Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Paralelas que se cruzam bem onde o infinito é corpóreo


Meus amigos,


Voltemos a Moscou. Há pouco mais de um ano, a guerra na Geórgia me fizera refletir sobre as diferenças entre os militarismos russo e brasileiro. A Rússia ateniense, o Brasil espartano. Devemos conter nossos hilotas. O exército brasileiro? A polícia. O Capitão e Sandro, ambos do Nascimento. Nascimento do ocaso. Paralelas que se cruzam bem onde o infinito é corpóreo.


Grande abraço a todos vocês,


Bazárov


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Moscou, 15 de agosto de 2008


Meus amigos,



Os primeiros serão os últimos;
os últimos,
os primeiros (Cristo a contrapelo, ou pior, escalpelado).

Por um acaso vocês viram a imagem do presidente da Geórgia – escoltado por seus asseclas – a fugir das bombas errantes? “Tempestade de aço” (Hans Magnus Enzensberger, Guerra Civil). E a profecia se fez presente em meio à ausência dos “prados com flores de orquídeas flamejan-tes” (Marinetti, Manifesto Futurista).


Em termos factuais, meus amigos, eu, aqui em Moscou, não devo saber muito mais do que vocês. A não ser que vocês se interessem por notícias requentadas da Agência Reuters; ou por outra – notícias sob o punho de Putin.

Vladimir (nome paroxítono)

Putin.

Logo que cheguei a Moscou, um de meus primeiros encontros foi com a personagem Vladimir Putin. Ele discursava em frente ao Museu de História Russa, ao lado da estátua de Júkov, o general de Stálin na Segunda Guerra Mundial. Eloqüente discurso peripatético, palavras ressoam enquanto caminha, marcham, marcham soldados. “Eu vi como os olhos deles reluziam a cada dis-curso do Führer” (Enzensberger).


Demorei a notar que se tratava de um sósia, um duplo.

Numa lan house perto de onde moro, há um calendário-metonímia: cada mês do ano porta uma diferente foto (faceta) do onipresente presidente – hoje Primeiro-Ministro.


Vocês imaginariam um calendário desses no Brasil, meus amigos, com 12 fotos de Luiz Inácio?

Os russos e sua secular
relação transcendente
com os governantes.
Mãe Rússia,
Tsar Paternalista.
Stálin,
homem de aço,
guia genial dos povos.

Uma das fotos mostra Putin sob um quimono, descolado lutador de judô. Wazari. Noutra, Putin, em seu jet-ski, expande o traçado das fronteiras russas sobre as pacíficas águas de um lago – um drops para quem se lembrar da paródia brasileira para tal cena: Collor, aquilo roxo, a fazer cooper na Casa da Dinda – “tô com o cooper feito!”

Quem conhece a Matriúchka?


Feita de madeira, a boneca tipicamente russa representa a fertilidade. Uma grande Matriúchka contém em seu bojo várias outras Matriúchki menores.

Qual a figura mais matriuchkizada atualmente, meus amigos?


– Путин (Putin) – responde o ligeiro comerciante já pronto para me empacotar uma Patriúchka pelo quíntuplo do preço.

9 de maio, Dia da Vitória Russa na Segunda Guerra Mundial.

Vitória Russa.

A historiografia russa tende a privilegiar a atuação soviética tanto quanto a Europa Ocidental e os Estados Unidos proclamam a unívoca vitória anglo-saxã.


Comentários efusivos:


– Há muitos anos não desfilávamos nosso poderio militar pela Praça Vermelha!


Poucos meses depois, agora, o conflito com a Geórgia.


– Os Estados Unidos não vão nos cercar, não vão! Eles não podem instalar mísseis no Mar do Norte – eis o teor de um desjejum pós-balada junto a alguns colegas russos.


Polônia, República Tcheca, Ucrânia – insólitos parceiros dos EUA: módicos investimentos-cassino em troca de estratégicas bases militares. Matricidas, Pai Putin!

– Se cortarmos o suprimento de gás para a Europa – os próprios russos sentem a ambigüidade eurasiana ao se referirem à Europa como um lugar todo outro –, se cortarmos o suprimento de gás, ora, eles morrerão de frio!


– Mas vocês dependem dos investimentos europeus, não dependem?


Olhos como ogivas, o russo desfere:


– Mas não dependemos da Ucrânia...


Dínamo de Kiev estático em campo.


– Tchetchênia? (Oxítona em russo).


– Esses caucasianos querem a independência, ora, mas não se sustentariam sozinhos nem mesmo por um ano. Em que consiste a economia deles? Armas, drogas e – me alicia com um olhar cafetino – prostitutas.

– Bush invade o Iraque, condena Saddam Hussein à morte, morrem inúmeros, ora, e agora ousa dizer que nós, russos, cometemos limpeza étnica? Onde houver russos sofrendo, lá estará nosso Exército (Putin put it out).


Bush invade o Iraque. Metonímia figura o cotovelo dolorido de Putin. Ippon.


“Uma nação zomba da outra e ambas têm razão”. (Arthur Schopenhauer, Aforismos para a sabedoria na vida).

