Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Todos os caminhos levam a Roma

A Arena sobre as minhas costas
Coming...


... closer



Senado



Mimetismo



O reverso do sorriso



Estádio Paulo Machado de Carvalho



Memórias do Subsolo das Memórias



Olhos, frestas



Calígula



Igreja Católica Apostólica
Romana


Canindé



Espólio dos Bazárov



Gargântula



Dor-sos



Ao vencedor, as batatas


Estádio Cícero Pompeu de Toledo
1977
Corinthians x Ponte Preta


Vertigem


Amplenitude


O abraço do horizonte


Giordanno Bruno



Where the rainbow ends



Concílio Vaticano Primeiro: Dionísio era ateu?



Conselho ao Vaticano segundo Baco: o sangue de Cristo


Zeus e homem à sua imagem e semelhança


Cristal


Todos os caminhos levam à pena



O olhar da abóbada

Tirando água do joelho


"A vida é um circo, e todos somos os palhaços"


Saulo, por que me persegues?
A conta de luz venceu, Rabi.
Não só de pão vive o homem, mas de toda a pá lavra do Senhor.


Crepúsculo de jogo, torcida brasileira!


Todos os caminhos...



... levam a Roma



"Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate"



Apocalypse Now



Abaixo

Eva e o esvair



Deus e o homem à sua imagem e semelhança:
metástase romana


Eu sou aquele que sou



Posso, logo és isto!


Parla (!) mento



Baco e o Quarto Crescente


Yellow submarine


"Senhor, faça-me casto...



"... mas não agora!"

SUS



Por séculos e séculos, amém!


O Vaticano e seus pupilos


A arte arde (torcicolo)



Supletivo de Atenas
Platão e Aristóteles em 90 minutos



Dança da Chuva



Rafael e o Gênesis



Duelo de Titãs

A quadratura do círculo


Fiat Lux



Tu és Pedro, e sobre esta pedra soerguerei o meu Reino



"Bem-aventurados os pobres de espírito"



Céu mundano



Lápide


"Quando fores orar, fecha a porta: teu Pai te ouve"

Onisciência...


... seletiva



Protesto!
Onde está Pôncio Pilatos?



"A felicidade RESIDE na personalidade"



Flâneur



Influência espectral



Decifra-me enquanto te devoro...



4 Costados


Lar-anja


A Justiça tem os olhos amordaçados


O canto de Circe



Outonalidade

"Tudo posso, mas nem tudo me convém"
Paulo, o onanista

25 comentários:

  1. Demais a proposta do seu blog, Bazárov! A cada vez uma surpresa, uma retomada lúdica, o desvelar do presente, a nudez. Aquela combinação do Santo Agostinho com a "Eva" de pernas abertas me fez dar boas risadas italianas!
    Continue a nos mostrar o seu olhar poética (a poética do seu olhar).
    Um beijão,
    Cris

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  2. Grande Flavião! Uma vez comuna, sempre comuna!
    A Sinistra italiana e Giordanno Bruno - eita nostalgia!
    Aquele abraço também órfão,
    Alê

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  3. Todos os seus caminhos nos levam a Roma, Flá!
    E eu me lembro de várias situações engraçadas quando fui pra lá. Na Capela Sistina, o italiano macarrônico ficava berrando e batendo palmas: "No pictures, mister, no pictures". E de nada adiantava... E depois você me conta que fingiu um desmaio pra poder ficar olhando o teto devidamente deitado! Rararara! Coloca as fotos das outras cidades do mochilão também, hein? Beijos, querido, Vã

