Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

quinta-feira, 11 de março de 2010

O ver não toca, o toque não vê - Um ensaio sobre a cegueira


Meus amigos,
Tateemos pelo Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.
Blindness, o bom filme de Fernando Meirelles baseado no livro de Saramago, também guiará nossos passos táteis.
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O ver não toca, o toque não vê
Um ensaio sobre a cegueira
"Eu já conheço aquela parte em você que não tem nome algum"

Não haverá nomes. Os olhos amordaçados estão fadados a esquecer. A memória é tudo o que lhes resta. A sociedade da informação (para o consumo) já não pode seduzir pelo arco-íris publicitário. Curioso paradoxo: o véu branco da cegueira que José Saramago desvela em seu Ensaio reúne em si todas as cores do espectro. O branco funde o diverso. Diverso que, a partir de agora, será único.

"Estou cego!"

Agora só posso lembrar.

"E se o aumento explosivo de memória for inevitavelmente acompanhado de um aumento explosivo de esquecimento?" (Andreas Huyssen, Seduzidos pela Memória). Somente o Estado onipresente - e onipotente - não esquecerá. Segregará.

A cegueira se espraia, o mar branco inunda cada vez mais náufragos. A burocracia impessoal precisa agir, o Leviatã sem face deve abrir os olhos etéreos. Saramago é repleto de simbologia: um antigo manicômio abrigará aqueles que não mais precisam de pálpebras. Como se a Razão caducasse na medida em que não pudesse ser hipnotizada pela ode à mercadoria. Saramago enforma o Ensaio a partir de uma situação escatológica que leva às últimas conseqüências a impossibilidade de se ver. A sociabilidade é esgarçada. A moral já não pode fazer vista grossa.

Darwin há muito elucidara o princípio da seleção natural. Há os resistentes, aqueles que são naturalmente selecionados, os sobreviventes. A esposa do oftalmologista não verá os olhos cerrados. Logo o médico se reduzirá a marido da visionária. O oftalmologista ficará cego. O feitiço e o feiticeiro. Aos poucos, a clausura racional do manicômio encerrará os mais diversos ramos da divisão social do trabalho a partir dos corpos cegos de seus executores. A prostituta, o atendente da farmácia, a consultora financeira, o marginal, o médico - que já não pode curar.

O manicômio vendado e vedado passará a reeditar a história do desenvolvimento social desde os primórdios mais rudimentares. Ainda que todos tenham ciência das categorias modernas de sociabilidade, a ciência já não pode auxiliá-los. Os recursos são escassos. Nossos corpos são os novos laboratórios. A retorta é cega.

As distinções se tornam obscuras - ou pior, embranquecidas. De olhos amordaçados, o oftalmologista pretende-se orador. O marginal compreende na prática cega que já não há clara clivagem entre a margem e o centro. "Não me venha dizer que é médico, já não aceito ordens".

A utopia, o não-lugar, o lugar nenhum. Nenhum lugar. Na utopia negativa, a privação estabelece a igualdade a contrapelo, a igualdade da tragédia que os faz perder o derradeiro resquício de autodeliberação, a visão. "Aquilo que nega o sistema na teoria o faz devido à sua incapacidade de negá-lo na prática" (Terry Eagleton, As ilusões da pós-modernidade). Teoria da prática cega. Prática cega da teoria. Aporia. Mas ainda há esperança. Esperânsia. Em terra de cego, quem tem um olho é rei. A rainha tem os dois. A esposa do oftalmologista, agora a médica efetiva, procura trazer a cura. Aquela que vê tentará expiar a dor dos inscientes. Cristo revisitado.

A burocracia os ilhou, não haverá metástases. Somente a sujeira poderá se espraiar. E ela o faz. As alamedas maníacas não devem ser vistas, mas cheiradas. Cheiro de dedos etéreos, punhos fétidos que enforcam. A cegueira branca, mácula lívida, cheiro marrom dos corpos cada vez mais próximos das vísceras.

A princípio, todos comem as migalhas enviadas militarmente. Mas é preciso dividir para reinar. Para reinar, é preciso cindir. Um contestador não aceita a democracia proposta pelo oftalmo orador. "Eu me autoproclamo rei da minha ala. Alguém tem alguma objeção?". O tempo é rasgado pelo caos. O moderno convive com o anacrônico. Absolutismo democrático. "Num período em que nenhuma ação política de grande projeção se afigura com efeito exeqüível, em que a assim chamada micropolítica parece a ordem do dia, soa como um alívio converter essa necessidade em virtude - persuadir-se de que as próprias limitações políticas têm, por assim dizer, uma base ontológica sólida, pelo fato de que a totalidade social resume-se afinal a uma quimera" (Terry Eagleton, As ilusões da pós-modernidade). O manicômio e a totalidade totalitária.