Meus amigos, a meu ver, o cinismo flerta profundamente com o Espírito do Tempo. Quem estranharia, hoje, uma expressão como Utopia Negativa? Que alma lúcida – ébria de escárnio sobre si mesma – não esboçaria um riso rasgo ressentido diante da epígrafe do Velho – então Jovem – Marx: “Quando, no curso do desenvolvimento, desaparecerem todas as distinções de classe e toda a produção concentrar-se nas mãos da associação de toda a nação, o poder público perderá seu caráter político. O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para oprimir a outra. Se o proletariado em sua luta contra a burguesia é forçado pelas circunstâncias a organizar-se em classe; se se torna, mediante uma revolução, classe dominante, destruindo violentamente as antigas relações de produção, destrói com essas relações as condições dos antagonismos de classe em geral e, com isso, extingue sua própria dominação como classe. (...) Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classe, haverá uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos” (Manifesto Comunista).


Meus amigos, nossos tempos (auto-)irônicos me fizeram subver, da penumbra do subsolo moscovita, um agregado insólito em meio à sinfonia dissonante dos estilhaços esvoaçantes. A destruição vivifica. Já ouço os brados: “Como? Eis um diletante, um apologeta da guerra, um esteta do sangue, mas sem nenhuma escara!” Meus amigos, por favor, sejam menos belicosos. Trata-se de um agregado cruel – o rompimento de nossa inércia cotidiana por meio de um insólito derramamento de sangue que nos chama a atenção para algo que – enfim! – está acontecendo. Não contamos a ninguém, flagelamo-nos deveras por determinados pensamentos bárbaros, mas a palavra guerra, se-cre-ta-mente, não nos traz um epílogo, mas uma epígrafe:


– Que rapaz aguerrido!


– Aquela mulher é uma batalhadora!


– Vamu arrebentá cu jogu rapaziada!


“Marcha, soldado, cabeça-de-papel,
quem não marchar direito
vai direto pro quartel” (Inocente cântico infantil).


Inocente população civil. Homens de bem, homens de bens.


– É preciso matar um leão por dia!


“Homens de preto, o que que você faz?
Eu faço coisas que assustam o Satanás!
Homens de preto, qualé sua missão?
Entrar pela favela e deixar corpo no chão!”

Alguém entre vocês, meus amigos – e por um mero acaso, claro – já se pegou ressoando o Capitão Nascimento?

Capitão Nascimento (Tropa de Elite).


Sandro Nascimento (Ônibus 174).


Aguda síntese poética por parte do diretor de ambos os filmes, José Padilha.


Roberto Nascimento, a ordem, e Sandro Nascimento, a margem, não poderiam, a priori, representar espectros mais distantes na teia social. Teia viúva negra.

Negro.
Lumpen.
Candelária:
sobrevivente.
Sobra vivente.
Sandro Nascimento.

Negra.
Farda.
Candelária:
sobre viventes.
Sobras viventes.
Capitão Nascimento.

O que lhes poderia ser contíguo, meus amigos, além do negro coldre de um a resvalar a negra têmpora do outro?


Padilha sintetizou a perversa estrutura social brasileira a partir de leituras imanentes de dois prismas em extremos supostamente opostos: aquele que executa a lei e o executado.


Ônibus 174 procura traçar a genealogia de Nascimento, o Sandro. Mãe degolada diante de seus olhos – pálpebras reclusas captura do momento, lembrânsia. A rua sem teto lar. Ressentimento.


Tropa de Elite procura traçar a genealogia de Nascimento? Não, de André Matias, o substituto. André, negro como Sandro; André, pobre como Sandro. Marginal? Policial. Ressentimento.


Como podemos entender trajetórias tão díspares, meus amigos? Duas figuras profundamente estigmatizadas, meus amigos, duas figuras a figurar caminhos paralelos que inexoravelmente se cruzarão em um determinado pé – coturno – do morro.


Numa entrevista para o Roda-Viva, o escritor Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, chegou a chocar os civilizados jornalistas:


– Como você vê a escalada de violência nas metrópoles bra-sileiras, Paulo?


– Violência? Que violência?


– Como que violência, Paulo?!


– No Brasil, gente, não há de fato violência. Se a violência brasileira se espraiasse na mesma medida da pobreza, o Brasil já seria outro – para melhor ou para pior. Há muito mais pobreza do que violência no Brasil, muito mais.

O que é o crime, meus amigos?


Wild Wilde subverte civilizadamente:


“Na sociedade, há apenas uma classe que pensa mais em di-nheiro do que os ricos, e é a dos pobres” (A alma do homem sob o socialismo).


Visto de maneira abstrata – desde que não sejamos as vítimas –, o crime contumaz representa um deslocamento de mercadorias de X para Y – seja diretamente dinheiro, sejam quaisquer outros objetos passíveis de solvência. Nesse sentido – calma, meus amigos, já, já retornaremos ao âmbito jurídico-moral; por ora, bom, precisamos do cientificismo utilitário –, nesse sentido, o crime em si nada mais é do que uma ação excepcional de troca, tendo em vista sua ocorrência diminuta caso comparado com o número ordinário de trocas cotidianas. De acordo com essa curva de raciocínio, os excluídos são meramente aqueles que fazem trocas de forma tangencial.