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  4. Bazárov,
    Tive vontade de fazer esse comentário desde a primeira vez em que acessei o seu blog - por indicação do Haroldo. E por que me detive? Tentava explicar pra mim mesma, mas não encontrava outra razão senão a de dar tempo para ver se a tendência que eu sentia ser subjacente ao seu trabalho era de fato efetiva. Hoje, hombre, acho que sim.
    Há um bom tempo, quando me descobri pela escrita, passei a estabelecer relações diferentes com o mundo das palavras e seus representantes mais pronunciados, os livros. Ao invés de acompanhar histórias, eu ficava sempre tentando discernir a teia que as enredava. Quais foram as opções deste ou daquele autor? Por que chegou a esta continuação e não a uma outra? Por que aquela frase longa? Por que aquela imagem curta e abrupta? Passei a ler os livros como aulas veladas, sussurros escritos.
    E eis que o Haroldo me traz boas referências em relação a você, Bazárov. "Uma escrita à base de ansiolíticos". Caramba, vamos ver. E de repente me deparo a cada post com um flâneur completamente inquieto. Os textos e os subtextos, os comentários frutíferos de que este blog está repleto. E comecei a sentir dificuldade em ler pela tua mão. Onde estaria o veio que ele quer percorrer? E no blog este tipo de pergunta tem um componente adicional: podemos de alguma forma entrever o sentido do próximo post? Fiquei pensando...
    Há textos sobre vivências suas. Não. Todos os textos são vivências suas, ainda que vivências - como bem disse um outro leitor em um outro comentário - com o cheiro de pó dos livros. Mas é aí que uma velha questão que eu me coloco vem à tona: como foi a sua trajetória de transformação da sensibilidade em palavra? Quando é que você se descobriu escritor? Quando é que os beijos puderam ser sentidos por você como sinestesia poética?
    Quando leio o seu trabalho, perco aquele ranço da obra de arte total. Você parece percolar os fragmentos com um veio que se aproxima do corpo, que se liga à sua própria trajetória. Não sei como você lida com a falta de totalidade, mas quiçá você diria que a totalidade tem um belo quê de totalitária. Me conta essas, hombre.
    Cláudia Pires

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  5. Cláudia - me permita: Claudinha :-)

    Pois uma parte considerável da resposta vem do nosso amigo Haroldo. Ele foi um dos primeiros que se aproximaram das minhas linhas curvas. Você conhece o apreço do rapaz por Borges - a palavra milimétrica, a geometria da imagem. "Corta isso, corta aquilo, prescinda de referências". E por aí vai. Isso lá pelos idos de 2005.

    Mas a trajetória para a palavra não foi nada apalavrada, não. Hoje me parece muito mais uma aposta que beirava a apostasia. Não foi à toa que o Haroldo falou em "escrita ansiolítica", Claudinha, já que eu simplesmente não conseguia agrupar energias para ficar quieto - e escrever. Eu sentia que a palavra contingenciava a vivência. Acho que não era suficientemente mundano, o mundo ainda não me marcara sobremaneira. Não sentia que tinha que me proteger de alguma forma, que precisava resguardar o ímpeto criativo do deserto de gelo da efetiva realidade dedo em riste. Bons tempos também. As pressões eram mais etéreas. E curioso: a palavra teimava em ficar em silêncio.

    Mas o tempo vai passando - e nos transpassando. Você vê nichos de beleza, oásis. Bastante amargura, vincos, o reverso do sorriso. Já são poucos os que acreditam com o corpo - pois é, a neurose da crença se descola do mundo, quer criar algo em separado, e isso pra mim não é possível. Acreditar com o corpo, a materialidade da crença, a escrita.

    Há quem unilateralize completamente o humano. Ecce homo! A vida dostoievskiana me trouxe a lume o humano pelo interstício. O olhar de soslaio, o ressentimento escamoteado, a admiração rente à inveja, a felicidade ingênua próxima à descrença, o abraço amigo, ela beija apaixonada, a segurança contra a intensidade. Sempre duvidei de quaisquer convenções. O realismo fantástico de Dostoiévski nunca me deixou de ser a lente pela qual subvia os acontecimentos. Enquanto dialogo com alguém, olho as palavras e leio os gestos. Quem vê cara vê o coração. O rosto esboça o que a palavra denega.

    Fiquei sabendo há não muito tempo que Thomas Mann subia para o último andar de sua residência para auscultar com uma luneta as feições das pessoas que ainda permaneciam na sala de estar de sua casa. Dei muita risada. E eis que me identifiquei de pronto: há muito eu e meus heterônimos (John Fitzgerald, Hans Magnus Enzensberger, Jean-Paul e Ivan Ivánovitch) procuramos as frestas por onde o humano espia.

    Sempre que sou estrangeiro, as mulheres dizem o que em geral não revelam. E eu sempre me perguntava: quando sou Hans, por que é que elas se abrem? Muitos falavam sobre o caráter mundano de tal abertura. Eu nunca achei que esse fosse ponto - de fato, ninguém tinha vivenciado isso a não ser eu... e elas.

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  6. Eu nunca consegui conversar a uma distância equidistante. Sempre procurei o toque, aquele olhar de granjeio que granjeia, a semente. Na verdade, queria mesmo era a confissão. Confissão com fissão.