Que fazer? - pergunta Lênin.

Fazer, executar - responde Stálin junto à têmpora.

Um caolho tem um rádio. Caolho? Ambos os olhos são cegos, mas um deles, o direito, insiste em se ocultar sob uma venda. Cegos ouvem. Logo todos se dão conta da proporção que a cegueira branca vai tomando. A doença era imune à burocracia. Como veremos, a burocracia não era imune à doença. A burocracia tem a cura letal. Já não vai doer. Já não é preciso ver. Corpos empilhados ao redor do manicômio. Soldados em vigília cumprem ordens. O dedo precisa atingir o gatilho. Gatilho perfurocortante. Quanto aos cegos - os mortos e os mortos-vivos -, deixem que os mortos enterrem os mortos. Cristo ainda uma vez assim se pronuncia, aquela que vê se incumbe de selar as pálpebras dos cadáveres com terra.

Onde os fracos não têm vez: a ala monárquica começa a empreender o monopólio da violência. Onde os recursos são escassos, a escassez vira um recurso. Passará a haver racionamento da comida arremessada ao manicômio. Apropriação privada da pobreza social. Trata-se da subversão da abundância pela fome. Inanição e inação. "Essa perecibilidade da máquina e dos seus produtos no mundo moderno ocidental foi agudamente observada por Jean Baudrillard em Sociedade de Consumo. Diz ele que nestas sociedades os objetos existem para a morte" (Silviano Santiago, O cosmopolitismo do pobre, crítica literária e crítica cultural). A morte existe para os objetos e para os que não objetam. Afinal, os tiranos têm armas.

Os democratas famintos pensam e falam e falam e pensam sobre uma possível contraposição. Enquanto isso, em algum lugar do passado, o espectro de Adolf Hitler espreita o corredor polonês. Enquanto isso, naquele lugar do presente, os famintos democratas falam e pensam e pensam e falam sobre uma contraposição possível. Ensaio sobre a cegueira, cegueira que só ensaia.

Ora, enquanto a grama cresce, o cavalo deve pastar. Cristo revisitado aceita as novas regras. A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. "Todos devem ceder os pertences que tiverem para que possam comer. Não esperem comer no lugar dos outros". A visionária oferece a outra face - e lá está uma adaga. O monopólio da violência no manicômio faz a paródia da reificação que rasga a sociedade de classes. Tomamos por natural a constituição de classes e a apropriação privada da produção social, como se tal estado correspondesse a uma condição ontológica da formação social. A desagregação da sociabilidade pela cegueira e o seu contingenciamento no manicômio nos permitem observar uma possível narrativa para a origem da opressão. Mas onde estaria então o germe da sublevação? A cegueira também aponta para o discurso da servidão voluntária.

Para reinar, é preciso setorizar. A cegueira também precisa da departamentalização do espírito. Setor Adjunto para a Distribuição de Alimentos devidamente Expropriados. O responsável? Um cego. Cego, sim, mas não como os demais. De olhos bem fechados: cego de nascença. O oftalmologista, agora legítimo representante da ala trôpego-democrática, não se conforma. "Se você nasceu cego, está muito mais adaptado que todos aqui. Há profundas implicações morais em sua condição. Isso é revoltante!". O líder, rei autoproclamado, sentencia religiosamente de arma em punho: "receba o seu quinhão e seja grato". Por séculos e séculos, amém. O médico antes bem aquinhoado agora aponta o dedo em riste para o deficiente congênito. Não se pode afirmar - negar também não se pode -, mas talvez, antes da cegueira branca, o médico ajudasse o atual burocrata congênito a subir no ônibus com uma piedade cheia de altivez. Ajudo-o, claro - e em silêncio (silêncio que não vê e não quer ouvir): ainda bem que não sou assim. Só alguém dentro de uma situação pode julgá-la, e ele é a última pessoa que pode julgar (Bertold Brecht). O Ensaio faz as paralelas se cruzarem bem onde o infinito é escatológico: no limite, Saramago subverte os bem-aquinhoados da seleção (nada) natural. O doutor cobra do cego a empatia por aqueles que se tornaram obscuros. Quem é passível de pena, agora?

