este mundo em que vive, mas do qual se distancia. Sua força está no que alude, nas entre-linhas. As palavras que une formam tessituras de distinto trapo: aninha os desgarrados de seu tempo; espelha a pequenez e desordem deste "mundo"; e dá "pano" novo para pensar nosso rumo.
    Eis a questão: tais obras brincam - seriamente - com os farrapos da existência, mostrando as contradições de nosso tempo. Mas sua fala é tão sutil, que aos ouvidos desatentos e desintonizados, podem soar como ruídos sem sentido. Quer evidência mais forte do que a música erudita contemporânea ao meus próprios ouvidos?
    Não sei, inquieta-me a forma com que nos contrapomos a tudo isso... se é que o fazemos. Como combater um mundo fragmentado fazendo uso só dos fragmentos? Falta urdidura, falta narrativa que liga. E, acima de tudo, falta mensageiro letrato que revele à massa dos seres surdos e mudos a condição em que vivem.
    Será demasiado utópico este meu anseio?

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  3. Não sei nada de mundo fragmentado, talvez este sofrimento seja fruto de uma idealização, talvez deva-se procurar outro ponto de apoio, outra perspectiva que possa te levar adiante, ao invés da voz rouca de um cão abandonado no inferno.
    Sobre arte, signos, cultura. Bem, conheço pequenos objetos chamados livros, conheço alguns cuidados e práticas que me fazem pensar e provar a vida por onde passo, encontro algumas pessoas pelo caminho, vou conhecendo novos abraços... Fora isso, não vejo acontecer quase nada digno de um olhar interessado, às vezes um olhar atento, crítico, porque a máquina imperial nos cerca por todos os lados e fere ferozmente, porque os exércitos ocupam todas estas zonas e operam um espetáculo à parte, que só me preocupa na medida em que se impõe e se alastra sobre tudo que ainda ousa existir de outro modo, restando somente a massa produzida pelo império, nenhum outro modo de vida sobreviverá fechado, tudo será atravessado e quase tudo perdido, restarão indivíduos que por sorte formarão grupos imprevistos dentro do império e ousarão viver movimentos experimentais, cada vez mais aprimorados no sentido de fortalecer uma arte (como talvez fizeram os movimentos dos Cínicos ou Estóicos, Zen ou Niilista, por exemplo), ou seja, o fundo historico é quase negativo, por cima criamos: o niilismo do capitalismo deixa o homem pra trás, alguns terão que andar à frente; a frieza da maquina imperial, teremos que aprender novas técnicas de guerrilha para outras estratégias, qualquer império exige isso. O interessante é que hoje somos parte de uma classe decadente, e somente como indivíduos nos reuniremos nos povos por vir, mesmo os índios, todos os povos que resistem ainda só poderao ser índios nos povos do futuro a que damos passagem, outra maneira de ser índio, outra coisa que chama e traz a chama. Mesmo os escravos de Roma não poderao retornar às suas terras, precisam ir adiante e tornar-se outra coisa. Ninguem está sendo enganado, basta reinventar. Outra dor não existe, pois não existe outro modo de caminhar, não existe caminho.
    Deixo ai o pensamento como passou. Abraços!

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  4. Olá, pessoal!

    As questões trazidas pela Íris - e prolongadas pelo Gustavo - são interessantíssimas.

    Eu quero apenas suscitar algumas outras questões - e que continuemos a debater.

    - Não existe fragmentação, Gustavo? Você já tentou utilizar a mesma ética - leia-se: o mesmo tipo de ação social, com ações e reações previstas - pelos mais diversos ambientes? É possível integrar as suas vivências em um todo coerente, orgânico e repleto de sentido? Estóicos e cínicos também vivem em sociedade, não? E se faltar a algum desses pensadores a renda mínima - o suor dos escravos tilinta -, fica difícil propagar o locus amoenus.

    - Íris, o ímpeto pela epopéia de fato subsiste, mas eu não sei até que ponto esse anseio não está subsumido em uma práxis que não consegue mais caminhar pelo negativo. Algo do tipo: caralho, mas como não é possível fazer absolutamente nada? - então o sujeito - sujet, também o súdito, sujeito sujeitado - quer se diluir no mundo, quer tocar sem luvas o mediato coisificado. E daí decorre a morte do pensamento. Se é que o pensamento já não vem à luz natimorto. É muito angustiante, principalmente em um país de intelecto completamente ilhado e circunscrito ao setor da academia industrial...