    A palavra, a mediação, se interpôs como segunda linguagem, como olhar primeiro. Eu disse em um outro lugar que o désposta pode tudo em relação ao escravo. Tudo! Mas não pode obrigá-lo ao amor. E, bom, se essa liberdade patibular é verdadeira, também não é possível que consigamos nos obrigar a amar. E como é lúgubre, cinzento, viver sem paixão. Ainda que o pathos nos leve ao patíbulo. Sempre que senti sedimentações como aguilhões, ora, eu me desviei, ousei, fugi. E onde está esse veio de paixão? Assim me perguntava.

    À amargura da vida comezinha sobreveio o afago da palavra. Alguém uma vez disse que eu por bem poderia incubar o ardor para quem de fato - e de direito. Onde está você, bela? Mas essa incubação dói demais - aliás, a paralisia in vitro pode nunca vir a lume. Daí a literatura. Minha amada etérea.

    Um beijo enorme, Claudinha, seja muito bem-vinda ao Subsolo das Memórias, às palavras do meu subsolo.

    Bazárov

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  7. Velho, não tá pra não falar sobre o olhar inquieto que você demonstra ter. Que gama de interesses contraditórios é essa, Baza? De repente, cara, da Igreja do Coliseu para a Casa de Goethe por meio do Sacro Império Romano Católico? E você jogou uma moedinha ali na Fontana?
    Quando fui pra Roma, velho, senti uma cidade mais alegre, mais vívida - a acolhida (educada ou não) nos é muito próxima, sim. Acredita você que depois de eu ter freqüentado uma cantina por uns 3 dias, Baza - e depois de ter falado bastante sobre o Rei de Roma, grande Falcão -, o dono do restaurante me chamou pra trabalhar por lá! Vem pra cá, brasiliano, tenho amigos na imigração, arranjo tudo pra você! Quando é que isso aconteceria na Alemanha, por exemplo?
    Fico imaginando como seria conviver com o belo pelas alamedas rumo ao trabalho, cara. Será que ele acaba por se diluir no cotidiano que tudo traga? É, cara, a coisa é complicada. Mas eu duvido que não seja um verdadeiro refrigério para os corpos cansados sentar à frente da Fontana e ficar fitando aquela água escoando - ou seria melhor comer um churras grego ali na Praça da Sé ou passear pela Paulista ladeada por bancos anódinos?
    Grande abraço, Baza,
    Paulo

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  8. Curioso você ter colocado a foto de Goethe junto da epígrafe "a felicidade RESIDE na personalidade". É aí que a gente vê o quanto estamos socializados pelo umbigocentrismo. O Pirandello - não sem um quê por Mussolini - pôde completar a sentença de Goethe: a felicidade reside na personalidade; a personalidade, por nossa vez, é uma instituição social que se pode perder a qualquer momento... A Gestapo democrática do Oficial de Justiça tem hora marcada para proferir a sentença de despejo. Ninguém liga pra você? Fica sem pagar uma prestação pra ver se não te mandam um abraço - ou pro abraço.
    Belas fotos, cara! Antônio Prates

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  9. A minha favorita: "Decifra-me enquanto te devoro". A sombra logo abaixo da face já parece o devorar a devorar!

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  10. Flavião, toma juízo, rapaz :-)
    Que que é aquela foto que retoma o Agostinho que de santo não tem nada! "Senhor, faça-me casto... mas não agora!" Hahahahahaha... Bendito é o fruto do vosso ventre: Jesus. Isso me lembra a sua colocação de alguns textos atrás: "suadas asas de borboleta, o abraço das pernas". E aquele polegar abaixo, Sr. Nero? Cê tá de brincadeira: o Coliseu se chama Anfiteatro Flavio, mesmo? E quando foi essa viagem, cara?
    Eu opto pela foto "Fiat Lux", Flavião. Gostei da superposição de planos, cara, e tem sempre aquele toque irônico que ascende à luz - ainda que ela não esteja acesa :-)
    Escuta, e aquela breja ali no bar do Masp? Rola? Tá tendo uma exposição de fotos do período da crise de 29, você soube? Bora?
    Abraço, velho,
    Carlos Fuentes - agora Fontana