Qual o limite para os recursos escassos?

Resposta sedenta e prostrada: a escassez dos recursos.

O rei autoproclamado prepara-se para um novo pronunciamento. Já há até mesmo um microfone. "Façamos como nas lojas", ele antes dissera. Nós velamos pela comida, velamos pela sua troca justa (para nós). Quando todos foram despidos de quaisquer pertences e valias, o que resta para trocar além da nudez?

Toda a nudez será castigada?

Não.

Todo o castigo será desnudo.

"A partir de agora, haverá uma nova moeda de troca: mulheres". Perdem-se os anéis, mas nem todos ficam só pelos dedos. A ala monárquica queremos seus corpos, mulheres. O Ensaio retira o véu de outro auto-engano histórico: a derrocada da utopia despoja o sujeito de sua condição transcendente, de seu caráter Ideal. Não o sujeito dotado da autonomia própria ao imperativo categórico ético, mas o sujeito sujeitado, dono, ou refém, de seu próprio corpo.

Mário Lugarinho, docente do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Letras da USP, propôs uma análise a contrapelo sobre o resgate do corpo como possibilidade de reinício de uma construção positiva para um projeto humano. Ao analisar o filme A Idade das Trevas, de Jean Arcquand, Lugarinho nos remete ao desfecho da (anti-)história do protagonista. A personagem espoliada e alienada por todos os sentidos ressentidos de sua existência desistência toca a campainha da casa singela e pacata de um casal de velhinhos. A senhora o atende. "Mas o que você quer fazer?". O fácil é que é difícil de fazer (Bertold Brecht). Fazer já seria difícil, quanto mais querer.

A personagem de Arcquand se dirige ao jardim. Estamos diante de uma macieira. O fim do filme quiçá nos remeta ao início mítico dos tempos, o Gênesis. Afinal, Eva nos esvaiu do paraíso após se deleitar com o fruto proibido, a maça. A personagem se senta. A maça vai sendo descascada suavemente.

O ser humano precisou hastear os mais diversos tipos de utopia para, ao fim e ao cabo, ser expelido, nu, de encontro à sua única e efetiva propriedade, os sentidos. Não o sentido, mas os sentidos. A partir do momento em que a subjetividade se confunde com o corpo, encontramo-nos diante do sofrimento sensível e tangível. O grito, a lágrima. Quiçá os futuros projetos levem em consideração a constituição mais concreta que cada um de nós possui. Os perseguidores sempre souberam que é ao corpo que o poder deve recorrer.

O filme termina com a maça descascada. A imagem se transforma em traçados pictóricos de uma natureza morta. Término ambíguo. Voltamos à natureza, nossos sentidos são resgatados pela opressão e à revelia do poder. Mas somos forçados a lembrar que a natureza é morta. Somente o devir histórico poderá nos mostrar se haverá a restituição da sinestesia. Por ora, o toque não vê.

No manicômio de Saramago, os recursos são escassos, não o desejo.

A ala democrática sugere que as mulheres se entreguem somente de modo voluntário. Ainda que a fome não seja democrática. Logo se forma uma fila indiana de mulheres famintas e abnegadas. A visionária Maria de Jesus vai à frente.

O corpo maculado de Cristo enfim se rebela. Aquela que vê se transforma em Caim, há choro e ranger de dentes, o rei autoproclamado deverá pagar. Aquela que vê não pode ser vista. Olho por caolho, dente por dente. A opressão incita a revolução. "No momento em que a transferência para um centro supranacional é completada, surgem redes de contrapoderes locais e constitucionalmente eficazes para contestar e/ou apoiar a nova figura de poder" (Michael Hardt e Antonio Negri, Império). Guerra de todos contra todos. Ninguém precisa ler Hobbes para, no limite, descobrir que não há vácuo no poder.

O manicômio arde em chamas. Onde estão os soldados que nos condenavam ao degredo? A cegueira não vê mais fronteiras. O mar branco poderia se espraiar indefinidamente, caso já não houvesse acometido a tudo e a todos.

Na rua, o caos não se deixa quantificar.

