Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Hay golpes en la vida, tan fuertes... Golpes como del odio de Dios


Meus amigos,

Durante a estada peruana, me deparo com César Vallejo. O poeta se insinua. Descubro que Hans Magnus Enzensberger o levara para a língua alemã. Neruda lhe dedicara poemas. Mas foi em Cusco, premido pelas alamedas compactas, que Vallejo me fez auscultar


LOS HERALDOS NEGROS

"Hay golpes en la vida, tan fuertes... Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma... Yo no sé!

Son pocos; pero son... Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán talvez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.

Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.

Y el hombre... Pobre... pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.
Hay golpes en la vida, tan fuertes... Yo no sé!"


A poesia de Vallejo me cala. A proesia de Vallejo me interpela. Como dedos em riste, as palavras procuram saber qual é


EL MOMENTO MÁS GRAVE DE LA VIDA

"Un hombre dijo:
- El momento más grave de mi vida estuvo en la batalla del Marne, cuando fui herido en el pecho.
Otro hombre dijo:
- El momento más grave de mi vida ocurrió en un maremoto de Yokohama, del cual salvé milagrosamente, refugiado bajo el alero de una tienda de lacas.
Y otro hombre dijo:
- El momento más grave de mi vida acontece cuando duermo de día.
Y otro dijo:
- El momento más grave de mi vida ha estado en mi mayor soledad.
Y otro dijo:
- El momento más grave de mi vida fue mi prisión en una cárcel del Perú.
Y otro dijo:
- El momento más grave de mi vida es el haber sorprendido de perfil a mi padre.
Y el último hombre dijo:
- El momento más grave de mi vida no ha llegado todavía".


Vallejo parece vislumbrar a face do algoz. A face do algoz que se dilui pelas sombras movediças. O algoz em face do sorriso. Esfacelado. O algoz em face do afago. A distância. À distânsia. Viro as páginas convulsivamente, a página posterior a página anterior soterra, Vallejo e os escombros da poética, mas ali, sob uma pedra, uma mão acena. Me aproximo. Pé ante pé do ouvido. Ainda que prostrado, o eu-lírico abre bem os olhos e proclama:


VOY A HABLAR DE LA ESPERANZA

"Yo no sufro este dolor como César Vallejo. Yo no me duelo ahora como artista, como hombre ni como simple ser vivo siquiera. Yo no sufro este dolor como católico, como mahometano ni como ateo. Hoy sufro solamente. Si no me llamase César Vallejo, también sufriría este mismo dolor. Si no fuese artista, también lo sufriría. Si no fuese hombre ni ser vivo siquiera, también lo sufriría. Si no fuese católico, ateo ni mahometano, también lo sufriría. Hoy sufro desde más abajo. Hoy sufro solamente.
"Me duelo ahora sin explicaciones. Mi dolor es tan hondo, que no tuvo ya causa ni carece de causa. ¿Qué sería sua causa? ¿Dónde está aquello tan importante, que dejase de ser su causa? Nada es su causa; nada ha podido dejar de ser su causa. ¿A qué ha nacido este dolor, por sí mismo? Mi dolor es del viento del norte y del viento del sur, como esos huevos neutros que algunas aves raras ponen del viento. Si hubiera muerto mi novia, mi dolor sería igual. Si mi hubieran cortado el cuello de raíz, mi dolor sería igual. Si la vida fuese, en fin, de otro modo, mi dolor sería igual. Hoy sufro desde más arriba. Hoy sufro solamente.
"Miro el dolor del hambriento y veo que su hambre anda tan lejos de mi sufrimiento, que de quedarme ayuno hasta morir, saldría siempre de mi tumba una brizna de yerba al menos. Lo mismo el enamorado. !Qué sangre la suya más engendrada, para la mía sin fuente ni consumo!
"Yo creía hasta ahora que todas las cosas del universo eran, inevitablemente, padres o hijos. Pero he aquí que mi dolor de hoy no es padre ni es hijo. Le falta espalda para anochecer, tanto como le sobra pecho para amanecer y si lo pusiesen en una estancia obscura, no daría luz y si lo pusiesen en una estancia luminosa, no echaría sombra. Hoy sufro suceda lo que suceda. Hoy sufro solamente".
Pandora fecha as comportas de sua caixa. Pandora se encerra em seu bunker. Sísifo, até o dia derradeiro, rolará sua pedra a esperar, a esperar e a esperar. Ouço Vallejo. Ouço Vallejo ainda mais. Brindamos com Cusqueñas. A cerveja se torna negra. Lágrimas viscosas. Ouviria Vallejo. Ouviria Vallejo ainda mais. Ouviria Vallejo ainda mais se o poeta não houvesse morrido em 1938. Hoy sufro sólo.