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  11. O que é que significa viajar? Por que retemos os momentos pelas fotografias? Conheço menos a minha cidade do que os lugares que visitei. O não-idêntico parece expandir nosso corpo, nossos sentidos. A cada esquina pode haver uma nova dobra. Não acontece de as imagens simplesmente se sucederem. Não, elas nos sucedem, nos transpassam. O tempo apresenta sua transformação. O tempo pelo idêntico embaralha os dias. A vida paulatina nos torna intercambiáveis. A viagem já prenuncia a nostalgia. Algo como uma erupção, um tempo em cascata, uma queda. O olhar quer aprisionar as vivências que não nos retêm. Vivências que nos tocam... mas não nos abraçam.
    Todos os caminhos levam a Roma - alguém uma vez disse que o melhor lugar é justamente onde não estamos. Não estar lá pede a projeção, o movimento - venha! A falta de sentido dilui nossas pegadas - a viagem caminha e nos encaminha.
    O flâneur sente uma angústia mais aguda pelo que se esvai. A escrita fixa, é bem verdade, o olhar revisita as cores, mas a página é virada, a página seguinte a página anterior soterra, as cores se assentam sobre um fundo negro e vazio. Passa. Passagem - que também leva nosso corpo.

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  12. Flá,
    A foto em que o rapaz desenha me tocou sobremaneira. A palavra, a imagem - o traçado. E isso diz que nem todos os caminhos levam a Roma: quando vemos algo pronto, não precisamos lidar com todas as recalcitrâncias que ainda não estão fixadas. Por isso é instigante saber como a sensibilidade vai sendo forjada. O rascunho deixa a gravura do traço inseguro, o traço esquivo. A feitura dá a impressão de que o todo não possui partes, de que o todo não tem contradições. Roma precisa de um artífice, o artífice visa (a) Roma. A fotografia pisca o olhar e captura a imagem sob a pálpebra. Suas imagens têm uma seqüência. Qual o novelo da narrativa imagética? Qual a novela da imagem narrativa? Você nos pede para ver e subver - o feito e a feitura. O x e o raio-x. Daí o esboço. Não a revelação, mas o vir a ser, o processo. O acabamento é a parada em uma suposta certeza - mas uma entre a miríade de veredas. Também me sinto em Roma, Flá. Um beijo, querido, Karen

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  13. Sensacionais as fotos da Capela Sistina! Tenho certeza de que você também ouviu as advertências em inglês macarrônico: "no pictures, mister, no pictures!"
    Se bem que o olhar para o céu de fato nos traz o torcicolo. Talvez alguns queiram o céu como sucedâneo para a vida de crepúsculo que (re)levam. Não sei. Mas o teto longínquo pede o toque, o toque molhado, o toque molhado e salgado, a lágrima. O sorriso. E o Vaticano de fato é coerente: além das muralhas gigantescas para resguardar o ressentimento, o caminho até a Capela Sistina, o belo, lembra o corredor polonês da felicidade que deve sempre ser dirigida, arregimentada, condicionada.
    Belas visadas, caro russófilo!
    Outro flâneur

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  14. Curioso paradoxo poético: Platão a galope do mundo das idéias - dedo em riste aos céus; Aristóteles terra-a-terra mundano, palma abaixo. Ora, Platão, as idéias precisam do cárcere do corpo - é a tua mão carnal que aponta a Verdade. Deve ser embaraçoso para um protocristão o fato de que pegamos gripe, não? Ter desejos, então, nem se fala... Sorte de Platão: Paulo, o onanista ca-le-ja-do, mal conseguia acenar com sua mão direita. Daí a espada, o ícone do ressentimento.

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  15. Sua OUTONALIDADE retém o fim do arco-íris, Bazárov!