"No começo não há sangue, os indícios são irrisórios. A guerra civil molecular inicia-se discretamente, sem que haja uma mobilização geral. Pouco a pouco, multiplica-se o lixo nas ruas. No parque, amontoam-se as seringas e garrafas de cerveja quebradas. Nas paredes surgem pichações monótonas, cuja única mensagem é o autismo: elas exorcizam o eu que já não mais existe. Na sala de aula os móveis são destroçados, os jardins fedem a merda e urina. Trata-se de declarações de guerra mudas e diminutas, mas percebidas pelo experiente morador da cidade. Logo se revela o anseio por um gueto mediante sinais eloqüentes. Pneus são furados, telefones de emergência inutilizados, automóveis incendiados. Nas ações espontâneas expressa-se a raiva das coisas em bom estado, o ódio por tudo o que funciona e que forma um amálgama indissolúvel com o ódio por si mesmo" (Hans Magnus Enzensberger, Guerra Civil).

Junto aos ratos, alguém almoça. Será que os animais ainda vêem?

Nos supermercados - agora submercados -, a demanda faminta já não atrai a própria oferta. Sujeitos precisam se sujeitar. Sujet, sujeito. Sujet, súdito. "O conceito de totalidade implica um sujeito para quem ela faria alguma diferença prática; mas esse tal sujeito foi rechaçado, incorporado, dispersado ou metamorfoseado em algo sem existência, por isso o conceito de totalidade tem grandes chances de cair junto com ele" (Terry Eagleton, As ilusões da pós-modernidade). O Ensaio desvela o caos social como contraponto humano à totalidade totalitária que tudo controla e tudo vê. No limite, a perda da visão pôde incitá-los à rebeldia, na medida em que a vida paulatina e resignada já não poderia ter continuidade. O esgarçamento da totalidade social necessariamente estilhaça a identidade íntegra do sujeito que deve reproduzi-la no microcosmo pretensamente auto-suficiente da vida burguesa. "Não se abandonaria o impulso radical, mas ele mudaria gradualmente do transformativo para o subversivo, e ninguém além dos anunciantes falaria mais em revolução" (Terry Eagleton, As ilusões da pós-modernidade). Uma recente promoção do Habib's usou o mote da revolução: uma esfiha de carne porta a boina cubana com a estrela vermelha. La garantía soy yo. Revolução nos preços. A sociedade cega de Saramago já não pode anunciar. Não há garantias. Transformação e subversão são faces da mesma moeda que já não se pode ver.

Não se pode ver, mas a Luz insiste em querer se propagar. Estamos em uma igreja. A teologia ainda se pretende teleologia. Mas eis que o véu do templo ainda uma vez se rasga. Todos os santos têm os olhos vendados. O Homem fez deus à sua imagem e semelhança. "O que tiver Luz não me pertence". A religião já não religa. A igreja: só mais um abrigo.

Começa a chover. Ninguém consegue ver, mas todos podem se molhar. Os corpos acometidos se unem. O caos também comporta o abraço e, eventualmente, o sorriso.

Um casal potencial procura a identidade até então às escuras.

Ele recua.

"Não, eu não quero saber como você é".

Ela persiste.

"Como podemos nos conhecer se não sabemos nossos nomes?"
Ele esboça o Ensaio sobre a cegueira:

"Eu já conheço aquela parte em você que não tem nome algum".

O silêncio aquiesce. Abraço em silêncio.

Silêncio amordaçado. O silêncio vê.

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".

A epígrafe do Ensaio vem do Livro dos Conselhos. A vida danificada estilhaça a sabedoria. Já não há previsibilidade para que uma vivência possa ser estendida a um outro. O conselho se acautela contra si mesmo. Se podes ver, repara que só podes olhar. Se "a vida não vive" (Adorno, Minima Moralia), o ver não toca.

Os primeiros serão os últimos?

Não, os primeiros.

O primeiro cego volta a ver.

Potencial reação em cadeia: a cegueira ensaia ver.

O corpo voltará a ser tátil para os olhos.

A vida voltará a ser corpórea para o tato?

A impossibilidade de síntese inequívoca para o Ensaio sobre a cegueira aponta não para uma fissura poética da obra. Segundo o Adorno de Posição do narrador no romance contemporâneo, a permanência da dialética negativa faz com que a obra, em seu impasse, ressignifique a própria época em que se insere, na medida em que não reconcilia como totalidade integrada conflitos históricos que não se resolveram. A negatividade não dissolve a verdade artística como mera ideologia. O positivo só permanece positivo em sua negatividade. É preciso ver. Ainda que sob o risco de ver sem poder viver.