A propriedade é um roubo? Pelo prisma acima, meus amigos, Proudhon se transforma em propagandista da ordem.


Para nosso alívio, meus amigos, voltemos ao âmbito jurídico-moral. Pois bem: o Capitão Nascimento só faz sentido nesse momento, meus amigos. Se voltarmos à abstração anterior, veremos que o fato de as trocas serem majoritárias ou minoritárias não implica diferença qualitativa, mas meramente quantitativa. Mais ou menos, de modo algum melhor ou pior. Trata-se do livre trânsito, do livre fluido – a coqueluche (neo)liberal. No entanto, no momento em que damos cor à nossa análise, vislumbramos Sandro Nascimento Capitão. O fluido marginal de trocas já passa a ser criminalizado, meus amigos, e daí decorre toda uma série de estigmas. Podemos então entender o policial como aquele que impede a ocorrência da fluidez marginal das trocas – interrompamos o encontro singelo da espada de Dâmocles com a cabeça de Sandro por um breve momento, meus amigos, e deixemos que o beijo lábil de Judas de nós aproxime o cálice: nesse momento, meus amigos, se unirmos a análise macroscópica ao âmbito moral – que alívio! –, veremos justamente que o policial visa coibir a inserção marginal dos marginais na rede de trocas.


Viúvas negras.


Passemos agora ao âmbito jurídico-moral propriamente dito. Mais: tentemos sondar, ainda que brevemente, o desdobramento da norma na fração (fragmento) mínima da sociedade, o indivíduo. Mais ainda: restrinjamos nosso olhar pra as duas figuras em questão – Sandro Nascimento e André Matias.


Sandro e André, de acordo com os dados (dádivas) que nos são fornecidos, provêm de um mesmo contexto social. No entanto, meus amigos, um deles corrobora enquanto o outro corre embora. Ambos parecem dizer “eu sou aquele que tudo nega”, mas somente um contraiu o pacto mefistofélico. Parece-nos até mesmo lógico que alguém procure se rebelar numa situação de extrema inanição – se bem que o “de pé, ó vítimas da fome”, da Internacional Comunista, guarde algo de escarninho em seu bojo. Famélicos de pé? Não só de pé como em luta. Uma maioria, ora, logo, rebeldia, insubordinação, insurreição. Não? Não. Tal raciocínio escorreito não dobra a primeira esquina concreta: quem é o primeiro a respeitar a ordem? O pobre. Como, Bazárov?! Impossível! Os dados mostram que o maior número de crimes ocorre entre as camadas mais pobres da população. Não questiono. Mas, meus amigos, pergunto: o crime altera a ordem? Repito: a ordem é alterada pelo crime? Aliás, pergunta literária a contrapelo: quem nunca sorriu ao ver Robin Hood cumprir suas missões?


O pobre, por ser pobre, não altera a ordem, a estrutura da sociedade. Pode eventualmente atrapalhar sua dinâmica normal – daí a imputação: va-ga-bun-do!, bandido!, safado!, salafrário! O normal remete à norma – por numeroso que seja, o crime representa um desvio padrão. Um jovem que recebe uma benesse, como André – “que consegue entrar na melhor faculdade de Direito do Rio de Janeiro” –, meus amigos, pode ser oriundo de uma família tão desagregada quanto a de Sandro Nascimento. No entanto, à falta de um seio familiar acolhedor, meus amigos, à falta de uma mão que afaga, à falta de um sentido, ora, pode-se abrir uma ferida decisiva para a vida de ambos. Eis o nó górdio que enforca as mais diversas teologias em suas supostas tendências democráticas: trata-se de escolhidos ou todos somos iguais?


André tem aptidões diferenciadas. Quando estimulado – tomo emprestado o vocabulário behaviourista dos próprios experimentos sociais –, quando estimulado, André responde satisfatoriamente, apresenta resultados, destoa dos demais. Sandro é a regra, André, a exceção. Ambos são filhos da ausência, ferida inequívoca. No entanto, meus amigos, a ferida ulcerosa trabalhará a lógica do ressentimento de maneira distinta nos dois casos: para André, meus amigos, a sociedade abre possibilidades, ainda que exíguas e tortuosas. Matias não terá as mesmas oportunidades de um jovem branco, ainda que seja mais capaz. Justamente por sofrer na pele todos os estigmas, passa a se desenvolver no substituto uma lógica tautológica de contínua superação de si próprio, uma ininterrupta lógica teleológica de meios e fins, meios e fins, meios até o fim: ser bem-sucedido, custe o que – quem – custar. André sabe – porque os olhares cortantes rasgam-lhe o amor próprio – que não será um igual, mas a vitória representa, enfim!, o afago etéreo que o seio lhe negou. A sociedade opressora, meus amigos, o Leviatã hobbesiano, uma face de olhos ocos, vazios, mas com reconhecimento objetivo – “não só aos meus olhos” (André), mas aos olhos de outrem: sou Capitão do Batalhão de Operações Especiais, Tropa de Elite da Polícia Militar. Críticas à sociedade e ações marginais, meus amigos, passam a representar, para André, um verdadeiro parricídio – escarros sobre a única face que lhe diz: tu és!