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  16. Quando fui a Roma, Bazárov, senti algo curioso e contraditório. Daquelas sensações-sentimentos que formam um vir a ser, algo que busca a fluidez da palavra, a coerência da frase, mas fica vagando nebuloso, uma névoa em busca de algum conceito. Isso ficou comigo, cara, e todas as vezes em que tentava me expressar, bom, eu acabava trazendo para a linguagem trôpega a falta de sentido que não agarrava: gaguejava. Pois vem você com essas fotos. A coisa se reforça em mim - não, eu preciso saber o que é, "decifra-me enquanto te devoro", me senti mesmo provocado. É que - chego eu enfim a uma (in)conclusão -, bom, o pensamento muitas vezes precisa fechar os olhos e abstrair o corpo e pender para a abstração, mas Roma quer os caminhos do pé sulcado, isso sim! É isso: o corpo! Os romanos são mundanos na animosidade e na efusividade, mas os monumentos insistem em verter nossos olhares para o alto, para cima, querem que tenhamos vertigens, mas a nossa vertigem romana é de fato bem sensual... Veja como você se voltou para o alto, Bazárov. Mas não! Que dizem suas epígrafes? Epígrafes-adagas demasiado humanas, aquele riso de soslaio. Roma traz em seu bojo o anagrama - Amor. O torcicolo, a dor, quer diluir o resquício de prazer que ainda nos resta - não, a cidade multicolor não permite, sorrisos laranjas, azuis e amarelos. Verdes. Ruínas romanas, gritos ensurdecidos, amordaçados. A cidade tem um tom terroso - desleixado. A Paris cartesiana parece sentir o incômodo de quem não pode deixar de gozar. Roma abraça o Amor nu, nua em pêlo, Pelo Sinal da Santa Cruz. A Igreja Católica é a síntese - a pilhéria junto ao dogma, a opulência celibatária, o viscoso sob a batina, o Corpo de Cristo.
    Boa, Bazárov!

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  17. Sr. Anônimo,

    Pena não ter se identificado - apareça sempre por aqui, ainda que o olhar de seu nome feche as pálpebras.

    Boa, Bazárov? A descoberta - des-coberta - é sua, meu caro, as fotos somente te aguçaram! Mais uma prova de que todos os caminhos levam a Roma.

    Abraço pretoriano,

    Bazárov

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  18. Olhar que fica... e finca.

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  19. Olha só: ontem eu fui à exposição de fotos do Bresson que tá rolando no Sesc Pinheiros. Vêm aquelas imagens cristalizadas, o inusitado que não volta - mas que nos envolve. A fotografia pede o toque, não quer o recalque. Como se quiséssemos mimetizar aquele sorriso, fazê-lo perdurar. Bresson capturou uma menininha no bojo de um quadro - o quadro a reboque de uma menininha. No quadro, a matriarca. Presente e passado dão as mãos entrelaçam as mãos diáfanas pelo instante-já da foto-grafia da palavra-imagem. "Mimetismo", você disse. Você, Bazárov, diante do Coliseu. O Coliseu diante de ti. Planos contíguos - justapostos. Os olhos vazios do Coliseu transtornam teu rosto sequioso. Boa ironia se tratar do Anfiteatro Flavio - "Espólio dos Bazárov". Lemos, de fato, as suas Memórias.

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  20. "Memórias do Subsolo das Memórias" - ali ficavam os gladiadores: "cadeia alimentar". Espinha eriçada...

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  21. Flávio? Alemão (ou seria agora um romano-tedesco, perdido por entre os caminhos da história - aquela vecchia maledetta estanque e enrugada como maracujá de gaveta?

    Este post, por falar em história (ou em estória, como aquele cara... como é mesmo o nome? Ah, é o Guimarães. O rosa, mesmo), é muito mais saudoso do que crítico.

    Afinal de contas, as leituras mais críticas nem sempre foram meu forte. Me lembro quando, ainda no início da faculdade, e do deslumbramento com a antropologia social, você me lançou a seguinte pergunta: "como é ser antropólogo e tentar pensar nos índios de hoje sabendo que milhões deles foram mortos durante o processo de colonização do Brasil, que te permitiu pensar em ser antropólogo hoje, direta ou indiretamente"?

    Acho que a pergunta não foi literalmente essa (as aspas são um mero formalismo acadêmico, que teimo em não abandonar), mas essa foi a pergunta que quedou pra mim, depois de quatro longos anos levando-a comigo pra onde quer que fosse.

    Te presentei com duas belas respostas. Um insincero sentimento de dever (ou de devir, vai saber) para com as populações que, de certa forma, ajudei a destruir; e um sincero - agora literal, mesmo - "não sei o que pensar". Ainda não havia pensado dessa forma, com essa tua tamanha inquietude crítica. Pra mim era só "muito legal", naqueles breves tempos.

    Agora, notadamente, tenho pensado muito na história. Não no mero desenrolar de acontecimentos no tempo (tempo!)- sejam eles aleatórios, deliberados ou plenamente arquitetados.