14 comentários:

  1. Flávio,
    A negação determinada do todo me parece algo complexo - e contraditório. Negação determinada: o positivo assume o seu contrário, o negativo, em sua própria constituição. Mas onde está a possibilidade de síntese? "A negatividade não dissolve a verdade artística como mera ideologia". Será? E não corremos o risco de, ao relegarmos o conceito de todo, chegarmos a uma ode asséptica da alteridade e dos particularismos?

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  2. Olá, Jorge!

    Artisticamente, o negativo pressupõe o seu questionamento.

    Há um risco de endeusamento do negativo como grito amordaçado daqueles que não concordam, daí decorrendo o potencial dogmatismo da margem (que, se olharmos bem, funciona segundo a mesma gramática do dogmatismo central).

    Agora, quando é que a negação determinada deixou de ser contraditória? A questão - desdobrando o que você colocou - é que a contradição se apresenta contra a adição, autocontraditória. É o próprio pensamento crítico que se vê às voltas com a esterilização contínua.

    Sábado passado, li um artigo do filósofo Vladimir Safatle para a Folha de São Paulo. Tratava-se de uma resenha sobre um livro de Alain Badiou, importante pensador francês pós-68. Um livro sobre o amor. Pois bem: Alain Badiou, segundo Safatle, vê um germe de insubordinação no amor, na medida em que as relações podem romper, em sua falta de GRAMÁTICA NORMATIVA, com a lógica reificada do princípio inequívoco de IDENTIDADE. Não o eu, não o tu, mas o nós, a diferença não apenas como alteridade ou ALTERcação, mas como convívio desregrado.

    Isso poderia corroborar a asserção de Terry Eagleton, para quem a totalidade (libertária) em fragmentos - a Indústria Cultural nunca esteve melhor - oferece interstício de atuação e contestação (o risco da transformação se esterilizar em subversão).

    De fato, Jorge, o risco que você aponta segue engatilhado junto à têmpora. Um pensador como Max Horkheimer se aproximou de Schopenhauer quando a revolução frustrou uma época como involução. Adorno teve um ataque cardíaco pouco mais de um ano após a invasão dos estudantes ao Instituto de Pesquisas Sociais, em Frankfurt. Hoje lemos um Robert Kurz - há um link para os textos do autor aqui no Subsolo das Memórias - que procura entender a gramática de colapso da modernização - i.e., o entendimento sobre a impossibilidade de prosseguimento da reprodução cega do capitalismo. Mas a contradição pode ser efetiva e racionalmente extirpada? A estrutura social pode ser estruturada? Frankenstein não se voltou contra Mary Shelley? Quais seriam os resultados de uma transformação que não pudesse contar com uma quarentena no deserto?

    Não sei. Mas me pergunto.

    Não deixaria de forma alguma de apoiar um tal movimento - mais pelo movimento, pela dinâmica, do que (talvez) pela c-r-e-n-ç-a de que uma mudança substancial aconteça.

    Apareça sempre por aqui, Jorge, suas questões me parecem muito importantes.

    Um abraço!

    Flávio Ricardo

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  3. Belo ensaio. O livro de Saramago sempre me aguçou muito. Me parece que essas situações inverossímeis conseguem dizer mais do humano no próprio ser humano. De fato, é no limite que percebemos quais os verdadeiros papéis de todas as convenções, de toda a ética. Quanto ao filme, fica um único desapontamento: Gaël Bernal está muito feio no papel do "rei autoproclamado".
    Beijos!

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  4. Oi, Adriana!

    Seja bem-vinda ao Subsolo das Memórias :-)

    A sua colocação sobre o esgarçamento humano que ocorre na escatologia não poderia ser mais precisa, a meu ver. Aliás, você se aproxima muito de Dostoiévski, ao dizer que "situações inverossímeis conseguem dizer mais do humano no próprio ser humano". Para o escritor russo, o realismo em arte era justamente o antípoda do padrão arquetípico - era a tensão, a perda do solo sob os pés, o tempo sem templo.