Sandro, o antípoda. Sua ferida ulcerosa punciona, ele grita, ruge – não é todo-adaptado. Seu ódio não encontra alvo, seus olhares rajadas não conseguem aglutinar uma vítima. Pergunta do subsolo: quem disse que ele quer destruir? Mas, Bazárov, ele destrói, ele rouba, pode até ser que já tenha matado! Ora, como é que você diz que ele não quer destruir? Meus amigos, rebato a contrapelo: e se a vingança tiver por alvo não aquilo que ele eliminou – o fim da ação por si só –, mas antes a reação, a própria punição? Como?! Não, jamais! Nós maximizamos o prazer, jamais buscamos a dor. Mas, meus amigos, para Sandro, o ressentimento talvez trabalhe Tânatos a galope: a punição, meus amigos, o encontro com a norma, ora, pode derradeiramente apre-sentar ao infrator o vislumbre concreto de uma mão que dele se aproxime, um pai etéreo a lhe colocar limites – limites que, contraditoriamente, lhe dão um norte, devolvem-no ao útero, fazem-no sorver o seio. Delinqüirá, contínua e ininterruptamente, até o encontro que não mais o separe do pai – “já não vai haver demora, já não vai haver demora” (Apocalipse 10, 6).


Ambos filhos da ausência, ambos profundamente ressentidos – e ressentindo. Seus alvos têm uma teleologia errante, meios que se confundem com o fim.


Sandro vence ao morrer – se ataca.


André mata ao vencer – defende.


Quem vive para derrotar o inimigo, precisa do oponente sempre vivo (Nietzsche).


Sandro, inimigo de si mesmo, vive até que morre. Morre.


André, amigo de si mesmo, vive até que morrem. Morrem. Morrem. Morrem.


Paralelas que se cruzam bem onde o infinito é corpóreo.


Corpo, corpse, corporação.


Um grande abraço em armistício e sem ressentimentos,


Russo

21 comentários:

  1. Bazárov,
    Essa ironia - que já se denega em ironia e vai até o sarcasmo - teve um efeito dúbio em mim. Como quem aprecia a literatura, pude acompanhar os voltaretes do texto com uma fluidez que nos arremete ao profundo relativismo da nossa época - aquilo que você chamou de "Utopia Negativa". Mas, velho, ser leitor é uma das possibilidades que ocupo ao longo dessa vida, e o fato é que, no mais, essa ironia dói bastante. Não sei se conseguimos rir de nós mesmos com tanta labilidade. Li o texto com angústia - a mesma que Sandro já não possuía ao ser morto. O alívio para aquele mero corpo fatigado.
    A beleza poética e a nossa condição prosaica, Bazárov, eis a tensão onde as paralelas se cruzam - o corpo do texto.
    Mateus Calegari

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  2. Mateus,

    Sinto precisamente o mesmo. Ou pior: imprecisamente. A literatura talvez me ajude com o exorcismo. Mas, para ser (in)sincero, te digo o seguinte: não deixa de ser cínica a bela retradução do caos. Mais: não deixa de ser bela a caótica retradução do cinismo. Continuemos a continuar, a escrever, a ler. A hipostasia de uma resolução subjetiva, a meu ver, só pode diluir o grito ácido que a arte ainda pode manifestar sob a mordaça.

    Por outro lado, Mateus, a integração com o existente está nas suas mãos: já não é difícil conseguir Prozac - na farmácia mais perto de você.

    Um abraço,

    Bazárov

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  3. Sandro Nascimento, o inimigo público número 1 da "sociedade" brasileira.
    Quem são os sócios?
    O Capitão Nascimento faz a mediação.
    De fato: as paralelas se cruzam bem onde o infinito é corpóreo. As paralelas somente podem se cruzar uma única vez. Uma única.
    Michel