12 comentários:

  1. Flávio,
    Que melancolia vibrante nos chega de César Vallejo. Melancolia vibrante? Sim, o prisioneiro sob a couraça, mas o prisioneiro que não deixa de golpeá-la. Los Heraldos Negros e Voy a hablar de esperanza parecem nos acometer - mas acho curioso o acometimento que ainda tenta se expressar, a poesia que não se cala diante do silêncio impassível. Por que criar se a melancolia é indiscernível - de tão consolidada?

    Mas aí nos El momento más grave de la vida. "El momento más grave de mi vida no ha llegado todavía". Ora, um bafejo cálido e aconchegante do porvir? Não o último momento, mas a esperança. E, bom, a esperança premida por outros dois poemas duríssimos.

    Não à toa Vallejo te tocou, Flávio.

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  2. Bela "descoberta", rapaz!
    Que versos intensos! E que dor apalavrada. É desesperador pensar que não há causalidade para o sentimento. É desesperador, angustiante, mas também desafiador. Quem é que está disposto a se projetar para a vida sem uma prévia concepção delineada, hermética e sistemática sobre a vida. Parece que a mão jamais poderá afagar o rosto sem que se saiba previamente se (a) se trata da melhor ação possível ou (b) se tudo está fadado a ruir ou (c) se é preciso viver o instante unicamente. Camadas e mais camadas de sobreposição. Camadas e mais camadas preenchidas (e/ou vedadas) pelos mais diversos (res)sentimentos. Não sei, leio este Vallejo contra o próprio fluxo da correnteza. Será possível o mergulho de olhos abertos - e não com os olhos sob os óculos de qualquer crença?

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  3. Me parece que César Vallejo conseguiu estancar a fluidez do tempo que nos mata ao cristalizar a injustiça desse (e do outro) mundo em um verso-lápide: "Hay golpes en la vida, tan fuertes... Golpes como del odio de Dios". Quem já passou por alguma situação de dor extrema sabe e sente como é duro não ter a quem e a que culpar - ou a algo ou a alguém para recorrer - quando a campa não se aproxima como fresta, mas como portal compulsório e escancarado.

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  4. Me marcaram muito os dois últimos "versos" - Vallejo parece prescindir das categorias tradicionais - que envolvem EL MOMENTO MÁS GRAVE DE LA VIDA: "Y el último hombre dijo: El momento más grave de mi vida no ha llegado todavía". A esperança sempre aparece como projeção. Em busca do tempo perdido. A esperança sempre aparece como promessa. Me lembro uma vez de conversar com uma amiga. Eu falava sobre a dor de me relacionar com pessoas que não se abrem para o que é intenso. Ela me dizia que a dor também pode forjar o aprendizado. As costas cheias de cicatrizes ajudam a discernir o que virá. "Você provavelmente saberá com mais força aquilo que quer. Não entrará em becos da mesma forma". Na verdade, o que me preocupou não foi a expressão direta do que ela disse. Isso é fato - um fato difícil de aceitar e cicatrizar, mas é fato. O sofrimento também humaniza. O que me preocupou - o que me faz lembrar da tristeza como sombra - é uma decorrência pontiagudo e implícita no aprendizado próprio a qualquer término: e se as feridas, que me ajudam a amadurecer, não forem nem ao menos provocadas por alguém que as faça arder? E se não vier o meu amor? Dizer que o momento mais intenso da minha vida ainda não chegou implica esperança - e angústia. A vida pode passar - também posso não passar pela vida.

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  5. Alguém que sente dordomingo, 07 fevereiro, 2010

    VOY A HABLAR DE LA ESPERANZA não é um escrito que possa ser lido a qualquer instante. Não rente a um corpo moribundo; jamais diante de um rosto gélido e impassível. Afora tais situações - que se aproximam muito mais dos golpes tão fortes, fortes como o ódio de Deus -, talvez seja possível lê-lo como um rígido dedo em riste: primeiro a admissão (na verdade, uma conclusão) de que a vida não possui sentido algum. Se assim é (ou pior, se assim for), como vivê-la? Se não há causalidade, o que poderia trazer o apego ao transcorrer dos dias?
    Há quem diga que a vida se justifica por si mesma. Mas como tudo isso é contingente. Há quem fale da felicidade interior, a conciliação consigo mesmo - ainda que o mundo esteja irreconciliado. Mas quanto se perde ao se denegar o curvilíneo mundo mundano... Se não há causalidade para o sofrer, haveria conseqüência no prazer? Mais: haveria com seqüência? E daí fico pensando na e sentindo a contingência. Nenhum sujeito transcendente - e sem corpo - pode responder a essa pergunta por um outro. A época dos eventos coletivos não está presente - a não ser que paguemos tickets para o Metallica, a Beyoncé ou para o jogo do Corinthians na Libertadores. Aos jogos da seleção podemos assistir em casa. Talvez seja preciso inventar uma narrativa. O problema é o transcorrer do começo para o fim, já que o meio é bem escasso. Vallejo me faz pensar. Pesar. Apesar.