    No entanto, Adriana, acho interessante jogar o seu pensamento contra você mesma: "é no limite que percebemos quais os verdadeiros papéis de todas as convenções, de toda a ética". Poderíamos pensar que não haveria novos limites em uma sociedade outra? A ética serve única e exclusivamente aos propósitos da imposição comportamental? Serve única e exclusivamente para tolher uma classe contra as demais espoliadas? Não há qualquer aspecto civilizatório nos valores éticos? Não há a percepção intrínseca de que vivemos em sociedade, de que pode se fundar uma relação de empatia com os demais, apesar de toda a opressão? Que seria da convivência social se a besta-fera fosse solta sem qualquer tipo de consideração alheia para além do próprio solipsismo? Entender a Genealogia da Moral implica desenraizá-la?

    Um beijo,

    Flávio Ricardo

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  5. Adriana ainda uma vez :-)sexta-feira, 12 março, 2010

    Mas também não implica ser moralista, né?

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  6. Certamente, Adriana - e qual o limite entre essas fronteiras tão lábeis?

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  7. Olá!

    Gostei muito do ensaio, muito bem escrito, rica imagética poética, o rompimento de fronteiras de gêneros que justamente tende a constituir o ensaio - há poesia, há prosa, há análise, a crítica se funde ao eu que se cala para escrever.

    E eu queria saber o seguinte: por qual editora foi publicado o ensaio do Enzensberger, Guerra Civil? Mais: o Idade das Trevas, do Arcquand, é o último filme daquela trilogia que começa com O Declínio do Império Americano e passa pelAs Invasões Bárbaras, né?

    Abraço,

    Arnaldo

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  8. Fala, Arnaldo!

    O Guerra Civil, do Enzensberger, foi publicado pela Companhia das Letras, se não me engano - eu me lembro precisamente do formato do livro (capa vermelha, título em letras verdes garrafais e trêmulas). Dá uma procurada na Livraria Cultura que você deve encontrar - como o alemão veio recentemente ao Brasil, a editora deve ter relançado publicações um pouco mais velhas.

    Na mosca: o Idade das Trevas é o último filme da trilogia que você mencionou, sim.

    Muito obrigado pelos elogios, a tua citação velada do Adorno (o eu que se cala para escrever) me traz muita felicidade ao ver que o espírito da escrita ainda pode ser compartilhado!

    Grande abraço,

    Flávio Ricardo

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  9. Otávio Henriquedomingo, 14 março, 2010

    Acompanho Saramago já há algum tempo - o que não é tarefa fácil, sejamos francos, dado o ritmo frenético com que o português se entrega à escrita. Já é difícil dizer qual o último livro dele. Mas o último livro que li foi Caim. Então: considero Saramago um dos autores mais criativos com quem já me deparei. Muita, mas muita criatividade! As tramas são riquíssimas, o veio imaginativo não poderia ser mais vasto. Saramago tem um olhar aguçadíssimo para criar imagens poéticas com múltiplo significado - como definir de forma unilateral a metáfora da cegueira branca?
    Sentimo-nos diante da história humana passada em revista. A história humana em um microcosmos. O universal mediado pela particularidade da trama. Isso é genial. Agora, para mim, o estilo de Saramago muitas vezes prejudica a tensão e a fluidez textuais que as idéias poderiam trazer. Sim, pois aquelas monotonia e monologia para escrever não trazem modulação para as diversas situações. Há sempre um narrador algo irônico - mas, talvez, demasiado português, hehehehe - a intervir, mas muitas vezes de maneira prolixa e desnecessária. Saramago não aprofunda diversas transformações da instância narrativa que foram realizadas durante o século XX, para dizer o mínimo. Há uma cena em Caim que bem demonstra isso. Caim, o garanhão, se encontra na antesala da princesa que irá sugá-lo. As escravas banham-no. Trata-se de uma cena de bastante sensualidade. Os gestos poderiam ser mais particularizados, a ereção de Caim e a conseqüente ejaculação múltipla pelas mãozinhas escravas poderiam ser moduladas de modo a sugerir o movimento, o êxtase desde a palavra, mas não: Saramago invariavelmente segue monocórdico por uma descrição que aguça, mas que não nos faz tocá-la de fato, pois se erige como um muro hermético e impassível.