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  4. Houve muita discussão ingênua dizendo que o Tropa de Elite era um filme fascista. O filme é fascista? Chego a pensar o seguinte: Auschwitz ainda tinha presença de espírito. No portal do campo de concentração, O TRABALHO LIBERTA. Auschwitz ainda guardava certa honestidade.
    E onde estão nossos campos de concentração? Todos sabemos onde eles estão: os campos e os dejetos humanos. Aqueles prédios horrorosos enfileirados uns aos lados dos outros, o prenúncio da vala comum. A vida que jamais se alterará, a perspectiva exaurida pela visão idêntica; o olfato esgarçado pelo esgoto a céu aberto. Mas eles podem se locomover, eles podem vir até o centro. A introjeção da clivagem social já lhes é própria. São eles que já não se misturam - além de não poderem. O que é que vão dizer? Quem é que vai consentir em que estejam próximos? Continuem a recolher os dejetos que não queremos mais mastigar. O Bolsa-Família se encarregará de trazer mais justiça e manter o lastimável índice de justiça social. Vocês têm o seu quinhão cuspido, fiquem onde estão. Basta. Ninguém precisa dizer nada, o maior contingente entre vocês vai pra postos de gasolina, lojas de shoppings de quinta, açougues, mercadinhos, lava-rápidos, estacionamentos, puteiros. Alguns vão se rebelar - a moralidade vigente não pode dar conta daqueles que não quiserem fazer à ode ao Deus que os abandonou. Se a mãe era uma doméstica ou uma puta, o pai mais um bêbado desertor, alguém vai ter que pagar. O ressentimento é o fermento da mediocridade criminal, dá náusea ver mais do mesmo. Minha mãe morreu na fila do SUS; lá tem outro com um pai que se suicidou. Se suicidou, Capitão? Foi suicidado.
    Os rostos impassíveis nas câmaras de gás trazem a tranqüilidade dos corpos calcinados. Aquele sono tem muito mais paz. Por que tanto sofrimento? Por que tamanha aceitação? O pior é ver o dorso dobrado pelo discurso da servidão voluntária. Sou honesta, graças a Deus. Imbecil! O ressentimento não vai cessar. Capitães Nascimento sempre trarão o aborto. O nazismo é mais vistoso, o grito vem da gútura. O fascismo brasileiro traz o riso junto à merda, a cor do escárnio marrom.
    Minha revolta poderia continuar. Mas agora eu volto pra minha cama quentinha. Amanhã a faxineira vem limpar por aqui. Tenho certeza de que se eu abrir a braguilha ela topa. Como é fácil resolver a vida assim, não é? E vai contar pras amigas que um varão educado mandou ver pra cima da calcinha remendada cheirando colorama. Chega! Nós preferimos a cinematografia do fascismo, as hordas perfiladas. Como é possível aceitar o metrô da Sé? Não dá. Não dá. Daniel

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  5. Daniel,

    Se você abrir a braguilha e der a história que você tá cantando, escreva pra mim que eu coloco por aqui: within_emdevir@yahoo.com.br

    Tua agressividade deveria ser o ethos do grupo social em que o Capitão Nascimento pisa. Mas os corpos que andam talvez nunca entendam que não há nada a perder além do enésimo dente.

    Agora, cara, é mais fácil falar podendo se cobrir devidamente depois, não? É isso não é uma crítica direta, não. É cinismo próprio da gente mesmo. Acho que a culpa social um dia vira e a gente meio que começa a escarnecer aquilo que não se levanta.

    E ai daqueles que nasceram bem e se sabem tão despidos de qualquer potência quanto os miseráveis o são de moedas. Schopenhauer já sentenciara: há dois deuses para a nossa existência, a Necessidade e o Tédio. Sair de uma implica rumar incontinenti para os aguilhões do outro. Aquele bando de infelizes conjuntos. O cartão de crédito repleto, os gastos reproduzem a subjetividade esvaída, a busca por mais dígitos, uma vontade difusa que jamais consegue se exprimir, cálculos comezinhos, a consciência da mediocridade mais tacanha. Ser pobre é muito pior. O corpo perece muito antes do tempo. Mas a idiotia não é nada fácil. O corpo demora a perecer, Daniel, e o grande problema é a companhia estúpida de si mesmo.

    Tua agressividade se me transmitiu. Que nossos textos dêem as mãos até o dedo-gatilho do Capitão Nascimento - ou seria de Sandro?

    Grande abraço, continue pelo Subsolo das Memórias,

    Bazárov

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  6. De fato, muitos disseram que o Tropa de Elite era um filme fascista. O que me deixa impressionada é que tal crítica leviana não leva em consideração a clivagem que pode existir entre o plano de visão do narrador-personagem - o Capitão Nascimento - e o âmbito de montagem próprio ao diretor. As instâncias são confundidas sem o menor pudor - como se a ignorância não precisasse se esconder. Quer dizer então que Stanley Kubrick é um niilista por conta de Alex, o protagonista de Laranja Mecânica? Façam-me o favor...
    Agora, Bazárov, eu fiquei aqui pensando com os meus botões: tua análise do André Matias traz um peixe muito próximo do olho do gato. Será que, por um mero acaso - desses encontros fortuitos que acontecem na vida da gente -, será que você já não conheceu algum duplo do André Matias? Daí o NASCIMENTO da reflexão? Fiquei curiosa.
    Se você já conheceu ou conhece algum André Matias, bom, isso fica em suspensão. Agora, é certo que você me conhece, homem! Quando é que a gente vai tomar aquele chopps com pastel no São Bento? (rs...)
    Beijos que PEDEM PRA SAIR, PEDEM PRA SAIR, rararara,
    Camila

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  7. Uma pergunta:

    O dedo em riste do Clint Eastwood mais acima de alguma maneira reproduz a calibre 12 que o André Matias cospe sobre o traficante Baiano no fim do filme?