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  6. Os olhos de Vallejo são lúgubres como as suas palavras sob a penumbra.

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  7. Carol Fernanda Marquessegunda-feira, 08 fevereiro, 2010

    Voy a hablar de la esperanza, pero yo no sé - que combinação tétrica, a combinação do DESESPERO.

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  8. Fico lendo o que já foi escrito, yo no sé. Imaginar uma vida despida de qualquer sentido nos levaria até onde? Aliás, imaginar? Imaginar, não, vivê-la. A que somos remetidos? Alguns diriam que à própria interioridade. Interioridade? Como se vivêssemos em uma bolha sem quaisquer contatos com o que nos condiciona. Somos então remetidos para os desígnios do que nos comanda, para a exterioridade. Exterioridade? Como se vivêssemos imediatamente os desígnios do que nos comanda - ainda há exíguo espaço para o bafejo. Interioridade e exterioridade nos remetem a uma dicotomia própria a um indivíduo em contraposição ao seu meio de vivência. O homem é um animal social? O aristocrata certamente tem muito para corroborar na sociedade que o alimenta. A civilização implica normas que nos frustram? O analista poderia analisar o que a aceitação junto à têmpora das normas implica para cada grupo social. Vallejo, no entanto, parece chegar ao corpo emparedado. Aliás, o corpo já parece volatilizado. Hoy sufro solamente. Já não há mais gana, já não há mais ímpeto para o confronto. Aliás, é aí que há o confronto. Não se trata, talvez, de um véu a encobrir os olhos, a mão sempre sob a luva. É da retroalimentação entre o eu-mundo que vem a sensação - daí a mais própria - sobre o que se sente a cada dia. Há quem mergulhe. Há quem mergulhe e volte para nos contar como o corpalma não cicatrizou. Vallejo esteve lá. Imagino que deixou a dor se espraiar até o ápice do torpor. Foi então que as palavras começaram a sangrar. Daquelas raras coincidências entre o destino de um e o destino do Uno.

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  9. Olá, pessoal!

    Vallejo os inspirou em demasia, belos comentários. Alguns entre vocês especularam - e insinuaram a pergunta - sobre o porquê de o poeta peruano ter me obsedado.

    Bom, vou responder de algum modo. Elipticamente, talvez.

    Artisticamente, o jogo dos contrários sempre me foi muito interessante. Mas me foi interessante porque a vivência o tornava mais intenso. Talvez tenha percorrido algumas das esferas que se postulam como verdadeiras durante bons anos. O marxismo, a política, a religião, o pensamento crítico, a arte. É interessante perceber como cada uma dessas verdades - que, claro, se querem verdadeiras contra as demais - foi se esvaindo na medida em que eu deixava de "acreditar" nelas. O marxismo, em um determinado momento, me parecia a suma explicação para os mais intrincados fenômenos. Depois, bom, depois eu senti a falta do aporte próprio à subjetividade. Depois, ora, depois chegou a vez de elevar a subjetividade ao altar. Depois, bom, desçamos de novo ao solo, ao solo sensível, ao solo mundano. E, bom, poderia eu dizer: e assim por diante.

    Qual é a verdade? Não sei. Encontrei uma perspectiva quando fui percebendo, pelo contraste com a experiência, que poderia expressar o que via e sentia por uma determinada linguagem. Mas foi curioso: quanto mais tentava desenvolver essa linguagem, menos sentia que ela tinha uma verdade contra as demais. Quem ficava contra os demais era o agente da verdade - porque a verdade sempre porta uma determinada máscara por detrás da qual existe um rosto.

    Uma vez me perguntei e escrevi: Que pode o poeta além da prosa? Enquanto assim perguntava, já estava escrevendo, já estava proseando, a poesia já aparecia.

    Há pessoas que também pensam contra si mesmas pelo caminho. A questão é que cada um, de alguam forma, talvez procure resguardar algo de si - e para si e entre si - nesse grande redemoinho negativo. Por que deveríamos todos resguardar o mesmo?

    Quem poderia afirmar onde está o suposto cerne de nossa necessidade? Será que há algum sentido em seguir este ou aquele caminho? Ou será que é o contraste com este ou aquele caminho que pode fornecer um sentido?