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  10. Um ensaio que de fato procura tatear, Um ensaio sobre a cegueira. Um ensaio: texto de idas e vindas, soslaios, um caminhar trôpego, a tentativa mais do que o curso, o curso mais do que a chegada, a chegada pela partida. Flávio, meu caro: é difícil escrever assim quando órgãos de pesquisa exigem os Objetivos das Justificativas Gerais e jamais Específicas. Mas é bom ver a transfusão de gêneros, o embaraço das fronteiras - seria ainda melhor ver o embaraço dos burocratas... O ver não toca, o toque não vê. Uma epígrafe também pessoal, velho? Tem muita gente que toma a contradição como um mero instrumento heurístico. Ledo engano - pouquíssima vivência. A contradição nos rasga como "a cicatriz que punciona" - não é assim que o Subsolo das Memórias vem à tona?
    As suas fotos são os seus textos, os seus textos são fotográficas: você traz para a superfície os seus esboços, os seus passos, a sua procura. Tudo o que ando vendo por aqui tem um caráter de construção sobre e sob a construção. Daí o Subsolo? Daí as Memórias. A Memória é talvez das últimas coisas que te restam. Mas uma Memória que se projeta, uma Memória que caminha adiante - Memória que não quer marchar. Uma agonia, de fato.
    O texto é árduo - e arde. Requer o chamamento da erudição ativa - jamais encastelada. "Acompanhem aquilo que eu vejo". Isso rompe aquela suposta distância de torre de marfim que o criador estabelece. Não, as referências estão desnudas, é o caminho que deve ser desnudado. Saramago, Adorno, Eagleton, Arcquand, Enzensberger, Negri, Hardt, Huyssen, enfim. Não o ler, mas o entretecer. Pensamento dialógico, polifonia que ensaia, ensaio polifônico. Algo como um chamamento para que reescrevamos não guiados pela sua mão - a técnica conclama veladamente à autonomia. Se superarmos o decifra-me, nós é que devoraremos. Em outros tempos, talvez se falasse em uma leitura da práxis, a práxis da leitura.
    Siga, Flávio, persiga.
    Grande abraço!

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  11. Fábio,

    Há quem pense que o escritor lance palavras sempre PARA OUTREM. Sempre um público potencial. Triste visão coisificada...

    Você me leu desde a grafia da palavra sobre o papel em branco da imaginação. Uma necessidade autônoma de comunicar, de pôr em comum. Um abraço mediado - como é difícil o toque que não vê, o ver que não toca. Epígrafe pessoal? Me sinto ainda mais triste ao dizer que dificilmente não encontraria alguém lúcido que não subscrevesse tal epígrafe...

    Também por isso eu escrevo.

    Mas a escrita não apenas resiste. Ela rexiste. Uma catarse. Solidão conjunta.

    Em outro lugar, tentando auscultar o amor, eu escrevi que o sentimento amoroso guarda um germe inequívoco de insubordinação. O senhor pode prostrar o escravo. Pode fustigá-lo, mesmo açoitá-lo. Pode mesmo obrigá-lo ao riso rasgo ressentido. Mas, com todo o seu poder, o senhor não pode obrigar o escravo ao amor.

    Também por isso eu escrevo.

    No entanto, a ironia nunca deixa de ser autofágica, auto-irônica. Se ninguém pode ser obrigado ao amor, se o sentimento não pode admitir este sentiminto, segue o que nos persegue: eu sou o primeiro a não poder amar simplesmente quando quero. Não posso obrigar-me, posso no máximo sentir a aridez de querer amar. Bem-vindo ao deserto do real.

    Também por isso eu escrevo.

    A literatura, amante etérea.

    Amante etéreo à literatura.

    Também por isso eu escrevo.

    Fábio, se o ensaio é polifônico, o leitor já não pode ser pressuposto. Pode - nós sabemos. Mas assim não queremos.

    Também por isso NÓS ESCREVEMOS.

    Esteja sempre por aqui, amigo.

    Grande abraço,

    Flávio Ricardo

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  12. Hola, meu amigo brasilero

    Queria pedirle un favor:

    Este último artículo me llamó mucho la atención, pero...no todas las palabras las entiendo, ademas, quisiera que amigos de acá que disfrutan de la literatura pudieran leer lo que usted escribe, compartir con ellos lo que un amigo brasileño escribe.

    ¿es posible leer lo suyo en español?

    Un saludo desde Colombia

    Carlos

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  13. Óptima reflexão, caro Flávio. Profunda e ambiciosa. Venho aqui, ao subsolo das memórias, com alguma frequência, se bem que não seja um comentador assíduo. A tua recente viagem fascinou-me. Um abraço de Lisboa.

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  14. salve, Flávio!
    pretendo ver o filme essa fds(Ensaio sobre a cegueira)
    abraço grande!

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