    Monique Intrigada

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  8. Monique,

    Você me intriga, moça: por que não poderia ser? Se a leitura utilizar o solo do texto para germinar, as possibilidades são infindas. Visão aguda, Monique.

    Um beijo,

    Bazárov

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  9. Que outro caminho poderia seguir um rapaz como André? Para onde ele poderia guiar o próprio talento? Você sugere que ele poderia se tornar um mártir da resistência? Este é o único mundo que conhecemos. Com quem André poderia se unir? O que ele poderia pregar? Não há mais nenhum ideal de mudança além de reformas risivelmente paliativas. Ele pôde, sim, superar as próprias cicatrizes com a ascensão que galgou. Ele ainda acredita em algo. E você, em que você acredita?

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  10. O crime não altera a dinâmica da sociedade - isso é provocativo. Se bem que uma série desconexa de crimes poderia levar a uma completa imprevisibilidade para as ações sociais. Como podemos trocar alguma coisa se já não posso prever a reação contraposta à minha ação? O crime já não seria um desvio padrão, mas o padrão como desvio.
    Um trombadinha

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  11. Grande Flávio! Lembro-me muito bem de quando este texto foi postado no Memórias do Bunker. Não me lembro se eu te comentei, mas me identifiquei com o Sandro, quando você diz que ele procura aquele que lhe ponha um freio. Eu também procurei alguém que me pusesse freios, uma vez que, psicologicamente, havia assassinado a figura que deveria exercer autoridade em mim.
    By the way, queria te dizer que tua intervenção em meu blog foi providencial (disse isso abaixo do teu comentário lá também). Não iria fazer do meu protagonista um goleiro. Mas desisti, ele será goleiro! A medida que o romance for surgindo, você o conhecerá de antemão! Um forte abraço! E muito obrigado!
    Ivo

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  12. Ivão,
    Felizmente, meu irmão, você é um cara que soube converter qualquer tipo de ressentimento em uma bondade genuína e em um ímpeto de seguir adiante. Se você também precisou ser o pai de si mesmo, meu irmão, feliz dos teus filhos que agora virão. Eles terão uma dupla felicidade: um pai e um avô ao mesmo tempo, amor e há more!
    Grande abraço, irmão, e quero ver esse goleiro pegar todas as bolas pelos dribles da tua pena!
    Flavião
    P.S.: Sexta-feira, se você tiver de boa, tô esperando você aqui em casa, meu irmão!

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  13. Quero responder aos dois comentários que antecedem o post do Ivão.

    É curioso e trágico como o impasse histórico faz com que as pessoas corroborem o existente como se ele fosse uma relíquia estática. A imaginação é assassinada em prol da sobrevivência. Se André Matias não pode fazer qualquer outra atividade além de encontrar alvos humanos - e se isso ainda precisa ser legitimado em função da manutenção do status quo -, espero que você continue a continuar, Sr. Anônimo: no matter what you do, get the money.

    Quanto ao comentário imediamente posterior: Hobbes já dissera - não há vácuo no poder. A cegueira para uma possibilidade de superação não significa que devamos empenhar a esperança alquebrada para retrocessos bárbaros.

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  14. Militarismo russo, então, é um pleonasmo não apenas vicioso, mas autoritário...
    Diego

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  15. Já conhecia o texto e adorei encontrá-lo novamente por aqui, em sua ferocidade contumaz que adoro. O que me intriga é a adição da foto de Clint Eastwood e a semelhança inequívoca com o I want you for U. S. Army. A figura do cowboy Eastwood nessa posição carrega simbologia pesadíssima, história e Hollywood em cor sépia, num lance de câmera extremamente propagandista - como é de praxe na cultura aculturada norte-americana. Se fosse uma propaganda de cigarros Marlboro ou whisky Johnnie Walker, também funcionaria perfeitamente. Só que junto a este texto, assume caracteres quase chocantes. Apesar de seus filmes atuais pretensamente humanistas (como A Troca, Gran Torino, Cartas a Iwo Jima), Eastwood ainda levanta a bandeira do free country perfeitamente afeito ao sempiterno american way of justice, na esteira de seus faroestes pop. Escolha interessante, Bazárov. Bem afinada e afiada - dedo em riste cortante, direto na jugular...nós, esvaídos (perfeita adição de Nietzsche, sim, "quem vive para derrotar o inimigo, precisa do oponente sempre vivo"). Sendo assim, ainda que esvaídos, estamos vivos e prontos para sugarmos e sermos sugados mais ainda pela indústria que se transformou a nossa trajetória. E eu não sei escapar disso. Sangue. Beijos, Polyana de Almeida.