    Isso me lembra as vielas alquebradas de Cusco. Aquelas pedras percoladas parecem reverberar os dorsos prostrados dos incas. Cada passo parece ser uma promessa, a rua não necessariamente termina - e já estamos em seu fim.

    Não deixei de perguntar - é o que mais faço. Mas eu talvez queira menos respostas. Será que há apenas uma forma de se responder algo? Percebi que não. Mas o destoar das veredas sempre cobra seu preço. E cada um pode saber quão alto ele é pra si próprio.

    Vallejo, Dostoiévski, Kafka, Beckett, Borges. Dostoiévski sobretudo. O sorriso ao lado da penumbra. A sombra justamente sob a lâmpada - um provérbio chinês já dizia (e diz): o local mais obscuro fica justamente debaixo da lâmpada. Fico pensando em como esses escritores deram a sua própria resposta - peculiar, contingente, alquebrada, mas própria a cada um deles. Isso não é exclusivo da arte, de forma alguma. Seria desnecessário falar de artistas políticos, filosóficos, cientifícios e que tais. Em uma época deprimida (e, por isso, comprimida) como a nossa, parece que salta aos olhos (e também salta sobre as costas) o ímpeto de se resguardar. Mas uma vez, e com muita honestidade, cada um, olhando para cada parte que esconde, vai poder responder o quanto se resguarda - e o quanto sente que vive.

    Vallejo acima se resguarda? Alguém acima escreveu que parece ver e sentir o corpo do peruano a ser fustigado pelas mais diversas correntes e sensações contraditórias. Isso é desesperador. Talvez seja mais: talvez seja o que poeta pode além da prosa, sua proesia. Um meio e um fim em si mesmo. Uma frase de Ernesto Sábato também me marcou muito na fronteira da Bolívia (continua)...

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  10. O Sábato, em sua autobiografia, falava de um encontro com Ciorán. O argentino se surpreendeu. Não encontrou no pessimista a amargura que esperava sentir. Por outro lado, o ensaísta romeno, para Sábato, não poderia sentir a força catártica da narrativa, da ficção.

    Aquilo me marcou como a palavra que não cicatriza. Daqueles raros momentos em que um sentimento se vê (res)significado. Qual é o poder de permanência da catarse literária? A resposta não poderia ser mais arbitrária, mas, bom, eu diria que pode durar até que aquele que escreve... volte a escrever.

    Não tenho a consolação da vida eterna ou da causalidade ação-reação. Aceito o inferno não por seu calor, mas por ser uma das mais belas imagens poéticas (belo, não por acaso, porque cruel). Por outro lado, me enganaria se dissesse que jamais recorreria a quaisquer dessas noções. Isso, para mim, é Vallejo. São golpes fortíssimos, yo no sé, mas poderíamos perguntar a contrapelo: ainda que abjetos, não seria melhor que algum Deus os produzisse? Ao menos não seria o nada sem face. E que Deus poderia conviver com tamanha abjeção? Então já estamos a galope de Los Heraldos Negros.

    Como se não houvesse uma fixidez. Uma abertura de fato perigosa para um aprendizado pronto a se esboroar ao contato de algo que possa ser mais belo - ou intenso. E já nisso tudo me vejo racionalizando um apego que, por sua vez, pode justamente estar ensejando essa racionalização.

    A cria e metacria. Cria, a meta.

    Não descarto, de modo algum, a possibilidade de estar me contradizendo a cada instante. Não é mesmo, Vallejo? Amanhã talvez diga o oposto - mas os opostos não se excluem mutuamente a ponto de se destruirem. Só os olhos fechados (cerrados) é que acabam com o movimento.

    Dizer que não há verdade intrínseca em qualquer parte é menos um ponto de partida que uma conclusão, talvez. E aí me vem um velho adágio. "Arte, promessa de felicidade". Troque arte - tenhamos cuidado com o câmbio diário - pelo que for. É possível. Já não será possível, porém, separar o artista, o religioso, o político (como se fossem assim um só, e não uma mescla) dessa promessa destinada ou desse destino prometido. Aí o câmbio só pode significar o ocaso. E aí que o adágio de Stendhal parece ressoar com mais força: promessa de felicidade; alguém procurará resgatar a nota promissória. E alguém também precisa prometer. A arte (a vida em sua multiplicidade) não se faz por si mesma.

    Perceber o quanto contingente qualquer plano, qualquer realização, só pode rasgar de calafrios qualquer espinha. Mas não há outro jeito. E nesse ponto, nesse momento (in this very moment), a escolha parece vir à tona. Que fazer? Seguir? A aposta sempre beira a apostasia. Mas deixar de lado pode também significar o encontrar-se, sim. Por que não?