    Confesso que poucas vezes, por falta de tempo ou falta de preciosismo, entrei no teu blog, apesar da saudade de nossos salutares colóquios, mesmo os triviais sobre mulher, psicoativos (da minha parte, claro) e futebol. Mas me surpreendeu a frase no meu e-mail, ainda aqui me ressoando: todos os caminhos levam a Roma.

    E que tal outro provérbio áureo, só pra provocar? Quando em Roma, faça como os romanos.

    A menção à vecchia estanque e enrugada história não foi inocente; não. A história, vista como uma grande somatória do desenrolar de agências humanas acumuladas ao sabor - ou dissabor, por que não? - da passagem do tempo e levadas a cabo em um espaço não delimitado (quase como um palco), é humanamente dinâmica e incoerente (lembra daquelas incessantes aulas de antropologia em que aqueles pós-modernos - malditos sejam, pro bem ou pro mal - insistiam na falta de coesão das culturas? Mardita hermenêutica...). Quiçá totalmente inverossímil, porque não se encaixa, nem se enquadra.

    Penso em Roma e me vem ao pensamento uma parada muito célebre dentro dos paradigmas teóricos da arqueologia. A assim chamada "premissa de pompéia". Olha, uma referência italiana, hehehe! Pompéia, de acordo com essa premissa, foi talvez o único sítio arqueológico em que seu momento de abandono ficou parado, 'cristalizado', quase irônicamente fotografado. De acordo com esse paradigma da história do pensamento arqueológico(a véia, de novo. Não adianta correr: ela tá em todo lugar), que já foi alvo de debates os mais ferinos entre diversas correntes teóricas, os acontecimentos que se sucederam rapidamente nesta cidade durante as violentas erupções do vulcão Vesúvio naquele passado hoje distante, este lugar pode ser perfeitamente 'lido', através dos vestígios ali presentes.

    Desculpa, se isso fosse escrito no word o programa iria ma dar uma bronca danada pelo tanto de palavras usadas numa mesma frase. É a minha herança Lèvi-Straussiana, perdão.

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  22. Mas, retomando, o que se tem na quase totalidade dos outros sítios arqueológicos estudados (que foram efetivamente abandonados em algum momento) é a noção de processo. Ou seja, uma sucessão de eventos - por vezes de naturezas bastantes distintas e, não raro, impossíveis de serem de serem apreendidas pelo pesquisador, é o que responde por aquele local ter sido encontrado daquela forma como o arqueólogo com ele se depara.

    Estes processos de abandono não necessariamente são tomados como literais, já que muitos (muitos merrrmo, como diriam os amazonenses) destes locais são ocupados novamente, em termos de continuidade ou ruptura cultural - territórios estes que são ressignificados, reclassificados e, certamente, reconstruídos em termos de forma e conteúdo.

    Não foi assim o caso clássico (com todo o teor pejorativo que esta palavra modernamente implica) da invasão de Roma pelos Godos (ó, outra referência local, pra você!)? Ou da reforma cultural chinesa feita por uma nova velha classe, agora dominante? Ou mesmo do afeganistão quando do episódio da destuição por parte de seus 'novos pensadores' (não tão novos assim, claro) dos Budas escavados em rocha?

    Depois de elocubrar pra caralho, com o perdão da palavra, me permita te formular uma pergunta no mesmo teor: o que é que tu pensas de toda essa história que responde, em conjunto, por milhares ou talvez milhões de estórias interligadas, inter-relacionadas e interlaçadas (em um termo só, que não conseguiria traduzir com a fidedignidade que merece: intertwineded)através do tempo e do ESPAÇO que as circunscreve? Espaço que, afinal de contas, também as constrói ao mesmo tempo em que é construído (as tais heterotopologias, parcamente conhecidas, de que Foucalt fala. Tipo uma dialética do espaço, vai...)? Como lidar com momentos históricos tão tão tão distintos através de símbolos e imagens que já não nos remete aos mesmos sentimentos (ou as 'representações' daquela velha viciada caduca e auto-cêntrica antropologia social, termo que particularmente abomino)?

    A parte saudosita do post: moro hoje em Manaus e, como sabe, com família plenamente constituída (minha filha Flora é uma gracinha! Já tá com um aninho, cara!). Tô no mestrado em Geografia, cujo interesse inicial foi me dado, como de presente, por você e pelo Bianchi nas suas eternas discussões sobre o tal Kurt, com o Dieter (mas até hoje não sei quem é o tal Kurt. Apresente-me ele, por favor.