    - Como escritor, me pergunto a cada momento sobre o modo de expressão de nosso tempo. Mas aí é que tá. Se a boa dialética ainda tem algum tipo de imersão; se tese e antítese vislumbram algo a mais do que o entrechoque, podemos pensar que a imersão subjetiva - justamente aquilo a que Sabato se referiu como a tragédia humana irrompida por Dostoiévski na literatura -, o rasgo particular, traga à tona o descalabro do todo. Afinal, onde é que a sociedade deixa de se reproduzir? E reciprocamente: quando é que a palavra deixa de se curvar?

    - Por fim, quanto às construções literárias e seu esoterismo: a forma pela qual a literatura foi se desdobrando implica uma tomada de partido, um conhecimento prévio mínimo. O artista se sente profundamente desenraizado, mas não pode tomar por elitista justamente a arte (in)conseqüente e não-cooptada. Afinal, por que é que as pessoas se afastaram da leitura? Quais são os obstáculos? Para além - e aquém - dos péssimos parâmetros curriculares, há vivência própria, autóctone? Há experiência de um eu que procura se integrar? Felizmente, isso ainda ocorre de maneira acidental - veja essa nossa tentativa. Mas estamos longe de dizer que se trata do ethos de uma classe.

    - Caminhar pelo negativo é desesperador. Como escritor, como alguém que procura evitar a completa diluição de si mesmo, não posso deixar de constatar uma boa dose de cinismo - subjetivo ou objetivo, pessoal? E o que esse cinismo tem a dizer? Deixemo-lo falar. Em suas mais diversas facetas. E agora para terminar, mesmo: creio que vocês vão ficar ainda mais instigados com um ótimo comentário - que virou um texto aqui no blog - por parte de uma moça chamada Ana Paula. Telúrico: http://subsolodasmemorias.blogspot.com/2010/02/telurico.html. É desse pathos que estamos falando. Aliás, o comentário-texto da Ana Paula vai levar vocês a outro texto do Ernesto Sabato.

    Grande abraço a todos,

    Flávio Ricardo

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  5. Estou gostando muito do que vocês estão escrevendo e mandando... são coisas muito intensas, e compartilho de toda essa agústia. Fico a me perguntar se realmente conseguimos dar um sentido à nossa existência... isso me parece que tem ficado cada vez mais obscurecido frente a nossos mil e duzentos compomissos diários, ao trânsito doentio dessa cidade, à frieza e palidez de nossas poucas cores, ao ar sujo que nos adoece a cada semana.
    Digo isso porque cada vez que volto ao lar e à cidade onde cresci, junto dos meus, percebo que vivemos aqui uma vida tão repleta do que fazer e tão embriagada em luzes ofuscantes, que, na verdade, nos esquecemos de tentar pensar no que estamos fazendo de fato, e por quê. Não estou dizendo que o problema de tudo isso é essa imensa cidade em que moramos. Mas que os seus atrativos mais caros, seja o trabalho que oferece ou a suposta "cultura" que se compra em qualquer banca de jornal ou num museu que se encontra em cada esquina, acabam apenas por nos fascinar, numa ilusão de boa vida, deixando-nos à mercê de qualquer busca por um sentido ontológico.
    Isso só me faz querer, e a cada dia mais, sair dessa muvuca e desse burburinho com cheiro de automóvel. Isso não resolverá qualquer de meus anseios, mas me recuso a tentar imaginar qualquer sentido pra minha existência neste invólucro de simulacros fosforescentes.
    Ontem mesmo fui a uma exposição, não era de arte, mas sei que se aplica para exposições de arte, literatura etc., em que as pessoas interagiam com as peças, com os textos, com os jogos, com absolutamente tudo, ouvindo depoimentos de pessoas quase reais, brincando com os jogos que supostamente tinham uma intenção de nos fazer compreender alguma coisa, virando as páginas de um jornal todo virtual e sensitivo, sem ler qualquer palavra do que se projetava em suas páginas etc. De fato, o que entendemos por cultura hoje, ou o que nos querem fazer entender por cultura, tem pouco a ver com nossa formação e constituição, mas tem muito mais a ver com nossa necessidade de nos esquecer de nossa vida maluca nas mais diversas formas de entretenimento.
    Talvez tenha me distanciado um tanto da discussão que vinham travando, mas senti alguma necessidade de compartilhar isso com vocês...

    Grande abraço,
    Any

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