    Mas aí, quando se parte - seja para qual vereda for -, aí já se sente a energia exígua. Não há mais tanto tempo. Um parágrafo e vários meses.

    Um amigo uma vez me disse palavras que até hoje reverberam. Ele sempre se cobrou muito. Queria o ordenamento do tempo. Muito válido. E aquela disciplina só pôde me ajudar. Um apego, uma grande seriedade. Só posso agradecê-lo.

    Seguimos veredas muito outras. Mas a dedicação não vira o rosto para nada. Ela só pede que o encanto seja sempre renovado. E esse foi o grande apoio que recebi.

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  11. Vallejo me lembra a plasticidade humana. Por muito tempo eu me perguntei sobre se o homem era bom ou mau. Me sentia incomodado com as caracterizações as mais realistas. E quanto à solidariedade? E quanto à amizade? E quanto ao amor? Me sentia incomodado com as caracterizações as mais idealistas. E quanto ao egoísmo? E quanto à inimizade? E quanto ao ódio? E fui vivendo e sobrevivendo. Vejo que há pessoas que desistiram de acreditar em qualquer tipo de transformação moral ou emocional. Há também pessoas sinceras que acreditam ser possível uma profunda transformação no ser humano. Não me digo cético, mas não me situo propriamente em nenhum dos campos. Não que não me situe, mas simplesmente não coloco a priori uma norma que me conduza. Seja pessimista ou otimista. Que é que vou sentir em face de determinada situação? Posso perder os matizes e as nuances se me tolher antes mesmo de deixar as sensações fluirem. Tive uma vez um amigo religioso que, de fato, ficava pesaroso por atitudes que se contrapunham à sua forma de sentir o mundo. E ele de fato procurava se transformar. Tive outra vez um outro amigo pessimista que, de fato, atribuía à vida nenhum sentido. Ria da tentativa de qualquer transformação, mas, no fundo, eu sentia que ele buscava algo para além da corrosão que percebia ser a realidade. Pois as paralelas se cruzam bem onde o infinito é corpóreo: a tentativa de correção de um pode coincidir com a imputação do outro. Um se flagela porque reincide. O outro reincide porque se sente flagelado. Ambos estão vivendo, todavia (e todavía, Vallejo). Não é esta uma bela busca múltipla de sentido?
    Esse fim de semana assisti a um filme nesse sentido. Vicky, Cristina e Barcelona. Vocês já devem tê-lo visto. O pintor, em um determinado momento, diz que o grande desafio é - desafio próprio ao nosso tempo: buscar o telúrico, o que é próprio, justamente quando da admissão de que não há mais nenhum sentido. O pintor acaba se contradizendo - como não? - e mostra que tudo isso é uma quimera sedutora. Mas a questão persiste. Aliás, questão, Vallejo? Questão, Woody Allen? Cristina busca buscar. E aí volto ao Vallejo cujo momento mais grave da vida ainda não chegou: seria possível conceber um sentido em que não fosse o objeto da busca o fim ao cabo? Por que a necessidade do perpétuo? Por que a certeza? Hoje mesmo vi no noticiário a dor de uma mãe pernambucana. A mãe, catadora de lixo, assiste ao enterro do filho que havia obtido o primeiro lugar no curso de biomedicina da Federal de Pernambuco. O filho, cujo nome agora está enterrado, parece que foi confundido no morro (ou nas palafitas) com algum traficante. A mãe ainda teve que enfrentar mais de 3 horas de interrogatório antes de ser liberada. Deus meu, que não haja absolutamente nada que possa explicar uma ignomínia dessas! E que haja algo que possa explicar isso! Quais os efeitos que podem advir de uma experiência brutal como essa? Nesses momentos todo e qualquer sistema me parece uma cama de gato mais do que uma teia. Enredados estamos todos nós. Que haja belas palavras consoladoras para a mãe. Mas como é que a mãe pode perdoar o algoz? E como culpar o nada? Talvez a própria fé seja oriunda de uma das mais arraigadas necessidades humanas: a premência da vingança. Aplacar a dor nos leva a prostrar a cabeça diante de um poder que guarda consigo a chave da redistribuição do ódio. O mesmo ódio que também pode gerar amor. Ou ninguém nunca deu a melhor trepada da vida depois de uma bela briga com a amada? Daqueles comentários que não querem calar.

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  12. Estamos muito doentes, é isso
    estamos sumindo
    E antes que tudo desapareça:
    prefiro aquela cerveja bem gelada
    à imortalidade...

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