    Apesar de estar trabalhando com geografia física, uma verdadeira revolta contra minha pretensiosa empreitada nas ciências humanas, sinto que a eterna discussão dos geógrafos - de 'qual será o meu lugar dentro do quadro de especialçização científica previamente elaborado ao longo dos últimos 200 anos?', me tem feito pensar nessas questões de como pensamos a nossa história e do lugar onde essas paradas todas se dão.

    Veja bem: moro em Manaus, e a galera daqui (que me perdoem seus leitores manauaras. Introspectivamente e um pouquinho criticamente, espero) tende a pensar na história da cidade e da unidade federativa como constituídas de 'ciclos históricos', calcados na primazia das relações econômicas sobre as demais.

    Tem o 'primeiro ciclo da borracha', que colocou um ponto a mais no mapa político nacional com a insígnia de 'Manaus' (na época, Manaós). Foi quando se descobriu que por meio de uma série de processos industriais o subproduto coletado dos ferimentos da seringueira (coisa feita há milhares de anos pelas já então escurraçadas populações tradicionais locais, os índios) tinha enfim uma grande importância econômica. Pela planta ser endêmica das florestas amazônicas à época, o afluxo de dinheiro pra cá foi uma coisa medonha. Pra se ter idéia, cara, manaus foi a segunda localidade brasileira a ter energia elétrica, inclusive bondes e iluminação pública. Fodido o negócio, não é?

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  23. Aí um cara tem a brilhante idéia de fundar o moderníssimo conceito de biopirataria e levar pra malásia mudas de seringueira, que se adaptaram às condições locais (plenamente controladas pelos ingleses, claro), tirando o monopólio deste commodity genuínamente brasileiro, acabando de vez com a enorme circulação de riquezas daqui.

    Aí fodeu tudo de vez. Até os mais ricos, excetos alguns pouquíssimos, que souberam lidar com a nova conjuntura, ficaram pobres. E isso durou até a segunda guerra, quando a borracha virou item estratégico para as campanhas militares, a uma distância unfreaking umbelievable pra quem efetivamente produzia o 'caucho' da seringueira.

    Pronto. Manaus e toda a Amazônia voltam a ficar no prèt-a-porter do cenário político nacional de novo. Acaba a guerra, acaba a riqueza daquela fatia invisível - invisível apenas em termos proporcionais ao total das vidas que aqui se desenrolavam em infinitas estórias, já que era essa galera (e pra ela) que Manaus voltava a se urbanizar, depois de tantos anos de 'vacas magras'.

    Aí, com Manaus e toda a Amazônia (chamada então de 'inferno verde', inclusive pela arqueologia de bases norte-americanas produzidas com os dados daqui, na época, utilizando-se do termo 'Amazônia: ilusão do paraíso', título de um livro referência da literatura arqueológica sobre o local)volta ao oblívio novamente.

    Num esforço homérico - e bastante caro pra economia do país como um todo - a nova base política nacional, a ditadura militar, empenha seus esforços na tentativa de ocupar um território visto como até então inabitado, desconsiderando totalmente e deliberadamente os modelos de ocupação tradicionais, especialmente das populações que viviam quase de forma autóctone à beira dos rios, os ribeirinhos - entendidos como um 'grande erro' do processo de colonização. Com o lindo e poético bordão de "integrar para não entregar", foram feitos projetos megalomaníacos, dispendiosos e inconsequentes, como a criação de cidades planejadas aos moldes dominantes de uma visão 'sulista', que desconhecia as realidades locais como um todo. Uniformização cultural paulatina.

    Aí veio outro 'ciclo histórico' local: a zona franca de Manaus, concomitante com a ocupação militar agressivamente massiva.

    Tenta vir a Manaus dia desses pra você se deslumbrar com os lindos monumentos arquitetônicos de todos estes ciclos de sucesso econômico.

    E cadê o resto da história daqui?!? Onde estarão os entremeios destes períodos de estabilidade econômica? E as milhares de estorias vividas naqueles tempos forçosamente esquecidos.

    Não tem. O mesmo se aplica à arqueologia pré-colonial. Pra quê estudar índio morto? Esses caras só prestam pra tomar imensas quantidades de terra de quem quer trazer a prosperidade econômica de novo.

    Aí eu volto naquela pergunta: qual o motivo de reificar uma história de glória econômica, obviamente erguida sobre os ombros daqueles que não são nem mesmo levados em conta?