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  16. Gente,
    Tô vendo a galera se esfalfando atrás de uma saída, a galera tentando pegar o rabo da história por uma nostalgia que não volta mais. Pô, na boa, muda o disco! E olha só: esse politicamente correto me enerva! A censura objetiva é severa, mas nego pode chegar e tacar fogo no índio. E mais: pede desculpa, "achei que fosse um mendigo". Esse é o ethos da elite brasileira, gente, e essa pasteurização do politicamente correto dilui completamente o confronto. Aliás, faz com que a contradição social seja palatável. Pelamor!
    Agora, tem o seguinte: o pessoal tá aqui lendo, tá aqui escrevendo. Eu só queria ver a atitude de cada um lá embaixo do Minhocão, queria ver se nego não vai pra Augusta, coisa e tal. Eu vou, mesmo, e não vou deixar que nego tome o que é meu. Isso é tacanho? Isso é mesquinho? Pois eu vou dizer o seguinte: aqueles que apontarem o dedo pra minha cara, bem, esses vão ter que engolir o fato de que, na SITUAÇÃO, agiriam precisamente da mesma forma. Nossa individualidade é muito mais um conjunto de variáveis que cada um de nós abraça em função da potência com que pode agregá-las. Se eu tenho grana, sou bonito, forte e o escambal, bom, a gama de possibilidades já tão prontas, com muita dificuldade eu deixarei de expressar o que os outros esperam de mim. Nós somos cínicos portadores de relações sociais, é isso o que somos. Um otimista poderia dizer: mude o contexto e as respostas serão diferentes. Em tese - em tese muito ABSTRATA -, eu até concordaria. O problema para o estabelecimento da Utopia é a merda da MEMÓRIA, galera. A memória ressentida. Os judeus precisaram do êxodo pelo deserto pra poderem se soerguer da dominação egípcia. Até o barbudinho paranóico foi submetido à tentação de 40 dias. Que dirá o populacho! Mas nós temos uma bela saída - ela entra na gente, mas a gente pode se precaver com KY. A gente ainda pode gozar. Parece pouco? Nada como um dia após o gozo.
    E o que seria melhor? Viver o (auto)engano das gerações passadas? Bom, o que é de gosto é regalo da vida...
    Já tô prevendo que nego vai me detonar por aqui, então eu só digo o seguinte: se for mulher a me bater, só EXIJO que não corte as unhas!
    E comigo não tem anônimo, não: meu nome é Murilo, tenho 25 anos e 24 cm.
    Aquele cheiro, meus reis!
    Fui!

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  17. Murilo, meu velho, só te digo o seguinte: nitroglicerina pura!

    Agora, você vacilou, bicho: cadê que você deixou o teu email pras fãs te bombardearem com mensagens e que tais?

    Esteja sempre por aqui, velho!

    Abraço,

    Bazárov

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  18. Queria na verdade dar um depoimento por aqui. Eu fumo maconha já faz tempo. Não prejudico ninguém, só queimo o meu. Tem esse discurso hipócrita de que pessoas como eu fomentam o tráfico de drogas. É sempre aquela história de que o produto gera a própria demanda. Eu não conheço nenhuma sociedade que não tenha lançado mão de alucinógenos ou mecanismos alucinógenos de algum tipo. E eu tenho uma certa racionalização para o meu uso de droga. Gosto, claro. Mas não só gosto da sensação, como eu preciso sair um pouco disso aqui. Me sinto machucado por ver que é tão difícil querer algo diferente. O Baudelaire falava dos Paraísos Artificiais. Eu não tô fazendo mera apologia. Não tô querendo simplesmente dizer que, se a forma de organização social fosse outra, bom, que eu não usaria droga ou que não haveria drogados. E daí que haja? O vício é lamentável, de fato, nenhuma forma de servidão pode trazer prazer - se bem que o Marquês de Sade não concordaria comigo, não. O fato é que eu já apanhei da Rota. Eu sou um cara de classe média, branco, e essa seria a única circunstância que me faria ficar sob um coturno. Eu fui pegar maconha na boca. Todo mundo rodou. Tomei tapa na cara, coturnada na costela, cuspe na cara. Pros caras é isso. Os caras ganham menos do que os traficantes, mas a obsessão pela autoridade e a sede irracional de compensar a própria morte sob a farda num outro, bom, isso me fez pagar. Agora, o que eu faria se eu morasse no morro? Ganhar 300 reais por mês? Se policial também tem família, Capitão Nascimento, no morro a família é ainda maior. O que é que o pobre faz além de sexo? O tráfico é um plano de carreira. Usando a linguagem do Mercado, um plano de carreira envolvendo grandes riscos e, conseqüentemente, a possibilidade de alta rentabilidade. Alta, bem dito, para os padrões daqueles que fazem o comezinho do tráfico. Nós sabemos que não são os amotinados do morro que ganham dinheiro, claro. O tráfico se utiliza da mesma lógica de trocas que impera nos demais setores sociais - e daí a lógica do crime, Bazárov, poder ser estendida precisamente pro comércio em geral, pro tráfico de drogas. Agora, o maconheiro desvirtua seu ímpeto pelo trabalho - daí a ira. Pois tem gente que não quer ser convertido em óleo de mamona. Os tapas na cara que eu tomei marcaram mais pelo ódio no olhar do soldado. Os olhos pareciam rasgos, na verdade.
    Um cara pouco acima disse que com ele não tem ANONIMATO. Mas comigo tem, sim. Hoje, gente, NÃO DOU MAIS MINHA CARA PRA BATER. Tô plantando. Consegui umas sementes, e tal, e tenho o meu próprio suprimento. Algo que subverte a lógica de Mercado: ao invés de vender para comprar, eu compro para vender (pra mim mesmo). A mercadoria que eu consumo já não é mais mercadoria, eu não preciso abstrair o meu produto pra fazê-lo equivalente ao Deus-dinheiro. Pelo contrário, é a minha erva que me abstrai. Há quem creia em Deus, acho anacrônico e belo. Eu creio em Deus, gente, e O vejo sempre como a retomada de Moisés no Monte Sinai: um Deus esfumada e aromático. Meu holocausto é o incenso!
    Abraço alternativo a todos,
    Bob