    Como congelar uma parte da história através da conservação de elementos sensíveis (prédios e monumentos, em sua maioria), e relegar ao esquecimento todo o resto, como se não houvesse a menor importância de existir?

    Enfim, não é nada de importante, e nem ao menos perigoso. Só algumas coisas que queria compartilhar e, quem sabe?, esclarecer, um dia. A long time ago, in a galaxy far, far away...

    Um grande abraço pra você, onde estiver. Se algum dia passar por aqui novamente, avise de pronto pra tentarmos conectar nossas agendas, tão aparentemente dissonantes.

    E perdão pela brevidade do(s) post(s), hehehe.

    Bruno

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  24. Grande Bruno! Saudade de você, meu velho!

    Cara, não sei se chamo de completa coincidência - o paradoxo seria reincidente - o fato de ter lido a sua mensagem justamente hoje.

    Essa semana encontrei o Messias Basques - você se lembra dele? Namorou a Íris, e tal, lembra? Nós tivemos uma conversa justamente sobre o ponto nodal em que você tocou.

    A meu ver, velho, uma possibilidade para que a história desses povos não fosse esmagada, Brunão, seria a possibilidade de que a efetiva 'alteridade' deles não ficasse a reboque justamente desses ciclos econômicos. E como isso seria possível? Lá vai o Alemão falar de Utopia novamente - mas sem que se possa alterar a forma (e o conteúdo) da relação que estabelecemos com a natureza por meio do modo de produção, cara, nada mais faremos senão corroborar o que existe. É possível alterar essa dinâmica? É ela que faz com que as seringueiras não possam cicatrizar. O Bruno - dele você se lembra com certeza, o outro antropólogo - também tá aí em Manaus. Do caralho o trampo dele também. E ele vem e me diz que a USAID acabou por constatar que a relação simbiótica dos índios com a natureza é predatória. De novo: pre-da-tó-ria. Não me consta que os índios tenham dragas que arranquem árvores na medida em que cidades são construídas. Aliás, por que cidades devem ser construídas a essa velocidade?

    No debate sobre aquecimento global, cogitou-se em construir um escudo que refletisse algo em torno de 30% das emissões de luz do sol. Os cientistas não poderiam ser mais coerentes: por que falar em mudar a 'essência humana' própria ao capitalismo? Sem a divisão do trabalho própria ao capita-lismo, como é que os cientistas ratificariam o existente? Como é que as doenças tropicais não viriam a ser curadas em benefício dos antitérmicos para o cidadão burguês cansado do trabalho?

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  25. (Continua)

    Nossas ciências sociais revelam sua face apologética - e apologeta - na medida em que confirmam precisamente o que existe. Dinamizam exatamente o que deve permanecer estático.

    Há algum tempo falei da antropologia como ciência da piedade. Eis apenas um lado da moeda. Alguns talvez queiram aceitar as regras do jogo e fazer aquilo que pode ser feito - preservar tais populações, fazer com que falem até que possam falar. Outros - e aqui dou um tiro no meu próprio pé descalço - talvez queiram auscultar os vestígios da totalidade - cada vez mais totalitária e hermética. E cada um de nós segue rumo a uma determinada posição na estrutura burocrática da universidade.

    Amargura, Bruno, amargura.

    Se encontrei algum tipo de vislumbre do que poderia ser uma sociedade justa para além do que existe, cara, cheguei à construção do pescar durante o dia e fazer crítica literária à noite. Como é que a sociedade deveria estar organizada para tanto? Acho que, ali, o índio poderia até deixar de ser índio - a ele seria facultada uma escolha, a relação predatória já não seria a base dos contatos.

    Mas já não consigo escrever tudo isso - e você provavelmente não consegue lê-lo - sem que um riso de soslaio desponte no canto da boca ressequido e ressequida. Utopia nunca esteve tão próxima do 'lugar nenhum'. Distantes.

    Que nos resta?

    Venho tentando responder a essa pergunta. E dói bastante, cara.

    E fico imaginando o que você vem sentindo agora que é pai! Eis um tema literário por excelência para alguém que discorda e traz a lume uma nova existência. Sua filhinha também não precisa compactuar, o sorriso dela deve te revigorar, Brunão. Eis um grande alento.

    Velho, fico muito contente com a sua presença por aqui. Quando vier a São Paulo, meu velho, me avisa que a gente se encontra.

    Grande abraço, tudo de bom!

    Flavião

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