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  19. Bob,

    Sabe qual é o perigo dos ótimos comentários que vêm percorrendo as galerias do Subsolo das Memórias?

    O perigo é que, por algum momento, eu acabe pensando que o nível de leitura social se equivale ao da galera seletíssima que vem postando por aqui. Bacana!

    Velho, que experiência foda, bicho. A dor do orgulho deve ser muito difícil. E, velho, um bagulho de boa, na verdade. Deixa eu te contar uma rápida: há alguns anos, velho, eu ficava com uma garota cujo cunhado era da Rota. Velho, o foda era o seguinte: a mãe da mina gostava de mim, cara, então eu e a Juli (chamemo-la assim) tínhamos alguns privilégios que o soldado e a irmã da Juli não tinham. Pois bem. Eu não sou bobo, bicho, e sempre tive a tendência de subler as coisas. Eu via no olho do cara a fúria, velho - os caras são MUITO melindrados e inseguros, bicho, e o medo de morrer por vingança só acaba potencializando isso nos caras. Mas então. Um dia, velho, a gente tava num churras lá na casa da minha então mina, velho, e vai breja pra lá, breja pra cá, e uma hora o cara me chama pra trocar um papo na boa. "É, alemão, tô vendo que você é um cara sério, e tal, estuda, coisa e tal. No começo não te curti, não, velho. Cabelo comprido, vai saber se puxa um". Você vai imaginando que eu ali só travando o esfincter, hehehehe. Daí o cara começou com uma conversa mole, e tal, chamou pra ver a moto dele, bicho, e de repente ele abre o banco da moto. Tinha uma GLOCK por ali, cara, acho que é assim que escreve. Malandro, o cano da menina faz nego nunca mais riscar a farinha no teste da sentada. E o cara já tava meio zarolho, "aí, alemão, pegaí procê sentir o drama". De repente o cara me manda que "17 já beijaram essa criança". 17, Bob. O cara riscava o cano da arma pra cada corpo rebocado. Arma ilegal, claro. Puta moto o cara tinha. Uma Kawazaki ninja. O louco aqui deu rolê com o cara. O figura colocou a GLOCK na cintura - "moto não dá pra dar vacilo". Fiz "amizade" com o cara, o cara foi me abrindo várias, Bob, várias. Isso vai dar samba aqui no Subsolo algum dia. Não posso dizer que sei o que você passou, bicho, mas, como escritor e como ouvinte, chego a dizer que imagino bem. Fascismo devidamente fardado e legal.
    Força por aí, Bob, fica ligeiro com a fumaça se morar em prédio, irmão!
    Aquele abraço, teu depoimento foi o comentário que mais me pilhou, velho!
    Bazárov

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  20. Bazárov, deixa eu te dizer uma coisa. Pode ser que eu esteja enganada. Aliás, nem pretendo estar certa, é só uma impressão que essa leitora sempre teve. Mas, olha só. Sempre achei que um escritor deve viver muito. Em muitos escritores eu sentia falta desse conteúdo da vivência. Já li livros maravilhosos, mas não via carne neles. Não via carne, não via malícia, não via e ouvia vozes. Via fantoches ou marionetes com uma técnica apurada, e só. Pois, Bazárov, não sinto nada disso em você, cara. Teus escritos têm o cheiro da rua, o dobrar da esquina, eles me trazem a memória que você toca pela tua escrita. Olha só. Não lembro quem foi que disse que o escritor empresta-nos seus olhos para que possamos auscultar a vida pelo crivo de sua seleção ocular. Pois é assim que eu te leio, Bazárov. Tem gente que fica se perdendo em tentar achar uma posição fixa. Concordo que a volubilidade dê angústia, concordo, sim. Mas posição fixa já basta o eterno sono horizontal que nos espera. A tua dinâmica é a vida, a tua vida é a dinâmica do texto. Posso estar te unilateralizando, mas acho que não. Você é corrupto, é erudito, é malandro, é cafetino, é puto, é isso que você me passa. Quantas faces você tem? Na verdade, hombre, tenha todas: seus tiros a esmo sempre vão acertar.
    Da Natália

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  21. Natália,

    Muito obrigado pelas palavras.

    A literatura caminha pelas calçadas da minha alma. Eu vivo pelas palavras que me sulcam.

    Quantas faces tenho? Melhor: quais?

    Qual você quer conhecer?

    Te mando um beijo de cada face minha,

    Bazárov

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